16 de abril de 2014

Adaptações, reimaginações e remakes: o eterno retorno da ficção científica audiovisal

As últimas semanas têm sido invulgarmente ricas no que diz respeito a novidades na ficção científica audiovisual - leia-se televisão e cinema no contexto deste artigo. A mais interessante será talvez a adaptação da space opera literária Expanse, de James S. A. Corey (pseudónimo dos autores Daniel Abraham e Ty Franck), para televisão, pela mão do SyFy Channel - com o projecto a ser descrito como Game of Thrones in space. Uma adaptação promissora, sem dúvida - diz quem já leu que Leviathan Wakes, Caliban's War e Abbadon's Gate compõem uma excelente space opera moderna, e há uma falta crónica de naves espaciais na ficção científica televisiva contemporânea. É certo que o entusiasmo arrefece um pouco quando o SyFy Channel entra na equação - longe vão os tempos, afinal, em que o canal se dedicava a ficção científica de qualidade, e se revelava capaz de comissionar uma space opera genuinamente boa (falo das duas primeiras temporadas de Battlestar Galactica, claro). Daí para cá, a fasquia qualitativa do canal tem sido, passe o eufemismo, errática - como a grande aposta do ano passado, Defiance, pode atestar (um projecto com enorme potencial desperdiçado numa série que, não sendo má, raras vezes conseguiu elevar-se acima do razoável na primeira temporada).

Mas se a adaptação de Expanse se revela promissora, já os restantes projectos na calha parecem demasiado derivativos - e, diria mesmo, desnecessários. Também pela mão do SyFy Channel, o filme 12 Monkeys de Terry Gilliam será adaptado para uma série televisiva de doze episódios - ainda que na terminologia oficial, a adaptação seja a La Jetée, de Chris Marker. É difícil imaginar o que poderá uma série televisiva acrescentar à premissa que Marker trabalhou de forma tão invulgar como extraordinária, e que Gilliam reinventou no seu estilo inconfundível, naquele que foi um dos melhores filmes de ficção científica dos anos 90 - e para contar de novo a história do homem do futuro pós-apocalíptico enviado para o passado para descobrir o que aconteceu e morrer diante os seus olhos em criança, as duas versões que já existem são mais do que suficientes. 

O mesmo se poderá dizer da adaptação para série de The Truman Show, desta vez pela Paramount. O filme escrito por Andrew Niccol e realizado por Peter Weir em 1998 tornou-se um clássico do género pela antecipação satírica que fez à evolução da indústria do entretenimento televisivo no novo milénio - e os desempenhos de Jim Carrey e Ed Harris elevaram de forma assinalável uma premissa extraordinária e muito bem construída. Numa época em que a televisão já se encontra rendida ao conceito de reality TV, recuperar a ideia metaficcional que animou The Truman Show será similar a chover no molhado - a menos que se encontre uma forma original e, acima de tudo, pertinente de o fazer. 

Aqui chegados, o que dizer do projecto da Universal de fazer um remake em filme a Battlestar Galactica? A série original de Glen A. Larson, de 1978, já foi reinventada por Ronald D. Moore em 2004 - e actualizada para o seu tempo, reflectindo o clima da war on terror de do antagonismo cultural que emergiu do 11 de Setembro. Mas todo esse contexto, ainda que recente e não completamente desactualizado, já foi explorado - tal como o tema da oposição entre Humanidade e Inteligência Artificial, mesmo num contexto de space opera. No vasto legado da ficção científica literária - em romance ou nas várias formas de ficção curta - decerto se poderiam encontrar histórias de viagens no tempo, distopias mediáticas e space operas passíveis de serem adaptadas para televisão (ou mesmo para o cinema, ainda que aqui o panorama não seja tão desolador - como se pode ver pelas estreias previstas para os próximos meses), sem ser necessário recorrer a premissas e narrativas que todos já vimos várias vezes. Enfim, poderia ser pior - considerando o que se passa (ou o que não passa) na televisão dos dias que correm, ficção científica derivativa acaba por ser melhor do que nenhuma ficção científica. Mas não deixa de ser de lamentar que, destes quatro projectos, apenas um se proponha a fazer uma adaptação nova e com um módico de originalidade, com potencial para trazer algo de novo à ficção científica audiovisual (se o fará ou não é outra conversa). 

Fontes: io9 / The Verge

15 de abril de 2014

They Live: Capitalismo alienígena

Não há dúvidas de que os anos 80 foi a época dourada de John Carpenter, durante a qual realizou e fez estrear filmes como The Fog, Escape From New York, The Thing e Big Trouble in Little China - que acabaram por se tornar clássicos de culto, ainda que nem todos tenham sido sucessos comerciais no seu tempo. Este período terá acabado em 1988 com They Live, um clássico de série-B que é também um dos filmes mais politizados da filmografia de Carpenter - uma crítica mordaz e muito pouco subtil ao consumismo, à ganância e ao espírito de every man for himself das sociedades capitalistas ocidentais. Muito ao espírito do seu tempo, aliás - nos últimos anos do mandato de Reagan como Presidente dos Estados Unidos.

A mensagem de Carpenter torna-se evidente logo nos primeiros minutos: ao som de uma batida hipnotizante, bem ao seu estilo (ainda que aqui acabe por se tornar um pouco cansativa por repetição), por entre caminhos-de-ferro e comboios em movimento lento na periferia arruinada de uma cidade, surge o protagonista: John Nada (Roddy Piper), um desempregado que, apesar da crise e das dificuldades que toda a gente parece enfrentar, ainda não parece estar pronto para desistir do sonho americano. Nada aqui é deixado ao acaso: as cenas iniciais indicam "crise" em letras garrafais. Mais actual será difícil. 


Um centro de emprego local diz-lhe não ter nenhuma vaga disponível; e, sem outra alternativa, acaba por ir trabalhar para a construção civil, onde conhece Frank (Keith David). Frank convida-o a encontrar um local onde pernoitar num acampamento improvisado, onde vive muita gente nas mesmas condições. E, aos poucos, Nada começa a reparar em vários pormenores estranhos. Um padre cego a pregar o fim dos tempos. Uma igreja com um coro em ensaios fora de horas, e com gente estranha a deslocar-se nas suas imediações. Um laboratório secreto. Uma misteriosa transmissão televisiva que interrompe a programação normal com uma mensagem conspiratória. Uma carga policial violentíssima. E um par de óculos de sol perfeitamente normal.


Ou, pelo menos, assim parece. Quando Nada coloca os óculos, todo o mundo se transfigura em seu redor. Cartazes publicitários revelam mensagens subliminares escondidas. Revistas apelam à conformidade, à obediência e ao consumismo por detrás dos seus artigos inócuos na aparência. E, para seu horror, algumas pessoas não são quem aparentam - a normalidade dos seus rostos esconde figuras grotescas, esqueléticas e impossíveis. A passagem da imagem colorida para o preto e branco quando Nada coloca os óculos é um toque magnífico de Carpenter - como se todas as cores que vemos fossem uma ilusão, e o mundo real, oculto, fosse bastante mais tenebroso do que se poderia imaginar.


É a partir da descoberta de Nada que They Live assume alguns momentos de acção, ainda que o faça de forma algo errática. Há tiroteio no banco (aberto com uma one-liner digna da melhor tradição de série-B), o rapto de Holly (e a fuga subsequente), e o infame momento de wrestling entre Nada e Frank - uma luta violenta e bem coreografada, mas demasiado longa, ao ponto da irrelevância. Há ali talvez uma mensagem - será necessário uma luta violenta para fazer as pessoas verem aquilo que de facto as rodeia -, mas, como muitos outros elementos simbólicos do filme, é ao mesmo tempo excessivamente ligeira e óbvia, de tão martelada que está.


E, no fundo, é esse o grande problema de They Live: a sua premissa é interessantíssima, e alguns truques utilizados são excepcionais, mas toda a mensagem poderia beneficiar imenso de alguma subtileza e de alguma ambiguidade. Para não referir sequer as muitas incongruências da trama, com momentos demasiado inverosímeis para que a suspensão da descrença se mantenha, e os muitos erros de continuidade que Carpenter, sempre tão atento ao detalhe, deixou passar. Não há no filme a construção de tensão que marcou The Thing ou mesmo a auto-consciência que faz de Big Trouble in Little China um filme tão divertido; há, sim, uma tentativa gorada de combinar os dois elementos num thriller que acaba por se revelar pouco eficaz (pese embora o seu notável momento final, em jeito humorístico).


A esses problemas juntamos o seu casting - ou melhor, os seus erros de casting. Keith David, sem surpresa, está óptimo no papel de Frank, o sidekick involuntário do protagonista; mas a escolha de Roddy Piper para o papel principal dificilmente poderia ter sido pior. Desinteressante, desinspirado e cheesy da forma mais aborrecida possível, Piper não consegue tornar credível a sua surpresa perante a conspiração na qual tropeça por acaso, e a sua determinação em combater os overlords na segunda metade do filme. Pior só Meg Foster, num desempenho terrível que não consegue ser salvo nem pelo twist final. 


Ainda que tematicamente interessante e com alguns elementos bem conseguidos, They Live não consegue elevar-se acima das suas várias debilidades, nem mesmo quando enquadrado apenas na série-B à qual pertence. O comentário que tenta fazer a partir da premissa clássica dos alienígenas camuflados nas estruturas de poder político e económico não será decerto menos relevante hoje do que era nos anos 80, e algumas das formas que Carpenter encontrou para o passar foram engenhosas e criativas, quando não icónicas. No entanto, dois protagonistas sem capacidades de representação que se vejam, uma argumento demasiado errático e óbvio e uma boa dose de erros de continuidade arruínam quase todas as tentativas de pertinência do filme. O que não deixa de ser uma pena: They Live tem aquele charme muito próprio dos anos 80, várias ideias inteligentes na sua premissa e alguns detalhes espantosos. Mas acaba por se perder pelo caminho, e nunca consegue ascender ao patamar de outras obras na filmografia de Carpenter. 5.8/10

They Live (1988)
Realização de John Carpenter
Argumento de John Carpenter (como Frank Armitage) a partir do conto Eight O'Clock in the Morning de Ray Nelson
Com Roddy Piper, Keith David, Meg Flower, George "Buck" Flower, Peter Jason e Raymond St. Jacques
93 minutos

14 de abril de 2014

This happening world (9)

No sempre excelente Intergalactic Robot, o Artur Coelho resume o que foi o "Ateliê Utópico" por si preparado para o Utopias 2014, um encontro educativo destinado a professores. O resumo, enfim, é pouco resumido e ainda bem: o seu workshop dedicado à ficção científica devia ser regular e aberto a todos, pela lição que é sobre as origens e os objectivos da ficção científica literária - e por que motivo é tão divertido lê-la. Com bibliografia incluída, para os mais interessados. A ler no Intergalactic Robot.

No seu blogue pessoal, George R. R. Martin faz um ponto de situação das histórias de Dunk & Egg, que acompanham Ser Duncan the Tall e Aegon "Egg" Targaryen nas suas deambulações por Westeros nove décadas antes dos acontecimentos de A Game of Thrones. Os três primeiros contos serão compilados numa antologia (já se sabia) com ilustrações de Gary Gianni; e a escrita de outros contos, como The She-Wolves of Winterfell (título provisório), está adiada para depois do lançamento de The Winds of Winter (via Not a Blog).

Em Boston, Chris Roberts revelou finalmente o dogfighting module de Star Citizen, o muito aguardado space simulator que recupera o legado de videojogos clássicos como Wing Commander e Freelancer e que, até ao momento, arrecadou a módica quantia de 42 milhões de dólares em várias campanhas de crowdfunding. E é possível ver quão realista parece todo o sistema de jogo - até é possível o piloto da nave desmaiar por aceleração excessiva. E, claro, a componente visual e gráfica, que é absolutamente espantosa. A ver no Polygon e no GameFront.

Já foi revelado um trailer para a segunda temporada de Defiance, a série western-science fiction que o SyFy Channel estreou no ano passado. Pode ser que nesta segunda temporada venha a explorar um pouco melhor o enorme potencial da sua premissa (via io9).

Começaram na semana passada os previews a Journey Into Nyx, a próxima expansão de Magic: the Gathering e o terceiro capítulo do bloco de Theros - com novos deuses, uma nova versão de um dos planeswalkers clássicos (Ajani Goldmane) e mais algumas novidades muito interessantes. Em termos narrativos, Ajani chega a Theros para ajudar Elspeth Tirel, caída em desgraça após a ascensão de Xenagos, a enfrentar o planeswalker tornado deus e a repor alguma justiça entre os céus e a terra daquele mundo. Esta semana dedicarei algum tempo ao tema; para já, aqui fica o trailer da nova expansão (via Daily MTG).

13 de abril de 2014

Citação fantástica (121)

I will accept any rules that you feel necessary to your freedom. I am free, no matter what rules surround me. If I find them tolerable, I tolerate them; if I find them too obnoxious, I break them. I am free because I know that I alone am morally responsible for everything I do.

Robert A. Heinlein, The Moon Is a Harsh Mistress (1966)

12 de abril de 2014

O som e a fúria (20)

O tema de hoje já por aqui passou há algum tempo - mas numa semana que, no que ao fantástico diz respeito, ficou marcada pelo regresso de Game of Thrones, a adaptação televisiva da HBO à saga de fantasia A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin, torna-se inevitável recuperar uma das suas músicas mais célebres. No caso, a extraordinária interpretação que os The National fizeram há dois anos, para o nono episódio da segunda temporada, da mais famosa canção associada ao clã Lannister: The Rains of Castamere. A letra conta como Tywin Lannister enfrentou uma rebelião entre os seus vassalos, erradicando por completo o Clã Reyne e destruindo por completo o seu castelo. Aqui fica. 

11 de abril de 2014

A ficção curta de Philip K. Dick (3): Beyond Lies the Wub, Null-O e The Father-Thing

Beyond Lies the Wub é o título do primeiro conto que Philip K. Dick viu publicado - corria o ano de 1952, e a publicação foi a revista Planet Stories. É um texto curto e imaginativo, que envolve uma tripulação humana em Marte, num último contacto com a civilização local antes de regressar à Terra (Philip K. Dick não dá detalhes acerca do Marte habitado deste conto - talvez não seja difícil ou despropositado, porém, imaginar um Marte ao estilo de Burroughs). Um dos elementos da tripulação, de nome Petterson, surge no último minuto com um wub: uma criatura peculiar, nativa do planeta vermelho, que o Comandante Franco rapidamente identifica como um porco, e que aceita transportar na perspectiva de um belo jantar. Algo que se revelará problemático quando, para espanto da tripulação, o wub revela ser inteligente, compreender o discurso humano, possuir actividade psíquica e perseguir interesses filosóficos. Beyond Lies the Wub ainda está longe da complexidade que a ficção curta de Philip K. Dick viria a alcançar - a reviravolta final, porém, já se revela algo surpreendente, e o registo a oscilar entre a comédia e uma paranóia ligeira denota já alguns elementos que se viriam a tornar prevalecentes na sua escrita. 

Quando Philip K. Dick publicou The Father-Thing nas páginas da revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction em 1954, o tema das réplicas humanas feitas por entidades ocultas e/ou alienígenas estava na moda na ficção científica - três anos antes, estreara The Thing From Another World, adaptando um conto clássico de John W. Campbell (Who Goes There?), e dois anos mais tarde estrearia Invasion of the Body Snatchers, clássico maior da produção do género nos anos 50 (e não só). O que torna este conto notável e distinto neste tema é o ponto de vista que emprega - o de Charles Walton, uma criança de oito anos, que num momento descobre que o seu pai tem um duplo. Philip K. Dick explora na perfeição a sensação de paranóia de Charles quando descobre que o seu pai foi substituído por algo que não consegue identificar - as primeiras páginas do conto são uma maravilha, e o desenvolvimento não desilude, com Charles a procurar ajuda não entre adultos, incapazes de acreditar no que viu, mas entre outras crianças, mais abertas a aceitar impossibilidades aparentes. Leitores contemporâneos talvez estranhem alguns termos utilizados pelo autor, e que, sendo "normais" na época, fariam soar todos os alarmes do politicamente correcto moderno - isso, porém, pouco mais é do que um detalhe, e com pouca importância. 

De certa forma, Null-O, conto de Philip K. Dick publicado pela primeira vez nas páginas da revista If em 1958, acaba por ser em simultâneo uma curta paródia a The World of Null-A de A. E. van Vogt e um percursor espiritual de um dos temas fulcrais do romance que publicaria uma década mais tarde, Do Androids Dream of Electric Sheep? - a ausência de empatia, e as consequências dessa ausência. Pegando na ideia de van Vogt de uma raça de humanos superiores, governados por uma lógica absoluta e desprovidos de quaisquer emoção, Philip K. Dick explora a partir da personagem de Lemuel Jorgenson, um jovem sociopata e paranóico com algumas mutações, tendências violentas e incapacidade de se relacionar com quem lhe está próximo. Quando conhece o Dr. North num hospital psiquiátrico, porém, Lemuel descobre que não está sozinho - longe disso, aliás. Há muito mais gente como ele, sem emoções, movidos por uma lógica pura e abstracta - e possuem uma agenda própria e tenebrosa. Null-O teria decerto beneficiado de um pouco mais de desenvolvimento - a introdução de Lemuel é notável e algo creepy, mas a dada altura é difícil não sentir que, sendo o protagonista, pouco impacto acabou por ter na trama. Mas é no campo das ideias que o conto se eleva um pouco - a noção de que o conceito de "normal" é bastante relativo (para não dizer impreciso) e a exploração até às últimas consequências do que significa não sentir empatia tornam a leitura substancialmente mais estimulante. 

Beyond Lies the Wub pode hoje ser lido no primeiro dos cinco volumes de The Collected Short Stories of Philip K. Dick, editados pela Gollancz - que recebe justamente o título deste conto. The Father-Thing e Null-O estão compilados no terceiro volume da colecção, com o título The Father-Thing.

10 de abril de 2014

Tolkien: Construtor de Mundos: Notas da segunda edição

Por motivos diversos, entre os quais se incluem alguma falta de tempo, um pouco de preguiça e uma gripe inesperada, acabei por não escrever mais nada a propósito da segunda edição do seminário Tolkien: Construtor de Mundos, organizado pelo Centro de História da Faculdade de Letras e Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, que decorreu no passado dia 27 de Março no Anfiteatro III da FLUL, e ao qual tive a oportunidade de assistir na íntegra. Mas talvez ainda não seja tarde para fazer pelo menos um apanhado geral do que foi o seminário (nada de um resumo tão exaustivo como o do ano passado, em cinco partes - 1, 2, 3, 4, 5).

O primeiro aspecto que importa destacar nesta segunda edição do seminário é a afluência: desde a primeira sessão da manhã, às 10:00, até às últimas sessões ao final do dia, o Anfiteatro III da FLUL esteve sempre cheio, atestando o interesse dos estudantes da Faculdade de Letras por Tolkien e o sucesso desta iniciativa (a terceira edição foi praticamente confirmada para 2015). O segundo aspecto merecedor de destaque é a qualidade global das várias apresentações que compuseram o seminário - e que passaram por temas tão diversos como as influências clássicas do conto de Númenor às influências escandinavas do seu mythos, passando por personagens como Beorn e Sméagol/Golum e pelas batalhas, sem esquecer até as ilustrações do próprio Tolkien, e as adaptações cinematográficas que a sua obra conheceu neste novo milénio. 

A primeira sessão, intitulada "Aspectos do platonismo de Tolkien: O conto de Númenor", a cargo de Nuno Simões Rodrigues, incidiu justamente sobre as influências clássicas (helénicas) que estão na base de Akallabêth, ou a história da queda do reino de Númenor publicada em The Silmarillion - com o mito platónico da Atlântida a ser a influência mais evidente desta narrativa, que recupera os motivos do Ocidente como lugar da civilização primordial e local de desafio à morte, a ruína trazida pelo desejo de imortalidade, atributo divino por excelência, o paralelo da talassocracia numenoriana com a ateniense, e mesmo o conceito de "ilha maravilhosa", recuperado talvez de forma indirecta de Homero, Esíodo e Herédoto. Logo de seguida, Iolanda Zorro transportou a audiência não para a palavra escrita de Tolkien, mas sim para o fascinante mundo das suas ilustrações numa sessão intitulada "Tolkien: O ilustrador de Faërie. E a sua veia de ilustrador, porventura menos conhecida, nem por isso deixa de ser espantosa e imaginativa - os exemplos, esses, foram retirados tanto de The Hobbit como de obras mais afastadas do contexto da Terra Média, como Roverandum, Letters to Father Christmas e Mr. Bliss. Hélio Pires recuperou as influências escandinavas na obra de Tolkien numa sessão intitulada "Anões e Elfos: Entre pedras e deuses nórdicos" - destacando o carácter tardio de muitas fontes utilizadas por Tolkien, compiladas e traduzidas por autores cristãos, e enquadrando as origens dos Anões e dos Elfos (e o episódio dos Trolls) no mitos e nos textos escandinavos. A manhã foi encerrada por Adelaide Meira Serras, com "J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis: Boas fadas os fadaram", uma sessão animada com um forte cunho biográfico, dedicada às aproximações e às divergências entre Tolkien e Lewis. 

A tarde começou com Angélica Varandas e Luísa Azuaga numa sessão dedicada a uma das mais fascinantes personagens secundárias da obra de Tolkien: "Beorn". Como não podia deixar de ser (numa das várias piadas recorrentes do seminário, esta tendo mesmo transitado ainda do ano passado), Varandas e Azuaga estabeleceram o paralelismo entre Beorn e Beowulf, que Tolkien estudou exaustivamente, e cuja sua tradução será em breve publicada. "Sméagol, ou a doçura do azedo", de Miguel Ângelo Fernandes, incidiu sobre a dualidade de Sméagol e Gollum tal como foi retratada no filme The Two Towers - mas o orador optou por uma abordagem pouco convencional (e por isso muito mais interessante) que passou pela neurologia, pela anatomia e mesmo pelas drogas, às quais o Anel foi equiparado pela sua capacidade não de criar o que quer que seja, mas de exacerbar o que já existe pelo vício e pela corrupção. José Varandas dedicou-se, numa longa e fascinante deambulação que se aproximou mais de uma aula de História Militar Comparada do que a uma sessão de um colóquio, a temáticas militares em "Os Exércitos da Terra Média: A guerra em Tolkien" - analisando tanto nos livros como nos filmes as influências de modelos militares distintos, armas, armaduras e estratégias. Isto, note-se, foi apenas a primeira parte - a segunda ficou prometida para o próximo ano. Ana Daniela Coelho destacou o tema da música na obra tolkieniana na sessão "Adaptações para além da imagem: Canções na página e no ecrã", referindo as adaptações radiofónicas de Tolkien e as bandas sonoras de Howard Shore para os filmes de Peter Jackson (que incorporou a tradição europeia com elementos folk para identificar a diversidade da Terra Média), e explorando com algum detalhe, a partir do single "I See Fire", de Ed Sheeran, a passagem do folk para o pop na adaptação tripartida de The Hobbit. Por fim, Miguel Monteiro Marques, em "Não li os livros, mas vi os cartazes dos filmes", propôs uma interessante leitura linguística dos vários cartazes promocionais da trilogia de filmes de Jackson (e, de passagem, referiu o absurdo da comparação frequente entre filmes e livros). 

O dia seria encerrado com uma mesa-redonda dedicada ao tema "Tolkien depois de Peter Jackson", com Francisco Lyon de Castro, Rita Guerra e João Freire de Andrade, e com um debate (integrado na mesa-redonda) devido ao já clássico atraso na programação. E isto, repare-se, não é exactamente uma queixa: em termos qualitativos, esta segunda edição do seminário Tolkien: Construtor de Mundos foi notável, e a afluência não deixa dúvidas: Tolkien está longe de estar fora de moda.

Que venha a terceira edição em 2015.

Colóquio "Mensageiros das Estrelas" regressa em 2014

Está confirmada a terceira edição - ou o episódio III, numa alusão mais ou menos evidente a Star Wars - do colóquio internacional Mensageiros das Estrelas, com organização do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa. O colóquio terá lugar nos dias 19, 20 e 21 de Novembro de 2014 (de Quarta a Sexta-feira), na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. De acordo com o anúncio publicado do site oficial do colóquio, o "sucesso significativo" das edições de 2010 e de 2012 justificam a realização desta terceira - e os interessados em propor temas e participar nas sessões na qualidade de oradores deverão fazê-lo até ao dia 27 de Junho. 

Para os interessados em assistir (será o meu caso), é esperar por Novembro. Um apanhado global do que foi, para mim, o episódio II do Mensageiros das Estrelas pode ser lido aqui; para esta terceira edição, espero encontrar temas mais interessantes, oradores nacionais mais estimulantes e, se possível, pelo menos um convidado internacional do gabarito de Adam Roberts. Mais informações no site oficial. 


(o cartaz que ilustra este artigo é o da primeira edição, de Novembro de 2010)

9 de abril de 2014

Godzilla: Novo trailer

Godzilla continua, passo a passo, a construir a hype machine até à estreia de Maio - e continua a fazê-lo de forma absolutamente exemplar. Há dias, foi revelado um novo trailer - que explora um pouco mais o drama pessoal da personagem de Bryan Cranston sem no entanto revelar cada batida da trama, como tem sido habitual nos trailers de blockbusters de memória recente. E a isto junta mais algumas imagens sem dúvida impressionantes, a dar conta da escala impressionante desta nova encarnação do kaiju clássico - enquanto deixa pistas que indicam que Godzilla não estará sozinho.

Godzilla tem estreia prevista para 15 de Maio de 2014. Abaixo, o novo trailer.

8 de abril de 2014

The Congress: Escapismo digital

Poucos são os filmes que conseguiram combinar num todo coerente acção real e animação - e por animação refiro-me em concreto a animação convencional, irreal nas suas cores e formas impossíveis, e não à animação hiper-realista que hoje em dia atravessa alegremente todas as fronteiras do uncanny valley para dar forma aos mais variados, e tantas vezes desnecessários, efeitos especiais dos blockbusters contemporâneos. Who Framed Roger Rabbit?, de 1988, será talvez o clássico maior do género (e merecerá um artigo um dia destes); na memória mais recente, Richard Linklater mascarou em A Scanner Darkly a live action com rotoscopia para recriar a paranóia do romance de Philip K. Dick. E no ano passado, Ari Folman, o realizador israelita que em 2008 se viu sob as luzes da ribalta devido ao extraordinário Waltz With Bashir, levou o conceito ainda mais longe em The Congress, numa adaptação muito livre do romance The Futurological Congress do polaco Stanislaw Lem.

O que se revela mais fascinante em The Congress - mais ainda do que a espantosa e alucinada trip que o filme induz durante o segundo acto, é a forma como coloca questões que fazem hoje mais sentido do que nunca - numa época em que o digital parece tomar conta de tudo e em que o cinema surge vergado à artificialidade da imagem, a possibilidade que Folman aponta parece plausível. Quando os cenários são artificiais, criados a posteriori em computador para actores que representam sozinhos para o vazio das telas verdes, cada vez mais ligados às máquinas da motion capture, e quando ao lado os videojogos (uma indústria que, recorde-se, já ultrapassou a cinematográfica em termos de receitas) criam e recriam as suas personagens interactivas a cada instante, será assim tão irreal imaginarmos a digitalização dos actores que tão bem conhecemos, livres na rede para interpretarem todos os papéis e para servirem de avatares a todas as fantasias?


É esse pacto diabólico que serve de ponto de partida a The Congress, ao abrir com Robin Wright numa espantosa interpretação de si mesma - uma actriz popular na juventude, cujas escolhas erradas e as decisões desaconselhadas votaram a um lento esquecimento público na meia-idade, a quem os estúdios cinematográficos da Miramount (pun intended?) oferecem uma última oportunidade: abdicar da sua carreira de actriz em prol de uma Robin Wright digitalizada ao mais ínfimo pormenor, uma cópia exacta de si pronta para desempenhar qualquer papel em qualquer filme.


A braços com a misteriosa doença do filho mais novo, Aaron (Kodi Smit-McPhee), Robin Wright é, para todos os efeitos, uma mulher destroçada, longe dos seus anos de glória (as referências ao clássico The Princess Bride estão lá todas, dando verosimilhança a esta sua versão fictícia), cujas perspectivas de carreira parecem cada vez mais sombrias a cada ano que passa. Quando os estúdios lhe fazem a proposta, a primeira reacção é a negação veemente da artificialidade galopante, da despersonalização da nobre arte de representar, entregue a avatares digitais e a linhas de código; a seu tempo, porém, acaba por ceder ao pacto com o Diabo.


Não o faz, note-se, sem condições - e é aqui que surge um dos momentos mais curiosos do filme, numa espantosa ironia meta-referencial, quando se discute o que é a ficção científica enquanto género cinematográfico. Para Wright e o seu agente, Al (Harvey Keitel), é um género superficial e infantil no qual não quer de todo participar; para o representante dos estúdios, Jeff (Danny Huston), é um género especialmente lucrativo, e por isso fundamental para os projectos futuros da Miramount. É uma discussão breve, que poderia talvez ter sido levada um pouco mais longe - mas que se revela fascinante pela ironia da reflexão num filme de ficção científica que se baseia num livro de ficção científica.


Entra uma elipse de duas décadas - e, cumprindo a profecia, tudo aquilo que representa o pináculo da inovação tecnológica que no momento em que a Robin Wright actriz deixa de pertencer à própria para se tornar propriedade digital (intelectual?) dos estúdios da Miramount (o seu anonimato real contrasta com agressividade com a popularidade da sua versão digital enquanto action hero cinematográfica, completa com a referência à cena clássica de Dr. Strangelove) está obsoleto e ultrapassado: naquele futuro, a química é a mãe de todas as possibilidades e oportunidades, e abre caminho para uma nova revolução. Robin Wright, mais velha, viaja até ao Congresso Futurológico onde lhe será apresentado um novo contrato, e onde ficará a conhecer a revolução da Miramount, o estúdio de cinema tornado laboratório: a transformação de cada indivíduo num avatar animado, livre de ser quem e o que quiser ser, numa realidade irreal e psicadélica.


Mas se toda a gente se entrega à concretização química e animada das suas aspirações, o que resta do mundo real, físico? E o que resta da identidade individual de cada um perante a alucinação colectiva da gratificação instantânea de todos os desejos (menos, talvez, daqueles que verdadeiramente importam)? E qual será a diferença prática entre a ilusão/alucinação e a realidade, quando A odisseia de Robin Wright para se encontrar revela-se fascinante nas questões que suscita, hoje mais pertinentes do que nunca, sem respostas óbvias - confrontada com as consequências das suas decisões a cada turno, Wright vê-se obrigada a alguns passos extremos e a vários tiros no escuro.


As cores garridas da animação de The Congress acabam por se revelar enganadoras - longe de ser uma odisseia alegre e algo psicadélica pelas avenidas da alucinação colectiva, o filme de Ari Folman é uma viagem dura pelos pesadelos da desumanização tecnológica contemporânea, pelas questões de identidade na era da primazia da imagem e de um hedonismo ilusório, e pelo escapismo virtual, ilimitado nas suas possibilidades e em contraste com a crueza da realidade (e é de génio o momento em que Folman traça de forma definitiva este contraste). Mas acaba por ser a interpretação magnífica e pungente de Robin Wright que eleva The Congress a mais do que um mero filme-análise ao zeitgeist deste novo milénio. 8.4/10

The Congress (2013)
Realização de Ari Folman
Argumento de Ari Folman a partir do romance The Futurological Congress de Stanislaw Lem
Com Robin Wright, Harvey Keitel, Paul Giamatti, Danny Huston, Jon Hamm, Kodi Smit-McPhee e Sami Gayle
122 minutos

7 de abril de 2014

Luc Besson regressa à ficção científica com Lucy (trailer)

O que, para todos os efeitos, é uma excelente notícia: Besson, afinal, escreveu e realizou The Fifth Element, que pode até não ter sido o melhor filme de ficção científica dos anos 90, mas que foi sem dúvida um dos mais divertidos daquela década. Com Lucy, o francês regressa ao género, desta vez com Scarlett Johansson no papel principal - uma mulher que transporta uma misteriosa droga no seu interior que, ao ser absorvida pelo seu corpo, lhe dá poderes sobre-humanos. É certo que a ideia central da premissa é no mínimo duvidosa: o mito de que os seres humanos apenas utilizam dez por cento do cérebro já está tremendamente gasto, e nem Morgan Freeman consegue dar-lhe credibilidade ao dizê-lo. Até ver, porém, isso pouco mais é do que um pretexto para colocar tudo em movimento; as primeiras imagens parecem indicar que Lucy será um filme de acção intenso, com o humor típico de Besson. 

Lucy tem estreia prevista para Agosto. Abaixo, o trailer. 



Fonte: io9

6 de abril de 2014

Citação fantástica (120)

What is honor compared to a woman's love? What is duty against the feel of a newborn son in your arms . . . or the memory of a brother's smile? Wind and words. Wind and words. We are only human, and the gods have fashioned us for love. That is our great glory, and our great tragedy.

George R. R. Martin, A Game of Thrones (1996)

3 de abril de 2014

Pausa

Há uma tira de Calvin & Hobbes em que, após um confronto com Moe (o bully da escola), o Calvin se queixa de que, e cito de memória, "a ciência moderna não se tem esforçado muito para curar a estupidez." É a estupidez e as gripes sazonais, diria eu. Enfim, uma dessas gripes vai obrigar - já obrigou, para todos os efeitos - o Viagem a Andrómeda a parar por uns dias. Regressarei no início da próxima semana (que é como quem diz, após muito paracetamol e muitas canjas de galinha). 

1 de abril de 2014

Aconteceu em Abril:

01 de Abril:

  • 1926 - Nasceu Anne Inez McCaffrey, autora irlandesa de ascendência norte-americana que se notabilizou por ter sido a primeira mulher a vencer os prémios Hugo e Nébula em categorias de ficção - e pela criação da série de ficção científica Dragonriders of Pern, iniciada em 1967 com a novela Weyr Search, publicada nas páginas da revista Analog Science Fiction and Fact. Até ao presente, a série conta com 22 romances (incluindo os escritos pelo seu filho Todd) e inúmeros contos. Na vasta bibliografia de Anne McCaffrey incluem-se ainda obras como The Ship Who Sang (1969), Crystal Singer (1982) e muitos outros. Faleceu aos 85 anos de idade, a 21 de Novembro de 2011.
  • 1942 - Nasceu Samuel Ray Delany, autor, professor e crítico literário norte-americano, cuja obra venceu quatro prémios Nébula e dois prémios Hugo. O seu primeiro romance publicado foi The Jewels of Aptor, em 1962; e nos anos que se seguiriam viria a assinar títulos clássicos da ficção científica como Babel-17 (1966), The Einstein Intersection (1967), Nova (1968), Dhalgren  (1975) e Triton (1976), entre muitos outros. Afro-americano e homossexual assumido, na sua obra encontramos temas recorrentes como a linguagem, a sexualidade e a memória. 

02 de Abril:

  • 1948 - Nasceu Joan D. Vinge (nascida Joan Carol Dennison), autora de ficção científica que se notabilizou no início dos anos 80 ao conquistar o prémio Hugo na categoria principal com The Snow Queen, um romance de ficção científica notável que transporta para um futuro longínquo os temas e os motivos do conto homónimo de Hans Christian Andersen. The Snow Queen teve duas prequelas - World's End, de 1984, e The Summer Queen, de 1991, e uma prequela, Tangled Up in Blue, de 2000. Na sua bibliografia incluem-se ainda a trilogia Cat (Psion, de 1982 Catspaw, de 1988, e Dreamfall, de 1996), e The Outcasts of Heaven Belt (1988), assim como várias novelizações de filmes e colectâneas de ficção curta. 

04 de Abril:

  • 1948 - Nasceu Dan Simmons, autor norte-americano de fantasia, ficção científica e horror. O seu primeiro romance publicado foi The Song of Kali, de 1985, obra vencedora do World Fantasy Award; mas foi com o díptico Hyperion/The Fall of Hyperion (1989 - 1990) que se tornaria num autor de destaque na ficção científica, ao construir uma space opera intricada reminescente de The Canterbury Tales, de Chaucer, e dos poemas de John Keats. Os romances Endymion (1996) e The Rise of Endymion (1997) e o conto Orphans of the Helix (1999) continuam a narrativa de Hyperion. Na bibliografia de Dan Simmons podemos ainda encontrar títulos como Carrion Comfort (1989), vencedor do Prémio Bram Stoker; o díptico Ilium e Olympos (2003 - 2005) e The Terror (2007), entre muitos outros. 

11 de Abril:

  • 2007 - Faleceu Kurt Vonnegut, Jr., autor e satirista norte-americano, combatente na Segunda Guerra Mundial, prisioneiro de guerra e sobrevivente dos bombardeamentos aliados à cidade alemã de Dresden. Na sua bibliografia encontramos clássicos como The Sirens of Titan (1959), Cat's Cradle (1963), Slaughterhouse-Five (1969) e Breakfast of Champions (1973), entre outros. Nasceu a 11 de Novembro de 1922.

12 de Abril:

  • 1921 - Nasceu Carol Emshwiller, autora norte-americana de ficção científica que assinou obras como Carmen (1988) e The Mount (2002).

14 de Abril:

  • 1954 - Nasceu Bruce Sterling, escritor, orador e futurista, e um dos fundadores do sub-género cyberpunk que mudaria de forma radical a ficção científica literária na década de 80. Autor de Schismatrix (1985) e colaborador da antologia Mirrorshades (1986), juntamente com William Gibson, Pat Cadigan e outros. Na sua bibliografia incluem-se ainda títulos como Involution Ocean (1977), o seu romance de estreia, The Artificial Kid (1980), Islands in the Net (1988), Heavy Weather (1994) e Holy Fire (1966). Com William Gibson escreveu ainda The Difference Engine, romance seminal do género retrofuturista steampunk, em 1990. 

15 de Abril:

  • 2002 - Faleceu Damon Knight, autor, editor, crítico e fã de ficção científica, que se notabilizou sobretudo como contista e como organizador das antologias Orbit. A sua ficção curta encontra-se compilada em várias antologias publicadas desde os anos 60.  

16 de Abril:

  • 1922 - Nasceu John Christopher (nome de baptismo: Sam Youd), autor inglês de ficção científica que se distinguiu pelo romance The Death of Grass e pela série de ficção científica The Tripods, orientada para um público young adult. Faleceu a 03 de Fevereiro de 2012. 

19 de Abril:

  • 2009 - Faleceu James Graham "J. G." Ballard, autor avant-garde britânico e um dos mais icónicos rostos do movimento "New Wave" que mudou de forma radical a ficção científica literária na década de 60. No género, notabilizou-se pelas suas distopias sombrias e por romances como The Drowned World (1962), The Burning World (1964), The Crystal World (1966) e High Rise (1975), para além de outros romances e inúmeros contos. A bibliografia de Ballard, porém, não ficaria restrita à ficção científica, tendo entrado no mainstream com obras como a polémica The Atrocity Exibition (1970), Crash (1973) e Empire of the Sun (1984). Nasceu a 15 de Novembro de 1930.

20 de Abril:

  • 1912 - Faleceu Abraham "Bram" Stoker, escritor britânico e autor (entre outros textos) de Dracula, um dos clássicos maiores e mais persistentes do período gótico vitoriano. Nasceu a 8 de Novembro de 1847.

25 de Abril:

  • 1988 - Faleceu Clifford D. Simak, autor norte-americano de ficção científica associado à Golden Age (mas não só). Na sua bibliografia incluem-se romances como Time and Again (1951), Ring Around the Sun (1953) e Way Station (1964), que venceu o prémio Hugo na categoria principal, entre muitos outros. Simak escreveu e publicou ainda dezenas de contos. Nasceu a 3 de Agosto de 1904. 

26 de Abril:

  • 1914 - Nasceu Horace Leonard "H. L." Gold, escritor e editor de ficção cientifica que se notabilizou pela direcção da revista Galaxy Science Fiction entre 1950 e 1961. Publicou contos e romances de alguns dos mais aclamados escritores de ficção científica, como Alfred Bester, Ray Bradbury, Robert A. Heinlein, Cyril M. Kornbluth e Frederik Pohl - o qual seria o seu sucessor ao leme da Galaxy. Faleceu a 21 de Fevereiro de 1996.

28 de Abril:

  • 1948 - Nasceu Terry Pratchett (nome de baptismo: Terence David John Pratchett), escritor inglês que se tornou numa das mais aclamadas figuras da fantasia contemporânea com o universo ficcional de Discworld - um mundo plano e circular assente em quatro elefantes que, por sua vezes, permanecem sobre a carapaça da Great A'Tuin, a tartaruga cósmica que vagueia pelo Universo. O primeiro romance deste universo, The Colour of Magic, foi publicado em 1983; o mais recente, Raising Steam, foi editado no ano passado, e é o 40º livro desta série que começou como paródia à tradição, às imagens e aos conceitos da fantasia, mas que foi evoluindo para histórias satíricas cada vez mais refinadas - e sempre hilariantes. O seu primeiro trabalho foi o romance The Carpet People, de 1971. Pratchett padece de uma forma rara de Alzheimer precoce, e é actualmente uma das figuras mais destacadas na consciencialização para esta doença. 

29 de Abril:

  • 1960 - Nasceu Robert J. Sawyer, autor canadiano de ficção científica cuja bibliografia inclui títulos como Far-Seer (1992), Calculating God (2000) e Rollback (2007), entre outros. O seu romance de 1999, Flashforward, foi adaptado para uma série televisiva com o mesmo título em 2009.  
  • 1968 - Faleceu Anthony Boucher (nascido William Anthony Parker White a 21 de Agosto de 1911), autor de contos de mistério e de ficção científica que se notabilizou também como editor. Foi um dos fundadores da Magazine of Fantasy and Science Fiction.
  • 2011 - Faleceu Joanna Russ, crítica, académica, ensaísta, dramaturga e escritora de ficção científica, e uma das mais reputadas vozes do movimento feminista dentro do género. Na sua bibliografia de ficção incluem-se obras como Picnic on Paradise (1968), The Female Man (1975) e On Strike Against God (1980), entre outros. A sua ficção científica encontra-se compilada em várias antologias. Nasceu a 22 de Fevereiro de 1927.

30 de Abril:

  • 1938 - Nasceu Larry Niven (nome de baptismo: Laurence van Cott Niven), escritor norte-americano de ficção científica e de fantasia. Ringworld, publicado em 1970, viria a ganhar os principais prémios do género e a servir de mote para a série literária homónima. Na sua bibliografia incluem-se ainda as séries Known Space e Man-Kzin Wars, relacionados com Ringworld, e romances como The Mote in God's Eye (1974). A sua colaboração com Jerry Pournelle tornou-se célebre devido a romances como Inferno (1976) e Lucifer's Hammer (1977). Na fantasia, distinguiu-se com o célebre The Magic Goes Away (1978), que tratou a magia como um recurso não-renovável. 

Paprika: O sono e o sonho

Há pouco menos de dois anos, teci aqui uma breve comparação entre Paprika, filme de animação de 2006 realizado por Satoshi Kon, com Inception, o heist movie de ficção científica realizado por Christopher Nolan e estreado em 2010. Uma comparação que, de resto, mantenho - Inception é um bom filme que no entanto se revela incapaz de levar as ideias que apresenta até às últimas consequências (simplificando em demasia os mecanismos de defesa do ego durante o sonho, por exemplo), enquanto Paprika explora essas consequências de uma forma ao mesmo tempo firmemente ancorada em temas e imagens tradicionais do anime e freudiana tanto no seu simbolismo como na sua irracionalidade. Mas talvez interesse regressar ao filme de Satoshi Kon e olhar com um pouco mais de atenção para os vários elementos que o constituem, da premissa ao enredo e às personagens - longe de quaisquer comparações (noutro dia, farei o mesmo exercício para Inception). 

Adaptando para anime o romance de ficção científica homónimo de Tasutaka Tsutsui, Satoshi Kon dedicou-se à exploração do tema dos sonhos através de uma premissa intrigante: num futuro próximo, ainda que indeterminado, foi inventada uma tecnologia capaz de monitorizar os sonhos dos seus utilizadores - e essa tecnologia, condensada num dispositivo portátil ainda inacabado conhecido internamente como "DC Mini", começa a ser utilizada de forma ilegal, ainda que benévola, pela Drª Atsuko Chiba para ajudar pacientes psiquiátricos. 


A primeira cena do filme, antes mesmo do genérico espantoso (e, em um ou dois momentos, reminescente de algumas imagens do primeiro filme de Kon, Perfect Blue), ilustra desde logo essa utilização: Atsuko utiliza o seu alter-ego de sonhos, Paprika, para analisar um sonho recorrente que tem perturbado o Detective Toshimi Konakawa, e cujo significado lhe escapa. 


Esta utilização por parte de Atsuko/Paprika é, para todos os efeitos, um segredo: apenas o Dr. Kosaku Tokita, o criador da tecnologia e do "DC Mini" (e, na prática, uma criança genial num corpo de um adulto), tem conhecimento das acções da sua colega. Mas quando um dispositivo desaparece, as vulnerabilidades de todo o sistema vêm ao de cima: com o aparelho, qualquer pessoa pode aceder aos sonhos de outra, o que poderá trazer consequências imprevisíveis. Que cedo se começam a manifestar, e de forma mais dramática do que Atsuko alguma vez imaginou possível.


Progressivamente, a realidade começa a misturar-se com os sonhos - uma estranha e alucinada parada de objectos animados e delírios consubstanciados irrompe de um lugar inesperado. Paprika vê-se perseguida - caçada - através de múltiplas realidades que se alternam entre o sonho puro e o sonho ficcional. Entre esses sonhos, irrompe a neurose de Konakawa. A fantasia de Tokita. O delírio de Shima. E um rosto conhecido no caos - prova de que o roubo do "DC Mini" terá sido uma inside job. Ou talvez não.


A animação magnífica de Satoshi Kon recria em formas perfeitas e coloridas tanto a realidade como os sonhos - e até a realidade que emerge dos sonhos, nas suas formas mais espantosas e grotescas, numa parada evocativa de outros conceitos, temas e símbolos da animação - japonesa, sobretudo, mas não só. De Peter Pan a Journey Into the West, de Dragonball a Neon Genesis Evangelion (com um final estilizado ao gosto dos subgéneros mecha e kaiju) - as referências são mais do que muitas, das mais evidentes às mais obscuras e fugazes, e é um deleite descobrir pequenos detalhes e segredos ao longo de vários visionamentos.


Com um carácter profundamente freudiano na forma como explora o tema dos sonhos e as psicoses, Paprika revela-se um filme complexo, aperfeiçoando o desvanecer de realidades que Satoshi Kon abordou pela primeira vez em Perfect Blue - e eleva a parada ao afastar-se do psicodrama original para construir uma história de detective alucinante e retorcida que, as espaços, torna impossível a distinção entre o real, o sonho e o pesadelo. Sem que o soubesse, Satoshi Kon teve em Paprika a sua derradeira longa-metragem - e ao vê-la, uma e duas vezes, ganha-se a exacta noção do que se perdeu com a sua morte tão prematura. 8.8/10

Paprika (2006)
Realizado por Satoshi Kon
Argumento de Satoshi Kon com base no romance homónimo de Yasutaka Tsutsui
Com Megumi Hayashibara, Tôru Furuya, Paul St. Peter, Daisuke Sakagushi e Kôichi Yamadera
90 minutos