Há pouco mais de um mês, o primeiro trailer do próximo filme de Godzilla deu que falar a propósito da utilização da composição Requiem, do húngaro György Ligeti - celebrizada num clássico maior da ficção científica cinematográfica, 2001: A Space Odyssey, tendo ficado definitivamente associada ao icónico monólito. Ao todo, Kubrick utilizou quatro composições de Ligeti em todo o filme: a célebre Atmosphères, Lux Aeterna, uma versão de Aventures e esta Requiem que aqui deixo hoje - estranha, misteriosa e vagamente dissonante. Como o monólito, aliás. Kubrick, conhecido pelo seu perfeccionismo a roçar o obsessivo, não poderia ter escolhido melhor.
"First you use machines, then you wear machines, and then...? Then you serve machines." - John Brunner, Stand on Zanzibar
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25 de janeiro de 2014
26 de dezembro de 2013
2013 em retrospectiva (1): Os melhores filmes
O final de Dezembro, como se sabe, presta-se aos balanços do ano que está prestes a terminar – e o Viagem a Andrómeda não será excepção a essa regra. A partir de hoje e até dia 31, será feito por aqui o balanço do que se leu, do que se viu, do que se acompanhou. Com a ressalva: estes artigos não incidirão sobre obras estreadas ou publicadas em 2013, mas sim sobre os livros, as bandas desenhadas, os jogos e o cinema que li, vi e joguei ao longo do ano, e dos quais fui aqui dando conta.
Comecemos então hoje com o cinema. A convite da Revista Bang!, escrevi um artigo para a edição online sobre os melhores e os piores filmes de ficção científica que estrearam no ainda corrente ano – esse artigo pode ser lido aqui. Sobre os outros filmes, aqueles que vi pela primeira vez neste ano, segue-se uma lista bem mais curta:
Realização de Stanley Kubrick
Argumento de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke
Com Keir Dullea, Gary Lockwood, William Sylvester e Douglas Rain
1968
Começar uma lista com uma excepção aos seus próprios critérios nunca é boa ideia, admito – mas julgo que neste caso tal opção é justificada. Antes de 2013 já 2001: A Space Odyssey era de longe o meu filme preferido, independentemente de quaisquer classificações de género; mas por iniciativa dos Cinemas UCI, tive oportunidade de neste ano rever o clássico de Stanley Kubrick como ele deve ser visto: no grande ecrã. E revê-lo assim demonstrou em definitivo por que 2001: A Space Odyssey continua a ser o derradeiro filme de ficção científica: nenhum outro, produzido antes ou depois, foi capaz de o igualar na ambição narrativa, na construção simbólica, no rigor científico, na montagem sonora e na perfeição visual. 2001: A Space Odyssey começa na madrugada da Humanidade, com os primatas proto-humanos, que por via de um objecto impossível – o célebre monólito – dão o salto evolutivo que os leva a descobrir a utilização de ferramentas, e de armas. O famoso match cut marca a transição para um 2001 futurista, quando a Humanidade já conquistou a órbita terrestre e a Lua, e faz uma descoberta que levará o astronauta Dave Bowman até às luas de Júpiter, e a um enigma com milhões de anos que o levará à transcendência. Na viagem, uma surpreendente reflexão sobre a vida surge por meio de HAL 9000, a inteligência artificial programada para não falhar que descobre a natureza da dúvida. Portentoso, evocativo e abstracto, 2001: A Space Odyssey é com toda a justiça um marco na história do cinema em geral, e da ficção científica em particular.
Realizado por Hayao Miyazaki
Argumento de Hayao Miyazaki
Com Yuriko Ishida, Yuko Tanaka, Kaoru Kobayashi, Masahiko Nishimura, Akihiro Miwa, Mistuko Mori e Hisaya Morishige
1997
A propósito de Mononoke-hime, obra-prima do mestre da animação japonesa Hayao Miyazaki, já muito se disse e escreveu. Podemos elogiar a qualidade da animação, superlativa como em todos os seus filmes desde Nausicaä; podemos destacar as suas personagens, bem trabalhadas, bem desenvolvidas e, no final, inesquecíveis; ou podemos ainda sublinhar a forma como dá forma a uma mitologia fascinante e singular através da combinação de inúmeros elementos fantásticos. Em termos pessoais, porém, julgo que a grande força de Mononoke-hime não reside neste elementos, sem dúvida importantes, mas no seu argumento - que recupera o tema do bom selvagem e da corrupção da sociedade e da tecnologia para contar uma história nova, erradicando da sua premissa o maniqueísmo que lhe é tão típico. No conflito entre o mundo natural e o mundo tecnológico de Mononoke-hime, não há um lado necessariamente certo e outro necessariamente errado - há, sim, muita ambiguidade em ambas as facções, capazes em simultâneo das maiores atrocidades e dos actos mais nobres. E há a história de San, criada com os lobos da floresta, e de Ashitaka, o último príncipe do seu povo, que impõe o seu próprio exílio para proteger a sua aldeia.
Realização de Fritz Lang
Argumento de Thea von Harbou
Com Brigitte Helm, Gustav Frölich, Alfred Abel e Rudolf Klein-Rogge
1927
Será talvez impossível olhar para Metropolis sem se deixar levar pela sua assombrosa estética – e sem deixar de notar quão à frente do seu tempo estava em 1927, ano da estreia deste clássico do cinema mudo. A verdade é que as miniaturas e as maquetas de Fritz Lang parecem ainda hoje mais reais do que muitos efeitos especiais computorizados do presente – e com elas, o cineasta alemão conta de forma magnífica a história de Freder, um indivíduo da classe privilegiada que, atraído pela belíssima Maria, decide explorar as fundações da sua cidade para ver como ela verdadeiramente funcionava; e lá, descobre um mundo infalível na sua pontualidade e na sua rigidez mecânica e desumanizante. A evocação de Moloch, a criação de Maria, decerto um dos primeiros andróides da ficção científica, os relógios – nenhum detalhe de Metropolis é deixado ao acaso, e todos eles são soberbos.
Realização de Fred M. Wilcox
Argumento de Cyril Hume, Irving Block e Allen Adler com base na peça The Tempest, de William Shakespeare
Com Leslie Nielsen, Walter Pidgeon, Anne Francis, Warren Stevens e Jack Kelly
1956
Pode um filme de ficção científica aparentemente pulpy ser um dos maiores clássicos do género? Pode, claro – e Fred M. Wilcox demonstrou-o ao transportar os motivos principais de The Tempest de Shakespeare para o cenário de ficção científica de Forbidden Planet. A tripulação da nave C57-D da United Planets é enviada para o planeta Altair IV, a 16 anos-luz de distância da Terra, em busca da expedição que lá se perdera vinte anos antes. Na superfície, porém, encontram apenas um sobrevivente, o linguista Edward Morbius, e a sua jovem filha, Altaira, já nascida no planeta. A ajudá-los está Robby the Robot, um dos mais icónicos robots da história do cinema – e por detrás da sua criação e dos estranhos fenómenos que têm lugar na superfície (e que causaram o desaparecimento da expedição original) encontra-se uma tecnologia impossível. Com uma premissa espantosa, uma mão-cheia de excelentes ideias e uma execução visual e sonora magnífica, Forbidden Planet é um marco no género, e um filme surpreendente pela forma como se consegue elevar acima de alguns elementos mais convencionais da ficção científica da sua época para contar uma história complexa e fascinante.
29 de novembro de 2013
2001: A Space Odyssey a dois tempos: a visão literária de Arthur C. Clarke
Ao contrário do que alguns hábitos resultantes dos cruzamentos mediáticos na ficção científica possam sugerir, 2001: A Space Odyssey, livro assinado pelo mestre Arthur C. Clarke, não é uma simples novelização do filme que Stanley Kubrick co-escreveu e realizou, e que se viria a tornar numa das mais fundamentais peças da iconografia do género. Como o filme, aliás, não se trata de uma adaptação cinematográfica de um livro; ambas as obras foram produzidas em simultâneo; quis o acaso que, ao contrário do pretendido por ambos, o livro apenas fosse publicado após a estreia do filme. Quanto ao processo de escrita, esse foi singular pela forma como colocou dois notáveis de áreas distintas a trabalhar em simultâneo no mesmo projecto a partir de dois meios diferentes; uma raridade que o próprio Clarke reconheceu, como se pode ler em Back to 2001, texto escrito em 1989 e publicado em jeito de prefácio nas edições de 2001 da Orbit:
(...) though towards the end novel and screenplay were being written simultaneously, with feedback in both directions. Thus I rewrote some sections after seeing the movie rushes - a rather expensive method of literary creation, with few other authors can have enjoyed. Though I am not sure if 'enjoyed' is the right word.
Divergências entre autor e realizador à parte, a verdade é que várias são as diferenças que podemos encontrar entre as duas versões de 2001, a de Kubrick em filme e a de Clarke em livro, em larga medida recorrentes das diferenças entre meios. A mais notável, e porventura mais conhecida, será talvez a mudança no destino da missão Discovery, enviada para Júpiter no filme quando nas versões iniciais do guião e na versão final do livro Bowman seguiu para Saturno. A mudança foi aconselhada pelo supervisor de efeitos especiais do filme, Douglas Trumbull, perante a impossibilidade de se conseguir reproduzir de forma convincente os famosos anéis de Saturno - uma alteração que Clarke acabaria por reconhecer e continuar nas sequelas literárias desta história, a partir de 2010: Odyssey Two. Muitas outras, com maior ou menor importância, poderiam ser mencionadas; talvez possam servir para estimular a curiosidade de alguns leitores, que ainda não se tenham aventurado na palavra escrita de 2001.
Em termos narrativos, 2001: A Space Odyssey, o livro, segue mais ou menos o mesmo percurso do filme. A primeira parte, "Primeval Night", passa-se três milhões de anos antes do nosso tempo, quando os nossos antepassados proto-humanos deambulavam pela savana primordial, selvagem e intocada. É uma passagem notável de Clarke, descrevendo com o rigor possível a uma perspectiva estranha - ou primitiva, se quisermos - um acontecimento extraordinário, que potenciará o salto evolutivo que cedo se vai começar a evidenciar. E segue-se o match cut, no caso pela forma, tão inevitável como banal, de passagem de capítulos, para "TMA-1", sobre a visita do cientista Heywood Floyd à base lunar de Clavius, bloqueada por quarentena, e à cratera de Tycho, onde se descobriu a anomalia magnética impossível. Para além de colocar o leitor uma vez mais perante a impossibilidade da primeira parte do livro e de precipitar a expedição da Discovery, "TMA-1" é notável pela forma como, através da viagem de Floyd, descreve aquele 2001 imaginado - da plataforma em órbita, dividida pelos vários blocos geopolíticos; da tecnologia desenvolvida para lançar naves para o espaço a partir da superfície terrestre, para sobreviver em órbita ou para manter expedições na Lua; e até mesmo de coisas tão banais para as sociedades contemporâneas, como o infodump noticioso, passagem de pouca importância no texto mas que ganha contornos proféticos muito curiosos.
A terceira parte de 2001: A Space Odyssey, "Between Planets", trata da expedição da Discovery, descrevendo os detalhes, as rotinas e outras tarefas da viagem, para além de introduzir a tripulação composta por David Bowman, Frank Poole, os três cientistas em hibernação e, claro, Hal-9000, a mais célebre das inteligências artificiais da ficção científica. Será na quarta parte, "The Abyss", situada no vazio que separa Júpiter de Saturno, que terá lugar o célebre "confronto" entre Bowman e um Hal transtornado - e esse confronto é radicalmente diferente daquele que se pode ver no filme de Kubrick, explorando com mais detalhe as origens do erro do computador através de uma suposição de "culpa" - ou de um processo análogo na perspectiva de uma inteligência artificial. A diferença, porém, nem por isso retira a tensão ao momento; essa está lá, diferente mas também eficaz.
"The Moons of Saturn", a quinta parte, marca a transição entre os dois momentos fundamentais de 2001: o erro de Hal e a passagem de Bowman pela "Star Gate", tornado icónico pela última transmissão do solitário astronauta, omitida no filme*: "The thing's hollow - it goes on forever - and - oh my God - it's full of stars!" A sequência final, talvez a passagem mais polémica do filme de Kubrick devido à extraordinária abstracção obtida pelo visual psicadélico de Trumbull, é descrita com pormenor por um Bowman incrédulo, à medida que atravessa tempo e espaço rumo ao infinito aparente, a um destino que desconhece e que está para além da sua imaginação. É uma passagem formidável pela belíssima estranheza que evoca, pelos mundos que sugere, e pela metamorfose final, metáfora derradeira de toda a aventura da Humanidade.
Mas de 2001, o livro, surge mais do que uma metáfora a sugerir - ou melhor, a exigir - interpretações; surge um futuro próximo (para a sua época) bem estruturado a partir da sua realidade contemporânea, descrito com rigor e verosimilhança, e com uma ou outra profecia menos evidente, mas nem por isso menos certeira. Não terá decerto sido o livro de ficção científica proverbial, como Kubrick queria fazer em filme; mas é sem dúvida uma obra notável da hard science fiction mais pura, bem ao estilo de Clarke e digna de figurar entre os seus melhores trabalhos.
Colocado lado a lado com o filme de Kubrick, obra-prima de uma arte visual, aquilo o livro de Clarke faz é tornar evidentes as diferenças fundamentais entre ambos os meios, entre cinema e literatura, mesmo quando estão a contar, sem tirar nem pôr, a mesma história. Porque é apenas disso que se trata: não sendo novelização ou adaptação uma da outra, as duas obras intituladas 2001: A Space Odyssey, a cinematográfica e a literária, mais não são do que duas versões factualmente - digamos assim para simplificar - exactas mas radicalmente distintas de uma mesma história, vista pelas especificidades de cada meio. Onde Kubrick optou pelo simbolismo, Clarke prosseguiu com factos; onde o realizador arriscou na abstracção, o escritor assegurou-se na descrição. Mas o mesmo rigor que atravessa o filme e que se tornou num dos seus elementos distintivos pode ser encontrado nas descrições pormenorizadas, mas não exaustivas de Clarke, e na qualidade analítica das suas palavras - tanto quanto examinam o familiar como o desconhecido, ou mesmo inimaginável. Mais do que uma curiosidade para quem apreciou ou filme no grande ecrã ou do que um manual for dummies de uma película que continua a confundir espectadores pelo seu elevado grau de simbolismo e abstracção, 2001: A Space Odyssey é um texto fundamental da hard science fiction, uma peça única da criação literária do género e um épico arrojado com a ambição de explorar a evolução humana, desde a pré-Humanidade à uma possível pós-Humanidade. E, nesse sentido, é um texto raro, e de leitura imprescindível para os fãs de ficção científica.
* Esta será talvez a única passagem do livro que lamento não ter passado para o filme - as últimas palavras de Dave em 2001 são formidáveis -, ainda que entenda por que motivo Kubrick preferiu o silêncio da personagem e a sugestão da banda sonora para montar a transição da Star Gate.
26 de novembro de 2013
2001 depois de 2001: O regresso à odisseia espacial de Kubrick e Clarke
2001: A Space Odyssey foi um dos primeiros filmes de que falei neste blogue, logo ao seu segundo mês de existência – um filme que vi pela primeira vez já bastante tarde (salvo erro, em 2009), mas que logo se tornou numa das mais fascinantes longas-metragens que tivera oportunidade de ver até então, ou que vi desde aí. Agora que o filme regressou, durante alguns dias, às salas de cinema portuguesas, tive enfim a oportunidade de o ver como ele merece: no grande ecrã, com som a condizer – e, mais do que nunca, importa regressar a este clássico de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke que mudaria a ficção científica cinematográfica para sempre.
De facto, a ideia original de Stanley Kubrick quando abordou Arthur C. Clarke nos anos 60, após a estreia de Dr. Strangelove, era desenvolver “o filme de ficção científica proverbial”, algo que se demarcasse do que se fizera no género até então. E, em bom rigor, foi isso que foi feito – ainda que de forma bastante improvável. O conto The Sentinel, de Clarke, serviu de base ao argumento do filme, e ao livro que foi escrito em simultâneo (e que seria publicado alguns meses após a estreia). Mas Kubrick decidiu fazer de 2001 algo diferente – uma experiência essencialmente visual, mais simbólica do que descritiva, mais estética do que narrativa.
Para isso, os melhores efeitos especiais feitos à época (e que, 45 anos volvidos, envelheceram como o Vinho do Porto) foram combinados com uma selecção cuidada de música clássica. A savana primordial faz-se acompanhar de Thus Sprach Zarathustra, de Richard Strauss – uma batida poderosa, evocativa, arrebatadora como convém ao momento, sem no entanto perder uma certa qualidade de enigma. O bailado espacial de "TMA-1" segue ao som de outro Strauss, de Johann, com a valsa The Blue Danube, perfeita para a lentidão coreografada dos movimentos nos abismos entre a Terra e a Lua. E a tradicional exposition da ficção científica deu lugar ao simbolismo e à abstracção – o espectador é desafiado a interpretar os símbolos e a construir o seu significado. A última sequência do filme, tão polémica pelo seu carácter abstracto, é disso um exemplo perfeito.
Que não se pense, porém, que na primazia do visual e do simbólico a narrativa se perdeu. Longe disso: reduzida ao seu mínimo denominador comum, a narrativa de 2001 apresenta-se pela combinação improvável de diálogo minimalista (banal, mesmo) e um vasto simbolismo, dos primeiros planos ao imprevisível desfecho. Dividido em quatro partes, 2001 começa por mostrar a “Madrugada do Homem”, ou o Homem antes de o ser – os primatas na savana primordial. Estes, pelo contacto com um objecto impossível descobrem a utilização do que os rodeia como ferramenta, como arma que lhes permite moldar e dominar o meio envolvente. O célebre split-cut, a mais longa elipse do cinema, descreve de forma tão perfeita como virtuosa a evolução humana na extraordinária transição do osso arremessado para a nave espacial em órbita: da savana pré-humana ao vazio que antecede as estrelas.
TMA-1, abreviatura de Tycho Magnetic Anomaly One, dá conta da descoberta que coloca todos os acontecimentos do filme em marcha: um objecto estranho, impossível mesmo, foi encontrado na Lua, “deliberadamente enterrado” quatro milhões de anos antes. Um monólito negro, idêntico àquele que levou os macacos primordiais a pegar num osso e a ver nele uma arma, que por uma emissão de rádio precipita a Humanidade a enviar a expedição Discovery One, para Júpiter, com cinco astronautas e o supercomputador HAL-9000 a bordo.
HAL será talvez a mais icónica das inteligências artificiais tornadas vilãs da ficção científica em todas as suas formas – contemporânea da AM criada por Harlan Ellison em I Have No Mouth, And I Must Scream, inspirou todas as variações do tema que se seguiriam, até mesmo à icónica GlaDOS do interactivo Portal (não deixa de ser curioso pensar que, nos rascunhos mais antigos de 2001, HAL teria uma voz feminina), também esta celebrizada na cultura popular pelo seu voice acting, à imagem do computador que a voz monocórdica Douglas Rain imortalizou no cinema. A forma como HAL elimina a tripulação é arrepiante – mas não menos do que o seu encerramento pelo sobrevivente Bowman, perdendo as suas capacidades cognitivas de forma progressiva até ao esquecimento.
Em termos práticos, e não sem ironia, o propósito de HAL era o mesmo de Bowman – levar a bom porto a missão da Discovery. E esta é concluída, de forma indefinida, na órbita de Júpiter, perante um novo monólito que irá servir de passagem para o maior salto dado pela Humanidade. “My God – it’s full of stars!”, diz um atónito Bowman no livro de Clarke; palavras que no filme deram lugar a um silêncio ominoso, ao qual se segue uma das mais arrebatadoras e abstractas sequências alguma vez feitas em cinema.
Quarenta e cinco anos depois da sua estreia, 2001: A Space Odyssey continua a ser um filme polémico e divisivo – e é também, com toda a justiça, considerado um dos melhores filmes de sempre pela crítica especializada. Uma prova do seu carácter incontornável e fundamental, tal como a sua persistência na cultura popular – mesmo apesar da sua elevada abstracção. Satirizado e parodiado, homenageado e aludido – muitas foram, e são ainda, as referências feitas a esta obra de Kubrick e Clarke, em meios tão distintos como a banda desenhada e os videojogos. A sua influência na indústria de efeitos especiais é evidente; e foi pedra de toque para cineastas tão populares como Steven Spielberg ou George Lucas.
Mais do que o “filme de ficção científica proverbial”, Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke criaram com 2001: A Space Odyssey filme de ficção científica perfeito e definitivo: em termos temáticos, a sua relevância só é comparável à sua ambição; em termos visuais, estabelece o padrão qualitativo para todo um género; e, no seu vasto legado, deixa ainda uma das mais memoráveis e influentes personagens que a ficção científica, cinematográfica ou literária, jamais produziu. Quando Ridley Scott diz que, com 2001, Kubrick “matou a ficção científica no cinema”, não é difícil notar, no evidente exagero do realizador britânico, um certo fundo de verdade: a fasquia foi colocada demasiado alta, entre as estrelas; e, até hoje, não foi ainda superada. Pergunto-me se algum dia será. 10/10
2001: A Space Odyssey (1968)
Realizado por Stanley Kubrick
Argumento de Stanley Kubrick e Arthur C. Clarke, com base no conto The Sentinel
Com Keir Dullea, Douglas Rain, Gary Lockwood, William Sylvester e Daniel Richter
160 minutos
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23 de novembro de 2013
Ainda a propósito da reposição de 2001: A Space Odyssey nas salas de cinema
Não pude deixar de reparar no consenso entre os três críticos de cinema do Público a propósito de 2001: A Space Odyssey, por alguns dias de regresso às salas de cinema da UCI em Lisboa e em Vila Nova de Gaia. Cinco estrelas de cada um - algo que não me recordo de ter visto a propósito de qualquer outro filme (sobretudo de ficção científica, género habitualmente desprezado por Luís Miguel Oliveira e Vasco Câmara).
Não é um clássico por acaso.
Fonte: Cinecartaz Público
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8 de novembro de 2013
2001: A Space Odyssey regressa aos cinemas portugueses
A alguns, pelo menos. A partir do próximo dia 21 de Novembro será possível assistir, nos cinemas UCI El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida 20 (Vila Nova de Gaia), à reposição de 2001: A Space Odyssey, clássico maior da ficção científica cinematográfica, realizado por Stanley Kubrick. Com um argumento baseado no conto The Sentinel de Arthur C. Clarke, 2001: A Space Odyssey resultou de uma intensa colaboração entre Kubrick e Clarke, de onde resultou um livro e um filme - e este cedo se tornou num clássico do cinema pelo seu visual arrojado, pelos seus temas filosóficos e metafísicos, pelos efeitos especiais state of the art, e pelo realismo absoluto como o espaço foi filmado. No ano passado, a revista britânica Sight & Sound colocou-o na sua lista dos "10 Melhores Filmes de Sempre" - sinal não só da sua influência para lá dos limites da ficção científica enquanto género cinematográfico, mas também da relevância dos seus temas e da genialidade da sua execução, volvidos 45 anos sobre a sua estreia original.
Fonte: Magazine HD
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12 de fevereiro de 2013
A Clockwork Orange: a adaptação, a controvérsia, o legado
A Clockwork Orange, o controverso livro de Anthony Burgess que hoje é um clássico da literatura, conheceu várias adaptações para diferentes formatos desde a sua publicação em 1962. Diria, contudo, que nenhuma dessas adaptações terá sido tão controversa, bem sucedida e icónica como o filme que Stanley Kubrick produziu e realizou em 1971 - ao ponto de, para quem lê o livro após ter visto o filme, poder ser especialmente difícil dissociar as duas obras. E isso acontece por três motivos: pela poderosa componente visual do filme, pela qualidade superlativa das interpretações e pela fidelidade da adaptação.
A carreira cinematográfica de Kubrick ficou marcada não só pelo seu perfeccionismo obsessivo mas também pelas extraordinárias componentes visual e sonora dos seus filmes - 2001: A Space Odyssey será porventura o exemplo mais evidente, mas filmes como Shining, Barry Lyndon, Dr. Strangelove, Full Metal Jacket ou mesmo Eyes Wide Shut deixaram no seu legado um sem-número de motivos e de imagens de grande força, que perduram no imaginário do realizador e que são identificadas com facilidade pela maioria dos apreciadores de cinema. A Clockwork Orange não é excepção: é impossível esquecer a imagem de Alex, o vilão-tornado-vítima, esguio no seu fato branco e chapéu de coco preto; como é impossível esquecer o Korova Milk Bar; as decorações surrealistas na forma e na cor, com motivos explícitos; a violência coreografada; o som sinistro que acompanha Alex em vários momento da narrativa, por contraste com a Nona Sinfonia de Beethoven. Kubrick capturou o espírito do livro de Burgess na perfeição, e recriou na película aquela distopia tão estranha e perturbadora, lúgubre apesar das cores eufóricas.
Entre a solidez das interpretações destaca-se Malcolm McDowell com um desempenho superlativo, entrando de forma extremamente profunda na sua personagem, ao ponto de, nos 136 minutos que dura o filme, McDowell ser, de facto, Alex. E se Alex se tornou tão icónico isso deve-se em larga medida à forma como o actor encarnou a personagem, como lhe deu uma vida para lá da sua invulgar caracterização. Na primeira parte do filme, oscila na perfeição entre a mais fria indiferença e a mais extrema violência e voluptuosa luxúria para, na segunda parte, o seu entusiasmo forçado para com o condicionamento a que aceitou ser submetido dar lugar a um desespero tão profundo que se torna difícil não sentir compaixão daquela personagem destruída - mesmo conhecendo muito bem todas as atrocidades que cometeu. Num filme com quatro nomeações para os Óscares, é incompreensível como a fabulosa interpretação de McDowell escapou à distinção.
Em termos de adaptação, o filme de Kubrick seguiu com fidelidade o livro de Burgess. É certo que há várias diferenças, como é inevitável que aconteça em qualquer projecto deste tipo, mas em termos gerais quem lê e vê A Clockwork Orange cedo repara na forma como Kubrick passou o texto para a película preservando aquilo que o tornou único enquanto lhe conferiu uma identidade própria. Se pecou, terá sido por não se atrever a ir tão longe como Burgess foi nas páginas do livro - o Alex do filme é mais velho que o Alex do livro, e algumas das cenas mais "fortes" que filmou são incomparavelmente mais brutais nas páginas. Há, contudo, um desvio notável que se tornou célebre: o filme omite por completo o último capítulo do livro, que pode dar todo um novo significado à história de Alex. Kubrick afirmou em tempos que o argumento baseou-se na edição americana de A Clockwork Orange, que omite o último capítulo; mas também se diz que o realizador considerou o final de Burgess demasiado optimista.
Fiel ao polémico livro que adaptou para o cinema, A Clockwork Orange foi desde o primeiro momento um filme controverso - nos Estados Unidos, obteve uma classificação "X" (mais tarde revista para "R" após o realizador re-editar algumas cenas), e no Reino Unido os seus conteúdos sexuais e violentos foram considerados "extremos" e o filme foi retirado de exibição por decisão do próprio realizador, tendo apenas regressado aos cinemas britânicos após a sua morte em 1999. Apesar da polémica, A Clockwork Orange tornou-se rapidamente num marco na carreira de Stanley Kubrick e num filme de culto. Foi um dos poucos filmes de ficção científica nomeados para algumas das principais categorias dos Óscares da Academia (no caso, Melhor Filme e Melhor Realizador, para além de Melhor Edição e Melhor Argumento Adaptado). Hoje um clássico incontornável, as imagens de A Clockwork Orange permanecem vivas e relevantes no imaginário popular - o que, em si, será porventura a mais relevante das distinções. 9.1/10
A Clockwork Orange (1971)
Realizado por Stanley Kubrick
Com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Adrienne Corri, Warren Clarke, Carl Duering
136 minutos
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2 de agosto de 2012
2001 - A Space Odyssey entre os dez melhores filmes de sempre da Sight and Sound
A nova lista dos melhores filmes de sempre da revista Sight and Sound, do British Film Institute, tem sido mencionada na imprensa devido uma grande novidade: Citizen Kane, a obra-prima de Orson Wells e considerado com unanimidade um dos melhores filmes da história do cinema, foi finalmente destronado do primeiro lugar que ocupava há cinquenta anos por Vertigo, de Alfred Hitchcock. Mais interessante, contudo, é a entrada de 2001 - A Space Odyssey, de Stanley Kubrick, para o top 10 da lista, ocupando agora a sexta posição. Inteiramente merecida, diga-se de passagem.
Fonte: Público
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10 de abril de 2012
Ainda sobre a Odisseia (de Kubrick)
Já que aqui falei de 2001: A Space Odyssey, recomendo a leitura deste artigo, já antigo, de Casey Kazan. Ridley Scott exagerou quando afirmou que Kubrick "matou o cinema de ficção científica com 2001", e o próprio encarregou-se de provar isso mesmo com Alien e Blade Runner (e, vai na volta, volta a repetir a graça este ano). No entanto, percebo a ideia.
E aqui, fico a saber que não estou sozinho na avaliação que faço à obra-prima de Kubrick. Finalmente (aliás, acho que subscrevo os três primeiros lugares da lista).
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9 de abril de 2012
A Ficção Científica e o Cinema: 2001: A Space Odyssey
Há dias, enquanto fazia zapping, apanhei no TCM o início de 2001: A Space Odyssey, a obra-prima de ficção científica escrita em livro por Arthur C. Clarke e realizada em filme por Stanley Kubrick em 1968. Não é segredo para ninguém (acho eu) que 2001: A Space Odyssey é, de longe, o meu filme de ficção científica preferido - quando, há dois anos, desenvolvi no Delito de Opinião a minha lista pessoal dos melhores filmes de ficção científica, coloquei-o em primeiro lugar; e creio que por mais alterações que esta lista venha a conhecer ao longo dos anos, o topo permanecerá imutável. Recuperando (e adaptando) o que escrevi na altura:
De todos os comentários que tenho escrito aos filmes desta lista, este foi o mais difícil. Se 2001: A Space Odyssey é, para mim, o melhor filme de sempre, é também m filme difícil de descrever, ou de sobre ele escrever. Começa-se por onde? Pela maior e mais fantástica elipse da história do cinema? Pelo silêncio que pauta a narrativa, mostrando o espaço com um realismo ainda por superar, e interrompido, a espaços, por uma banda sonora fabulosa? Pela angústia da cena - sem dúvida os mais longos cinco minutos que vivi em cinema - em que Dave Bowman deixa a nave no módulo para salvar o seu companheiro no abissal vazio do espaço, ou mesmo pela angústia de uma difusa sensação de solidão permanente que o filme transmite? Ou por Hal, o computador da nave e um dos mais famosos vilões que já apareceram em filme (apesar de, na prática, Hal nunca aparecer), a despedir-se de Dave com a mesma frieza com que desliga o suporte de vida dos cientistas? Poderíamos também notar a atenção ao detalhe, imagem de marca de Kubrick e neste filme levada ao extremo, tornando-o, e digo-o novamente, no filme "espacial" mais realista feito até ao presente. Ou poderíamos divagar, e entrar nas discussões que começaram em 1968, ano de estreia do filme (há 44 anos!): qual a origem dos monólitos? O que acontece aos cientistas na Lua quando o "alarme" dispara? Qual o verdadeiro significado da trio que ocupa o longo final do filme? O que acontece a Dave? Ascende a outra condição? Qual? Perguntas ainda hoje sem resposta para quem apenas viu o filme (Arthur C. Clarke esclarece um pouco mais no livro), e mais uma prova da longevidade de 2001: A Space Odyssey, filme que após quatro décadas continua a suscitar debate. A frase de Dave, "open the pod bay doors, Hal", ficou gravada na história do cinema. Com razão: naquele momento, e independentemente de quando vimos o filme, todos estávamos a sair para o espaço com Bowman.
Foi a primeira vez que revi o filme desde que li o livro de Arthur C. Clarke - que, de facto, projecta uma luz mais clara sobre alguns dos momentos mais complexos do filme (nomeadamente a passagem final). 2001: A Space Odyssey impressiona por tudo: pela beleza de cada plano, pela forma como a banda sonora encaixa na perfeição em cada momento, como se som e imagem fossem um único elemento, pela atenção ao detalhe, por pequeno que seja, pelo realismo - gravidade! ou falta dela -, pelo grandioso final, a passagem de Dave Bowman para "além do infinito" naquela sequência memorável, o nascimento da "Starchild"… enfim, nada a apontar. 2001: A Space Odyssey é muito mais do que um simples filme de ficção científica - é um dos grandes filmes da história do cinema.
Ainda que, muito francamente, não se poderia esperar outra coisa deste projecto, que juntou um dos maiores realizadores da história do cinema e um dos maiores escritores da história da ficção científica. Independentemente das divergências entre ambos - e parece que foram muitas -, o resultado, tanto em livro como em filme, foi espantoso. 2001: A Space Odyssey não é uma space opera, não é uma distopia - é algo profundamente mais complexo, profundamente mais interessante (não desfazendo) e profundamente mais belo.
Curiosamente, entre as pessoas que conheço estou praticamente sozinho nesta "paixão", chamemos-lhe assim. A grande maioria descarta 2001: A Space Odyssey como um filme "chato", "parado", "com pouca acção", "onde ninguém fala" e "que não tem história". O que talvez seja, de forma algo retorcida, um elogio à obra de Kubrick, em comparação com o cinema actual, marcado pelos efeitos especiais como fim em si, por diálogos paupérrimos e por narrativas desprovidas de qualquer sentido de ritmo, onde o que importa é "acontecer alguma coisa" a cada momento. 2001: A Space Odyssey (e toda a obra de Kubrick em geral) é o oposto desta tendência - e permanece hoje como uma das melhores definições de "filme" e "cinema". 10/10
Etiquetas:
cinema,
ficção científica,
stanley kubrick
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