Neil Gaiman é um dos mais talentosos e multifacetados autores do Fantástico contemporâneo - não só pelos vários meios para onde habitualmente escreve (da literatura aos comics, do cinema à televisão), mas também pela diversidade da sua escrita e dos temas que aborda. Em Stardust, livro de 1998, recriou um singular conto de fadas que, em 2007, seria adaptado para o cinema por Matthew Vaughn. E é sobre o filme que irei falar hoje.
Sobre a qualidade do filme enquanto adaptação, não poderei dizer muito. Enquanto objecto cinemográfico, porém, Stardust é um filme muito interessante - um elenco forte e talentoso desenvolve uma narrativa simples, algo convencional e relativamente previsível, que porém nunca deixa de ser cativante. Sim: torna-se evidente logo no início que a aventura de Tristan (Charlie Cox) para lá da Wall vai mudar a sua vida, e quando percebemos quem é (ou o que é) Yvaine (Claire Danes), o desfecho da história já está mais ou menos claro. No entanto, e passe o cliché, nem todas as viagens valem pelo destino - muitas vezes é o caminho percorrido que as torna interessantes. Stardust é um desses casos, com as suas personagens e as peripécias em que se envolvem a manterem o filme interessante e divertido desde o primeiro minuto.
A narrativa segue Tristan Thorn, um jovem da vila inglesa de Wall. Wall seria uma vila comum não fosse um pormenor muito curioso: fica perto de uma longa muralha que ninguém pode (ou deve) atravessar, visto separar o mundo "real" do reino mágico de Stormhold. Quando Tristan (cuja mãe é natural de Stormhold, facto que ele desconhece) vê uma estrela cair para lá da muralha, promete à rapariga por quem está apaixonado, Victoria (Sienna Miller), trazer-lhe a estrela em troca da sua mão em casamento. O que ele não sabe é que não é o único a querer alcançar a estrela: três velhas bruxas desejam encontrá-la para recuperarem a sua juventude perdida e os seus poderes, e os dois sanguinários herdeiros do rei desejam recuperar a jóia real que ela tem, para assim alcançarem o trono de Stormhold. Para espanto de Tristan, a estrela tem a forma de uma jovem lindíssima, chamada Yvaine - mas, inicialmente alheio à sua beleza, decide levá-la de volta para Wall. O que, convenhamos, é mais fácil de dizer do que fazer: pelo caminho, vão encontrar a líder das bruxas, Lamia (Michelle Pfeiffer), os herdeiros reais, o Capitão Shakespeare (Robert De Niro) e a sua nave voadora, e muitas outras personagens do reino de Stormhold.
É nas personagens que reside a força de Stardust. Charlie Cox interpreta um Tristan convincente, mas o destaque vai para Claire Danes no papel da inocente Yvaine e para Michelle Pfeiffer no papel de Lamia, a verdadeira vilã da história - e também para o personagem de Robert De Niro, ainda que apareça por pouco tempo. Do ponto de vista visual, Stardust revela-se muito interessante - os detalhes da nave do Capitão Shakespeare e do castelo das bruxas estão excelentes, mas em geral os efeitos especiais utilizados estão um tanto ou quanto datados. O que não diminui de todo o filme: com excelentes personagens principais e secundárias e uma narrativa cujo ritmo exemplar compensa a previsibilidade das suas peripécias, Stardust é um filme de fantasia muito sólido, com uma ligeireza e uma boa disposição que, por si só, fazem valer a pena a viagem. 7.0/10
Stardust (2007)
Realizado por Matthew Vaughn
Com Charlie Cox, Claire Danes, Michelle Pfeiffer, Robert De Niro, Sienna Miller, Ricky Gervais, Kate Magowan e Ian McKellen
127 minutos



