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11 de maio de 2014

Citação fantástica (125)

We're blind moles. Creeping through the soil, feeling with our snoots. We know nothing. I perceived this . . . now I don't know where to go. Screech with fear, only. Run away.

Philip K. Dick, The Man in the High Castle (1962)

2 de maio de 2014

A ficção curta de Philip K. Dick (5): Progeny, Foster, You're Dead! e A Present for Pat

Em Progeny, conto publicado originalmente na revista If em 1954, Philip K. Dick imagina um futuro indeterminado no qual uma autêntica "revolução educativa" mudou de forma radical e permanente a forma como as crianças são educadas - retiradas dos pais à nascença e entregues ao cuidado de robots (na prática, Inteligências Artificiais) que se encarregam de direccionar o seu desenvolvimento de forma absolutamente lógica e racional, de acordo com o seu potencial e sem quaisquer constrangimentos emocionais decorrentes da relação parental. O autor recorre à terminologia e aos conceitos psicanalíticos de Freud para ilustrar o ponto - com uma educação assente na lógica e desprovida da irracionalidade emocional que o contacto humano implica, as crianças cresceriam livres de neuroses e de complexos de Édipo, com um treino adequado às suas capacidades e ao seu potencial, sem ter de obedecer às expectativas e aos caprichos dos pais. Mas, como a visita (com aprovação burocrática) de Ed Doyle ao seu filho Peter revela, isso vem com um preço - e talvez valha a pena perguntar se, no final, aquela criança (e todas as outras) seriam ainda humanas, ou se estariam mais próximas dos seres artificiais que as educaram. A questão é pertinente, e Philip K. Dick explora-a de forma inteligente, sem dizer tudo - adivinha-se a respostas nas reacções e nas reflexões de Peter, expressivas na sua inexpressividade. E, no final, um twist clássico de PKD - que por si só pede a releitura integral do conto. 

Foster, You're Dead!, um conto publicado na antologia Star Science Fiction Stories No.3 (com edição de Frederik Pohl) em 1955, consiste numa especulação intrigante sobre como seria a vida no futuro próximo (para a época) de 1971 - e retrata uma sociedade em simultâneo assustada com a possibilidade de uma guerra nuclear e tomada pelos mais básicos impulsos consumistas. Philip K. Dick explora a premissa através de Mike Foster, uma criança cujo sonho de ter no seu quintal um sofisticado abrigo nuclear esbarra na teimosia do seu pai, que recusa apoiar os preparativos para a guerra nuclear na sua cidade por considerar que a comercialização de abrigos cada vez mais modernos - com os inevitáveis planos de pagamento, claro - consiste num esquema da Defesa para, através do medo, levar os cidadãos ao consumo. De uma só cajadada, Philip K. Dick satiriza o pânico nuclear do seu tempo e a estrutura de funcionamento da sociedade de consumo, que através de necessidades artificiais e hiperbolizadas leva os indivíduos a adquirem mais e mais produtos dos quais, para todos os efeitos, não necessitariam - para lá das suas posses, claro. E neste ponto, Foster, You're Dead! revela-se estranhamente presciente e actual, com o seu ponto de vista infantil a enriquecer a história de forma assinalável. 

Completamente distinto tanto no tom como no tema é A Present for Pat, um conto publicado em 1954 na revista Startling Stories. Afastando-se dos seus temas mais convencionais, Philip K. Dick recria em A Present for Pat uma breve comédia envolvendo uma divindade (menor) de Ganimede adquirida aos locais pelo prospector Eric Blake (a preço barato, e com garantia) e trazida para a Terra na qualidade de presente exótico para a sua mulher, Patrícia. Mas essa divindade, de nome Tinokuknoi Arevulopapo, cedo começa a causar sarilhos - e Eric vai ver a sua vida dar uma atribulada reviravolta devido à interferência daquela curiosa criatura. A Present for Pat não é um conto de todo surpreendente - o twist do final adivinha-se ainda antes de se chegar a meio do texto - mas não deixa de ser interessante notar como Philip K. Dick entra no território do humor através de uma situação no mínimo bizarra, com piadas um pouco óbvias, mas nem por isso menos divertidas, e um final over the top. Mas é um texto interessante sobretudo pelo seu tom, algo raro na obra de Philip K. Dick - o autor entra por vezes no território do humor negro, mas é raro vê-lo num registo de comédia mais pura. 

18 de abril de 2014

A ficção curta de Philip K. Dick (4): Fair Game, The Hanging Stranger e The Golden Man

Fair Game é um conto de Philip K. Dick publicado em 1959 na revista If, apesar de ter sido escrito seis anos antes. É um texto curto mas muito intenso, todo ele atravessado pela paranóia que marca muita da sua ficção científica - e tem como protagonista o Professor Anthony Douglas, académico de topo na área da física nuclear e investigador num instituto situado numa pequena e remota cidade no Colorado. Douglas é um homem racional, confiante e despreocupado - até ao momento, naquele fim de dia fatídico, em que olha para a janela da sua sala de estar e vê um enorme olho a fitá-lo. O que se segue é uma odisseia vertiginosa em busca de uma explicação plausível para aquele fenómeno - e, na sua ausência, uma fuga desesperada de um inimigo que desconhece e que não consegue identificar, mas que sente sempre no seu encalço. Se todo o texto é um exemplo inspirado da paranóia angustiante que Philip K. Dick consegue imprimir às suas narrativas, já o final é um twist mais ou menos inesperado (há um spoiler que poderá ser discreto para quem não possuir um bom vocabulário em inglês), mas nem por isso inverosímil, e surpreendentemente cómico. 

Na mesma veia de Fair Game encontramos The Hanging Stranger, um conto de 1953 publicado na revista Science Fiction Adventures que começa com um mistério um tanto ou quanto perturbador: após ter passado o dia na cave a reforçar os alicerces da sua casa, Ed Loyce dirige-se para a baixa da cidade e depara-se com um corpo flagelado e enforcado num poste, em plena luz do dia. Mas o verdadeiro mistério não reside tanto na presença daquele corpo, mas na total indiferença de todos os transeuntes - como se fosse perfeitamente normal haver cadáveres pendurados em postes pelas ruas. Loyce vê a sua estranheza reflectida nas pessoas que conhece, e que não encontram nada de errado naquele quadro - apenas na reacção do protagonista. No desespero da sua fuga, Loyce acaba por descobrir o que se passa - mas o motivo para a presença daquele corpo só será revelada no final, numa reviravolta inspirada bem ao estilo de Philip K. Dick. The Hanging Stranger explora, com a devida vertigem, a ideia clássica de que todos à nossa volta fazem parte de uma conspiração tenebrosa; e leva o tema até às últimas consequências num epílogo magnífico.

Já The Golden Man é uma história sobre mutantes. Publicada em 1954 na revista If, esta novela situa-se num futuro pós-apocalíptico no qual começaram a surgir mutantes - que desde logo foram caçados e aniquilados por agências governamentais criadas para tal. A história começa de forma banal, numa vila da Bay Area, na Califórnia - com um vendedor ambulante forasteiro que não é bem quem aparenta, e uma quinta isolada que mantém um segredo há mais anos do que seria razoável. É difícil falar desta história sem revelar demasiado sobre algumas das suas passagens mais interessantes e surpreendentes - mas Philip K. Dick constrói aqui uma narrativa muito interessante, bem articulada nas suas várias passagens, com um protagonista fascinante, um elenco de personagens secundárias bastante sólidas e um final que, não contendo uma reviravolta como muitos outros contos seus, nem por isso deixa de se revelar bastante eficaz. The Golden Man já foi adaptado para o cinema, ainda que de forma tão livre que raramente mereça a referência nas listas da ficção de Philip K. Dick que passou da página escrita para o grande ecrã; o filme, intitulado Next, é de 2006, foi realizado por Lee Tamahori e conta com Nicholas Cage, Julianne Moore e Jessica Biel.

11 de abril de 2014

A ficção curta de Philip K. Dick (3): Beyond Lies the Wub, Null-O e The Father-Thing

Beyond Lies the Wub é o título do primeiro conto que Philip K. Dick viu publicado - corria o ano de 1952, e a publicação foi a revista Planet Stories. É um texto curto e imaginativo, que envolve uma tripulação humana em Marte, num último contacto com a civilização local antes de regressar à Terra (Philip K. Dick não dá detalhes acerca do Marte habitado deste conto - talvez não seja difícil ou despropositado, porém, imaginar um Marte ao estilo de Burroughs). Um dos elementos da tripulação, de nome Petterson, surge no último minuto com um wub: uma criatura peculiar, nativa do planeta vermelho, que o Comandante Franco rapidamente identifica como um porco, e que aceita transportar na perspectiva de um belo jantar. Algo que se revelará problemático quando, para espanto da tripulação, o wub revela ser inteligente, compreender o discurso humano, possuir actividade psíquica e perseguir interesses filosóficos. Beyond Lies the Wub ainda está longe da complexidade que a ficção curta de Philip K. Dick viria a alcançar - a reviravolta final, porém, já se revela algo surpreendente, e o registo a oscilar entre a comédia e uma paranóia ligeira denota já alguns elementos que se viriam a tornar prevalecentes na sua escrita. 

Quando Philip K. Dick publicou The Father-Thing nas páginas da revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction em 1954, o tema das réplicas humanas feitas por entidades ocultas e/ou alienígenas estava na moda na ficção científica - três anos antes, estreara The Thing From Another World, adaptando um conto clássico de John W. Campbell (Who Goes There?), e dois anos mais tarde estrearia Invasion of the Body Snatchers, clássico maior da produção do género nos anos 50 (e não só). O que torna este conto notável e distinto neste tema é o ponto de vista que emprega - o de Charles Walton, uma criança de oito anos, que num momento descobre que o seu pai tem um duplo. Philip K. Dick explora na perfeição a sensação de paranóia de Charles quando descobre que o seu pai foi substituído por algo que não consegue identificar - as primeiras páginas do conto são uma maravilha, e o desenvolvimento não desilude, com Charles a procurar ajuda não entre adultos, incapazes de acreditar no que viu, mas entre outras crianças, mais abertas a aceitar impossibilidades aparentes. Leitores contemporâneos talvez estranhem alguns termos utilizados pelo autor, e que, sendo "normais" na época, fariam soar todos os alarmes do politicamente correcto moderno - isso, porém, pouco mais é do que um detalhe, e com pouca importância. 

De certa forma, Null-O, conto de Philip K. Dick publicado pela primeira vez nas páginas da revista If em 1958, acaba por ser em simultâneo uma curta paródia a The World of Null-A de A. E. van Vogt e um percursor espiritual de um dos temas fulcrais do romance que publicaria uma década mais tarde, Do Androids Dream of Electric Sheep? - a ausência de empatia, e as consequências dessa ausência. Pegando na ideia de van Vogt de uma raça de humanos superiores, governados por uma lógica absoluta e desprovidos de quaisquer emoção, Philip K. Dick explora a partir da personagem de Lemuel Jorgenson, um jovem sociopata e paranóico com algumas mutações, tendências violentas e incapacidade de se relacionar com quem lhe está próximo. Quando conhece o Dr. North num hospital psiquiátrico, porém, Lemuel descobre que não está sozinho - longe disso, aliás. Há muito mais gente como ele, sem emoções, movidos por uma lógica pura e abstracta - e possuem uma agenda própria e tenebrosa. Null-O teria decerto beneficiado de um pouco mais de desenvolvimento - a introdução de Lemuel é notável e algo creepy, mas a dada altura é difícil não sentir que, sendo o protagonista, pouco impacto acabou por ter na trama. Mas é no campo das ideias que o conto se eleva um pouco - a noção de que o conceito de "normal" é bastante relativo (para não dizer impreciso) e a exploração até às últimas consequências do que significa não sentir empatia tornam a leitura substancialmente mais estimulante. 

Beyond Lies the Wub pode hoje ser lido no primeiro dos cinco volumes de The Collected Short Stories of Philip K. Dick, editados pela Gollancz - que recebe justamente o título deste conto. The Father-Thing e Null-O estão compilados no terceiro volume da colecção, com o título The Father-Thing.

21 de março de 2014

Do Androids Dream of Electric Sheep?: Empatia artificial

Quem tiver visto Blade Runner, o filme de 1982 realizado por Ridley Scott que adaptou para o grande ecrã o romance Do Androids Dream of Electric Sheep?, decerto estará recordado do momentos iniciais, com a visão panorâmica de uma Los Angeles futurista cuja escuridão é cortada com violência pelas explosões das chaminés - tudo isto ao som da magnífica banda sonora de Vangelis. A adaptação de Scott ao romance de Philip K. Dick é, para todos os efeitos, bastante livre (passe o eufemismo); quaisquer duvidas sobre esse ponto cedo serão dissipadas com a leitura do primeiro capítulo de Do Androids Dream of Electric Sheep? (1982): Longe da visão majestosa de uma Los Angeles sombria e devastada pela guerra e pelo fallout, o romance clássico de Dick abre com algo tão banal como uma discussão conjugal entre o protagonista, Rick Deckard, e a sua mulher, Iran. 

A cidade, note-se, continua presente - e as descrições de Dick são quase tão evocativas como as imagens de Scott, conjurando na perfeição a Los Angeles devastada de um futuro próximo após a derradeira Guerra Mundial - um futuro no qual os boletins meteorológicos incluem previsões de fallout e no qual a malha urbana, outrora sobrepovoada, cede cada vez mais espaço ao vazio, à ausência de habitantes, desaparecidos na voragem da guerra ou - no caso daqueles que têm tal possibilidade - emigrados para as colónias extra-terrestres. Deckard, porém, não desapareceu ou emigrou, e continua a desempenhar a sua função de bounty hunter para as autoridades locais, caçando e eliminando quaisquer andróides que tentem regressar à Terra. E, na impossibilidade de ter um animal de estimação vivo - a guerra extinguiu a maioria da fauna terrestre -, mantém uma ovelha eléctrica, simulacro perfeito do animal real, no seu terraço.

A importância da ovelha eléctrica não é de somenos, e funciona como metáfora perfeita do grande tema de Do Androids Dream of Electric Sheep?: a empatia enquanto atributo intrinsecamente humano. O primeiro capítulo, com a discussão conjugal em torno do Penfield mood organ, um aparelho para induzir estados emocionais pré-configurados nos seus utilizadores (do optimismo para com as possibilidades da vida ao entusiasmo para com o trabalho diário - até aos estados de depressão e despero que Iran aprende a manipular com a mesma atitude passivo-agressiva que encara a relação com Deckard), introduz esta ideia de forma cristalina. Deckard e Iran, como quase todos aqueles que permanecem na Terra, vivem em isolamento e em desagregação, alimentados pelas emoções artificiais dos mood organs, pelos sentimentos de pertença artificiais da religião de Wilbur Mercer ou do niilismo por via da comédia do programa televisivo "Buster Friendly and His Friendly Friends". Um animal vivo, luxo derradeiro numa época na qual a fauna terrestre se encontra praticamente extinta, representa mais do que um símbolo de estatuto social: representa uma criatura com a qual criar laços. Na ausência do animal real, que cobiça, Deckard procura recriar esses laços na sua ovelha mecânica, simulacro tão perfeito como artificial do animal que representa. E é aqui que entram os andróides Nexus-6, na aparência e na inteligência indistinguíveis dos seres humanos, que Deckard caça por profissão. 

É por este prirsma - na destruição do artificial para obter algo real, enquanto mantém a empatia com o artificial - que Philip K. Dick problematiza a empatia e, em última análise, aquilo que define um ser humano. Outros motivos recorrentes na sua obra surgem também em Do Androids Dream of Electric Sheep?, como a dúvida perante a irrealidade do real ou a fragmentação identitária - ambos, porém, surgem como temas auxiliares na exploração filosófica do que significa ser humano - e se tal conceito estará restrito aos humanos de carne e osso, ou se será extensível aos simulacros que a Humanidade concebeu. Que Philip K. Dick tenha conseguido desenvolver este tema de forma tão cativante numa trama intensa, quase noir, oscilando entre os momentos de acção bem ritmados e passagens introspectivas fascinantes atesta em definitivo os seus atributos enquanto ficcionista e a sua capacidade abordar em termos filosóficos temas que outros autores apenas aflorariam com brevidade (convenhamos: uma história simples sobre um caçador de andróides ilegais já seria, em si, bastante apelativa). Do Androids Dream of Electric Sheep? é um clássico incontestável da ficção científica, e um exemplo perfeito da sua obra: complexo, filosófico e multifacetado. 

18 de março de 2014

Total Recall: A persistência da memória

Nos onze anos decorridos entre 1987 e 1997, o realizador holandês Paul Verhoeven realizou três filmes de ficção científica que, não alcançando o estatuto de obras-primas de algumas obras do género suas contemporâneas, acabaram por se tornar em clássicos de culto da ficção científica cinematográfica e em entradas maiores na sua filmografia pessoal (a par, claro, do inevitável Basic Instinct). São, como é bom de ver, três filmes bastante diferentes nos temas abordados, nas narrativas exploradas, e mesmo nas suas origens (um é original, dois são adaptações de clássicos da ficção científica literária). Há entre eles, porém, uma certa homogeneidade na estética e no tom; e essa homogeneidade acaba por aproximá-los, dando forma a uma trilogia tão singular como relevante na ficção científica dos anos 80 e 90. O primeiro filme desta tríade foi Robocop, obra original de Verhoeven da qual aqui falarei em breve (ou assim espero); o último foi Starship Troopers, adaptado de forma muito livre (passe o eufemismo) do romance clássico de Robert A. Heinlein. E entre os dois, no ano de 1990, estreou Total Recall, levantado do conto We Can Remember It for You Wholesale que Philip K. Dick publicou em 1966 nas páginas da revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction

Logo numa das primeiras cenas de Total Recall é possível encontrar um pouco do tom cínico, quase satírico, que viria a marcar Starship Troopers: quando o protagonista, Douglas Quaid (interpretado por Arnold Schwarzenegger) vê no noticiário matinal uma pela sobre a rebelião de mutantes num Marte explorado pela mega-corporação mineira de Vilos Cohaagen (Ronny Cox). A rebelião é prontamente esmagada pelas forças paramilitares de Cohaagen - with minimal use of force, ouve-se a jornalista dizer, entre o som de fogo real. 


Verhoeven, porém, revela uma maior compreensão das idiossincrasias da obra de Philip K. Dick do que outros realizadores que arriscaram adaptações da obra do autor norte-americano (como John Woo). O tom mais próximo da sátira mediática que marcaria o seu filme de 1997 está presente em Total Recall, mas em terceiro ou quarto plano; serve para dar alguma cor ao cenário e para fazer uma introdução inteligente a um plot point que será relevante mais à frente na narrativa - e nada mais. Debaixo da sua violência algo gráfica e da estética marcadamente verhoeveniana, encontramos em Total Recall um filme que explora com competência e sensibilidade as noções de fragmentação de identidade e de realidade, por via da manipulação de memórias e de papéis, que são tão caras a Philip K. Dick.


Total Recall transporta o espectador para Marte logo na primeira cena: um sonho do protagonista passado na superfície de Marte, acompanhado por uma mulher que não conhece - e que cedo se torna evidente não ser a sua mulher, Lori (Sharon Stone). Os sonhos de Marte atormentam Quaid há já alguns anos - quando, na verdade, nunca esteve no Planeta Vermelho. Para tentar lidar com a situação, acaba por recorrer à proposta de um anúncio de uma corporação, a Rekall Incorporated: a possibilidade de ter as memórias completas de umas férias de sonho em Marte, ao invés de empreender a viagem. E com um bónus: poderá visitar Marte na qualidade de agente secreto, numa ficção tornada realidade pela construção de memórias a pedido.


O processo de implantação das memórias, porém, corre mal, e Quaid vê-se envolvido numa conspiração que lhe demonstra toda a sua vida ser falsa, incluindo a sua mulher. Essa conspiração estende-se até Marte, e até ao próprio Cohaagen, e Quaid acaba por partir para Marte em busca não só da sua identidade, mas também de algo que explique a situação em que se encontra - mas quando a realidade que está a viver se começa a assemelhar de forma estranha ao sonho prometido pela Rekall, como distinguir a realidade da ficção?


Verhoeven joga bem com a dúvida constante - o argumento revela-se astuto, construído em redor de reviravoltas bem montadas a explorar as memórias verdadeiras e falsas (e o final consegue resolver todo o enredo sem fornecer uma resposta definitiva, bem ao estilo de Philip K. Dick). A chegada a Marte adensa a trama, colocando em jogo o movimento rebelde de Kuato (aludido no spot informativo inicial) e o próprio Coohagen - até ali, o rosto do vilão foi o seu principal capanga, Richter (numa excelente interpretação de Michael Ironside).


Mas onde Total Recall se transcende é na sua elaborada construção visual, que enriqueceu o enredo sólido com uma estética singular, tipicamente verhoeveniana na sua opção por efeitos práticos imaginativos e uma caracterização soberba. O resultado é sempre imaginativo e, a espaços, icónico. Imagens como o célebre scanner de armas com raio-X, o "Johnny-Cab", os mutantes grotescos e tão humanos de "Venusville" (qual red light district marciano), a prostituta com três seios, o disfarce a desmontar-se e as descompressões violentas na exposição à atmosfera de Marte persistem na cultura popular e deram um contributo inestimável para o (justíssimo) estatuto de culto que o filme alcançou.


Sendo um filme já dos anos 90, Total Recall ainda transporta alguma bagagem temática da década que o antecedeu - o destaque dado à opressão corporativa é disso exemplo. Os elementos tradicionais de Verhoeven estão lá todos - o princípio de sátira, as deixas algo camp, mas o filme ascende acima desses detalhes para explorar, numa fascinante construção visual que em momento algum abdica de um argumento sólido, uma trama típica de Philip K. Dick. É certo que Verhoeven poderá talvez ter tornado o filme mais violento do que o necessário (as histórias de Dick raramente o são, pelo menos em termos físicos), mas isso não retira mérito à qualidade da sua adaptação. 08/10

Total Recall (1990)
Realização de Paul Verhoeven
Argumento de Dan O'Bannon, Ronald Shusett, Jon Povill e Gary Goldman a partir do conto We Can Remember It for You Wholesale, de Philip K. Dick
Com Arnold Schwarzenegger, Rachel Ticotin, Sharon Stone, Michael Ironside, Ronny Cox, Marshall Bell e Mel Johnson, Jr.
113 minutos

25 de fevereiro de 2014

The Adjustment Team: Destino burocrático

Nenhum autor de ficção científica foi (é) tão adaptado ao cinema como Philip K. Dick. Entre contos e romances contam-se já doze adaptações das suas obras - algo que, se considerarmos a complexidade das suas premissas e o surrealismo que as sua prosa evoca, não deixa de ser curioso hoje em dia. E isto, note-se, descontando a sua vasta influência em muitas outras obras. Será talvez difícil ler The Adjustment Team, um conto de 1954 publicado na revista "Orbit Science Fiction" sem pensar em clássicos de culto da ficção científica moderna como The Matrix ou Dark City: a ideia de que a realidade tal como o cidadão comum a conhece é um cenário manipulado a partir de um backstage encoberto ao qual os protagonistas terão acesso, para seu horror, foi uma das pedras de toque de ambos os filmes, capturando os ecos do conto original de Dick para tecer narrativas próprias e bastante influentes no cinema de género que se lhes seguiria. Mas o texto acabaria por conhecer uma adaptação directa em 2011, pela mão de George Nolfi, que se estrearia na realização com The Adjustment Bureau.

E se é certo que a premissa de The Adjustment Bureau é levantada directamente do conto de Dick, os primeiros minutos do filme conseguem afastar as duas obras de forma quase irremediável. O que, em boa verdade, não será talvez uma fraqueza. The Adjustment Team possui alguns elementos que poderiam ser interpretados como demasiado surreais (o primeiro "Summoner" que aparece tem a forma de... um cão), e, se traduzida com rigor para o grande ecrã, toda a descoberta da realidade em ajustamento pelo protagonista iria exigir o trabalho de computer generated images que, nos dias que correm, acaba por se tornar excessivo em tanta ficção científica cinematográfica. Nolfi, seja por limitações orçamentais ou por visão artística, optou por manter da história original apenas o esqueleto da premissa, e desenvolver tudo o resto de forma mais terra-a-terra, puxando a história para o romance. O que acaba por resultar num filme bastante curioso.


The Adjustment Bureau começa com David Norris (Matt Damon), um jovem underdog político em ascensão, em plena campanha eleitoral para representar o estado de Nova Iorque no Senado. O entusiasmo da campanha acaba por não se traduzir em votos: o seu adversário, um político mais velho, acaba por vencer de forma inapelável (talvez se possa encontrar aqui uma crítica a alguns traços dos sistemas políticos ocidentais, mas Nolfi não persegue o ponto). Enquanto prepara o seu discurso de derrota, muito politicamente correcto e by the book, Norris é surpreendido por Elise (Emily Blunt), num encontro imprevisível. O discurso que tinha preparado acaba por dar lugar a outro, improvisado, tão inesperado como excepcional, que consegue relançar a sua carreira política mesmo após tão pesada derrota.


Sem que saiba, Norris encontra-se a ser vigiado por uma equipa de agentes bastante peculiares: o seu propósito não é de todo evidente, e os seus métodos são no mínimo invulgares. Harry (Anthony Mackie) é o agente que está encarregado de acompanhar Norris, e numa certa manhã tem como tarefa fazê-lo entornar o seu café. Uma distracção, porém, impede-o de o fazer, e Norris consegue apanhar a horas o autocarro que era suposto perder. E lá, por uma coincidência espantosa, volta a encontrar Elise. Desta vez, porém, esta dá-lhe o seu contacto e ele promete ligar-lhe de volta.


O problema surge quando chega ao escritório e se depara com uma cena tão bizarra como improvável, que o levará a questionar tudo aquilo que sabe, ou que julga saber, sobre a realidade. A sua tentativa de fuga é rapidamente gorada; e o agente Richardson (John Slattery) explica-lhe que estavam a fazer um ajustamento na realidade, para a colocar de acordo com plano do "Chairman"; e que não só não era suposto ele ter visto aquilo, como também não era suposto ter reencontrado Elise - qualquer envolvimento romântico entre ambos está fora do plano, não devendo por isso acontecer em circunstância alguma. Para reforçar essa necessidade, o contacto de Elise é destruído, e David é ameaçado: se revelar o que ali se passou, as consequências serão terríveis.


David, porém, não consegue afastar Elise da sua mente; e, três anos volvidos, uma nova coincidência volta a fazer com que os caminhos de ambos se cruzem. Ignorando a ameaça dos agentes, David tenta reatar a relação, o que obriga a burocracia oculta a recorrer a métodos mais extremos para o impedir, exibindo a espantosa capacidade de percorrer grandes distâncias utilizando portas aparentemente comuns.


A forma como o tom do filme é estabelecido nas primeiras cenas do filme é excelente: os desempenhos de Matt Damon e Emily Blunt são notáveis, e a química que se estabelece entre duas personagens com personalidades tão diferentes é imediata e credível. Nolfi coloca toda uma série de elementos importantes de forma bastante discreta, utilizando cameos de figuras públicas reais como Jon Stewart para dar verosimilhança à premissa e aludindo tanto à pouca coincidência que existe nos encontros fortuitos de David e Elise como ao poder dos agentes; e estes surgem individualizados e sólidos, quando poderiam ser indistintos. Durante a primeira parte do filme, os agentes são acompanhados por um tom muito próprio, com frequência ligeiro - momentos próximos da comédia acabam por surgir de forma natural, mas nem por isso afastando a ideia de que são a personificação de uma burocracia vasta e inflexível.


Nolfi tem o mérito de não ter caído no facilitismo da acção hiper-violenta gerada por computador e da perseguição alimentada a adrenalina fora de prazo: não se vê em The Adjustment Bureau uma arma, e todas as fugas são feitas a pé, com transições bem montadas entre cenários. Os temas também não se perdem: a paranóia, as dúvidas sobre a realidade e a identidade e a problemática do livre-arbítrio, noções tão caras à obra de Philip K. Dick, estão presentes e são relevantes para o desenrolar da trama. Mas apesar de dar a entender algumas das consequências do não cumprimento do plano fora do círculo pessoal dos protagonistas, o argumento nunca leva essa ideia às suas últimas consequências - e ao optar por não o fazer, não permite que The Adjustment Bureau se revele tão ousado como poderia ser dentro dos seus moldes de romance; e, ao fazê-lo, nunca dá à ameaça burocrática a ameaça necessária para a tornar verosímil.


E essas fraquezas acabam por ter reflexos no último terço do filme, e num final tão inusitado como insípido, resolvido por via de uma espécie de deus ex machina invulgar na medida em que se revela, ao mesmo tempo, literal e ausente. Há um momento em particular no final que parece indicar um desenlace cliché, tão evidente que Nolfi parece tê-lo evitado de propósito. O problema é que tal cliché, por mais batido que esteja (e está), seria naquelas circunstâncias o único desafio possível dentro da lógica interna do filme, e daria ao clímax uma dimensão muito mais elevada.


Quem procurar uma adaptação mais rigorosa dos temas, das ideias e do tom inigualáveis de Philip K. Dick deverá regressar a Richard Linklater e A Scanner Darkly, porventura a mais fiel das transposições da sua ficção para o cinema. As ideias centrais de Dick até estão presentes em The Adjustment Bureau, e o filme recorre aos pilares fundamentais de The Adjustment Team, mas despe-os do surrealismo e da estranheza que pautam o conto original para desenvolver uma história mais terra-a-terra, ancorada com mais firmeza no romance e com um toque de acção que consegue ser eficaz na sua contenção e no seu afastamento das fórmulas contemporâneas. É uma pena que George Nolfi não tenha tido a coragem de levar a premissa às suas derradeiras consequências, sobretudo na segunda parte, e que o final tenha sido tão fraco - duas limitações que não tornam The Adjustment Bureau num mau filme (os desempenhos de Blunt e Damon nunca o permitem), mas não lhe permitem ascender à altura das ideias que propõe. 6.9/10

The Adjustment Team (2011)
Realização de George Nolfi
Argumento de George Nolfi com base no conto The Adjustment Team de Philip K. Dick
Com Matt Damon, Emily Blunt, Anthony Mackie, John Slattery, Terence Stamp e Michael Kelly
106 minutos

20 de fevereiro de 2014

A ficção científica nos "anos 00": Filmes que definem o milénio (até agora)

No io9, Charlie Jane Anders pergunta aos leitores do blogue qual foi, até ao momento, a obra de ficção científica deste ainda novo milénio que melhor o definiu. O que, diga-se de passagem, é uma boa pergunta., ainda que incompleta - Anders refere-se em concreto à literatura, ao cinema e à televisão, mas os "anos 00" consagraram em definitivo os videojogos como um veículo narrativo do género, e vários são os títulos que poderiam ser mencionados. Para simplificar um pouco (e para ocultar as minhas vastas lacunas no que à literatura de ficção científica contemporânea diz respeito), este artigo vai restringir-se ao cinema - e ainda que neste meio os "anos 00" não tenham sido tão impressionantes como as duas décadas anteriores, estrearam ao longo dos últimos 14 anos vários filmes de ficção científica marcantes, talvez até revolucionários num detalhe ou outro - nada da dimensão de The Matrix no final dos anos 90, é certo, mas o milénio ainda mal começou. Nem por isso, porém, deixaram vários filmes de capturar muito bem alguns fragmentos - quando não autênticas tendências - do air du temps. Abaixo, seguem quatro propostas (e uma menção honrosa).

Minority Report (Steven Spielberg, 2002)
Deixando o óbvio fora do caminho desde logo - não, esta adaptação de Steven Spielberg ao célebre conto de Philip K. Dick não está sequer perto de ser um dos melhores filmes de ficção científica estreados após a viragem do milénio (apesar de ser um filme bastante acima da média, e um ao qual talvez não tenha dado o devido valor). Olhando hoje para trás, porém, não deixa de ser impressionante ver como as suas interfaces tácteis, tão arrojadas em 2002, se tornaram banais em 2014. Só por essa curiosidade tecnológica o filme já seria merecedor de atenção em qualquer exercício deste género; se a isso juntarmos o elefante na sala que é a erosão da privacidade pela publicidade intrusiva, direccionada e contextualizada (Google, anyone?) e as questões éticas sobre a vigilância electrónica compulsiva, então Minority Report revela-se estranhamente presciente quanto aos anos que estavam ainda por vir. 

Children of Men (Alfonso Cuarón, 2006)
Para além de ser provavelmente o melhor filme de ficção científica deste milénio (até agora), Children of Men acertou cheio no air du temps contemporâneo - cinzento carregado, depressivo e um tanto ou quanto desesperado (e desesperançado). Numa palavra odiosa: grimdark. Na ambiguidade do seu final não cabe, ou poderá não caber, a relativa paz do final de Minority Report ou de Eternal Sunshine of the Spotless Mind (outro dos grandes da década); e o futuro que prevê, de esterilidade humana generalizada, estará longe de se verificar (ainda que possa talvez servir de metáfora para o declínio populacional ocidental). Mas as questões de imigração e integração que o filme aflora com brevidade são hoje bastante actuais; e os tumultos sociais que Cuarón filmou com a sua mestria inimitável assemelham-se bastante - porventura demasiado - a algumas situações que têm emergido, com mais regularidade do que seria desejável, ao longo da última década. 

District 9 (Neill Blomkamp, 2009)
O filme de estreia de Neill Blomkamp surge aqui quase como bónus. A sua importância, é certo, não pode ser negada - a nomeação para o Óscar na categoria principal (feito alcançado por muito poucos filmes de género até à data) atesta-o, tal como a aclamação crítica mais ou menos generalizada. Mas numa época em que a ficção científica passa por uma crise de identidade, o exercício de Blomkamp torna-se notável pela sua capacidade de recuperar e refrescar convenções antigas do género, utilizando-as como veículo para um comentário social tão actual como devastador. E fê-lo sem abdicar da acção frenética e da estética sofisticada que são o bread and butter de muita ficção científica cinematográfica nos dias que correm, num filme com personagens memoráveis e uma construção narrativa muito eficaz. District 9 provou em definitivo que a ficção científica no cinema é mais do que os seus efeitos especiais - utilizada com mestria, pode dar uma perspectiva única sobre temas já antigos e tantas vezes retratados na Sétima Arte. Convenhamos: o tema da segregação racial, e mesmo do appartheid, não são novos no cinema; mas quantos filmes conseguiram abordá-los com uma metáfora tão poderosa como a transformação de Wikus van der Merwe?

The Avengers (Joss Whedon, 2012)
Na secção de comentários do artigo original, um comentador elegeu Avatar, de James Cameron, como o filme mais representativo deste milénio - pelo domínio do visual sobre a narrativa. A ideia tem o seu mérito; mas no que aos blockbusters diz respeito julgo que The Avengers, de Joss Whedon, será talvez mais representativo do blockbuster moderno - para todos os efeitos, foi o culminar de uma aposta que se estendeu ao longo de uma década inteira (o malfadado Hulk de Ang Lee estreou, convém lembrar, em 2003) que deu aos super-heróis da Marvel um lugar de destaque na cultura popular do novo milénio e que deu um contributo decisivo para retirar os super-heróis da coutada nerd à qual pertenciam e torná-los trendy. Ainda que nem todos os filmes que desaguaram em The Avengers tenham sido de facto bons (em termos médios, a coisa terá sido talvez medíocre), a aposta foi ganha e o modelo de negócio triunfou - que a segunda fase do plano, com vista a The Avengers 2: Age of Ultron esteja já em marcha e que a adaptação de Guardians of the Galaxy, muito mais arriscada por se tratar de uma propriedade intelectual menos conhecida e mais science fiction-y, esteja a ser aguardada com muita expectativa são prova disso mesmo.

Menção honrosa: Moon (Duncan Jones, 2009)
Puro wishful thinking: Moon, com o seu minimalismo narrativo, estético e, acima de tudo, orçamental, poderá vir a ser para anos vindouros exemplo de como é possível contar uma excelente história de ficção científica sem um orçamento de centenas de milhões de dólares, um elenco polvilhado de estrelas e excesso de pirotecnia visual. Para já, fica a promessa. 

Fonte: io9

27 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (2): Os melhores contos

(Dangerous Visions, ed. Harlan Ellison, 1967)

Podia fazer esta lista apenas com contos retirados de Dangerous Visions (retrospectiva aqui), a antologia revolucionária com a qual Harlan Ellison deu em 1967 o impulso definitivo à “New Wave” norte-americana (deste lado do Atlântico, o movimento assentava na revista “New Worlds”, de Michael Moorcock). Robert Silverberg, Norman Spinrad, Poul Anderson, John Brunner, Roger Zelazny – os contos de todos estes autores na antologia mereceriam sem dúvida figurar nesta curta lista. Opto, porém, por destacar o texto submetido por Philip K. Dick: Faith of Our Fathers é um conto magnífico, psicadélico e abstracto q.b., sobre dois dos temas que mais marcaram a obra deste gigante do género: a irrealidade da realidade e a experiência religiosa. Situado num Vietname distópico reminescente da China comunista, o conto centra-se em Tung Chien, funcionário da burocracia estatal, que por consumo de uma estranha droga começa a ver alucinações tão estranhas como horríveis. Mas serão essas alucinações a realidade, ou um mero resultado das drogas? Intenso e surpreendente, Faith of Our Fathers é um conto soberbo de Philip K. Dick, e uma complexa reflexão sobre a natureza da realidade e a percepção religiosa.

("IF: Worlds of Science Fiction", Março de 1967)

Antes do HAL-9000 de Kubrick e Clarke se tornar numa das mais icónicas Inteligências Artificiais da ficção científica, antes de a Skynet causar o apocalipse em Terminator e antes da passivo-agressiva GlaDOS dizimar todos os cientistas da Aperture Science em nome da ciência, houve AM: a cruel IA que manipulou física e mentalmente os últimos cinco seres humanos da Terra e os colocou num labirinto infinito. Porquê, não se sabe; o leitor apenas fica a conhecer indícios do trágico destino da Humanidade quando a Singularidade emergiu em plena guerra mundial, e o puro horror que os cinco sobreviventes experimentam naquele labirinto, entregues aos humores e aos desígnios insondáveis de AM. Harlan Ellison é um mestre da forma curta, e isso nota-se: a prosa excepcional e visual, a construção de tensão e os momentos de puro horror fazem de I Have No Mouth, and I Must Scream um texto notável, que atravessa géneros e se lê hoje com o mesmo terrível fascínio de há quase cinco décadas.

("Galaxy Science Fiction", Dezembro de 1965)

Talvez este extraordinário conto de Harlan Ellison seja tão pertinente hoje, com as distopias e o tom grimdark, a dominar o género, como foi no seu tempo. "Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman abre com uma citação de Thoreau e conta a história do Harlequin, que com as suas partidas ameaça virar do avesso aquela sociedade futurista, distópica e obcecada com o tempo e com a pontualidade, desafiando o poder absoluto do Ticktockman. Contado de forma não-sequencial, o conto começa no meio, explica o início e termina, muito apropriadamente, no final; e nos entretantos, o leitor pode deliciar-se com a extraordinária prosa de Ellison, capaz de conjurar algumas das mais memoráveis e persistentes imagens da ficção científica que li durante 2013. Da disrupção causada por jelly beans impossíveis à descrição de como o mais pequeno atraso ameaça derrubar as fundações de toda uma sociedade escravizada pela tirania do relógio, "Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman é um texto notável, capaz de descrever a mais obscura das distopias sem em algum momento cair num tom sombrio e tenebroso.

(New Dimensions 3, 1973)

Mais uma parábola do que um conto propriamente dito, este texto de Ursula K. Le Guin descreve a cidade de Omelas, um lugar magnífico onde os seus habitantes, cultos e esclarecidos, vivem na abundância e na felicidade absoluta. Mas tal abundância e tal felicidade dependem de um segredo especialmente sórdido, do conhecimento obrigatório de todos quando atingem a maioridade; e se alguns aprendem a viver as suas vidas na abundância e na felicidade sem pensar nessa sombra, outros revelam-se incapazes de a suportar - e são esses que abandonam Omelas para parte incerta, tão incapazes de nela viver como de a mudar. Com a sua prosa excepcional e evocativa, Le Guin recria em The Ones Who Walk Away From Omelas um micro-universo verosímil, e utiliza-o com mestria para colocar algumas questões complexas sobre a oposição entre o indivíduo e o colectivo e o preço a pagar pelo bem comum.  

16 de dezembro de 2013

Philip K. Dick (1928 - 1982)

Philip Kindred Dick nasceu a 16 de Dezembro de 1928. Natural de Chicago, Dick mudou-se com a família para a Califórnia ainda em criança - e lá viria a residir durante o resto da sua vida. Estudou na Berkeley High School, em Berkeley, onde esteve na mesma turma de Ursula K. Le Guin - sem se conhecerem ou suspeitarem que viriam a ser dois dos maiores nomes da ficção científica literária a partir das décadas de 50 e 60. 

Os seus primeiros contos publicados apareceram nas páginas de revistas como "Planet Stories", "If" e "The Magazine of Fantasy and Science Fiction" em 1952; o seu primeiro romance, Solar Lottery, data de 1955. Os seus contos tornaram-se notáveis pelo seu ritmo, pelas premissas inesquecíveis e pelas questões desconcertantes que colocam: titulos como PaycheckThe Adjustment TeamThe Father Thing, The DefendersSecond VarietyWe Can Remember It for You Wholesale ou Minority Report, para referir apenas alguns dos mais conhecidos, são disso exemplos perfeitos. Dick ambicionava uma carreira literária no mainstream, mas foi na ficção científica que acabaria por deixar um legado vasto, multifacetado e desafiante - que, não sem ironia, acabaria por obter reconhecimento literário após a sua morte. em 1962, publica The Man in the High Castle, romance ousado no qual imagina um mundo pós-Segunda Guerra Mundial da qual as forças do Eixo teriam saído vitoriosas, com os Estados Unidos divididos entre a Alemanha Nazi e o Japão Imperial; viria a vencer o Prémio Hugo no ano seguinte, confirmando o seu estatuto no género. 

Já aqui, como em vários dos seus primeiros contos, Dick explora as fronteiras da realidade, interrogando-se permanentemente sobre a sua natureza - um tema que, a par das questões identitárias, se viria a tornar central em toda a sua obra. Em Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968), projecta uma fascinante Califórnia pós-apocalíptica na qual um animal de estimação real é peça fundamental para o estatuto social e onde a experiência religiosa se transformou de forma radical - e onde seis andróides ilegais regressam à Terra, levando o caçador de prémios Rick Deckard a ter de caçá-los um por um. Em Ubik (1969), cria um estonteante jogo de espelhos com a história dos anti-psíquicos de Glen Runciter, vítimas de um atentado que matou o seu chefe - ou que os terá matado a eles? E em A Scanner Darkly (1977) conta a história de um polícia da brigada de narcóticos que se infiltra entre os traficantes e se investiga a si mesmo. E muitos outros, como The Martian Time-SlipValis, The Three Stigmata of Palmer Eldritch ou The Transmigration of Timothy Archer, último romance publicado antes da sua morte prematura, em 1982 - três meses antes da estreia de Blade Runner, filme de Ridley Scott que adaptou para o grande ecrã o romance Do Androids Dream of Electric Sheep? para se tornar numa das obras maiores da ficção científica literária.

De facto, no que às adaptações cinematográficas diz respeito, Philip K. Dick domina incontestado na ficção científica - já foram produzidos 12 filmes com base na sua bilbiografia, e o conto King of the Elves tem adaptação prevista para 1016 pela Disney. We Can Remember It for You Wholesale foi adaptado duas vezes, por Paul Verhoeven em 1991 e por Len Wiseman em 2012; ambos os filmes receberam o título de Total Recall. Minority Report, Paycheck, The Adjustment Team, Second Variety, Radio Free Albemuth e A Scanner Darkly contam-se entre os seus trabalhos adaptados para o grande ecrã, com mais ou menos sucesso. Houve planos da parte de Michael Gondry para adaptar Ubik, mas pouco se sabe ainda sobre tal projecto. 

Se fosse vivo, estaria hoje a celebrar o seu 85º aniversário. Mas a sua obra persiste, e merece ainda hoje, mais de 30 anos volvidos sobre a sua morte, uma leitura atenta - pela forma como desconstruiu a realidade, pela visão que teve do invisível, ou, mais simplesmente, pela genuína inteligência das suas tramas. 

5 de novembro de 2013

Paycheck: Philip K. Dick subaproveitado

Há alguns meses, publiquei aqui uma breve análise a Paycheck, um conto escrito por Philip K. Dick em 1952 e publicado pela primeira vez no ano seguinte nas páginas da revista Imagination. E, tal como boa parte da ficção curta de Dick, Paycheck apresenta uma premissa estimulante: num futuro distópico no qual os indivíduos vivem entalados entre os poderes opressores e antagónicos das mega-corporações e de um Estado quase-totalitário, Jennings, um mecânico talentoso, aceita um contrato de trabalho invulgar da parte da poderosa Rethrick Construction. Esse contrato prevê que, a troco de uma pequena fortuna, Jennings trabalhe para um projecto secreto da corporação durante dois anos; e, chegado ao final do prazo, todas as suas memórias daquele período serão permanentemente apagadas da sua mente. Mas ao chegar ao final do prazo, Jennings depara-se com uma amarga surpresa: durante aquele tempo, reviu o contrato para abdicar do pagamento milionário em troco de sete objectos sem valor aparente - prática algo comum entre os trabalhadores que aceitavam aquele tipo de contrato. Para espanto de Jennings, porém, aqueles objectos revelam-se de grande utilidade, não só para revelar as verdadeiras actividades da Rethrick Construction, como também para lhe assegurar um futuro livre tanto da opressão estatal como da corporativa. A descoberta da utilidade de cada objecto dá o mote para um conto bem ritmado e quase cinematográfico nas suas reviravoltas - e, no início da década passada, o realizador John Woo e o argumentista Dean Georgaris adaptaram esta história para filme. O resultado teve estreia no final de 2003: Paycheck


A premissa estabelecida no conto de Dick, como é bom de ver, tem imenso potencial. Infelizmente, a dupla Woo e Georgaris desperdiçou-a num filme de acção genérico, sem alma ou rasgo de criatividade. Esse é o grande problema de Paycheck, e não adianta dourar a pílula aqui: o conceito provocador que lhe está subjacente é posto de lado logo nos primeiros momentos do filme pela aparente necessidade de firmar ganchos narrativos para cenas de acção subsequentes. Quando se vê o protagonista, Jennings (interpretado por Ben Affleck), a praticar artes marciais com um bo staff, sabe-se logo que a coisa mais não é do que uma chekhov's gun. Da mesma forma, à medida que o filme avança é impossível não suspeitar de que os gadgets do laboratório de botânica biologia de Rachel (Uma Thurman) antevêem uma inevitável sequência de acção.


Paycheck abre com a memória de Jennings a ser apagada (numa máquina roubada a Total Recall) após um contrato de algumas semanas, estabelecendo de forma óbvia (porventura necessária, concedo) a premissa central. O contrato principal, de três anos, serve para apresentar os principais antagonistas, Rethrick (Aaron Eckhart) e o seu capanga, Wolfe (Colm Feore) - e uma elipse bem conseguida transporta o enredo com eficácia para o momento em que um Jennings atordoado (porventura a única interpretação que Affleck faz com distinção - a de alguém abananado após lavagem cerebral) percebe que não vai receber a fortuna prometida, mas sim um envelope com 20 objectos sem valor aparente.


Com estes 20 objectos (no conto eram sete) é estabelecida a ideia central do filme. Esta, porém, surge desenquadrada do seu contexto original. Não há um futuro opressivo com mega-corporações a opor-se a um Estado controlador e omnipresente, com os indivíduos esmagados no meio do conflito; não há uma revolução latente, e de moralidade ambíngua. Paycheck, o filme, procura explorar antes outra ideia, que Dick deixou suspensa no seu conto: o conhecimento do futuro gera um sem-número de self-fulfilling prophecies com resultados devastadores. Em teoria, a ideia até é boa; mas na prática, a execução dificilmente poderia ser pior.


Isso acontece porque, como já foi referido, o filme parece mais preocupado em estabelecer as sequências de acção do que em explorar as ideias propostas - e, para isso, recorre a todos os clichés que constam no manual de Hollywood. Perseguições infindáveis pautadas por product placement, explosões e stunts impossíveis. Um romance previsível e irrelevante. Actores a estrebuchar entre o diálogo medíocre e as acções incongruentes que o guião lhes impõe - ver o stand-off de Jennings e Wolfe nos túneis do metro torna-se risível. Aaron Eckhart em modo comic book villain. Uma Thurman muito apagada (quem a viu em Gattaca..!). E Ben Affleck igual a si mesmo.


A partir deste ponto, a única coisa que poderia salvar Paycheck, o filme, seria o enigma que cada objecto encerra. Mas nem isso: a partir do momento em que passam de sete para 20, torna-se impossível ao espectador ponderar a utilidade de cada um; e a excelente sequência de reviravoltas do final do conto, que torna impossível concluir a leitura sem um sorriso perante aquele desfecho, dá lugar ao supremo disparate: ao invés de fechar o círculo e apanhar os espectadores de surpresa com um rasgo de inteligência no desfecho, o último objecto serve para gerar uma explosão. Uma explosão.


É uma pena que Paycheck, o filme, seja tão típico Hollywood. Nas mãos de um realizador e de um argumentista mais interessados em explorar as ideias subjacentes à distopia criada por Philip K. Dick do que em encontrar um veículo para perseguições, explosões e pancadaria coreografada, a premissa da história que adapta para o grande ecrã seria mais do que suficiente para sustentar um filme de ficção científica estimulante e provocador. Como está, porém, é apenas mais um filme de acção baseado em ficção científica, com mais músculo do que cérebro, com boas ideias mal executadas ou não executadas de todo, e com um elenco talentoso incapaz de produzir um desempenho digno de nota (positiva, entenda-se). Ainda assim, o esqueleto do conceito elaborado por Dick está lá, e a ideia explorada através dessa premissa acaba por ser interessante - e esses dois elementos conseguem dar um módico de interesse a um filme regra geral desinteressante. 4.5/10

Paycheck (2003)
Realizado por John Woo
Argumento de Dean Georgaris com base no conto de Philip K. Dick
Com Ben Affleck, Aaron Eckhart, Uma Thurman, Paul Giamatti, Colm Feore, Michael C. Hall, Joe Morton e Kathryn Morris
119 minutos

13 de outubro de 2013

Citação fantástica (88)

He felt all at once like an ineffectual moth, fluttering at the windowpane of reality, dimly seeing it from outside.

Philip K. Dick, Ubik (1969)

12 de setembro de 2013

Cinco livros de ficção científica para quem não lê ficção científica

Há dias, o diário britânico The Guardian publicou na sua edição online um daqueles artigos recorrentes em forma de lista - no caso, de cinco livros de ficção científica "para pessoas que odeiam ficção científica". A questão parece-me a mim mal colocada: quem de facto "odiar" a ficção científica dificilmente irá apreciar qualquer coisa relacionada com o género. Mas, como é sabido, entre o amor e o ódio há um território muito vasto, e muitos serão os livros indicados para quem ainda não conhece o género, ou para quem acha que a ficção científica literária se resume a um Star Wars ou a um Star Trek em página escrita (mesmo que já tenha lido clássicos como Nineteen Eighty-Four ou Brave New World). A lista do The Guardian foi compilada por Damien Walter, e pode ser lida aqui. Abaixo, seguem as minhas cinco sugestões:

A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. (1960): Antes de Mad Max ter levado a iconografia do pós-apocalipse para o deserto australiano - e antes mesmo de o pós-apocalipse se ter tornado numa das grandes tendências contemporâneas da ficção de género, capaz mesmo de atrair autores mainstream -, já Walter M. Miller, Jr. tinha definido essa iconografia num dos grandes clássicos da ficção científica: A Canticle for Leibowitz. Num tom tão cínico como irónico, Miller descreve de forma bem humorada, mas nem por isso pouco séria, como a Humanidade está condenada a repetir os seus erros vários séculos após a guerra nuclear que causou a queda da civilização. Os monges da Abadia de Leibowitz procuram reproduzir e preservar todo o conhecimento científico a que consigam deitar a mão, independentemente do seu entendimento sobre esse conhecimento (quase sempre nulo).

Flowers for Algernon, de Daniel Keyes (1966): Se há um livro incontornável em termos de recomendações de ficção científica para quem não é leitor habitual do género, será sem dúvida este clássico de Daniel Keyes. Flowers for Algernon conta a história de Charlie, um jovem com um atraso mental severo que deseja, mais do que tudo, ficar inteligente. Para isso submete-se a uma intervenção revolucionária, testada apenas no ratinho Algernon. Mas nem tudo corre conforme esperado - à medida que a sua inteligência aumenta, a visão que Charlie tinha do mundo passa rapidamente de ingénua para cínica. É uma história tocante, narrada através das páginas dos "relatórios de progresso" escritas por Charlie durante as várias etapas do tratamento - com as suas aptidões linguísticas a acompanharem a sua evolução. E, acima de tudo, Flowers for Algernon é uma história especialmente humana - sobre os nossos receios, as nossas expectativas e a forma como nos relacionamos com os outros. Imperdível. 

The Lathe of Heaven, de Ursula K. Le Guin (1971): A lista do The Guardian destaca The Left Hand of Darkness, obra-prima de uma das maiores prosadoras da ficção científica; pessoalmente, porém, julgo que o sub-apreciado The Lathe of Heaven será porventura mais adequado como introdução ao género. George Orr vive atormentado pelos seus sonhos - alguns dos quais possuem a extraordinária capacidade de mudar o mundo. Literalmente. Para evitar ser internado por loucura aparente, Orr submete-se a sessões psiquiátricas com William Haber, cujo cepticismo inicial passa a espanto quando confirma o poder de Orr. E o espanto, como é evidente, cedo dá lugar a uma tentativa, sempre bem intencionada, de construir a Utopia... Numa história quase ao estilo de Philip K. Dick, Le Guin usa a premissa dos sonhos de Orr como alicerce de um enredo aliciante, que serve de pretexto para algumas intrigantes reflexões sobre a natureza humana e sobre o preconceito.

The Forever War, de Joe Haldeman (1974): Há quem diga que The Forever War foi a resposta de Haldeman ao militarismo de Heinlein no clássico Starship Troopers. Mas mais do que isso, The Forever War é uma história poderosa sobre a natureza (e, em última análise, a irrelevância) da guerra e sobre as alterações profundas, quando não irreversíveis, que causa em todos aqueles que a vivem no terreno - e sobre o regresso destes homens e destas mulheres a um mundo que juraram proteger, mas ao qual já não pertencem. Haldeman combateu no Vietname, e retira da sua vivência as bases deste romance; e utiliza com mestria convenções da ficção científica e um rigor científico impressionante para passar a sua mensagem com uma vivacidade e uma emergência singulares. Em termos meramente temáticos, dos cinco livros referidos talvez seja aquele que mais se aproxima da ideia generalizada da ficção científica no mainstream (guerras contra alienígenas); mas a verdade é que The Forever War é também um exemplo perfeito de como a ficção científica pode servir, sem abdicar das suas convenções, para explorar temas contemporâneos de grande pertinência.

A Scanner Darkly, de Philip K. Dick (1977): E, claro, se falamos de The Lathe of Heaven também podemos passar logo para Philip K. Dick - o autor de ficção cientifica cuja obra mais vezes foi adaptada ao cinema, e também um dos escritores do género mais apreciados fora dele. Os seus romances intricados questionam com frequência a condição humana e o que é, ou não é, a realidade - e A Scanner Darkly não é excepção. Bob Arctor vive duas vidas: numa delas, divide casa com alguns consumidores de drogas, sobretudo da perigosa Substância D; na outra, é um agente infiltrado da Brigada de Narcóticos, uma identidade que mantém em segredo tanto dos seus companheiros de casa como das próprias autoridades. Mas quando o seu consumo prolongado da droga faz com que as duas identidades se misturem, as fronteiras entre realidade e ilusão começam a esbater-se. A Scanner Darkly é também uma história auto-biográfico - mas mais do que isso, é um dos expoentes máximos do legado de Philip K. Dick, e uma introdução perfeita tanto à sua obra como à ficção científica, por demonstrar que esta pode ser tão terra-a-terra como qualquer romance dito literário. 

Fonte: The Guardian

26 de julho de 2013

Ubik e a irrealidade da realidade

Num ano de 1992 alternativo, a Humanidade já colonizou a Lua, desenvolveu tecnologia capaz de preservar a consciência de pessoas falecidas durante algum tempo (num estado de half-life, em animação criogénica) e pessoas com poderes psíquicos tornaram-se algo comuns - ou pelo menos suficientemente comuns para o fenómeno não causar estranheza, e ser aproveitado para vários fins mais ou menos legais. Como a espionagem industrial, por exemplo. Com base nessas circunstâncias, o empresário Glen Runciter fundou uma empresa muito especial, que contrata pessoas com a capacidade de anular poderes psíquicos (anti-psíquicos, digamos assim), "vendendo" privacidade a pessoas e empresas que possam adquirir tais serviços. 

Esta premissa formidável, por si só, seria mais do que suficiente para um escritor talentoso desenvolver uma história de ficção científica fascinante - mas Philip K. Dick elevou-a à sua potência máxima em 1969 com um dos seus mais conceituados romances. Em Ubik, Dick desenvolve uma narrativa complexa com uma realidade estranha, num estado impossível de desintegração e regressão após um estranho incidente envolvendo Runciter e a equipa de anti-psíquicos liderada pelo protagonista, Joe Chip. Mas o que terá causado o acidente? E qual será o papel que Pat, a enigmática mulher com quem Chip se envolveu, estará a representar com o seu poder extraordinário? E o que será "Ubik"? Talvez esta seja a pergunta mais pertinente: cada capítulo abre com um pequeno texto publicitário a "Ubik", sempre com um estilo diferente e sempre referindo-se a um tipo de produto diferente. 

Dick explora em Ubik múltiplas realidades com um grau de incerteza elevado - um dos seus temas mais caros, aqui excepcionalmente desenvolvido. Do início ao fim, a aventura de Chip e da sua equipa é pautado por uma estranheza constante, sempre em crescendo - com uma das mais extraordinárias red herrings que já tive a oportunidade de encontrar na ficção científica literária. Philip K. Dick desenvolve com mestria um mundo ficcional verosímil e interessante para logo de seguida envolver o leitor com um enigma cuja resolução assenta em pistas e indícios aparentemente impossíveis - e cujo excelente final talvez não esclareça todas as dúvidas (e acrescente mesmo uma camada às múltiplas camadas de mindfuck). Tal como em A Scanner Darkly ou The Man in the High Castle (ou em muita da sua excelente ficção curta), em Ubik Dick interroga o leitor sobre a natureza da realidade através das suas personagens e das situações ambíguas em que as envolve - e, como aqueles títulos, Ubik é um clássico incontestável tanto da vasta bibliografia de Philip K. Dick como da ficção científica em geral.

A adaptação de Ubik para o cinema encontra-se ainda no início do seu desenvolvimento, com realização de Michel Gondry (Eternal Sunshine of the Spotless Mind).

19 de abril de 2013

A ficção curta de Philip K. Dick (2): The Variable Man, Paycheck, The Adjustment Team

The Variable Man: Corria o ano de 1953 quando Philip K. Dick publicou a novela The Variable Man na revista britânica "Space Science Fiction", onde conseguiu fazer algo extraordinário: combinar numa história interessante e ritmada dois temas tão distintos como as viagens no tempo e a space opera, com um toque de distopia característica do período da Guerra Fria. Com a Humanidade limitada aos nove planetas do Sistema Solar pelo vasto e decadente império alienígena de Proxima Centauri, as melhores mentes da Terra tentam encontrar novas armas ou estratégias que lhes permitam dar a volta às probabilidades, rigorosamente produzidas por computadores e monitorizadas pelo Governo. Mas as vastas redes de espionagem de ambas as facções cedo neutralizam quaisquer vantagens tácticas ou tecnológicas - até ao dia em que o Dr. Peter Sherikov, um brilhante cientista polaco e um acérrimo individualista numa sociedade cada vez mais colectivizada, descobre o potencial bélico de uma tecnologia experimental abandonada. As probabilidades caem enfim para o lado da Terra, mas quando tudo parece preparado para começar a guerra, surge uma variável - um homem variável - capaz de tornar quaisquer probabilidades irrelevantes. Ainda que um ponto muito concreto da premissa possa exigir alguma suspensão da descrença adicional, e que vários dos conceitos estejam datados (o que não se estranha numa história com 60 anos), o ritmo narrativo elevado, o antagonismo entre Sherikov e Reinhart, o intrigante Cole e todo o mundo que Philip K. Dick descreve como suspenso na estatística dão a The Variable Man uma maior densidade. E algumas das ideias que contém perduram, e talvez sejam mais actuais hoje do que nos anos 50.

Paycheck: O segundo pensamento que me ocorreu quando li o conto Paycheck, de Philip K. Dick, foi: "como foi possível terem feito um mau filme com base numa premissa tão boa?" (a avaliação não é minha; há uma curiosa unanimidade entre público e crítica neste caso). O primeiro pensamento, claro, foi que Paycheck é um conto formidável, uma narrativa vertiginosa assente numa excelente premissa. Escrito em 1952 e publicado originalmente em 1953 na revista "Imagination", Paycheck conta a história de Jennings, um homem com um talento singular em electrónica que fez um contrato de dois anos com a enigmática "Rethrick Construction", durante os quais trabalhará num projecto secreto - tão secreto que, findo o contrato, todas as suas memórias daqueles dois anos de vida serão para sempre apagadas. Jennings aceita, em troca de um pagamento milionário - mas quando o vai receber, depara-se com uma alteração contratual, assinada pelo próprio, trocando uma pequena fortuna por sete objectos sem valor aparente. Mas nesses objectos está a chave para o que fez durante os dois anos anteriores -e para uma recompensa muito maior. A premissa é interessante, mantendo sempre um enigma por solucionar à medida que Jennings descobre para que serve cada objecto (e à medida que Dick desarma o leitor com os seus típicos twists, que mesmo previsíveis são bons), e o ritmo muito rápido empresta força à acção e dá a toda a história um contorno quase cinematográfico. 

The Adjustment Team: Este conto, publicado em 1954 na revista "Orbit Science Fiction", faz parte da obra de Philip K. Dick já adaptada para o cinema (no filme The Adjustment Bureau, de 2011, realizado por George Nolfi), mas os seus motivos e as imagens que recria parecem ecoar em muita ficção científica posterior. Mais do que isso, é um conto no qual Philip K Dick começa a explorar alguns temas que se tornariam recorrentes na sua obra, questionando o livre arbítrio, o que é humano e o que é real, e o carácter real da realidade como a conhecemos. Ed Fletcher tem uma vida normal até ao dia em que uma falha numa misteriosa burocracia o faz chegar ao trabalho no único dia em que, sem que o soubesse, tal não poderia acontecer. E perante a realidade como ela é - ou será que é? -, a reacção de Fletcher é imprevisível. A premissa intrigante é sustentada por uma descrição irreal fascinante e por uma narrativa ritmada, com um final excepcional. 

11 de fevereiro de 2013

The Man In the High Castle de Philip K. Dick com adaptação pelo SyFy Channel

The Man in the High Castle, de Philip K. Dick, será adaptado para uma mini-série televisiva de quatro horas - não para a BBC, como estava originalmente previsto, mas para o SyFy Channel. A notícia foi avançada hoje pelo SyFy, que anunciou também o produtor executivo desta adaptação: Frank Spotnitz, argumentista e produtor de vários episódios de séries de culto como X-Files e Millennium. A produção da série continuará a cargo dos estúdios de Ridley Scott, tal como estava previsto quando a série ainda estava a ser planeada para a BBC. 

Premiado com o Prémio Hugo em 1963, The Man in the High Castle é uma das mais populares obras de Philip K. Dick, na qual imagina um mundo onde as forças do Eixo venceram a Segunda Guerra Mundial, tendo os Aliados sido derrotados. A história decorre nuns Estados Unidos divididos entre o Império Japonês e a Alemanha Nazi. Do ponto de vista conceptual é uma narrativa fascinante, e a forma como introduz várias realidades alternativas dentro de uma realidade, em si, alternativa, é muito interessante; do ponto de vista do enredo, porém, The Man in the High Castle nunca me encantou como outros trabalhos do autor, entre os quais destacaria Ubik, A Scanner Darkly ou Do Androids Dream of Electric Sheep?. Ainda assim, este será sem dúvida um projecto muito ambicioso e com imenso potencial - e, a concretizar-se, será mais uma adaptação da obra de Philip K. Dick, um dos autores de ficção científica cuja obra mais vezes foi transporta para meios audiovisuais. 


3 de fevereiro de 2013

Citação fantástica (52)

What does a scanner see? he asked himself. I mean, really see? Into the head? Down into the heart? Does a passive infrared scanner like they used to use or a cube-type holo-scanner like they use these days, the latest thing, see into me - into us - clearly or darkly? I hope it does, he thought, see clearly, because I can't any longer these days see into myself. I see only murk. Murk outside; murk inside. I hope, for everyone's sake, the scanners do better. Because, he thought, if the scanner sees only darkly, the way I myself do, then we are cursed, cursed again and like we have been continually, and we'll wind up dead this way, knowing very little and getting that little fragment wrong too.

Philip K. Dick, A Scanner Darkly (1977)

1 de fevereiro de 2013

A ficção curta de Philip K. Dick (1): The Little Movement, The Defenders, Faith of Our Fathers

The Little Movement é um conto de Philip K. Dick publicado originalmente na Magazine of Fantasy & Science Fiction em 1952 e desde então reeditado em várias antologias. Hoje, hoje pode ser encontrado na colectânea Beyond Lies the Wub, primeiro dos cinco volumes que compõem a obra The Collected Stories of Philip K. Dick. É um conto pequeno mas muito interessante, que tem como protagonista um soldado brinquedo de corda que tem vida própria, e que faz parte de um grupo de brinquedos com uma agenda um tanto ou quanto sombria - e, para a levar a cabo, necessita da ajuda (ou da obediência) não dos adultos, mas das crianças. Com um twist final muito curioso - traço comum a outros contos de Philip K. Dick -, The Little Movement é uma fantasia que, julgo, será muito apelativa a quem sempre viu os brinquedos da sua infância como algo mais do que os meros objectos inanimados que aparentavam ser. Dos ainda poucos contos que li do autor, não estará entre os melhores, mas foi sem dúvida um dos que mais me divertiu e tocou. 

The Defenders é um conto de 1953 que, tal como The Little Movement, encontra-se hoje publicado no volume Beyond Lies the Wub. Philip K. Dick imagina um futuro alternativo no qual a Guerra Fria acabou por originar um conflito nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, obrigando as populações de ambas as super-potências a viver em vastas cidades subterrâneas, abrigadas da radiação, a manter uma economia de guerra que sustenta hostilidades continuadas à superfície. Mas aqui, a guerra é travada não através de seres humanos, mas de robots, autênticos soldados artificiais capazes de aguentar níveis de radiação mortíferos para os seres humanos. É uma história muito interessante sobre a natureza e a futilidade da guerra, com um ritmo excepcional a convergir na expectável mas algo inesperada reviravolta final. The Defenders conheceu uma adaptação radiofónica no programa de rádio "X Minus One", de George Lefferts, e a sua premissa serviu de base ao livro The Penultimate Truth, de 1964. O conto pode ser lido na totalidade no Project Gutenberg, e foi publicada uma tradução, da autoria de Mário Matos, no décimo número da revista Bang! (Junho de 2011).

Faith of Our Fathers é um fascinante conto - ou, para ser preciso, uma noveleta - escrito por Philip K. Dick a "pedido" de Harlan Ellison para a antologia Dangerous Visions, de 1967 - e nomeado para o Prémio Hugo para "Best Novelette" no ano seguinte (perdeu-o para outro conto da mesma antologia, Gonna Roll the Bones, de Fritz Leiber). Em Faith of Our Fathers, Philip K. Dick volta a explorar uma premissa de História alternativa idêntica àquela que celebrizou em 1962 com The Man in the High Castle, mas aqui com um twist diferente, quase orwelliano na sua natureza, com um um Comunismo do tipo chinês a dominar o mundo e com um "Grande Líder" tornado omnisciente através do progresso tecnológico. A história decorre no Vietname, e tem como protagonista Tung Chien, um burocrata que tem, em simultâneo, a oportunidade de subir quase vertiginosamente dentro da estrutura política e de colaborar com um movimento que aparenta ser dissidente. O consumo de uma droga invulgar, porém, leva-o a descobrir algo que vai alterar de forma radical e permanente a sua percepção do mundo que o rodeia. Aqui, Philip K. Dick esmerou-se, e ao invés de presentear o leitor com a já clássica punchline final, gere uma série de reviravoltas inesperadas e bem construídas para um final tão poderoso como anticlimático. Concebido, a pedido do próprio Ellison, sob o efeito de LSD (isto a fazer fé tanto na introdução de Ellison como no posfácio de Dick), Faith of Our Fathers é um conto importante na obra de Philip K. Dick, um dos primeiros textos onde se centra no fenómeno religioso que viria a dominar a sua obra tardia. Mas - o que para mim foi mais relevante - também notei no conto algo que me levou de forma subtil para A Scanner Darkly, uma das mais aclamadas obras do autor. Facto é que Faith of Our Fathers se revelou num dos melhores contos de uma antologia repleta de excelente ficção.