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19 de janeiro de 2014

Citação fantástica (103)

Pain and darkness have been our lot since the Fall of Man. But there must be some hope that we can rise to a higher level... that consciousness can evolve to a plane more benevolent than its counterpoint of a universe hardwired to indifference.

Dan Simmons, The Fall of Hyperion (1990)

24 de novembro de 2013

Citação fantástica (94)

It occurs to me that our survival may depend upon our talking to one another.

Dan Simmons, Hyperion (1989)

10 de julho de 2013

Que livros de fantasia e ficção científica dariam um bom videojogo?

O fantástico tem sido um terreno fértil para a construção de narrativas que se expandem por vários formatos - de filmes que dão origem a livros a obras literárias que se vêem adaptadas ao grande ecrã (e ao pequeno também), com os muito afamados (e difamados) tie-ins e as novelizações de maior ou menor sucesso. O universo dos videojogos não é excepção, sobretudo à medida que as narrativas do formato se tornam cada vez mais centrais ao desenvolvimento de novos títulos - basta ver os elogios recolhidos por jogos como The Walking Dead, The Last of Us, Bioshock, Heavy Rain - em muitos casos, devido às histórias que contam e à forma como as desenvolvem de forma interactiva. É frequente encontrarmos livros dos universos ficcionais desenvolvidos em alguns jogos - Halo, Assassin's Creed, Starcraft, Warcraft e Mass Effect serão apenas alguns exemplos de videojogos de grande sucesso cujas histórias e as personagens passaram dos pixels para as páginas. 

Mas o contrário também acontece: nos anos 90, o célebre conto I Have No Mouth, and I Must Scream, de Harlan Ellison, foi adaptado para videojogo em colaboração com o próprio autor; e, mais recentemente, o universo ficcional de dark fantasy do polaco Andrzej Sapkowski serviu de base para uma das mais populares séries de jogos de role-play dos últimos anos: The Witcher. No SF Signal perguntou-se a vários escritores, criadores de jogos e críticos que obras literárias de fantasia e ficção científica dariam universos interactivos interessantes; as respostas são variadas e podem ser consultadas aqui. E as minhas duas sugestões:

A primeira, óbvia (e não mencionada nas respostas do artigo original): Hyperion, de Dan Simmons. Não há volta a dar: o vasto universo criado por Simmons com profecias, cultos tenebrosos, planetas tão diversos como estranhos, treeships, inteligências artificiais com agendas próprias dariam um ambiente formidável para um jogo de aventura ou de role-play ambicioso. Quem tiver, como eu, jogado Resident Evil 3: Nemesis lembrar-se-á decerto do terror que era circular por os espaços claustrofóbicos de uma Raccoon City devastada com o temível 'Nemesis' no encalço do jogador (com aquela música a acompanhar). Imagine-se então isso com o Shrike nos túneis sobre Hyperion, ou nas Time-Tombs. Pois.

O segundo, talvez menos óbvio: Lord of Light, de Roger Zelazny. Também para um formato role-play, claro - o universo criado por Zelazny com uma mistura exótica e fascinante entre fantasia e ficção científica, divindades indianas e tecnologia tão sofisticada que não se distingue da magia (pun intended) serviria certamente de fundação para vários cenários distintos, criaturas prodigiosas e uma narrativa intrincada entre os céus e a terra. Fazer level up a Sam até ele se tornar no Lord of Light? Este eu compraria no dia de lançamento.

Fonte: SF Signal

4 de abril de 2013

Dan Simmons (1948 - )

Foi em 1982 nas páginas da revista Twilight Zone Magazine que Dan Simmons viu publicado o seu primeiro conto, intitulado The River Styx Runs Upstream - quatro anos volvidos após a sua escrita, e após receber a atenção e a crítica de Harlan Ellison e Ed Bryant num workshop de escritores em 1981. A partir daí, publicou contos em várias revistas, como a Omni ou a Asimov's - mas cedo se notabilizaria no campo da ficção mais longa. O seu primeiro livro, The Song of Kali, foi publicado em 1985 e distinguido com o World Fantasy Award; Carrion Comfort, de 1989, valeu-lhe o Bram Stoker Award e o British Fantasy Award. 

Mas foi com Hyperion, de 1989, que se consagrou como autor, vencendo o prémio Hugo em 1990 e dando início a uma fascinante space opera literária que estenderia por três outros livros - The Fall of Hyperion (1990), Endymion (1996) e The Rise of Endymion (1997). No universo singular de Hyperion Cantos, escreveu também a novela Orphans of the Helix, publicada em 1999 na antologia Far Horizons, editada por Robert Silverberg.

Para além de escrever histórias nos vários géneros do Fantástico - e de as misturar com frequência nos seus livros, como se viu em Hyperion - Simmons dedica-se também a narrativas mainstream, à ficção histórica e a ficção hardboiled

Nascido em Peoria, Illinois (EUA) em 1948, Dan Simmons celebra hoje o seu 65º aniversário.


30 de dezembro de 2012

2012 em leituras

Tal como nos videojogos, também nas leituras dediquei em 2012 muito pouco tempo às novidades editoriais do ano, optando por continuar a ler muitos dos clássicos da fantasia e da ficção científica que tenho em falta. É certo que a lista de leituras futuras continua a ser muito longa, mas algumas lacunas mais sérias já foram preenchidas - e, diga-se de passagem, com imenso prazer. Seria difícil (para não dizer inútil) falar num único artigo de todos os livros que li em 2012, isto partindo do princípio de que ainda seria capaz de enumerar a lista completa. Assim, e tendo a sensação de que me esqueço de algo, aqui ficam os meus destaques de leitura deste ano que está mesmo quase a terminar. 

The Stars My Destination (Alfred Bester, 1953)
Descrito frequentemente como O Conde de Montecristo da ficção científica, The Stars My Destination conta a fabulosa e sangrenta odisseia de vingança de Gully Foyle, um homem em nada excepcional que foi abandonado à sua sorte nos destroços de uma nave espacial à deriva no Sistema Solar. Isto num futuro em que a Humanidade se espalhou pelos vários planetas e satélites mais próximos, e em que toda a gente possui a capacidade de se teletransportar. As alterações sociais provocadas pelo teletransporte compõem o quadro de forma brilhante, mas é Gully Foyle, um autêntico Zé-Ninguém, quem carrega a narrativa às costas a passo de corrida, num ritmo tão vertiginoso como violento, cruzando-se com personagens fascinantes (como Dagenham ou Olivia Presteign) à medida que junta as várias peças do puzzle que é a sua vingança. Muito do que se seguiu na ficção científica literária tem neste livro as suas raízes, o que, julgo, diz alguma coisa sobre quão importante foi na sua época.

The Forever War (Joe Haldeman, 1973)
Numa das mais relevantes obras da ficção científica militar, Joe Haldeman transporta a Guerra do Vietname - na qual combateu - para um futuro no qual as grandes batalhas são travadas no espaço. Da recruta ao combate real, Haldeman usa o pretexto da guerra contra os "Taurans" para reflectir sobre o absurdo da guerra, sobre a forma como nunca conhecemos verdadeiramente o nosso inimigo, e sobre a forma como a guerra muda de forma inevitável e irreversível quem nela participa. Quando o familiar se torna estranho e quando as causas se tornam difusas, qual é o sentido do combate? Com uma narrativa muito bem articulada, Haldeman recorre a um realismo científico invulgar para colocar estas (e outras) questões, utilizando a relatividade do tempo no espaço para acentuar a estranheza dos combatentes à medida que os anos se sucedem a ritmos diferentes na guerra e no mundo que o soldado Mandella e os seus companheiros juraram proteger. A todos os níveis, The Forever War é uma obra fundamental na ficção científica. 

A Canticle for Leibowitz (Walter M. Miller, Jr., 1960)
É possível que A Canticle for Leibowitz seja a obra mãe da ficção pós-apocalíptica que tão bons livros e filmes nos deu ao longo das últimas décadas. Muitos anos após o cataclismo nuclear que arrasou a civilização no então longínquo século XX, os frades da Ordem de Leibowitz - que julgam um mártir - dedicam-se à preservação de todo o conhecimento científico que esteja ao seu alcance, ainda que nem sempre tenham um entendimento muito preciso daquilo que têm em mãos. Isto, claro, enquanto tentam obter a beatificação do seu santo padroeiro, e enquanto lutam pela sobrevivência num mundo devastado. Publicada originalmente na The Magazine of Fantasy and Science Fiction em três partes, A Canticle for Leibowitz é uma história muito bem conseguida e particularmente bem humorada sobre a natureza humana, e sobre o carácter cíclico - e quase sempre irónico - que a História acaba sempre por assumir.

Hyperion / The Fall of Hyperion (Dan Simmons, 1989/1990)
Ainda a leitura ia a meio e já Hyperion, de Dan Simmons, se tinha tornado num dos meus livros de ficção científica preferidos - pela escrita elegante, pelas referências literárias, e sobretudo pela densidade da narrativa. Um acaso que é tudo menos casual juntou sete desconhecidos numa peregrinação à lendária criatura conhecida como Shrike, no remoto planeta Hyperion - e, durante a longa viagem, decidem partilhar as suas histórias e o que os levou a alinhar naquela aventura suicida. Mais do que uma história, Hyperion é composto pelas formidáveis histórias individuais de cada um dos peregrinos, que contém as várias peças do vasto puzzle da guerra de proporções galácticas que se avizinha. Afinal, qual é a relevância de Hyperion no conflito entre os mundos da Web e os Ousters? E qual é o papel da AI Technocore? As respostas são dadas no surpreendente The Fall of Hyperion, fechando de forma formidável esta parte dos Hyperion Cantos

Stand on Zanzibar (John Brunner, 1968)
Para todos os efeitos, John Brunner falhou na previsão: apesar de a população terrestre em 2010 ser de (mais ou menos) sete mil milhões de indivíduos, as consequências da sobrepopulação estão longe daquelas que imaginou em Stand on Zanzibar. O que, para todos os efeitos, é irrelevante: a sobria distopia que descreveu de forma prodigiosa neste livro premiado continua a ser relevante e, acima de tudo, assustadoramente plausível. Num estilo narrativo que, sendo reminescente de John Dos Passos, nunca deixa de ser original e inovador, Stand on Zanzibar marcou os anos da "New Wave" com as histórias paralelas de Norman House e Donald Hogan num mundo caótico onde o espaço e a privacidade se tornaram luxos. As muitas histórias paralelas dão cor ao mundo imaginado por Brunner ao focar os vários aspectos desta distopia, e há qualquer coisa de vagamente premonitório (e genial) nos infodumps com que o autor apresenta personagens, introduz factos e coloca mais questões do que respostas. 

Lord of Light (Roger Zelazny, 1967)
Pode um livro excepcional ter origem num trocadilho? Pode, e Roger Zelazny demonstrou-o em 1967 com Lord of Light, misturando fantasia épica e ficção científica de forma elegante e irónica. O trocadilho fica à descoberta dos leitores, tal como a história de Mahasamatman, que deixou cair o -Maha e o  -atman para ser conhecido apenas por Sam. Sam abandonou o panteão dos deuses para viver entre os homens e, no seu caminho, decidiu devolver à Humanidade todo o conhecimento e todo o progresso que aqueles lhe negavam. Como é que uma história sobre a revolta contra o divino pode incluir ficção científica? Esse é justamente uma das maravilhas de Lord of Light e da sua recriação sui generis das divindades Hindus. Com uma interessante estrutura narrativa circular, Zelazny desenvolve uma fascinante história de queda e ascensão onde Yama, Brahma, Shiva, Ratri, Mara e Ganesha merecem destaque, mas na qual é Sam, o Buddha, quem de facto brilha. 


The Colour of Magic (Terry Pratchett, 1983)
No final do ano passado, defini como única resolução para 2012 começar a ler a série Discworld, de Terry Pratchett, após me ter maravilhado com o conto The Sea and Little Fishes que encontrei na antologia Legends, de Robert Silverberg. Logo em Janeiro li The Colour of Magic, primeiro volume nesta série que já conta com 39 livros publicados, vários contos e inúmeros livros paralelos, e apesar de esperar uma leitura divertida, acabei por me surpreender com a (aparentemente infinita) capacidade de Pratchett descrever as mais absurdas e hilariantes situações no mundo fantástico de Discworld (que, como se sabe, assenta sobre quatro elefantes enormes que estão de pé sobre a carapaça da Great A'tuin, a tartaruga cósmica). The Colour of Magic apresenta o inábil feiticeiro Rincewind, a formidável Luggage, a Morte e a grande cidade de Ankh-Morpork - e ainda que possa não ser o livro mais divertido da série, é nele que tudo tem início.


The Farthest Shore (Ursula K. Le Guin, 1972)
Earthsea, o universo de fantasia de Ursula K. Le Guin, ocupa um lugar de destaque na fantasia moderna. Com cinco romances e vários contos, Earthsea esconde vários temas adultos numa narrativa de tom mais próximo da literatura young adult e em personagens e localizações fascinantes. A Wizard of Earthsea é o primeiro desses livros, publicado em 1968, mas foi The Farthest Shore, o terceiro livro da série, que mais me tocou. Com a magia a desaparecer do mundo, o feiticeiro Ged junta-se ao jovem príncipe Arren numa viagem pelas ilhas mais remotas do vasto arquipélago de Earthsea. Nessa expedição encontram tribos muito diferentes, dragões e um terrível inimigo que os obrigará a ir para lá dos limites do mundo desconhecido e a enfrentar os seus maiores receios. Tal como nos outros livros da série, em The Farthest Shore Le Guin desenvolve uma história muito contida com um ritmo excepcional, explorando novas facetas do universo de Earthsea numa aventura que se revela mais madura do que aquelas que a antecedem.

The Last Wish (Andrzej Sapkowski, 1993)
The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings são dois dos mais aclamados videojogos dos últimos cinco anos, e têm a sua origem na obra do escritor polaco Andrzej Sapkowski. Nos vários contos que compõem a antologia The Last Wish, Sapkowksi apresenta Geralt of Rivia, o cínico caçador de monstros que assume o papel principal tanto nos livros e contos como nos populares videojogos. À primeira vista, o universo descrito nos vários contos que compõem The Last Wish parece semelhante a outros universos de fantasia medieval de inspiração tolkieniana, com elfos e anões a conviverem com os seres humanos, e com muita sword & sorcery. A diferença reside no tom, e é aqui que Sapkowski revela toda a sua mestria, criando fábulas que, num tom tão cínico como sarcástico, desconstroem as convenções e os clichés da fantasia épica e dos contos de fadas para criar histórias onde o Bem e o Mal raramente são aquilo que parecem ser

25 de novembro de 2012

Citação fantástica (42)

Words bend our thinking to infinite paths of self-delusion, and the fact that we spend most of our mental lives in brain mansions built of words means that we lack the objectivity necessary to see the terrible distortion of reality which language brings.

Dan Simmons, Hyperion (1989)

29 de julho de 2012

Citação fantástica (24)

There is a certain solipsism to serious illness which claims all of one's attention as certainly as an astronomical black hole seizes anything unlucky enough to fall within its critical radius.

Dan Simmons, Hyperion (1989)

25 de julho de 2012

Descobertas improváveis

Em férias, num escaparate de uma tabacaria em Tavira, entre literatura light diversa, encontrei isto:


Que, como já se sabe, é leitura muito recomendada cá na casa (se houver algum leitor de ficção científica na cidade interessado, é ir à Praça Velha).

6 de julho de 2012

The Fall of Hyperion

Nos artigos que publico sobre livros raramente escrevo sobre sequelas. O motivo é simples: dificilmente se consegue escrever alguma coisa sobre o enredo de uma sequela sem revelar alguns elementos da obra que deu início à série (spoilers, se quiserem). Abro hoje uma excepção para falar de The Fall of Hyperion, de Dan Simmons (1990). 

Mais do que uma sequela, The Fall of Hyperion é a segunda parte do premiado Hyperion, desenvolvendo a narrativa no universo previamente explorado e estabelecido através das histórias pessoais dos peregrinos do Shrike durante a sua longa viagem por Hyperion. Se nas narrativas individuais ficamos a conhecer os vários elementos que compõem o puzzle que envolve aquele planeta remoto, as motivações de cada uma das personagens e o papel que cada uma delas tem a desempenhar no enigma de Shrike e das Time Tombs. 

Não esperava que The Fall of Hyperion superasse a fasquia estabelecida pelo seu antecessor, obra a todos os níveis excepcional. A grande força de Hyperion reside nas histórias individuais dos seis peregrinos, todas tão diferentes no tom e no tema como os próprios peregrinos entre si; e à sua maneira, cada história é fascinante e absorvente, da aventura militar de Fehdman Kassad ao drama familiar de Sol Weintraub, da investigação cyberpunk-noir de Brawne Lamia à odisseia épica de Martin Silenus, da história de horror de Lemar Hoyt ao registo histórico do Cônsul. Esta fórmula é brilhante, e do ponto de vista narrativo funciona de forma perfeita; no entanto, é absolutamente impossível de repetir. Dan Simmons teve perfeita noção disso, e em The Fall of Hyperion mostrou que a "frame story" não era o único truque narrativo que tinha na manga. Ao apresentar toda a história através do ponto de vista de uma única personagem, Simmons consegue duas coisas em simultâneo: afastar-se das fórmulas de narração convencionais, mantendo a narrativa refrescante e original, e abranger de forma muito interessante vários pontos essenciais da trama, colocando no seu centro uma personagem secundária que se torna num espectador privilegiado do imprevisível conflito que envolve a Hegemony, os Ousters e o AI TechnoCore. 

É certo que The Fall of Hyperion, apesar de ter um enredo mais directo que o seu antecessor, nem sempre consegue a fluidez narrativa original, devido sobretudo às frequentes alusões às histórias já conhecidas e à dispersão por vários pontos distintos da narrativa. Nem por isso, contudo, deixa de ser uma leitura extraordinária - o universo criado por Simmons é extremamente rico e complexo, repleto de referências literárias, religiosas e mitológicas, de imagens poderosas (como a árvore de Shrike e o planeta de God's Grove, por exemplo) e de reviravoltas por vezes vertiginosas. Se a primeira parte do livro é algo lenta, a segunda ganha um ritmo muito bom à medida que as várias facções e personagens em jogo precipitam um final excelente - e com algumas surpresas - para esta etapa da série Hyperion Cantos

4 de julho de 2012

Cinema: projectos originais e adaptações novas em curso

Numa época de prequelas, sequelas, remakes e muitas outras provas de falta de originalidade, não deixa de ser bom saber que estão para sair algumas adaptações novas e alguns trabalhos interessantes e originais na área do Fantástico no cinema, tanto longo como curto. Neste artigo do io9, a jornalista Charlie Jane Anders apresenta uma interessante lista dos projectos que podemos esperar nos próximos tempos. Deixo aqui alguns destaques sobre as adaptações:


World War Z 
Ainda não li o livro homónimo de Max Brooks, mas o facto de o filme incluir Damon "Lost" Lindeloff na equipa criativa faz-me pensar logo no trainwreck de Prometheus. A menos, claro, que Lindeloff deixe de se armar aos cucos e escreva (ou rescreva) um argumento minimamente aceitável, sem ideias rebuscadas e conceitos obscuros a fingir que são profundos. É esperar para ver, mas sem grandes expectativas.

Ender's Game 
A obra premiada de Orson Scott card vai ser finalmente adaptada ao cinema. Com realização de Gavin Hood (X-Men Origins: Wolverine), o filme conta com um elenco de luxo: Asa Butterfield, Abigail Breslin, Hailee Steinfield, Harrison Ford, Ben Kingsley e Viola Davis, entre outros. Ainda não li o livro (está na lista de leitura para breve), mas sabendo que Ender's Game é normalmente considerado uma das grandes obras de ficção científica militar e considerando o elenco, é caso para esperar algo no mínimo interessante.

Neuromancer  
Depois de Blade Runner, Ghost in the Shell e The Matrix, ainda haverá espaço para um grande e revolucionário filme de cyberpunk? Talvez - Neuromancer, de William Gibson, é praticamente o pai de todo o subgénero, e a avaliar pela densidade e pela componente visual da obra, diria que a adaptação tem potencial para ser a todos os níveis memorável. Tanto quanto se sabe, o projecto vai avançar - só não se sabe é ainda em que moldes. A mim surpreende-me é que se tenha esperado tanto tempo para o fazer.

Snow Crash
Outro da minha lista de leitura que vai ser adaptado, e mais um projecto a entrar no universo cyberpunk. O realizador da adaptação do livro de Neal Stephenson será Joe Cornish, que ficou recentemente célebre pelo filme Attack the Block (que alguns amigos me garantem ser excelente). Também ainda não se sabe muito sobre este projecto.

Hyperion 
Este não é mencionado no artigo do io9. Hyperion, de Dan Simmons, será adaptado ao cinema por Scott Derrickson (The Day the Earth Stood Still, The Exorcism of Emily Rose). Apesar de o filme estar previsto para 2013, ainda pouco se sabe sobre o projecto - apenas que adaptará em simultâneo Hyperion e a sua sequela directa, The Fall of Hyperion. O que, convenhamos, não augura nada de bom. Se por um lado Derrickson não parece ter "currículo" para levar a bom porto um trabalho desta envergadura, juntar as complexas narrativas de Hyperion e The Fall of Hyperion num único filme que dificilmente terá três horas será certamente algo impossível de concretizar com um mínimo de sucesso (duvido que a coisa fosse viável em dois filmes, quanto mais num só). Será porventura interessante ver o Shrike no grande ecrã, mas julgo que a adaptação da história de Simmons vai conhecer o mesmo destino de muitas outras adaptações nos últimos anos: ideias com imenso potencial terrivelmente desperdiçadas (ver The Golden Compass, por exemplo).

15 de junho de 2012

Hyperion

(...)But one of our whole eagle brood still keeps
His sov'reignty, and rule, and majesty;
Blazing Hyperion on his orbed fire
Still sits, still snuffs the incense teeming up
From man to the sun's God: yet unsecure,
For as upon the earth dire prodigies
Fright and perplex, so also shudders he:
Nor at dog's howl or gloom bird's Even screech,
Or the familiar visitings of one
Upon the first toll of his passing bell:
But horrors, portioned to a giant nerve,
Make great Hyperion ache. (...)

John Keats, The Fall of Hyperion: A Dream

Keats e o seu épico - e inacabado - poema  The Fall of Hyperion são uma presença constante ao longo de Hyperion, obra invulgar dentro do género de ficção científica que valeu a Dan Simmons os prémios Hugo e Locus em 1990. Keats é sem dúvida uma inspiração e uma influência determinante para Simmons, se bem que esteja longe de ser a única: da Bíblia a William Gibson, muitas são as referências que podem ser encontradas ao longo de Hyperion, acrescentando detalhe e espessura à narrativa prodigiosa que Simmons desenvolve.

Hyperion decorre num futuro distante, quando a Humanidade se expandiu pela galáxia e a Terra (a “Velha Terra”, como é conhecida) faz parte de um passado já distante. O novo centro da Humanidade está localizado em Tau Ceti, em união com as restantes colónias da Web através da rede de “farcasters” e da frota da FORCE. Para lá das fronteiras da Web, os selvagens Ousters ameaçam a guerra, e a indecifrável AI TechnoCore faz os seus próprios movimentos com um objectivo obscuro em vista.

Nas vésperas de estalar a guerra, sete peregrinos partem da Web a bordo da “Treeship” Yggdrasil rumo ao remoto planeta Hyperion. Este é, para todos efeitos, o derradeiro enigma da galáxia, com o seu geomagnetismo muito particular, as suas estranhas formas de vida, as suas “flame forests” e, claro, as “Time Tombs” - um lugar onde o Tempo não obedece às regras por si estabelecidas, e onde vive Shrike, uma aberração orgânica e mecânica cujo mistério que a envolve apenas é comparável ao seu tremendo poder.

Os sete peregrinos não se conhecem, nunca se viram antes, e dificilmente poderiam ser mais diferentes entre si. Mas o passado de todos tem duas coisas em comum: Hyperion e Shrike. É devido a esse passado que todos rumam a Hyperion, mesmo sabendo que as probabilidades de ser uma viagem sem regresso. Procurando perceber o que levou o enigmático Culto do Shrike a ceder-lhes o privilégio de serem os últimos peregrinos a fazer a viagem para as "Time Tombs", os sete companheiros decidem contar o que os levou àquela desesperada peregrinação, quando o universo que conhecem parece estar à beira de mergulhar no caos.

É aqui que Hyperion se distingue do ponto de vista narrativo: ao longo da viagem até às “Time Tombs”, os peregrinos partilham as suas histórias mais pessoais. Cada uma dessas memórias é, na prática, uma história dentro da grande narrativa de Hyperion - e cada uma delas é distinta e peculiar, com um estilo e um ritmo próprios, reflectindo as diferenças das várias personagens. Do horror ao noir, do drama ao épico, as várias histórias de Hyperion são em si fascinantes na forma e no conteúdo. Lenar Hoyt, um padre católico, narra a história de um outro padre, Paul Duré, e da misteriosa aventura que viveu junto dos selvagens que habitam a região das “flame forests” - e ele mesmo lá esteve, e guarda um segredo terrível sobre aqueles acontecimentos. O Coronel Fedmahn Kassad, militar muçulmano, relembra a sua carreira, e a forma como acabou por ir parar a Hyperion, onde viveu uma extraordinária aventura. Martin Silenus, reconhecido poeta, conta a história da sua vida, a sua carreira literária, e o reino utópico que ajudou a fundar em Hyperion até à desolação se instalar. Sol Weintraub, um académico judeu, narra uma história particularmente tocante - e terrível - que envolve a sua filha bebé, Rachel, que viaja consigo rumo a Hyperion. A investigadora Brawne Lamia partilha uma autêntica história de detective que a leva ao mundo do AI TechnoCore - e, por fim, a Hyperion. Finalmente, o Cônsul narra aos peregrinos uma outra história, mais antiga, antes da sua própria, decisiva para o desfecho.

De todas as histórias, destacaria duas: a primeira, do padre Lenar Hoyt (The Man Who Cried God), de referências marcadamente religiosas e com um desfecho a roçar o horror; e a quarta, do académico Sol Weintraub (The River Lethe’s Taste Is Bitter), como particularmente tocante. Todas elas, à sua maneira, contribuem para o grande mistério que é o planeta Hyperion e o enigmático Shrike.

Hyperion é a todos os níveis uma obra prodigiosa, tanto do ponto de vista narrativo como do ponto de vista da própria história que está a contar. Simmons joga com vários elementos típicos da ficção científica para colorir dar forma a todo aquele universo, e explora o passado das várias personagens para introduzir na narrativa vários elementos fundamentais para o desenlace. É, sem dúvida, um clássico - uma obra densa e rica no detalhe, a ser lida e relida.

10 de junho de 2012

Citação fantástica (17)

I now understand the need for faith - pure, blind, fly-in-the-face-of-reason faith - as a small life preserver in the world and endless sea of a universe ruled by unfeeling laws and totally indifferent to the small, reasoning beings that inhabit it.

Dan Simmons, Hyperion (1989)

21 de maio de 2012

Julgar o livro pela capa (1)

Hyperion (1990), Dan Simmons 

Muito a propósito, estou neste momento a ler (bom, não exactamente neste momento) Hyperion, de Dan Simmons. Infelizmente, a capa que coloquei ali ao lado - e que aqui reproduzo - não é a da minha edição. Esta, de acordo com este blogue, pertence à nova edição polaca de Hyperion que comemora o vigésimo aniversário da obra. Não consegui descobrir quem foi o autor desta espantosa - e vagamente arrepiaste - ilustração, mas a verdade é que o ilustrador conseguiu, numa imagem formidável, mostrar a premissa da narrativa no entanto a denunciar: os sete peregrinos (as sombras), que na iminência de uma guerra viajam até ao planeta Hyperion para encontrarem a misteriosa e letal criatura Shrike (no centro do motivo principal). Diria que tudo nesta capa está perfeito: as cores, o contraste entre os tons quentes do fundo e o negro das sombras dos peregrinos e de Shrike, até a fonte. Não é que Hyperion tenha tido más capas - mas esta é absolutamente extraordinária. 

4 de abril de 2012

Dan Simmons (1948 - )

Dan Simmons, um dos grandes do Fantástico moderno, é acima de tudo um autor multifacetado, escrevendo fantasia, ficção científica e horror com o mesmo empenho e sucesso. Song of Kali (1985), a sua conturbada aventura de horror na Índia, ganhou o World Fantasy Award em 1986; Hyperion (1989) venceu os prémios Hugo e Locus, e é considerado uma das grandes obras da ficção científica recente. Para além do Fantástico, Simmons também se aventura em literatura de cariz mais mainstream, em ficção histórica e narrativas noir.

Alguns dos seus trabalhos mais conhecidos encontram-se actualmente em adaptação cinematográfica. Hyperion e The Fall of Hyperion estão a ser adaptadas num só filme por Scott Derrickson (The Day the Earth Stood Still), enquanto Drood vai ser adaptada por Guillermo Del Toro (El Labirinto Del Fauno). Mais alguns trabalhos têm adaptação prevista.

Dan Simmons nasceu em Peoria, Illinois (EUA), em 1948. Para além da escrita, desenvolve actividades na área da Educação, em particular num programa muito bem sucedido para alunos sobredotados. Celebra hoje 64 anos.