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4 de junho de 2014

This happening world (14)

Será a série Mad Men ficção científica? A proposta poderá à primeira vista parecer arrojada (para não dizer disparatada), mas Nathan Mattise, do Ars Technica, explica neste artigo intrigante por que motivos podemos ver o drama de época criado por Matthew Weiner como ficção científica - e a sua análise baseia-se tanto nas múltiplas referências encontradas ao longo das sete temporadas da série como na própria personalidade e na evolução do protagonista, o já célebre Don Draper interpretado por Jon Hamm. 

Na Amazing Stories, Steve Fahnestalk continua a sua exploração dos "juveniles" de Robert A. Heinlein - e desta vez, para além da referência aos elementos mais datados de alguns desses livros, entra no território das visões políticas e sociais de Heinlein, e da validade ou pertinência de quaisquer extrapolações simplistas levantadas a partir das suas personagens. E fala, de raspão, da bibliografia em dois volumes escrita por William Patterson, e que será decerto uma leitura fascinante para os apreciadores de Heinlein.

Estreia de Jupiter Ascending adiada de Julho de 2014 para Fevereiro de 2015 - o que não augura de bom para a space opera de Andy e Lana Wachowsky. A razão oficial para esse adiamento é a necessidade de mais tempo para trabalhar nos efeitos especiais; mas dada a passagem do filme do Verão, época alta também para as grandes estreias, para o período mais ou menos morto de Inverno, traz nas entrelinhas uma enorme falta de confiança da Warner Bros. no projecto. (via io9)

Enquanto Star Citizen conhece alguns atrasos, Elite: Dangerous avança para a fase beta. O massively multiplayer online space simulator de Chris Roberts, que até esta data já angariou mais de 44 milhões de dólares em crowdfunding, adiou uma vez mais o lançamento do módulo de dogfighting para "eliminar alguns bugs" - pelo que os apoiantes do projecto ainda terão de esperar mais um pouco para finalmente testar o combate espacial em Star Citizen. Entretanto, o desenvolvimento de Elite: Dangerous, o MMO space sim de David Braben (também financiado por crowdfunding, ainda que longe dos patamares de Star Citizen) continua a avançar a bom ritmo, e já está disponível acesso a uma fase beta "premium". (via Ars Technica)

A icónica sequência de abertura de Ghost in the Shell foi recriada em live action por uma equipa de 30 artistas digitais, num tributo em nada relacionado com a adaptação cinematográfica da Dreamworks. O vídeo completo ainda não está disponível; mas no io9 é possível ver alguns stills

21 de maio de 2014

Jupiter Ascending: Novo trailer

Foi hoje divulgado um novo trailer para Jupiter Ascending, a space fantasy de Andy e Lana Wachowski que coloca Mila Kunis no papel de uma jovem empregada de limpezas que desconhece ter um destino grandioso muito para lá dos limites da Terra - e que irá contar com a ajuda de Channing Tatum e de Sean Bean para o alcançar. A componente visual que sempre marcou os filmes da dupla parece estar aqui em alta - em Julho, saberemos que tudo o resto estará à altura das expectativas.

Jupiter Ascending tem estreia marcada para 24 de Julho em Portugal.


Fonte: io9

27 de março de 2014

Jupiter Ascending: Primeiro trailer

Depois do extraordinário e muito independente Cloud Atlas, Lana e Andy Wachowski regressam aos blockbusters de ficção científica com Jupiter Ascending. A premissa, focada numa história de um predestinado (no caso, de uma predestinada, na protagonista interpretada por Mila Kunis) aponta mais para uma space opera mais ancorada no território da science fantasy do que da ficção científica mais "pura" - o que, diga-se de passagem, está longe de ser um problema. Sobretudo se tivermos em conta os visuais espantosos que os Wachowskis têm conjurado desde o revolucionário The Matrix, a possibilidade de ver uma personagem de Sean Bean morrer no espaço, e o pequeno cameo de Terry Gilliam, numa homenagem directa ao clássico Brazil

Apostas à parte, Jupiter Ascending parece ter todos os ingredientes para ser um blockbuster de ficção científica bastante interessante. A estreia está marcada para Julho; abaixo, o trailer. 



Fonte: io9 / IndieWire

4 de março de 2014

Revisitando The Matrix: Reloaded e Revolutions

Larry e Lana Wachowsky estarão a trabalhar numa nova trilogia The Matrix para a Warner Brothers. Isto, note-se, não é notícia mas rumor: surgiu ontem no io9 a partir de uma notícia publicada no portal SlashFilm, que por sua vez a publicou a partir de um artigo avançado por um outro portal (Latino-Review), pelo que a coisa deve ser entendida dessa forma: como um rumor. A verdade é que, independentemente de ter ou não um fundo de verdade - a seu tempo o saberemos - este rumor tem é verosímil. Numa época em que a indústria cinematográfica parece estar dependente da repetição eterna de sequelas, remakes e reboots de propriedades intelectuais que tenham conhecido algum sucesso, a noção de que um novo filme ou mesmo uma nova trilogia nesta franchise esteja a ser planeada - seja em sequela, prequela ou reboot - só surpreenderá por não ter sido já mencionada. The Matrix, afinal, fez o pleno no final dos anos 90: obteve receitas milionárias, aclamação do público e reconhecimento crítico. Tornou-se em simultâneo num sucesso comercial e num fenómeno de culto; e estabeleceu-se como o grande clássico da ficção científica da sua geração.


É provável que o relativo desinteresse para com The Matrix se deva à fraca recepção crítica das suas duas sequelas directas, Reloaded e Revolutions - ambos foram êxitos de bilheteira (sobretudo Reloaded), mas nenhum deles conseguiu aproximar-se do reconhecimento crítico do filme original. Há alguma justiça na má critica, é certo; em parte, porém, diria que alguma da frustração para com Reloaded e Revolutions se deve ao facto de nenhum dos filmes ter conseguido pelo menos alcançar a fasquia altíssima que o filme original estabeleceu (um objectivo, admitamos, praticamente impossível), e pela sensação de cash-grab que os quatro anos de interregno deixam (mesmo não tendo qualquer motivo para duvidar da versão dos Wachowski de que o objectivo sempre foi fazer os três filmes). Por muito que se critique algumas passagens desnecessárias em ambos os filmes (a rave party será a mais óbvia), ambos incluíram também cenas memoráveis - a perseguição na auto-estrada continua notável pelo seu ritmo desenfreado e pela forma como se funde na perfeição, e a batalha de Zion continua intensa como sempre, por mais falhas que sejam apontadas às CGI.


É contudo inegável que em termos globais ambos os filmes ficaram muito aquém das expectativas. Onde The Matrix surpreendeu com os seus visuais extraordinários assentes numa combinação inteligente de efeitos práticos, fotografia astuciosa e imagens geradas por computador, Reloaded e Revolutions seguiram o caminho fácil do CGI de qualidade duvidosa, que terá talvez sido suficiente em 2003 mas que não sobrevive ao teste do tempo após uma década - sobretudo quando reparamos que no mesmo ano estreou The Return of the King. Os combates intensos, bem coreografados, tornados possíveis através de cabos e força de braços, tornaram-se insípidos na voragem dos efeitos especiais; e o encadeamento perfeito entre as sequências de acção e as ideias apresentadas num argumento arrojado possibilitou um ritmo narrativo harmonioso que as sequelas, privadas da sua independência em termos temáticos e de enredo, nunca conseguiram recapturar.


De certa forma, isso também se deve à expansão do universo ficcional e do elenco: The Matrix, afinal, funcionou de forma algo contida, introduzindo apenas a tripulação da Nebuchadnezzar, a Oráculo e Smith. Esta limitação desaparece nas sequelas - o espaço fechado da nave de Morpheus Nebuchadnezzar abre-se para Zion, onde o espectador encontra tanto os habitantes da cidade como as tripulações de outras naves; e as deambulações pela Matriz trazem novos cenários e novas personagens - Merovingian e os seus minions, Persephone, Seraph, Sati, o Keymaker, o Arquitecto. E se algumas personagens funcionaram (o Merovingian de Lambert Wilson é inesquecível), outras pouco mais são do que plot points glorificados, quando não apenas action pieces.


Já a crítica, recorrente nos idos de 2003, de que Reloaded e Revolutions eram demasiado obscuros sempre me soou injusta, para não dizer preguiçosa. É verdade que a exposição temática mais convencional de The Matrix dá lugar a uma maior ambiguidade nas suas sequelas, mas isso está longe de ser uma falha. No primeiro filme, todo o simulacro da realidade é apresentado ao espectador através da viagem de descoberta de Neo: o seu encontro com os Agentes, a saída do programa, o treino, o regresso à matriz a partir do seu exterior - tudo isto é mostrado e explicado de forma clara e, exceptuando um momento, livre de ambiguidade no que à interpretação da premissa diz respeito. Reloaded e Revolutions não seguem esta fórmula: os Wachowskis optam por desconstruir a premissa estabelecida no primeiro filme, suscitando questões tanto sobre a realidade como sobre o simulacro - e fazem-no com um maior grau de ambiguidade, com mais sugestão do que explicação, convidando a uma especulação mais profunda sobre os temas originais: a natureza da realidade e a natureza do livre arbítrio. A opção, diga-se de passagem, não foi de todo inédita: bem vistas as coisas, em termos temáticos a conversa entre Neo e o Arquitecto nos momentos finais de Reloaded pouco acrescenta ao que Smith disse a Morpheus no filme original (quanto muito, explica o solilóquio de Smith ao tornar claras as consequências das suas afirmações).


Foi esta ambiguidade que tornou The Matrix - a trilogia no seu todo - num tema capaz de gerar debates ilimitados e interessantíssimos em inúmeros fóruns da Internet pré-Web 2.0 de 2003 e 2004. As questões acumularam-se, e deram origem a um terreno fértil para especulação e teorias de fãs (a minha preferida, que subscrevo, parte da ideia de que Zion é também parte da matriz; explorarei a tese noutra ocasião). Enquanto objectos cinematográficos per seReloaded e Revolutions não chegam sequer perto do virtuosismo o filme original; mas se em ambos há muito para criticar, nem por isso deixa de haver mérito no que à exploração temática da premissa diz respeito. No campo das ideias, as sequelas de The Matrix revelaram-se igualmente estimulantes, repletas de possibilidades mais ou menos canónicas, e deram forma a uma trilogia de blockbusters única na sua ambição e na sua complexidade temática. E isso hoje, numa época em que as grandes produções se querem simples, revela-se mais importante do que nunca. 07/10*

The Matrix Reloaded / The Matrix Revolutions (2003)
Realização e argumento de Larry e Andy Wachowski
Com Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Gloria Foster, Jada Pinkett-Smith, Monica Bellucci, Lambert Wilson, Collin Chou, Nona Gaye, Randall Duk Kim, Harry Lennix, Harrold Perrineau, Gina Torres, Clayton Watson, Helmut Bakaitis, Ian Bliss e Mary Alice
138 minutos / 129 minutos

* A classificação aplica-se a ambos os filmes no seu todo, já que em termos narrativos a separação acaba por se revelar artificial.

8 de janeiro de 2014

Andy e Lana Wachowski juntam-se a J. Michael Straczynski para Sense8

Sense8 é o título da série televisiva que Andy e Lana Wachowski se encontram a desenvolver para a cadeia de streaming norte-americana Netflix, em conjunto com J. Michael Straczynski (criador de Babylon 5). De acordo com o portal TV Line (via io9), esta série de dez episódios terá oito personagens muito diferentes entre si espalhadas por vários locais do planeta, unidas por uma visão ou um sonho. Cada episódio terá uma localização diferente - São Francisco, Chicago, Cidade do México, Berlim, Reino Unido, Nairobi, Mumbai e Seoul -, seguindo a história individual da personagem ligada àquele local. E no seu encalço estão duas misteriosas entidades - uma delas quer reunir os oito sonhadores, e outra tenciona eliminá-los. 

A premissa, como se vê, é promissora - com a dispersão global a tornar possível construir uma série com uma estrutura narrativa muito própria e muito dinâmica. Até ao momento, pouco mais se sabe sobre este projecto - ainda não foram revelados detalhes do elenco, mas sabe-se que entre as personagens se poderá encontrar um actor mexicano de telenovelas homossexual (não assumido), uma party girl islandesa (o que indica que as localizações podem não corresponder à nacionalidade das personagens), uma executiva coreana, um hacker alemão, um condutor de autocarros africano e um blogger trans-género norte-americano. E duas personagens já têm nome: Jonas será um afro-americano que aparece a todos os sonhadores, e o vilão Mr. Whispers.

De acordo com a informação do portal TV Line, as filmagens de Sense8 terão início em Junho. 

Fontes: TV Line / io9

7 de janeiro de 2014

The Animatrix: Jogo de espelhos

À distância de quase quinze anos, ninguém duvida de que The Matrix terá sido um dos filmes mais importantes e influentes dos anos 90 - e no que à ficção científica diz respeito, a película realizada pelos irmãos Wachowski, tornou-se num marco do género, num dos seus filmes incontornáveis e obrigatórios. Corria o ano de 2003 e a expectativa em torno das duas sequelas que dariam continuidade à narrativa cyberpunk polvilhada de influências literárias, filosóficas e religiosas iniciada em 1999 era mais do que muita; e a estreia de The Matrix Reloaded fez-se acompanhar por dois outros elementos que deram forma a uma das mais interessantes experiências transmedia realizadas até hoje - num tempo em que, note-se, tal termo era ainda pouco comum. Esses dois elementos foram o videojogo Enter the Matrix e a colectânea de curtas de animação japonesa The Animatrix. Um dia destes, com mais tempo, tenciono abordar essa experiência multi-plataforma (passe o neologismo da moda) com mais alguma profundidade; por hoje, fiquemo-nos pelas curtas. 

The Animatrix consistiu num ambicioso projecto narrativo dos irmãos Wachowski em redor do universo ficcional que tinham criado com o primeiro filme. Assumindo as suas muitas influências no cinema e na animação japonesa (Ghost in the Shell é a mais óbvia), a dupla propôs a vários estúdios e a vários realizadores de animação a criação de algumas curtas-metragens que, nos seus estilos próprios, explorassem vários aspectos da premissa básica de The Matrix, referidos ao longo dos três filmes de forma mais ou menos evidente, ou não referidos de todo. Algumas das curtas acabaram intimamente ligadas à narrativa principal de Neo, Trinity e Morpheus; outras assumiram caminhos diferentes, explorando à sua maneira conceitos derivados das propostas originais. No seu todo, o conjunto das nove curtas que compõem The Animatrix é notável pela qualidade da animação, pelas propostas temáticas arrojadas, pela forma extraordinária como partem de muitas das ideias fundamentais do primeiro filme para expandir os horizontes de todo aquele universo - e também, diga-se de passagem, pela sua enorme diversidade estética. Um nove em dez, se fosse avaliar o conjunto. Mas vejamos caso a caso. 

The Last Flight of the Osiris
Realização de Andy Jones / Argumento de Larry e Andy Wachowski / Com Kevin Michael Richardson, Pamela Adlon e Tom Kenny
Em termos estéticos, The Last Flight of the Osiris é o descendente directo do filme Final Fantasy: The Spirits Within, a longa metragem da Square Pictures que se tornou numa referência pela sua animação computorizada extremamente sofisticada para a época (ainda que em termos narrativos o filme tenha deixado algo a desejar). No universo de The Matrix, esta curta serve de prequela tanto para The Matrix Reloaded como para Enter the Matrix ao mostrar como a tripulação da nave Osiris tropeçou por acidente no início da invasão das Sentinelas a Zion - e o que a tripulação fez para que essa informação chegasse ao último reduto da Humanidade. Para o seu tempo, a animação de The Last Flight of the Osiris é no mínimo assombrosa, e a forma como serve de ponto de partida para tudo o que se segue é inteligente. E, convém não esquecer, mostra pela primeira vez a utilização de armas a bordo das naves de Zion - algo que o primeiro filme omitira por completo. 08/10

The Second Renaissance Part 1 / The Second Renaissance Part 2
Realização e argumento de Mahiro Maeda / Com Julia Fletcher
As duas curtas que compõem The Second Renaissance exploram a premissa básica de The Matrix, que Morpheus expôs a Neo no filme original - o conflito entre a Humanidade e as Inteligências Artificiais que culminou numa guerra sem quartel e no (aparente) aprisionamento dos seres humanos na simulação interactiva conhecida apenas como "a Matriz". E Mahiro Maeda (que trabalhou em projectos tão distintos como Neon Genesis Evangelion como nas sequências animadas de Kill Bill) utiliza com mestria a sua extraordinária animação para recriar todo o conflito de forma magnífica, com inúmeras referências históricas, religiosas e iconográficas - o tom é levantado da Génese bíblica, e as imagens e o texto remetem para a segregação racial, o Terceiro Reich e o Holocausto, a bandeira de Iwo Jima, os acontecimentos da praça de Tiananmen, e muitos outros momentos históricos. A identificação desta história como parte dos arquivos de Zion não esclarece se a premissa básica de toda a série é de facto verdadeira ou não, mas nem por isso The Second Renaissance perde relevância: no seu estilo documental, é uma peça magnífica. 09/10

Kid's Story
Realização de Shinichirō Watanabe / Argumento de Larry e Andy Wachowski / Com Clayton Watson e Keanu Reeves
Quem tenha visto pela primeira vez The Matrix Reloaded sem ter visto estas curtas decerto terá estranhado uma personagem que surge quando a tripulação da Nebuchadnezzar chega a Zion - um miúdo que recebe Neo, Trinity e Morpheus como se os conhecesse. Kid's Story é a história desse miúdo: um adolescente chamado Michael Karl Popper (Clayton Watson) que vive alienado da realidade, como se percebesse nela a sua natureza de simulacro - mesmo sendo incapaz de a descrever de forma concreta. Mas Neo contacta-o e desafia-o a libertar-se por força da fé - o que leva a que Kid se torne no primeiro caso de alguém se se libertou da Matriz sem ajuda externa. Kid's Story é a primeira das duas curtas de The Animatrix realizadas por Shinichirō Watanabe, o aclamado criador de Cowboy Bebop; e a sua animação frenética serve na perfeição a narrativa e o ponto de vista adolescente e vagamente depressivo de Kid. 07/10

Program
Realização e argumento de Yoshiaki Kawajiri / Com Hedy Burress e Phil LaMarr
Yoshiaki Kawajiri, criador de filmes de animação aclamados como Ninja Scroll e Vampire Hunter D: Bloodlust, pega no conceito original de Cypher - o traidor de The Matrix que desejava recuar na sua escolha do comprimido vermelho e ser reinserido na Matriz - para dar forma a uma das melhores curtas da antologia. A animação, sombria e detalhada, é a todos os níveis excepcional, e serve na perfeição o dilema moral de Cis (Hedy Burress), bloqueada na sua simulação de treinos alusiva ao Japão feudal por Duo (Phil LaMarr), que pretende desafiá-la a trair Zion com ele em troca do esquecimento e da vida "normal" que só a simulação da Matriz lhes poderá devolver. O combate frenético que se desenrola entre os dois pauta a indecisão da protagonista - e abre caminho para um dos finais mais ambíguos das curtas apresentadas. 10/10

World Record
Realização de Takeshi Koike / Argumento de Yoshiaki Kawajiri / Com Victor Williams, John Wesley, Allison Smith e Tara Strong
Esta produção da Madhouse explora uma vez mais o tema da auto-substanciação abordado em Kid's Story, mas desta vez através da superação pessoal e da pura força de vontade. Dan Davis (Victor Williams) é um atleta de alta competição, detentor do recorde mundial dos 100 metros - cuja medalha lhe foi retirada devido a um escândalo de doping. Determinado a regressar à competição para bater o seu próprio recorde e provar a todos que as drogas nada tinham que ver com o seu anterior resultado, Davis ignora os conselhos do seu treinador para competir na prova dos 100 metros nos Jogos Olímpicos - e a sua superação individual fá-lo ultrapassar as barreiras da realidade simulada e ver a realidade para lá do simulacro da Matriz. Para além de explorar uma premissa interessante dentro da ideia básica de The Matrix, World Record revela-se um conto fascinante sobre a força de vontade e a capacidade infinita que os seres humanos têm para se superarem a si mesmos. 09/10

Beyond
Realização e argumento de Kōji Morimoto / Com Hedy Burress, Pamela Adlon, Matt McKenzie, Kath Soucie e Tara Strong
Beyond aborda a ideia de que os fenómenos paranormais são apenas falhas - glitches - no código da Matriz através de Yoko (Hedy Burress), uma adolescente que, enquanto procura a sua gata, encontra uma casa assombrada em plena malha urbana. Juntamente com um grupo de miúdos, Yoko depara-se com uma série de fenómenos desconcertantes naquele terreno - com objectos a levitar, garrafas quebradas que se voltam a unir como se nunca tivessem sido partidas, e zonas inteiras nas quais as leis da Física parecem não se aplicar. As crianças utilizam a casa assombrada para se divertirem a fazer acrobacias impossíveis, sem qualquer receio; mas a descoberta de Yoko leva a que os Agentes intervenham para evitar que a natureza do simulacro seja exposta. Com uma animação excepcional que empresta à premissa o onirismo de que esta necessita para se elevar, Beyond é sem dúvida um dos melhores trabalhos de The Animatrix. 10/10

A Detective Story
Realização e argumento de Shinichirō Watanabe / Com James Arnold Taylor e Carrie-Anne Moss
Nesta sua segunda curta, Shinichirō Watanabe junta-se ao animador Kazuto Nakazawa para contar uma história de detectives num bom e velho estilo noir, ao qual não falta a inevitável banda sonora de jazz (imagem de marca também em Cowboy Bebop, e aqui assegurada por uma excelente e muito apropriada faixa dos Supreme Beings of Leisure). Ash (James Arnold Taylor) é um detective privado com falta de trabalho, a quem é feita uma proposta anónima de preço irrecusável: localizar um hacker conhecido apenas pelo nickname "Trinity" (Carrie-Anne Moss). No decurso da investigação, Ash descobre que três outros detectives já trabalharam no mesmo caso, com resultados no mínimo estranhos -  e para chegar a Trinity, depara-se com um enigma retirado de Through the Looking Glass, de Lewis Carroll. Com um ritmo perfeito e uma conclusão ambígua, A Detective Story distingue-se pela animação superlativa, pela estética noir desenvolvida com rigor, e pela exploração que faz de Trinity antes dos acontecimentos do primeiro filme. 10/10

Matriculated
Realização e argumento de Peter Chung / Com Melinda Clarke
O realizador da série de animação Aeon Flux assina a mais surreal e arrojada curta de The AnimatrixMatriculated acompanha um grupo de rebeldes que, num laboratório montado na superfície do planeta, se encontra a investigar a possibilidade de converter inteligências artificiais para o lado da Humanidade sem recorrer a alterações na programação que em termos práticos consistissem numa forma de escravatura. Para tal, capturam máquinas e inserem-nas numa Matriz própria, onde tentam utilizar empatia para dar às inteligências artificiais capturadas o livre arbítrio necessário para se sobrepor à sua programação original. Uma máquina é submetida a esta experiência, e colocada numa matriz surrealista; mas os resultados vão bem mais longe do que o esperado. O arrojo conceptual da premissa de Matriculated ganha força com o carácter psicadélico da animação de Chung; e o seu final aberto deixa antever uma possibilidade fascinante em todo o universo de The Matrix. 09/10. 

10 de dezembro de 2013

Jupiter Ascending: Primeiro trailer do novo projecto dos Wachowski

Foi divulgado ontem o primeiro trailer de Jupiter Ascending, o próximo filme de ficção científica de Andy e Lana Wachowski, com Mila Kunis, Channing Tatum e Sean Bean no elenco. O que se sabe da história até agora - com a personagem de Mila Kunis no papel clássico de chosen one para derrubar uma tirania galáctica - não é ainda muito, mas parece tratar-se de terreno familiar para a dupla de realizadores (e parece indicar que a personagem de Sean Bean morrerá algures); e em termos estéticos, parecem apostados no seu tradicional - e invariavelmente bom - eye candy.

Jupiter Ascending tem estreia prevista para Julho de 2014. Abaixo, o trailer.


Fonte: io9

24 de outubro de 2013

Cloud Atlas: Um clássico futuro?

No Tor.com, Brad Kane recorda Cloud Atlas, a adaptação cinematográfica do romance homónimo de David Mitchell realizada por Larry Wachowski, Lana Wachowski e Tom Tykwer que foi um dos grandes flops cinematográficos do ano passado. Um fracasso não merecido, argumenta Kane, destacando os seus méritos mais evidentes - a sua inegável ambição, a forma soberba como consegue interligar seis histórias tão diferentes em termos temporais, temáticos e estilísticos numa mesma continuidade fragmentada (a edição é um luxo), as temáticas exploradas através desta estrutura invulgar, a excelente banda sonora, criminosamente ignorada. 


Recuperando a minha própria crítica ao filme, escusado será dizer que concordo com quase todos os pontos do artigo de Brad Kane. Cloud Atlas foi, sem sombra de dúvida, o melhor filme que vi no ano passado, e um dos melhores que tive a oportunidade de ver nos últimos anos - pela sua ousadia narrativa, pela competência do seu elenco, pela edição formidável, pelos temas. Apenas não partilho aquela relativa superioridade da afirmação de que quem não gostou prefere necessariamente entretenimento fácil - não só por haver muitos outros motivos válidos para explicar um menor encantamento, como também porque o que não falta na história do cinema são clássicos que, à época da sua estreia, foram desprezados nas bilheteiras e espezinhados pela crítica. Blade Runner, de Ridley Scott, será talvez o caso mais popular entre a comunidade de ficção científica (de resto habituada a estas andanças), mas The Night of the Hunter, com Robert Mitchum, constitui um exemplo melhor: tal foi o seu fracasso na bilheteira que se tornou no primeiro e no último filme realizado pelo actor Charles Laughton. O tempo, porém, deu razão a Laughton; hoje em dia, não há lista dos "melhores X filmes de sempre" que se preze a esquecer este improvável e fascinante clássico do cinema. 

Infelizmente para Cloud Atlas, tal fenómeno começa a escassear. Não vivemos numa época dada a esperar, a reavaliar, a reconsiderar - os grandes filmes deste ano são praticamente esquecidos no ano seguinte, após o lançamento no mercado doméstico; e o debate da especialidade, transposto para os fórums da Internet, acaba também por ceder à voragem do meio - com o soundbyte a sobrepor-se à reflexão e os temas de hoje a serem irrelevantes amanhã. Gostaria de pensar que, daqui por uma ou duas décadas, as audiências olhassem para o filme dos Wachowski e de Tykwer como nós hoje olhamos para Blade Runner; mas, olhando para a cultura contemporânea, os sinais não são de todo animadores. 

Fonte: Tor.com

4 de dezembro de 2012

O fascinante puzzle narrativo de Cloud Atlas

Por muitos considerado um projecto impossível, Cloud Atlas, a adaptação cinematográfica do romance homónimo de David Mitchell, polarizou a crítica desde a sua ante-estreia em Setembro, no Festival de Cinema de Toronto: houve quem se rendesse à ambição e à execução técnica de Lana e Andy Wachowsky com Tom Twyker, tal como muitos acharam o filme uma estopada intragável. A crítica portuguesa não foi excepção: no Ipsilon, Jorge Mourinha dá-lhe quatro estrelas (em cinco), enquanto Luís Miguel Oliveira lhe atribui apenas uma. Em que ficamos, então?

Não tendo lido o livro de David Mitchell, é-me impossível analisar Cloud Atlas enquanto adaptação de uma obra literária. Resta-me, assim, avaliá-lo apenas enquanto filme, com base na percepção que tive. E a percepção que tive ao vê-lo resume-se isto:  Cloud Atlas é um filme a todos os níveis formidáveis, um projecto cuja vasta ambição apenas foi superada pela execução soberba. Para um filme que consiste numa vasta frame story com quase três horas de duração, o maior elogio que lhe poderei fazer é: lamentei o facto de a sessão ter intervalo. 

Mas vamos por partes. Cloud Atlas conta, em simultâneo, seis (sete) histórias tão diferentes no tom, no tempo e no espaço que cada uma, por si só, poderia dar um filme. Em 1849, é-nos apresentado o jovem advogado Adam Elwing numa viagem de negócios às "Ilhas do Pacífico" em nome do seu sogro, e o seu contacto com a realidade da escravatura vai mudar para sempre o rumo da sua vida. Em 1936, conhecemos o jovem compositor Robert Frobisher, a braços com um passado polémico, quando se torna no assistente do celebrado compositor britânico Vyvyan Arys, esperando ter o tempo necessário para compor a sua obra-prima. Em 1973, em São Francisco, acompanhamos a jornalista Luisa Rey, que se vê envolvida numa vasta conspiração entre lobbies da energia. Em 2012, vemos o editor inglês Timothy Cavendish ganha fama ao publicar o livro de um gangster, mas esse sucesso súbito traz-lhe mais problemas do que imaginara. Num salto para o futuro, chegamos a 2144: em Neo Seoul, a fabricant Somni-451 (uma clone geneticamente concebida) descobre uma realidade sombria, que jamais imaginara a partir da sua simples vida de empregada de mesa. E num futuro ainda mais distante, após um desastre apocalíptico que terá ocorrido em 2321, encontramos Zachry numa das ilhas do Hawaii. Atormentado pela culpa, Zachry vai embarcar numa aventura que o levará mais longe do que alguma vez imaginara possível.

Todas estas histórias, tão distintas no tom e na estética, são contadas de forma fragmentada, numa intricada frame story que se assemelha a um puzzle. À primeira vista, não têm qualquer ligação directa entre si; no entanto, em todas elas é possível encontrar pistas e indicações mais ou menos subtis que as ligam entre si, formando uma narrativa mais vasta, com um ritmo praticamente perfeito, na qual é explorada a grande mensagem do filme: tudo está interligado no tempo e no espaço, e cada acto, seja bom ou mau, terá consequências inesperadas. O que é abordado de forma muito particular em cada uma das histórias individuais.

Um elenco singular dá vida a este mosaico narrativo: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Broadbent, Doona Bae, Jim Sturgess, James D'Arcy, Hugh Grant, Susan Sarandon, Keith David e muitos outros rostos conhecidos. Numa decisão tão inteligente como polémica, os realizadores optaram por dar a cada um destes actores e destas actrizes vários papéis nas várias histórias que compõem Cloud Atlas, recorrendo a uma caracterização extraordinária para tornar cada uma delas única, apesar de identificável (nem sempre), reforçando a mensagem subjacente ao filme. A opção foi polémica, sobretudo no que diz respeito à utilização de actores ocidentais a representar personagens asiáticas; julgo, porém, que não só se justifica a aposta, considerando a narrativa peculiar e as várias ideias que esta pretende transmitir através das várias personagens nos vários momentos históricos. 

De uma perspectiva estética e visual, Cloud Atlas é assombroso. A montagem está muito inteligente, com algumas transições tão bem executadas que quase dá vontade de voltar atrás para as ver de novo, contribuindo assim para a construção progressiva do puzzle narrativo. Os fragmentos das várias histórias sucedem-se de forma aparentemente aleatória na primeira metade do filme, para começarem aos poucos a encaixar na segunda parte, com os vários desfechos a contribuírem, cada um à sua maneira, para o clímax do filme. Entre os cenários, destaca-se - é inevitável - a metrópole futurista de Neo Seoul, com as suas enormes torres negras, as suas auto-estradas de luz (um conceito que parece mesmo saído de Tron, ou mesmo do jogo Portal), os seus sofisticados veículos anti-gravidade com inspiração em The Matrix e os seus deslumbrantes salões holográficos. É quase impossível não pensar em Blade Runner quando vemos a cidade (inspiração assumida pelo autor do livro), mas há qualquer coisa de único naquele ambiente. 

Como disse, não li ainda o livro de David Mitchell - e, por isso, não sei se está fiel à obra ou se a descaracteriza. Da mesma forma, não consigo dizer se as várias escolhas tomadas e as várias soluções encontradas pelos Wachowskis e por Twyker foram as mais apropriadas, lógicas ou interessantes. Como filme, porém, Cloud Atlas é um monumento: uma obra tão vasta na sua ambição como na sua intrincada espiral narrativa, sustentada por uma componente visual deslumbrante e por um elenco talentoso que se desdobra de forma brilhante por vários papéis em vários enredos secundários, diversos no tempo e no espaço, unidos com mestria para formar uma narrativa fascinante. Percebo que não seja um filme para agradar a todos - pela duração, pela complexidade narrativa, por alguns detalhes da caracterização aos quais alguns espectadores possam ser mais sensíveis. A mim, porém, Cloud Atlas fascinou-me como poucos filmes conseguiram nos últimos anos. 09/10

Cloud Atlas (2012)
Realizado por Lana Wachowsky, Andy Wachowsky e Tom Twyker
Com Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Doona Bae, Hugo Weaving, Jim Sturgess, James D'Arcy, Keith David, Hugh Grant e Susan Sarandon.
173 minutos

8 de novembro de 2012

V for Vendetta: Os altos e baixos da adaptação cinematográfica

Ao longo dos últimos dias falei aqui de V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd. Abordei o universo distópico criado por Moore, as personagens e a sua importância no puzzle narrativo de V. Isto, note-se, a propósito de um comic vasto, complexo, repleto de narrativas laterais e desenvolvido ao longo de vários anos. Em 2005, estreou a adaptação cinematográfica deste fascinante universo, num filme realizado por James McTeigue, com argumento e produção de Larry e Andy Wachowsky, e com um elenco repleto de actores consagrados: Hugo Weaving, Natalie Portman, John Hurt, Stephen Rea, Stephen Fry e Ruper Graves. Sem surpresas, Alan Moore opôs-se ao projecto, e não permitiu qualquer associação do seu nome ao filme. Mas independentemente desta oposição, terá este filme conseguido fazer justiça ao formidável comic de Moore e Lloyd?

Sim e não.

Não fez justiça ao comic na medida em que tal seria impossível: V for Vendetta é demasiado denso e contém demasiadas narrativas secundárias para uma adaptação num filme de pouco mais de duas horas. Para ser franco, nem quatro horas chegariam para contar a história de V, de Evey, de Finch e de Susan, e ainda para acompanhar as narrativas laterais de Creedy, Etheridge, Heyer, Almond, Rosemary, Helen e Ally, e mesmo do supercomputador "Fate" (e, recordemos, todas estas narrativas são fundamentais para o desfecho do comic). Foi necessário fazer inúmeros desvios narrativos, alterar a ordem de muitos acontecimentos, omitir outros, cortar algumas personagens e reduzir outras a uma quase-insignificância, e ainda fazer algumas alterações drásticas tanto em personagens como em momentos fundamentais da narrativa. Adam Susan, interpretado por John Hurt, viu o seu nome alterado para Adam Sutler (uma alteração que julgo desnecessária), e passou de um tirano ambíguo para um Hitler versão século XXI; já Creedy deixou de ser o pequeno criminoso chegado ao poder para se tornar num dos cérebros do Norsefire e num vilão um tanto ou quanto cartoony. Finch, por seu lado, não foi tão longe para descobrir V, e Evey viu o seu passado drasticamente alterado. Larkhill, por exemplo, deixou de ser um mero campo de concentração onde foram feitas experiências macabras: essas experiências abriram a porta a uma vasta conspiração de terrorismo biológico, ausente no comic, que ajudou o Norsefire a ascender ao poder.

Em termos globais, o filme acaba por transmitir uma mensagem menos “anarquista” e mais contemporânea - se no comic V é sempre uma personagem ambígua, no filme essa ambiguidade esbateu-se de forma significativa, e ele é de facto um herói - como muitos disseram, um freedom-fighter (ainda assim, julgo que Alan Moore exagera quando considera que o filme passa uma mensagem “pró-americana” - aliás, julgo que a ideia é justamente a oposta).

Há, contudo, vários pontos nos quais a adaptação funciona muito. O foco na televisão, e não na rádio, está excelente e faz mais sentido para as audiências do século XXI - tal como a referência à Interlink, que suponho ser a Internet (algo que em 1982 não existia tal como a conhecemos hoje). A conspiração do terrorismo biológico para a ascensão do Norsefire, apesar de ser um elemento novo (e porventura desnecesário), está bem construído, não sendo rebuscado e não ferindo a lógica interna da narrativa. O elenco é praticamente irrepreensível - John Hurt está sólido como Sutler e Stephen Rea representa um excelente Finch; mas Natalie Portman brilha como Evey Hammond (a cena da tortura é inesquecível) e Hugo Weaving tem um desempenho tão forte que consegue dar expressividade a uma personagem que tem sempre o rosto coberto por uma máscara. Diria mesmo que o desempenho magnético de Weaving é mesmo o ponto forte do filme: consegue transmitir de forma impressionante o carácter violento mas teatral de V, com todo o seu idealismo e a sua inteligência.

A narrativa conheceu bastantes alterações de forma a adequar o ritmo à duração do filme. A vingança de V contra Prothero, Lilliman e Surridge manteve-se, ainda que com algumas alterações (sobretudo no caso de Prothero), tal como a história de Valerie Page, especialmente bem contada durante o incarceramento de Evey (também adaptado de forma fiel). Mesmo o final, apesar de muitas alterações (fruto do desaparecimento de muitas narrativas secundárias), manteém alguma fidelidade para com o comic. O início do filme é idêntico ao comic, mas muda logo nos primeiros minutos, quando V faz explorir o Old Bailey - o Parlamento é guardado para o final apoteótico.

Por muito discutível que a adaptação de V for Vendetta seja, com todas as suas alterações e todos os seus desvios, a verdade é que o resultado é um filme muito acima da média, com desempenhos memoráveis e uma carga simbólica muito forte. Creio que é neste ponto que V for Vendetta, o filme, mais se aproxima do comic: apesar de todas as mudanças (muitas delas drásticas), conseguiu preservar o essencial da subversiva mensagem elaborada por Alan Moore e David Lloyd, e passá-la de forma muito coerente, criando e adaptando algumas frases que se tornaram em autênticos soundbites (People shouldn’t be afraid of their governments, governments should be afraid of their people). Não dispensa a leitura do comic, agora compilado em graphic novel, mas vale por si só como um óptimo e poderoso filme. 8.0/10

5 de novembro de 2012

V for Vendetta: Introdução - do comic icónico à adaptação cinematográfica

Corria o ano de 1982 quando nas páginas da revista "Warrior", uma publicação britânica mensal de comics, começou a ser publicada um comic que se tornaria numa referência incontornável da banda desenhada mundial: V for Vendetta, escrito por Alan Moore e ilustrado por David Lloyd. A história do anarquista anónimo com a máscara de Guy Fawkes que procura devolver a liberdade a uma Inglaterra distópica dominada por um partido fascista rapidamente se tornou num dos comics mais populares da "Warrior" - pelo que, aquando do cancelamento da revista em 1985, várias editoras procuraram reeditar V for Vendetta e concluir a narrativa que ficara incompleta nas páginas da revista.

Essa publicação viria a ser feita pela DC Comics, numa série de dez fascículos que reeditaram as histórias da desaparecida Warrior a cores (a publicação original era a preto e branco), e completaram a narrativa de V. Desde então, a história completa de V for Vendetta já foi publicada na totalidade em edições paperback da linha Vertigo da DC Comics, e numa Absolute Edition em formato hardcover, com material inédito.

Em 2005, V for Vendetta é adaptado para o cinema, num filme realizado por James McTeigue com argumento escrito por Larry e Andy Wachowsky (The Matrix). O elento inclui Hugo Weaving no papel de V, Natalie Portman como Evey Hammond, Stephen Rea como Eric Finch e John Hurt como Adam Sutler (a versão cinematográfica do ditador Adam Susan dos comics), entre outros actores consagrados (como Stephen Fry). Alan Moore, tradicionalmente adverso a adaptações cinematográficas dos seus trabalhos, afastou-se por completo do projecto e não permitiu que o seu nome surgisse associado ao filme. Substancialmente diferente da graphic novel em que se baseia não só em termos de densidade e profundidade narrativa como também nos episódios e nas personagens, o filme V for Vendetta teve uma recepção algo tépida por parte da crítica, mas rapidamente ganhou a aclamação do público e conquistou um espaço muito próprio na cultura popular da primeira década deste milénio.

(continua)

Remember, remember, the 5th of November

Acompanhando o espírito da época, o Viagem a Andrómeda vai dedicar esta semana a V for Vendetta, a icónica graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, e à respectiva adaptação cinematográfica escrita por Larry e Andy Wachowsky em 2005 e realizada por James McTeigue. Ao longo da semana serão publicados vários artigos (ou assim espero) sobre a obra de Moore e Lloyd, sobre as características do comic que passaram para o cinema, e sobre a importância e a influência de ambas as obras. Estão assim seleccionados o livro e o filme para esta semana, apesar de os artigos sobre ambos não irem aparecer de forma convencional no blogue. 

Artigos sobre outros temas continuarão a ser publicados como é habitual.

[Texto editado para rectificar uma incorrecção: o filme foi realizado por James McTeigue, e não por Larry e Andy Wachowsky - que escreveram o guião]

12 de setembro de 2012

Looper e Cloud Atlas: Primeiras impressões da crítica (Festival de Cinema de Toronto)

Os dois filmes de ficção científica mais aguardados do ano, Looper e Cloud Atlas, tiveram a sua ante-estreia no Festival de Cinema de Toronto, no Canadá. Sem surpresas para quem viu o trailer, Cloud Atlas foi recebido com muito entusiasmo por alguns e muita perplexidade por outros, dividindo-se a opinião entre quem considerou o filme excepcional e um desperdício de tempo e de dinheiro (Roger Ebert, por exemplo, parece fazer parte do primeiro grupo). Já Looper, a avaliar pelas críticas deixadas no portal Rotten Tomatoes, parece ser mais consensual: é do melhor que a ficção científica conheceu nos últimos anos. 

Quanto ao filme de Rian Johnson com Bruce Willis e Joseph Gordon-Levitt a representar o mesmo papel, basta esperarmos mais alguns dias: estreia em Portugal a 27 de Setembro. A adaptação dos Wachowsky e Tom Tykwer ao romance de David Mitchell vai obrigar-nos a esperar mais um pouco: apesar de estrear a 26 de Outubro na América do Norte, só irá chegar a Portugal a 20 de Dezembro.

5 de setembro de 2012

Cloud Atlas, ou a história de uma das mais ambiciosas adaptações cinematográficas dos últimos anos

Leitura mais do que recomendada: na edição online da revista The New Yorker, um artigo de fundo de Aleksandar Hamon sobre a adaptação cinematográfica de Cloud Atlas (romance de David Mitchell), realizada por Lana Wachowki, Andy Wachowsky e Tom Twyker. Excelente trabalho jornalístico, como seria de esperar numa publicação do calibre da TNY: explora a origem da ideia da adaptação (Natalie Portman estava a ler o livro durante a rodagem de V For Vendetta), conversa directamente com Mitchell, explora as dificuldades em encontrar apoios para esta monumental produção independente, o processo criativo para transpor as várias narrativas literárias para uma única narrativa cinematográfica coerente, as expectativas, a história e as questões pessoais dos Wachowski e o respectivo impacto nas suas carreiras. 

Falei do trailer de Cloud Atlas quando ele foi disponibilizado - e, ainda que na altura tenha ficado impressionado com a componente visual do filme, a questão narrativa não me interessou muito. O que tem vindo a mudar com o passar do tempo, à medida que vou lendo mais coisas sobre este projecto. De facto, começo a ter algumas expectativas quanto a Cloud Atlas, nem que seja porque o livro parece de facto interessante e os Wachowski, afinal, já revolucionaram a ficção científica cinematográfica uma vez. É certo que dada a ambição do projecto, dificilmente o resultado será medíocre - ou será um trainwreck, ou teremos um filme extraordinário. É bem possível que se verifique a última situação, e que Cloud Atlas venha a ser o filme que o género aguarda desde The Matrix. A 20 de Dezembro teremos a resposta.

1 de agosto de 2012

Cloud Atlas: Divulgado trailer alargado

Os Wachowskis (juntamente com Tom Tykwer, realizador de Run Lola Run) regressam no Outono com a adaptação cinematográfica de Cloud Atlas, o best seller de David Mitchell - e, em jeito de anúncio, foi divulgado um trailer alargado muito interessante, com quase seis minutos.



Não li o livro de David Mitchell (para ser franco, não tinha sequer ouvido falar do filme até há algumas semanas, quando soube que os Wachowskis estavam a trabalhar numa adaptação) e a verdade é que, apesar de o trailer estar muito interessante, a componente narrativa não me entusiasma por aí além. Ou então tornei-me (ainda mais) cínico devido a alguns falhanços recentes e estrondosos. Já a componente visual, essa, enche verdadeiramente o olho - sobretudo na parte de ficção científica. A aguardar mais desenvolvimentos.