Por muitos considerado um projecto impossível, Cloud Atlas, a adaptação cinematográfica do romance homónimo de David Mitchell, polarizou a crítica desde a sua ante-estreia em Setembro, no Festival de Cinema de Toronto: houve quem se rendesse à ambição e à execução técnica de Lana e Andy Wachowsky com Tom Twyker, tal como muitos acharam o filme uma estopada intragável. A crítica portuguesa não foi excepção: no Ipsilon, Jorge Mourinha dá-lhe quatro estrelas (em cinco), enquanto Luís Miguel Oliveira lhe atribui apenas uma. Em que ficamos, então?
Não tendo lido o livro de David Mitchell, é-me impossível analisar Cloud Atlas enquanto adaptação de uma obra literária. Resta-me, assim, avaliá-lo apenas enquanto filme, com base na percepção que tive. E a percepção que tive ao vê-lo resume-se isto: Cloud Atlas é um filme a todos os níveis formidáveis, um projecto cuja vasta ambição apenas foi superada pela execução soberba. Para um filme que consiste numa vasta frame story com quase três horas de duração, o maior elogio que lhe poderei fazer é: lamentei o facto de a sessão ter intervalo.

Mas vamos por partes. Cloud Atlas conta, em simultâneo, seis (sete) histórias tão diferentes no tom, no tempo e no espaço que cada uma, por si só, poderia dar um filme. Em 1849, é-nos apresentado o jovem advogado Adam Elwing numa viagem de negócios às "Ilhas do Pacífico" em nome do seu sogro, e o seu contacto com a realidade da escravatura vai mudar para sempre o rumo da sua vida. Em 1936, conhecemos o jovem compositor Robert Frobisher, a braços com um passado polémico, quando se torna no assistente do celebrado compositor britânico Vyvyan Arys, esperando ter o tempo necessário para compor a sua obra-prima. Em 1973, em São Francisco, acompanhamos a jornalista Luisa Rey, que se vê envolvida numa vasta conspiração entre lobbies da energia. Em 2012, vemos o editor inglês Timothy Cavendish ganha fama ao publicar o livro de um gangster, mas esse sucesso súbito traz-lhe mais problemas do que imaginara. Num salto para o futuro, chegamos a 2144: em Neo Seoul, a fabricant Somni-451 (uma clone geneticamente concebida) descobre uma realidade sombria, que jamais imaginara a partir da sua simples vida de empregada de mesa. E num futuro ainda mais distante, após um desastre apocalíptico que terá ocorrido em 2321, encontramos Zachry numa das ilhas do Hawaii. Atormentado pela culpa, Zachry vai embarcar numa aventura que o levará mais longe do que alguma vez imaginara possível.

Todas estas histórias, tão distintas no tom e na estética, são contadas de forma fragmentada, numa intricada frame story que se assemelha a um puzzle. À primeira vista, não têm qualquer ligação directa entre si; no entanto, em todas elas é possível encontrar pistas e indicações mais ou menos subtis que as ligam entre si, formando uma narrativa mais vasta, com um ritmo praticamente perfeito, na qual é explorada a grande mensagem do filme: tudo está interligado no tempo e no espaço, e cada acto, seja bom ou mau, terá consequências inesperadas. O que é abordado de forma muito particular em cada uma das histórias individuais.

Um elenco singular dá vida a este mosaico narrativo: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Jim Broadbent, Doona Bae, Jim Sturgess, James D'Arcy, Hugh Grant, Susan Sarandon, Keith David e muitos outros rostos conhecidos. Numa decisão tão inteligente como polémica, os realizadores optaram por dar a cada um destes actores e destas actrizes vários papéis nas várias histórias que compõem Cloud Atlas, recorrendo a uma caracterização extraordinária para tornar cada uma delas única, apesar de identificável (nem sempre), reforçando a mensagem subjacente ao filme. A opção foi polémica, sobretudo no que diz respeito à utilização de actores ocidentais a representar personagens asiáticas; julgo, porém, que não só se justifica a aposta, considerando a narrativa peculiar e as várias ideias que esta pretende transmitir através das várias personagens nos vários momentos históricos.

De uma perspectiva estética e visual, Cloud Atlas é assombroso. A montagem está muito inteligente, com algumas transições tão bem executadas que quase dá vontade de voltar atrás para as ver de novo, contribuindo assim para a construção progressiva do puzzle narrativo. Os fragmentos das várias histórias sucedem-se de forma aparentemente aleatória na primeira metade do filme, para começarem aos poucos a encaixar na segunda parte, com os vários desfechos a contribuírem, cada um à sua maneira, para o clímax do filme. Entre os cenários, destaca-se - é inevitável - a metrópole futurista de Neo Seoul, com as suas enormes torres negras, as suas auto-estradas de luz (um conceito que parece mesmo saído de Tron, ou mesmo do jogo Portal), os seus sofisticados veículos anti-gravidade com inspiração em The Matrix e os seus deslumbrantes salões holográficos. É quase impossível não pensar em Blade Runner quando vemos a cidade (inspiração assumida pelo autor do livro), mas há qualquer coisa de único naquele ambiente.

Como disse, não li ainda o livro de David Mitchell - e, por isso, não sei se está fiel à obra ou se a descaracteriza. Da mesma forma, não consigo dizer se as várias escolhas tomadas e as várias soluções encontradas pelos Wachowskis e por Twyker foram as mais apropriadas, lógicas ou interessantes. Como filme, porém, Cloud Atlas é um monumento: uma obra tão vasta na sua ambição como na sua intrincada espiral narrativa, sustentada por uma componente visual deslumbrante e por um elenco talentoso que se desdobra de forma brilhante por vários papéis em vários enredos secundários, diversos no tempo e no espaço, unidos com mestria para formar uma narrativa fascinante. Percebo que não seja um filme para agradar a todos - pela duração, pela complexidade narrativa, por alguns detalhes da caracterização aos quais alguns espectadores possam ser mais sensíveis. A mim, porém, Cloud Atlas fascinou-me como poucos filmes conseguiram nos últimos anos. 09/10
Cloud Atlas (2012)
Realizado por Lana Wachowsky, Andy Wachowsky e Tom Twyker
Com Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Doona Bae, Hugo Weaving, Jim Sturgess, James D'Arcy, Keith David, Hugh Grant e Susan Sarandon.
173 minutos