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20 de julho de 2014

Citação fantástica (144)

All the history of human life has been a struggle between wisdom and stupidity.

Philip Pullman, The Amber Spyglass (1999)

4 de maio de 2014

Citação fantástica (124)

I stopped believing there was a power of good and a power of evil that were outside us. And I came to believe that good and evil are names for what people do, not for what they are.

Philip Pullman, The Amber Spyglass (1999)

2 de fevereiro de 2014

Citação fantástica (105)

When you live for many hundreds of years, you know that every opportunity will come again.

Philip Pullman, Northern Lights (1995)

21 de março de 2013

Philip Pullman: "I’m staying at home at my desk, and I’m going to write The Book of Dust until it’s completed." (entrevista)

Philip Pullman publicou recentemente Grimm Tales: For Young and Old, uma edição contemporânea dos populares contos dos irmãos Grimm, e um livro muito curioso intitulado The Good Man Jesus and the Scoundrel Christ - mas a trilogia His Dark Materials (The Northern Lights, The Subtle Knife, The Amber Spyglass) continua a ser a sua obra-prima, e uma referência incontornável na literatura de fantasia contemporânea (e não só). Numa interessante entrevista ao podcast Geek's Guide to the Galaxy, entretanto transcrita e publicada na Lightspeed Magazine, Philip Pullman falou sobre Grimm, sobre His Dark Materiaals e a adaptação cinematográfica, sobre religião e ateísmo, sobre a sua carreira de professor e sobre política - e concluiu com uma excelente notícia sobre o universo de Lyra e Will. Alguns destaques:

(...)

Was that in your mind at all when you wrote the books, that this would be something that would provide encouragement to nonbelievers? 
No, not at all. Not for one single second. I just wanted to tell the story. That’s all I wanted to do, and I wanted to tell it as well as possible, and I thought I’d reached a stage in my life, in my storytelling, when I knew how to do it. Having got hold of this big story, I knew I could tell it, but I didn’t think it would have that sort of effect, no, not for a single second. I didn’t think many people would read it, actually. I thought it would sell maybe a thousand copies and then would be forgotten. That’s what had happened to all my other books. [Laughs] So I saw no reason why that should be different. But it seemed to attract a lot of attention, and that was something very unexpected and very, very welcome.

(...)

I’ve heard people who worked on the film say that the studio was really tampering with it, and that a director’s cut would be much longer and much better? 
Yes, I think that’s probably the case. They did shoot the whole of the story of the first book, so it’s there somewhere . . . if they haven’t thrown it away. And one day there might be a cut, whether it’s a director’s cut or another sort of a cut, I don’t know, where the whole story would be available. But the problem is that, even if they put the whole of the first book there, they didn’t film the second book and the third book, and it is, of course, not three separate books, but one long story. There was no urgent desire on the part of the studio to make the second movie or the third one, and now it would be impossible, at least with the same cast. The little girl, Dakota Blue Richards, who played Lyra, is now eighteen or nineteen years old. And Daniel Craig, who played Lord Asriel, is much more expensive, being the new James Bond. So a continuation of that first movie in parts two and three is no longer possible. So if it is going to be seen on the screen again, it will have to be in another form altogether.

(...)

Are there any upcoming projects you’d like to mention? 
 Yes, having cleared Grimm and Jesus out of the way, and all the other things I was doing, I’m now able to concentrate on The Book of Dust, which is the sequel to His Dark Materials. I’m going to clear the whole of next year, and most of the year after, and I’m not going to accept any invitations or do anything, make speeches, go anywhere, do anything at all. I’m staying at home at my desk, and I’m going to write The Book of Dust until it’s completed. From now on, nothing more at all. Silence will descend. I’ll be in my room, with my pen and my paper, writing The Book of Dust.

A entrevista pode (e deve) ser lida na íntegra na Lightspeed Magazine, ou ouvida no podcast Geek's Guide to the Galaxy.


25 de janeiro de 2013

Northern Lights, ou o início do grande épico da fantasia moderna

Lembro-me como se fosse ontem. Corria o Outono de 2005, e boa parte das minhas noites eram passadas a jogar World of Warcraft (que na altura era novidade). Na época, tinha um grupo muito regular com quem jogava, composto por dois amigos reais e algumas pessoas de vários países da Europa que conheci online. O que era óptimo, pois não só tornava o jogo em si mais interessante, como também proporcionava óptimas conversas em momentos mortos (ou mesmo durante a enésima expedição a Scarlet Monastery). Uma dessas muitas e aleatórias conversas, porém, acabou por se revelar muito importante: o tema era livros e uma rapariga inglesa que fazia parte do grupo, disse que o seu livro preferido era Northern Lights, de Philip Pullman, um autor britânico de quem nunca ouvira falar. Dada a sugestão, decidi procurar o livro - e numa Fnac de Lisboa foi-me possível encomendar uma edição original*, que chegou ao fim de três semanas.

Para alguém como eu, cujas referências na fantasia literária eram Tolkien (devido ao entusiasmo dos filmes) e derivados (narrativas literárias ligadas a universos interactivos como Warcraft e Magic: the Gathering), Northern Lights caiu nas minhas preferências de leitura como uma pedrada num charco. Sem abdicar do seu género, revelou-se uma obra original, com um universo assente em conceitos estimulantes aliados a um simbolismo que dá especial relevo às entrelinhas de uma narrativa bem ritmada. His Dark Materials é normalmente considerada uma série Young Adult, mas revelou-se capaz de apelar tanto a leitores mais jovens como mais maduros. E isso acontece pela interessante combinação de elementos e símbolos com que Pullman tece a narrativa.

Para todos os efeitos, The Northern Lights apresenta vários elementos que teriam lugar em qualquer livro destinado a um público mais jovem: uma protagonista pré-adolescente, uma trama que envolve outras crianças, o conceito de daemons, lugares extraordinários ancorados ao mundo real (como a Oxford de Lyra ou Svalbard) criaturas fantásticas e espiritualmente antropomorfizadas, como os panserbjorne e outras espécies do Árctico), magia e um naipe muito bem definido de heróis e vilões. A isto junta elementos de ficção científica (a noção de universos paralelos), acrescenta uns condimentos de retrofuturismo (a economia baseada em vapor e numa forma alternativa de electricidade) e, como toque final, envolve a narrativa e a evolução da personagem numa trama que, ao invés de se basear nas mitologias clássicas, vai buscar à religião - e em especial ao Cristianismo - os vários elementos fantásticos de que necessita para colocar tudo em movimento.

O resultado é uma história formidável que vai levar a jovem Lyra Belacqua a deixar a sua pacata e académica Oxford rumo ao gélido Norte, numa aventura de dimensões tão vastas que, no final de Northern Lights, o leitor mal sabe o que o espera. É certo que o carácter de Lyra lhe permite arranjar os aliados de que necessita para chegar onde quer (os Gyptians, os panserbjorne, as bruxas e Scoresby), mas para todos os efeitos a força desta protagonista não reside no seu carisma, mas na sua astúcia - e, sobretudo, na sua imaginativa e prodigiosa capacidade de mentir (algo que, se me permitem o micro-spoiler, é desconstruído de forma brilhante no terceiro livro). A Lyra - e Pantalaimon, já agora - junta-se uma impressionante galeria de personagens, onde o sábio Farder Coram, a bruxa Serafina Pekkala, o aeronauta Lee Scoresby e Iorek Byrnison se destacam. Como grande vilã, Northern Lights introduz Marisa Coulter, personagem que desde o primeiro momento o leitor percebe ser mais do que aparenta - e outros vilões menores, como Ragnar Sturlusson e algumas figuras do Magisterium, completam o quadro. Lord Asriel permanece como um enigmático anti-herói até aos momentos finais, em que se revela - mas mesmo essa revelação é enganadora.

Mais do que uma aventura young adult, Northern Lights é uma odisseia estimulante de um ponto de vista conceptual, num universo fantástico tão semelhante e ao mesmo tempo tão diferente do nosso - e que vai servir de porta de entrada para universos ainda mais estranhos, quando não desconfortáveis. Pullman  desenvolve a narrativa com um ritmo perfeito, assegurando-se de que o enredo nunca pára enquanto vai desvendando, aos poucos, os vários mistérios e as muitas reviravoltas que a história encerra. A escrita, essa, é soberba, com uma fluidez e uma elegância que estão longe de ser comuns no género.
Diga-se de passagem que mal acabei a (primeira) leitura de Northern Lights, voltei à Fnac para encomendar os restantes livros da série, The Subtle Knife e The Amber Spyglass. Chegaram ambos um mês depois** Li-os de seguida, com um entusiasmo contagiante: não descansei enquanto todos os amigos mais próximos e dedicados à leitura não pegaram nos livros (e as opiniões foram mais ou menos unânimes). His Dark Materials não se tornou na minha série de fantasia preferida - o título continua a pertencer a The Lord of the Rings. Considero-a, porém, uma das raras séries do género que chegou perto da mestria de Tolkien, utilizando elementos diametralmente distintos para construir uma narrativa prodigiosa, que com toda a justiça se tornou numa das mais marcantes da fantasia contemporânea.

* Também me disseram que o livro estava traduzido para Português, numa edição da Presença. Como é bom de ver, a minha aversão às traduções nacionais é já antiga. 

** O que fez com que nunca mais voltasse a encomendar o que quer que fosse na Fnac. 

22 de janeiro de 2013

The Golden Compass: A adaptação falhada de um clássico moderno da literatura fantástica

Na década passada, a trilogia The Lord of the Rings (e, de certa forma, a série Harry Potter) provou que a fantasia enquanto género cinematográfico pode dar origem a filmes de excelente qualidade, capazes de atraírem um público vasto e diverso e de gerar receitas de bilheteira avultadas. Não surpreende, portanto, que os estúdios tenham tentado repetir a fórmula, e se tenham voltado para a fantasia literária em busca da próxima mina de ouro. A série His Dark Materials, de Philip Pullman, tornou-se por isso bastante apetecível - e a New Line Cinema, que produziu The Lord of the Rings, encarregou em 2007 o realizador Chris Weitz de adaptar o primeiro livro da trilogia, Northern Lights (e, se possível, reproduzir o sucesso de Peter Jackson). O resultado foi The Golden Compass.

Considero Northern Lights um dos melhores livros de fantasia que já li, e a série His Dark Materials uma das melhores que o género já produziu (mas sobre isso falarei na Sexta). Foi, por isso, com muito entusiasmo que em 2007 fiquei a saber que os mesmos estúdios que tinham recriado a Terra Média no grande ecrã estavam a dedicar-se à adaptação cinematográfica da fascinante série de Pullman. O primeiro trailer do filme foi um regalo: todas as imagens indicavam uma adaptação muito fiel ao livro, com um elenco de luxo - Daniel Craig, Nicole Kidman, Ian McKellen, Eva Green, Sam Elliott - que parecia perfeito para os vários papéis, e efeitos especiais arrebatadores. O filme, porém, cedo começou a revelar os seus muitos problemas. 

O primeiro problema de The Golden Compass é que Chris Weitz (realizador e argumentista) esforçou-se tanto para repetir o sucesso de The Lord of the Rings que acabou por tentar fazer um filme praticamente idêntico a The Fellowship of the Ring do ponto de vista narrativo, sem no entanto pegar nos conteúdos com o cuidado que eles exigiam. O início do filme, um infodump em jeito de prólogo que em tudo lembra a narração de Galadriel sobre os Anéis do Poder, apresenta alguns dos elementos fundamentais do filme: o alethiometer, as misteriosas partículas conhecidas como Dust, a natureza dos daemons, o conflito latente com o Magisterium. Enquanto prólogo, falha com estrondo: se a introdução de The Lord of the Rings deu ao público informação relevante para a história mas que não fazia parte da história, já o prólogo de The Golden Compass fornece informação essencial (leia-se: spoilers) para a história que podia e devia ser dada durante a história. Show, don't tell: uma regra básica e aqui ignorada de forma tão flagrante. Não por acaso, um dos aspectos mais interessantes do livro é acompanhar Lyra à medida que ela descobre as potencialidades do alethiometer e aprende a lê-lo por instinto; no filme, sabemos desde o primeiro minuto o que faz o aparelho - como sabemos logo o que é a Dust, um aspecto central na trilogia e algo que vai sendo explicado à medida que a história avança. 

O segundo problema é, na prática, tudo o que se segue. Em termos narrativos, The Golden Compass é atroz: a primeira parte do filme parece ser passada em fast forward, com os vários momentos a sucederem-se a uma velocidade tão rápida que os separa do seu encadeamento natural. Sem tempo para se estabelecer, os acontecimentos parecem truncados e desprovidos de vida - e, pior, de relevância. As personagens, por seu lado, vêem-se impedidas de "respirar", e assim perdem a sua força - como se pode ver de forma flagrante durante o jantar em Jordan College com Lyra e Mrs. Coulter (Nicole Kidman num modo overacting tão inesperado como lamentável): uma cena poderosa reduzida a uma deixa tão cheesy como "I was wondering if I might borrow dear Lyra". Cenários fascinantes como o da grande reunião dos Gyptians são reduzidos a um único barco - e, da mesma forma, aquele povo tão peculiar torna-se apenas num grupo de pessoas como outro qualquer, unidos apenas por causa das suas crianças desaparecidas.

Com as personagens mal caracterizadas e os acontecimentos quase irrelevantes da primeira parte do filme, não admira que a segunda parte - o clímax, com os grandes confrontos - seja para todos os efeitos desinteressante. Durante a viagem, Lyra conhece Serafina Pekkala (Eva Green), uma bruxa do Norte, que vai até ao barco aparentemente por motivo nenhum - ainda que, honra lhe seja feita, acabe por se revelar numa das personagens mais interessantes do filme, apesar da sua parca caracterização. Após a chegada a Tollesund, Lyra conhece Lee Scoresby (Sam Elliott, outra personagem a conseguir emergir do péssimo guião), o aeronauta texano que lhe deixa como conselho procurar um urso - no caso, Iorek Byrnison. E depois conhece o próprio Iorek, um urso polar recriado através de CGI e com a voz inconfundível de Gandalf Ian McKellen. A partir deste ponto, o pouco sentido que a história pudesse perde-se por completo: o guião decide alterar a ordem natural dos acontecimentos para forçar um clímax inexistente, colocando a sequência de Svalbard (com o combate entre Iorek e Ragnar) antes de Bolvangar. Ou seja: move as personagens para o extremo Norte, desloca-as para Sul, e no final coloca-as de novo em movimento para Norte. Brilhante.

O pior, porém, ainda estava para vir, quando o filme acaba a meio da viagem de Lyra para Norte, antes do seu derradeiro encontro com Lord Asriel e Mrs. Coulter, e do final verdadeiro do livro - uma omissão que, à época, enfureceu os fãs, sobretudo porque os trailers oficiais do filme mostram aquelas cenas de Svalbard. A ideia, provavelmente, seria incluir toda aquela cena nos momentos iniciais da sequela, a adaptação cinematográfica de The Subtle Knife, de forma a (uma vez mais) repetir a fórmula de The Lord of the Rings (o segundo filme, The Two Towers, começa com uma cena muito poderosa: o combate entre Gandalf e o Baelrog). Esta decisão revelou-se problemática por ter privado a narrativa do seu clímax natural, sem dar ao filme uma alternativa viável; nem o combate dos panserbjorne nem a batalha de Bolvangar têm força suficiente para cumprir esse papel.

Que não se pense, porém, que tudo em The Golden Compass é mau. Os efeitos especiais mereceram o Óscar com que foram distinguidos - a forma como os daemons e os panserbjorne ganharam vida no grande ecrá é notável, e as breves imagens da Londres retro-ambaric-punk são formidáveis. Os actores não se saíram mal, considerando as muitas limitações do argumento: Sam Elliott e Eva Green encarnaram na perfeição Lee Scoresby e Serafina Pekkala, e mesmo Daniel Craig não se saiu nada mal como Lord Asriel. A revelação, porém, foi mesmo a jovem Dakota Blue Richards como Lyra, ainda que de todas as personagens tenha sido aquela que mais foi prejudicada pelo péssimo guião. 

Há, no entanto, algo que talvez importe referir: o argumento final de The Golden Compass não foi, ao que parece, o primeiro guião escrito por Chris Weitz, mas uma versão muito truncada do primeiro que escreveu. É possível recuperar online o famoso guião original (escrito após o guião recusado de Tom Stoppard), e após a respectiva leitura, é impossível não lamentar que o filme não tenha seguido o primeiro guião de Weitz (que pode ser lido aqui) - não estando perfeito, está muito mais sólido e bem construído do que aquele que, para tristeza de muitos, acabou por ser utilizado para o filme. Pelos vistos, o filme sofreu devido a "decisões superiores" e a uma edição que saiu das mãos do realizador. Talvez a ideia original de Chris Weitz fosse melhor que a final, mas a verdade é que mesmo a versão final foi da sua autoria - e truncada ou não, o resultado foi muito fraco. O que não deixa de ser uma pena: a His Dark Materials é uma das melhores séries literárias que o género conheceu nas últimas duas décadas, e uma produção cuidada seria mais do que suficiente para garantir uma trilogia cinematográfica de qualidade - independentemente dos protestos da Igreja Católica. 04/10

The Golden Compass (2007)
Realizado por Chris Weitz
Com Daniel Craig, Nicole Kidman, Dakota Blue Richards, Eva Green, Ian McKellen, Christopher Lee, Jim Carter, Tom Courtenay e Sam Elliott
113 minutos