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17 de agosto de 2014

Citação fantástica (148)

To light a candle is to cast a shadow.

Ursula K. Le Guin, A Wizard of Earthsea (1968)

28 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (3): Os melhores livros de fantasia

Quem fizer a história da fantasia literária dos últimos 30 anos não poderá deixar de dar grande destaque a Discworld, o mundo secundário onde Terry Pratchett tem satirizado, com um humor ímpar na literatura contemporânea, tudo o que se possa imaginar – das obras de Shakespeare às convenções da fantasia moderna, das civilizações antigas à indústria cinematográfica. Em Small Gods, o décimo-terceiro volume de Discworld, a sátira afiada e inteligente de Pratchett apontou baterias no culto religioso – e o resultado é um dos melhores livros de fantasia dos anos 90. Om, em tempos uma divindade poderosa no Disco e centro de um dos seus mais importantes cultos, vê-se desprovido dos seus poderes e capturado no corpo insignificante de uma tartaruga – pois a sua religião, apesar de ter milhões de fiéis, não tem um único crente (e o poder dos deuses em Discworld, como se sabe, deriva da crença genuína). Resta-lhe Brutha, o mais simples de todos os acólitos do seu mosteiro, detentor de apenas duas qualidades dignas de nota: uma grande força física, e uma memória eidética infalível. Mas no lado oposto a Brutha – ou seja, no topo da hierarquia clerical do culto de Om – está Vorbis, grande inquisidor, homem de olhar fulminante e determinação insuperável, para quem o poder clerical e o poder secular devem ser uma e a mesma coisa. Com Om entre estas duas figuras, Pratchett traça uma sátira mordaz, inteligente e profundamente divertida ao fenómeno religioso, aos seus ritos e aos seus cultos, que talvez seja mais pertinente hoje do que o seria em 1991, quando foi publicado pela primeira vez. 

Em boa verdade, poderia completar esta lista apenas com os livros de Discworld que li durante 2013 – todos eles excelentes. Depois de Small Gods, destaco também Witches Abroad, décimo-segundo título da série, que regressa a Granny Weatherwax, a Nanny Ogg e a Magrat Garlic, as três impagáveis bruxas do pequeno reino de Lancre. A súbita herança de uma varinha mágica de uma fada madrinha por Magrat, e um detalhe antigo mas nunca esquecido do passado de Granny vai levar o pequeno círculo de bruxas (mais Greebo, o temível gato de Nanny Ogg) até um reino distante, dominado pelos contos de fadas – com os bailes faustosos e os indispensáveis finais felizes. Pelo caminho encontram anões, abóboras, lobos antropomorfizados, mais abóboras, rituais voodoo, espelhos encantados e um reino onde nada é o que aparenta ser – e pior, nada é o que devia ser. Witches Abroad é uma sátira inteligente aos contos de fadas tradicionais, e nenhum deles escapa ao olhar atento e perspicaz de Pratchett – só as inúmeras referências e as piadas hilariantes fazem valer a pena a leitura. Mas Witches Abroad é também uma história intrigante e muito bem construída, com uma das melhores personagens de Pratchett como protagonista – falo de Granny Weatherwax, evidentemente.

Tehanu, de Ursula K. Le Guin
Entre a publicação de The Farthest Shore, o terceiro volume da trilogia Earthsea original, e de Tehanu, obra que marca o regresso de Ursula K. Le Guin ao seu mundo secundário de fantasia, passaram-se quase vinte anos; e isso nota-se de forma muito positiva na leitura. Por oposição à trilogia anterior, mais próxima da fantasia literária convencional e das demandas do herói, Ged (por muito que tais convenções tenham sido contornadas), Tehanu retira o protagonismo a Ged para explorar o ponto de vista de Tenar, a jovem rapariga que o feiticeiro resgatara em The Tombs of Atuan. Mas muitos anos se passaram desde então, e isso nota-se: Ged está mais velho, e profundamente mudado pelos acontecimentos de The Farthest Shore; e Tenar, também já longe da juventude de outrora, também amadureceu e construiu uma vida familiar em Gont. Por um lado, é um prazer ver Le Guin a explorar o envelhecimento, o crescimento pessoal e as consequências das acções passadas das suas personagens; e por outro, esse enquadramento e o foco sobre Tenar dá à autora a oportunidade de explorar algumas das questões de género que se tornaram recorrentes na sua obra. Pelo contraste entre as vidas de Tenar e de Ged, Le Guin aborda o poder e a magia na perspectiva dos dois géneros naquele mundo - e fá-lo de forma mais intimista e pessoal, com resultados espantosos. 

Se Poul Anderson fosse vivo e estivesse hoje a escrever este seu clássico de 1954, The Broken Sword seria esticado para, pelo menos, uma trilogia, com cada livro a ter entre 400 e 600 páginas. Mas nos longínquos anos 50, este épico de inspirações na mitologia escandinava coube num único volume de pouco mais de duzentas páginas – e a sua trama, intensa e convulsa como só as grandes sagas sabem ser, é uma autêntica lição de storytelling. Michael Moorcock considerou-o melhor do que “o outro” livro de fantasia daquele ano, The Fellowship of the Rings – o que não faz justiça nem à obra de Anderson, quanto mais à de Tolkien. Com uma história situada na Inglaterra durante a era dos Vikings, e com a oposição entre as divindades tradicionais do Norte da Europa e o Cristianismo em ascensão, The Broken Sword parte da conquista de um território nas ilhas britânicas por Orm the Strong, e da inimizade que gera junto do reino de faerie de Elfheug. A troca do primogénito de Orm por um changeling híbrido de elfo e troll, porém, vai gerar um conflito muito amargo entre os Homens e as criaturas de faerie, e entre elfos e trolls - com os deuses do Aesir e os Jotuns envolvidos para os seus próprios fins. E, pelo meio, há ainda uma espada antiga, quebrada, que só poderá ser reforjada pelo gigante Bolverk na sua terra distante. Com um tom mais próximo das sagas nórdicas, The Broken Sword é uma aventura prodigiosa de Poul Anderson (que, recorde-se, também se notabilizou na ficção científica), um clássico da literatura de fantasia firmemente ancorado nas mitologias europeias. 

8 de novembro de 2013

A Wizard of Earthsea: Jogo de sombras

Desde a popularização do género por The Lord of the Rings que a fantasia literária se tem dedicado com regularidade aos épicos - às grandes lutas do bem contra o mal (com maior ou menor ambiguidade e grit conforme a época), aos heróis maiores do que a vida, aos detentores de grande poder que não hesitam em usá-lo. Mas há excepções; e Earthsea, o mundo secundário que Ursula K. Le Guin criou em 1968 com a publicação de A Wizard of Earthsea, é uma delas, distinguindo-se ainda hoje pelo seu extraordinário worldbuilding, pela curiosa subversão à demanda do herói e pela interessante abordagem à magia. Mas vamos por partes.

Ainda que, em termos formais, Earthsea tenha sido apresentada alguns anos antes com os contos The Rule of Names ("Fantastic", 1964) e The Word of Unbinding (idem), foi com a publicação de A Wizard of Earthsea em 1968 que Le Guin expandiu as fronteiras do universo que que criara e lhe deu a forma que se tornaria icónica: um vasto mundo de água polvilhado por inúmeros arquipélagos de milhares de ilhas, mais ou menos isoladas, onde vivem os seres humanos (e, no caso de algumas ilhas mais remotas das "West Reaches", os Dragões). Nas ilhas de Earthsea vivem várias sociedades muito diferentes entre si - e a enorme diversidade racial e cultural desta Humanidade dispersa, revelada e aludida ao longo das viagens do protagonista, é um dos traços mais característicos deste universo e um relevante indicador da sua riqueza conceptual. 

É neste mundo de mar e de terra fragmentada que o leitor é levado para a aparentemente insignificante ilha de Gont, no nordeste de "Earthsea". Nessa ilha escarpada vive um povo pacato; e, numa vila de montanha, conhecemos Duny, um jovem rapaz solitário que desenvolveu um poder institivo sobre os animais (e da sua ligação às aves de rapina surgiu a alcunha "Sparrowhawk", pela qual sempre ficaria conhecido), e a quem uma tia ensinou alguns rudimentos de magia. Mas quando a ilha é invadida e a sua aldeia atacada, Sparrowhawk defende-a com um feitiço engenhoso - e isso chama a atenção do feiticeiro de Gont, Ogion o Silencioso, que toma o rapaz como seu aprendiz e eventualmente lhe revela o seu nome verdadeiro, na linguagem antiga da criação: Ged. É a partir daqui que começa a primeira jornada de Ged, orgulhoso, ambicioso e imprudente - a deixar Gont para ir estudar as artes arcanas na ilha de Roke, onde o Arquifeiticeiro preside aos magos e à escola de feitiçaria. Mas quando um feitiço corre mal e uma sombra irrompe do reino dos mortos, Ged dá por si a enfrentar algo para o qual não estava de todo preparado - e esse acontecimento irá marcá-lo para sempre.

Mais do que uma grande cruzada para salvar o mundo, a demanda de Ged será uma fuga aos seus próprios erros e aos seus próprios fantasmas - até ao dia em que não terá alternativa que não enfrentá-los. Não há em A Wizard of Earthsea um grande e poderoso inimigo, uma ameaça velada ou exposta cuja oposição e derrota se revela um imperativo - há, sim, uma aventura extremamente pessoal que levará Ged a explorar terras distantes, a impor-se perante os majestosos dragões, a fugir em desespero e a viajar, determinado, para lá dos limites do mundo. No decorrer deste percurso, no qual o leitor acompanha o amadurecimento do protagonista, Ged conhece o sucesso e o fracasso; a vitória e a derrota; a glória e a humilhação; e tudo isso contribui para o seu crescimento, e para o surpreendente final. 

E este amadurecimento ao longo da aventura está ligado de forma íntima ao engenhoso sistema de magia que Le Guin criou para Earthsea, baseado no nome verdadeiro das coisas (na linguagem da Criação, no idioma dos Dragões) e no poder que esse nome tem para as dominar, subjugar e moldar. A esta ideia junta-se o conceito basilar do equilíbrio e da harmonia com os elementos e com o mundo envolvente - isto num mundo onde a magia, em maior ou menor escala, faz parte da vida de praticamente todas as sociedades. Na academia de Roke os jovens feiticeiros mais talentosos são treinados nas várias disciplinas mágicas (e a autora detalha isso com algum pormenor durante a juventude de Ged), partindo depois para várias ilhas onde se tornam nos feiticeiros residentes - ou regressando a Roke para ensinar. Com a sua prosa superlativa, Le Guin explora as idiossincrasias da magia na exploração de Ged, criando uma personagem muito humana e muito terra-a-terra, num universo ficcional que de facto apetece explorar para lá das (poucas) páginas do romance. 

Por tudo isto - pela excelência da prosa e do worldbuilding, pela qualidade da construção narrativa, pelo acompanhar do crescimento de Ged e pela humanidade e simplicidade da sua história -, talvez hoje seja ainda mais relevante regressar ao universo fantástico que Ursula K. Le Guin criou em Earthsea, e recuperar, numa aventura de carácter mais intimista, um dos trabalhos maiores da fantasia literária. As sequelas (The Tombs of Atuan, The Farthest Shore, Tehanu e The Other Wind, para além de vários contos) dão uma excelente continuidade à história do protaginista, e de outras personagens com as quais se irá cruzar; mas é em A Wizard of Earthsea que a extraordinária viagem de Ged começa. Que comece também a do leitor. 

21 de julho de 2013

Citação fantástica (76)

Freedom is a heavy load, a great and strange burden for the spirit to undertake. It is not easy. It is not a gift given, but a choice made, and the choice may be a hard one. The road goes upward towards the light; but the laden traveler may never reach the end of it.

Ursula K. Le Guin, The Tombs of Atuan (1970)

9 de dezembro de 2012

Citação fantástica (44)

When I was young, I had to choose between the life of being and the life of doing. And I leapt at the latter like a trout to a fly. But each deed you do, each act, binds you to itself and to its consequences, and makes you act again and yet again. Then very seldom do you come upon a space, a time like this, between act and act, when you may stop and simply be. Or wonder who, after all, you are.

Ursula K. Le Guin, The Farthest Shore (1972)

21 de outubro de 2012

Ursula K. Le Guin (1929 - )

Filha do antropólogo Alfred. L. Koeber e da escritora Theodora Koeber, desde cedo Ursula K. Le Guin se notabilizou na literatura fantástica, que procurou utilizar para abordar de forma menos restrita temas relevantes como as questões de género, o feminismo ou a identidade racial - o que é visível sobretudo (mas não só) em algumas das obras que compõem o célebre "Hainish Cycle". A sua obra valeu-lhe vários prémios - como o Hugo, o Nébula e o Locus na ficção científica, o World Fantasy Award na fantasia, e vários outros - e um reconhecimento literário que por várias vezes transcendeu as fronteiras do género. 

Na ficção científica, Ursula K. Le Guin tornou-se conhecida com The Left Hand of Darkness (1969) e The Dispossessed (1974), obras vencedoras dos prémios Hugo e Nébula e parte integrante do "Hainish Cycle". Desta série dispersa de ficção científica fazem parte vários outros livros, como Rocannon's World (1966), Planet of Exile (1966), City of Illusions (1977), The Word for World is Forest (1976), Four Ways to Forgiveness (1995) e The Telling (2000). Do "Hainish Cycle" fazem também parte vários contos publicados em inúmeras antologias de ficção curta que Le Guin publicou ao longo dos anos, como The Wind's Twelve Quarters (1975), The Birthday of the World: And Other Stories (2002), entre muitas outras. Ainda na ficção científica, publicou The Lathe of Heaven (1972) e Lavinia (2008). 

Já na fantasia, Ursula K. Le Guin notabilizou-se sobretudo pelo extraordinário mundo de Earthsea, uma série única sobre um mundo de ilhas num vasto oceano, com fortes influências das filosofias orientais. De Earthsea fazem parte os livros A Wizard of Earthsea (1968), The Tombs of Atuan (1971), The Farthest Shore (1972), Tehanu: The Last Book of Earthsea (1990) e The Other Wind (2001), assim como a antologia Tales From Earthsea (2001) e vários contos dispersos por outras colectâneas. 

Ursula K. Le Guin nasceu em Berkeley, na Califórnia (Estados Unidos) em 1929, e celebra hoje 83 anos.

9 de maio de 2012

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: The Wizard of Earthsea, com Maria do Rosário Monteiro (1)

O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico reuniu uma vez mais em Lisboa na passada Sexta-feira, 04 de Maio, para falar sobre The Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin - e, claro, sobre os restantes livros que compõem o Earthsea Quartet. A convidada foi a professora Maria do Rosário Monteiro, que na sua carreira académica estudou o Fantástico, tendo trabalhado, em tese, sobre as obras de Tolkien e Le Guin. A "moderar" a tertúlia esteve, como sempre, o Rogério Ribeiro, que desta vez apostou num formato ligeiramente diferente e mais "interactivo", convidando (desafiando?) a assistência a intervir com maior regularidade - o que, diga-se de passagem, resultou muito bem, tornando a tertúlia quase numa conversa entre o Rogério, a Maria do Rosário Monteiro e todos os presentes. 

Maria do Rosário Monteiro começou por referir que se nota muito a evolução da própria autora da primeira à quarta história. The Wizard of Earthsea é, na sua essência, uma história de aventura, orientada sobretudo para um público mais jovem (mas não só), "aplicando a ideia tradicional do herói com uns pozinhos de Jung e de taoísmo". Esta primeira aventura é, na sua essência, a jornada pessoal de Ged na descoberta de si mesmo, até à aceitação e harmonização dos seus aspectos positivos e negativos. "É uma narrativa de auto-aprendizagem", considera Maria do Rosário Monteiro, "assente na noção de que não mudamos o mundo." Relembrando o carácter inato da magia em Earthsea, a professora sublinha o carácter "científico" que o controlo desta assume, seguindo um processo racionalizado. No centro da magia neste universo reside a palavra, enquanto essência do ser - demonstrada por Ged no final da narrativa. 

No segundo livro, The Tombs of Atuan - obra que, de acordo com a própria autora, surgiu a partir de um reparo da própria mãe sobre o facto de Le Guin ser declaradamente feminista e no entanto escrever sobre personagens masculinos -, o protagonismo é dado a uma mulher, Tenar. Para Maria do Rosário Monteiro, Tenar manteve a ambivalência tradicional das deusas femininas - o que lhe dá particular força - e ganhou com isso densidade, sem em momento algum cair "nos radicalismos femininos". No entanto, a construção desta personagem foi um desafio por "não haver na altura tradição literária para heroínas" - e também pela dificuldade de desenvolver uma heroína "que não tem actos heróicos".

Já The Farthest Shore, o terceiro livro da série, é para Maria do Rosário Monteiro uma história "muito bonita e altamente filosófica", na qual Ged regressa como protagonista. O seu novo papel de "tutor" (de Arren) ilustra o problema da escolha e da responsabilidade - ideia cara a Le Guin, a de que todos os actos têm uma consequência, que o protagonista resolve através da sua própria definição da "filosofia da não-acção", noção central no taoísmo (conforme relembra Maria do Rosário Monteiro, este "é um problema sem solução dentro do próprio taoísmo"). The Farthest Shore, com o seu final aberto e incerto, deixou porém a Ursula K. Le Guin um problema por resolver: "como dar continuidade ao Ged e desenvolver uma filosofia feminina com Tenar" Na opinião da convidada, Tehanu, escrito vários anos após o terceiro livro, é um excelente regresso da autora ao mundo de Earthsea , sobretudo porque o livro anterior "acaba numa situação de desequilíbrio entre a vida e a morte", que a continuação resolve [felizmente, falou-se pouco deste livro, que ainda não li].

A sessão, desta vez, contou com uma audiência mais participativa (e não houve a habitual "música ambiente" no exterior da livraria), que na sua maioria tinha lido Earthsea nas edições "Quartet" em inglês. Os vários livros que compõem a série têm várias traduções em Português - a mais recente é da Editorial Presença, numa edição claramente orientada para um público infantil-juvenil (mais infantil, até). Luís Filipe Silva relembrou que o fenómeno do "infantil-juvenil" expandiu-se com outro fenómeno literário muito forte - Harry Potter -, sem que a colecção da Presença tenha tido o sucesso antecipado. "Salvaram-se" alguns autores, entre os quais Ursula K. Le Guin - e ficaram as capas horríveis e infantis numa obra "com uma linguagem mais adulta e um estilo mais adulto". 

Esta sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico não se esgotou contudo em Earthsea e Ursula K. Le Guin. Dos géneros do Fantástico a Tolkien, passando pela edição e pela literatura actual, vários foram os temas abordados por Maria do Rosário Monteiro ao longo daquela hora e meia que acabou por saber a pouco. Sobre esses temas, falarei noutro artigo. 

4 de maio de 2012

Earthsea e The Farthest Shore

Será Earthsea, de Ursula K. Le Guin, uma das grandes séries da literatura de fantasia? Após a leitura dos três primeiros livros, diria que sim: no mundo de Earthsea, composto pelas centenas - milhares? - de ilhas dispersas pelo Arquipélago central e pelas ilhas dos quatro "Reaches", Le Guin desenvolveu um universo fantástico incrivelmente rico, digno de figurar entre os outros grandes universos da fantasia literária. Composta por cinco volumes (The Wizard of EarthseaThe Tombs of AtuanThe Farthest Shore, Tehanu e The Other Wind) e por vários contos (compilados na antologia Tales from Earthsea), a série Earthsea segue, nos três primeiros livros - aqueles que li até agora -, a vida do feiticeiro Ged desde a sua infância na ilha-montanha de Gont até ao seu tempo como Arquifeiticeiro dos feiticeiros de Roke.

No entanto, cada um dos três primeiros livros conta uma aventura (chamemos-lhe assim) específica de Ged, e entre eles passam-se, na cronologia de Earthsea, vários anos. Em momento algum Ursula K. Le Guin sente a necessidade de contar tudo o que se passou - ao longo das histórias que decide contar, deixa alguns fragmentos de aventuras vividas nos interregnos da narrativa, mostrando que aqueles períodos não estão vazios e que têm importância - mas não são a história que ela pretende contar. O que, do ponto de vista narrativo, é excelente: ao resistir à tentação (se é que sentiu tal tentação) de contar tudo, Le Guin conseguiu centrar-se no essencial, e assim criar um universo bastante coeso, com três aventuras muito contidas, narradas a um ritmo excelente. É justamente nestes pontos que Ursula K. Le Guin revela toda a sua capacidade criativa, que já a destacara na ficção científica: consegue imaginar um mundo visualmente rico e seleccionar exactamente o que quer contar e como o quer contar,

Normalmente, quando quero escrever sobre um livro que faça parte de uma série, costumo escrever apenas sobre o primeiro volume da série, de forma a evitar eventuais spoilers. Vou no entanto abrir uma excepção hoje e, ao abordar Earthsea, de Ursula K. Le Guin, vou falar não do primeiro livro da série, The Wizard of Earthsea, mas do terceiro, intitulado The Farthest Shore. O motivo é simples: dos três livros que compõem a trilogia original, The Farthest Shore foi aquele que mais me prendeu. Sim, a perseguição do primeiro livro é excelente, sobretudo no desenlace. Sim, o labirinto de The Tombs of Atuan é extraordinário, e Tenar é uma personagem com um ponto de vista muito interessante. Mas o mistério de The Farthest Shore, com a magia e o conhecimento a desaparecerem do mundo enquanto um vazio indefinido se parece instalar, é a todos os níveis formidável; e ainda que durante a narrativa sejam dadas várias pistas sobre a natureza do vilão, sobre o papel de Arren e sobre a importância da constelação da estrela Gobardon (sempre referida num tom particularmente ominoso), a verdadeira natureza do enigma perdura, cada vez mais empolgante, até ao final. Na sua fascinante odisseia viagem pelos mais remotos arquipélagos de Earthsea, Ged e Arren encontram povoações mergulhadas na apatia, escapismo pelo consumo de drogas, traficantes de escravos, civilizações estranhas, dragões e as sombras para lá dos limites do mar sem fim. 

Não sei se (ou como) a história de Ged continua no quarto livro, Tehanu (tenho evitado spoilers, o que é particularmente difícil quando se tem o livro aqui mesmo ao lado). The Farthest Shore, contudo, funciona muito bem como uma conclusão para esta personagem. É, sem dúvida, uma viagem extraordinária, daquelas que a grande fantasia consegue oferecer-nos de forma única.

Este artigo surge, naturalmente, no contexto da sessão de hoje do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico que se realizará hoje, às 19:00, no Espaço do Autor da Livraria Bertrand do Chiado (Lisboa). O livro que dá o mote à tertúlia é, justamente, o primeiro livro da série Earthsea, de Ursula K. Le Guin: The Wizard of Earthsea. A convidada será a professora Maria do Rosário Monteiro, autora de A Simbólica do Espaço em O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien. A moderação, como é habitual, estará a cargo de Rogério Ribeiro.