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18 de junho de 2014

Daniel Keyes (1927 - 2014)

Flowers for Algernon esteve longe de ser o único conto ou romance publicado por Daniel Keyes. Se o tivesse sido, porém, continuaria a ser um legado espantoso: um texto singular na ficção científica literária, originalmente um conto publicado nas páginas da revista The Magazine of Fantasy & Science Fiction em 1959, e sete anos mais tarde um romance - ambos vencedores do Prémio Hugo nas respectivas categorias. Um texto extraordinário narrado numa primeira pessoa única na ficção científica (possivelmente na literatura): Charlie, um jovem com um atraso mental que sonha ser inteligente para poder conversar com as pessoas que o rodeiam - e que aceita submeter-se a uma experiência inovadora, que mostrou resultados promissores no ratinho Algernon. Mas o seu súbito crescimento intelectual não é acompanhado por uma evolução emocional simétrica; e a sua recém-adquirida inteligência fá-lo ver um mundo radicalmente diferente daquele que percebia na sua vida simples de outrora. Flowers for Algernon foi adaptado ao cinema em 1969 no filme Charly, de Ralph Nelson - e valeu um Óscar da Academia a Cliff Robertson pelo seu desempenho no papel de Charlie. 

Na bibliografia de Daniel Keyes encontramos ainda romances como The Touch (1968), The Fifth Sally (1980) e The Asylum Prophecies (2009), entre outros. Na memória, porém, perdurará Algernon. Nascido a 9 de Agosto de 1927 em Nova Iorque, Daniel Keyes faleceu no passado dia 15 de Junho, aos 86 anos. 

Fonte: Tor.com

12 de setembro de 2013

Cinco livros de ficção científica para quem não lê ficção científica

Há dias, o diário britânico The Guardian publicou na sua edição online um daqueles artigos recorrentes em forma de lista - no caso, de cinco livros de ficção científica "para pessoas que odeiam ficção científica". A questão parece-me a mim mal colocada: quem de facto "odiar" a ficção científica dificilmente irá apreciar qualquer coisa relacionada com o género. Mas, como é sabido, entre o amor e o ódio há um território muito vasto, e muitos serão os livros indicados para quem ainda não conhece o género, ou para quem acha que a ficção científica literária se resume a um Star Wars ou a um Star Trek em página escrita (mesmo que já tenha lido clássicos como Nineteen Eighty-Four ou Brave New World). A lista do The Guardian foi compilada por Damien Walter, e pode ser lida aqui. Abaixo, seguem as minhas cinco sugestões:

A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. (1960): Antes de Mad Max ter levado a iconografia do pós-apocalipse para o deserto australiano - e antes mesmo de o pós-apocalipse se ter tornado numa das grandes tendências contemporâneas da ficção de género, capaz mesmo de atrair autores mainstream -, já Walter M. Miller, Jr. tinha definido essa iconografia num dos grandes clássicos da ficção científica: A Canticle for Leibowitz. Num tom tão cínico como irónico, Miller descreve de forma bem humorada, mas nem por isso pouco séria, como a Humanidade está condenada a repetir os seus erros vários séculos após a guerra nuclear que causou a queda da civilização. Os monges da Abadia de Leibowitz procuram reproduzir e preservar todo o conhecimento científico a que consigam deitar a mão, independentemente do seu entendimento sobre esse conhecimento (quase sempre nulo).

Flowers for Algernon, de Daniel Keyes (1966): Se há um livro incontornável em termos de recomendações de ficção científica para quem não é leitor habitual do género, será sem dúvida este clássico de Daniel Keyes. Flowers for Algernon conta a história de Charlie, um jovem com um atraso mental severo que deseja, mais do que tudo, ficar inteligente. Para isso submete-se a uma intervenção revolucionária, testada apenas no ratinho Algernon. Mas nem tudo corre conforme esperado - à medida que a sua inteligência aumenta, a visão que Charlie tinha do mundo passa rapidamente de ingénua para cínica. É uma história tocante, narrada através das páginas dos "relatórios de progresso" escritas por Charlie durante as várias etapas do tratamento - com as suas aptidões linguísticas a acompanharem a sua evolução. E, acima de tudo, Flowers for Algernon é uma história especialmente humana - sobre os nossos receios, as nossas expectativas e a forma como nos relacionamos com os outros. Imperdível. 

The Lathe of Heaven, de Ursula K. Le Guin (1971): A lista do The Guardian destaca The Left Hand of Darkness, obra-prima de uma das maiores prosadoras da ficção científica; pessoalmente, porém, julgo que o sub-apreciado The Lathe of Heaven será porventura mais adequado como introdução ao género. George Orr vive atormentado pelos seus sonhos - alguns dos quais possuem a extraordinária capacidade de mudar o mundo. Literalmente. Para evitar ser internado por loucura aparente, Orr submete-se a sessões psiquiátricas com William Haber, cujo cepticismo inicial passa a espanto quando confirma o poder de Orr. E o espanto, como é evidente, cedo dá lugar a uma tentativa, sempre bem intencionada, de construir a Utopia... Numa história quase ao estilo de Philip K. Dick, Le Guin usa a premissa dos sonhos de Orr como alicerce de um enredo aliciante, que serve de pretexto para algumas intrigantes reflexões sobre a natureza humana e sobre o preconceito.

The Forever War, de Joe Haldeman (1974): Há quem diga que The Forever War foi a resposta de Haldeman ao militarismo de Heinlein no clássico Starship Troopers. Mas mais do que isso, The Forever War é uma história poderosa sobre a natureza (e, em última análise, a irrelevância) da guerra e sobre as alterações profundas, quando não irreversíveis, que causa em todos aqueles que a vivem no terreno - e sobre o regresso destes homens e destas mulheres a um mundo que juraram proteger, mas ao qual já não pertencem. Haldeman combateu no Vietname, e retira da sua vivência as bases deste romance; e utiliza com mestria convenções da ficção científica e um rigor científico impressionante para passar a sua mensagem com uma vivacidade e uma emergência singulares. Em termos meramente temáticos, dos cinco livros referidos talvez seja aquele que mais se aproxima da ideia generalizada da ficção científica no mainstream (guerras contra alienígenas); mas a verdade é que The Forever War é também um exemplo perfeito de como a ficção científica pode servir, sem abdicar das suas convenções, para explorar temas contemporâneos de grande pertinência.

A Scanner Darkly, de Philip K. Dick (1977): E, claro, se falamos de The Lathe of Heaven também podemos passar logo para Philip K. Dick - o autor de ficção cientifica cuja obra mais vezes foi adaptada ao cinema, e também um dos escritores do género mais apreciados fora dele. Os seus romances intricados questionam com frequência a condição humana e o que é, ou não é, a realidade - e A Scanner Darkly não é excepção. Bob Arctor vive duas vidas: numa delas, divide casa com alguns consumidores de drogas, sobretudo da perigosa Substância D; na outra, é um agente infiltrado da Brigada de Narcóticos, uma identidade que mantém em segredo tanto dos seus companheiros de casa como das próprias autoridades. Mas quando o seu consumo prolongado da droga faz com que as duas identidades se misturem, as fronteiras entre realidade e ilusão começam a esbater-se. A Scanner Darkly é também uma história auto-biográfico - mas mais do que isso, é um dos expoentes máximos do legado de Philip K. Dick, e uma introdução perfeita tanto à sua obra como à ficção científica, por demonstrar que esta pode ser tão terra-a-terra como qualquer romance dito literário. 

Fonte: The Guardian

21 de abril de 2013

Citação fantástica (63)

The path I choose through the maze makes me what I am. I am not only a thing, but also a way of being - one of many ways - and knowing the paths I have followed and the ones left to take will help me understand what I am becoming.

Daniel Keyes, Flowers for Algernon (1966)

26 de outubro de 2012

Flowers for Algernon

Em 1959, Daniel Keyes publicou na The Magazine of Fantasy & Science Fiction um conto que lhe valeria o Prémio Hugo para ficção curta: Flowers for Algernon. A posterior expansão deste conto para um romance valeu-lhe mais um prémio: o Nébula para melhor livro em 1966. Neste livro a todos os níveis invulgar, Keyes centra a narrativa em numa personagem memorável: Charlie Gordon, um adulto com um atraso mental severo e desprovido de qualquer malícia, que vive uma vida simples e despreocupada a fazer pequenos trabalhos numa padaria, alheio ao mundo que o rodeia.

Charlie seria, para todos os efeitos, um protagonista invulgar para um livro de ficção científica. Apesar das suas limitações mentais (um QI de 68), Charlie desde cedo manifestou uma enorme vontade de aprender, e tem um desejo muito forte de aprender a ler e a escrever bem - acreditando que, quando o conseguir, será igual às outras pessoas que conhece. Para isso, frequenta aulas de leitura e escrita no Beekman College Center for Retarded Adults, leccionadas pela professora Alice Kinnian. O seu desejo, porém, acaba por ser concedido: investigadores na Universidade de Beekman desenvolveram uma técnica cirúrgica para aumentar a inteligência dos pacientes, testada com sucesso em ratos de laboratório. O seu grande caso de sucesso é Algernon, um ratinho capaz de resolver problemas complexos, e no qual a experiência teve resultados aparentemente duradouros. Charlie acaba por se oferecer para ser a primeira cobaia humana para aquele procedimento.

Flowers for Algernon conta a história de Charlie através dos Progress Reports que ele escreve no âmbito da experiência científica para lhe aumentar a inteligência. Os primeiros relatórios são escritos de forma extremamente básica, mesmo infantil, com pouco vocabulário e uma péssima construção de frases e exposição de ideias, reflectindo na perfeição as limitações mentais de Charlie. A escrita destes relatórios começa a melhorar após a intervenção cirúrgica, à medida que Charlie começa a revelar verdadeiras capacidades de aprendizagem - aos poucos, aprende a pontuar de forma correcta, a construir frases, até que domina na perfeição a escrita. A evolução intelectual de Charlie do seu QI original de 68 para o extraordinário QI de 185 - que o torna num génio -, porém, está longe de lhe trazer a felicidade que outrora, na sua vasta inocência, imaginara. Aos poucos, começa a perceber que as pessoas que considerava amigas não se riam consigo, mas de si, e que apenas lhe mostravam simpatia pela sua evidente inferioridade. A sua rápida evolução intelectual não se fez acompanhar por uma correspondente maturação emocional, o que inevitavelmente lhe trouxe dissabores vários, e tornou todas as suas relações com os outros particularmente difíceis. A história explora, através da inteligente narrativa epistolar, este crescimento intelectual de Charlie, as suas dificuldades emocionais com quem o rodeia, com a sua família ausente, com o seu passado problemático, e mesmo com a sua própria identidade. Até ao momento em que começa a ter vários indícios de que os resultados da intervenção cirúrgica que o tornaram num génio podem ser apenas temporários...

Mais do que uma emotiva e absorvente história de ficção científica, Flowers for Algernon é uma fascinante reflexão sobre aquilo que define, de facto, a inteligência humana, sobre como o QI pode ser um método particularmente falível de medir essa inteligência, e do elevado preço que se paga pela genialidade. Apesar de ter sido censurado com alguma frequência nos Estados Unidos e no Canadá, Flowers for Algernon integrou (e continua a integrar) vários programas académicos em escolas na América do Norte. Adaptado para vários formatos, da televisão ao teatro, Flowers for Algernon ficou conhecido pela adaptação cinematográfica realizada por Ralph Nelson em 1968, intitulada Charly, e na qual o actor Cliff Robertson viria a ganhar um Óscar para Melhor Actor Principal pela sua interpretação do protagonista Charlie Gordon.

7 de outubro de 2012

Citação fantástica (35)

A child may not know how to feed itself, or what to eat, yet it knows hunger.

Daniel Keyes, Flowers for Algernon (1966)