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27 de maio de 2014

Harlan Ellison (1934 - )

Foto: Jim Merithew/Wired.com
Contista e argumentista, crítico e ensaísta, revolucionário e agitador: falo de Harlan Ellison, claro, que comemora hoje o seu 80º aniversário. Um número redondo que merece ser celebrado: Ellison, afinal, legou à ficção científica literária alguns dos seus mais memoráveis contos ("Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman e I Have No Mouth, and I Must Scream destacam-se entre dezenas) e ainda uma autêntica revolução por via de uma antologia: a célebre Dangerous Visions, a célebre colecção de 1967 que, reunindo mais de trinta contos de autores à época promissores e aclamados, abriu as portas da ficção científica norte-americana à "New Wave" que iria abanar as fundações do género e torná-la mais arrojada, mais ambiciosa e mais literária. Não se limitou à literatura: escreveu para televisão, tendo assinado episódios memoráveis de Star Trek e Outer Limits; e escreveu para cinema, adaptando um conto seu - A Boy and His Dog - para filme. E, na década de 90, adaptou até um dos seus mais célebres contos para uma aventura gráfica memorável, explorando também as possibilidades narrativas de um meio em ascensão naquela época (hoje torna-se mais difícil negar a pertinência narrativa dos videojogos).

Natural de Cleveland, no Ohio, Harlan Ellison é escritor de profissão e polemista de feitio: o seu carácter irascível, as polémicas constantes em que se envolveu e os litígios que levou para tribunal deram-lhe, com toda a justiça, o epíteto de enfant terrible da ficção científica (ou especulativa, como o próprio prefere). Mas é também um dos mais talentosos autores que o género já conheceu. A propósito da efeméride, Ryan Britt assina este belo e íntimo texto no Tor.com; fica hoje como leitura recomendada. 

23 de janeiro de 2014

Michael Moorcock: "What we were trying to do was broaden what could be done in fiction by using some SF conventions" (entrevista)

Poucos autores marcaram a história da ficção científica de forma tão revolucionária como o britânico Michael Moorcock: aos 17 anos já editava fanzines, e aos 24 tornou-se editor da revista New Worlds - que, na segunda metade dos anos 60, serviria de vanguarda da "New Wave", o movimento que viria a tornar a ficção científica mais literária, mais experimental e mais ousada tanto em termos formais como em termos temáticos. Numa longa e muito interessante entrevista a R. K. Troughton para o blogue da Amazing Stories, Moorcock fala sobre os seus primeiros passos no fandom, sobre o seu tempo na "New Wave" e sobre a revolução de que foi arauto, sobre o impacto que esse movimento teve no género e sobre o futuro da ficção científica - sem esquecer, claro, a sua obra literária, vasta e várias vezes premiada. Abaixo, dois destaques desta entrevista, sobre a New Worlds e a "New Wave":
R. K. Troughton / Amazing Stories: Before your 25th birthday you were named editor of the British magazine New Worlds. Since that day, science fiction has never been the same. Until that point the industry had predominantly held to the Campbellian blueprint. You, along with some of your contemporaries, decided it was time for change. Some might suggest that it wasn’t a conscious decision at all but rather an organic difference in artistic tastes and sensibilities. Together you incited a New Wave of science fiction. Please take us back to that first day on the job. What was going through your head, and what did you hope to accomplish?   
Michael Moorcock: Yeah, it wasn’t long after my 24th birthday actually that Ted Carnell, the editor for whom I was writing (Elric, The Eternal Champion, The Sundered Worlds) told me the magazines were folding. I had already written several articles for Carnell in which I suggested where sf/fantasy could go, so when Science Fantasy and New Worlds were bought, by Compact Books, Carnell suggested I take over from him (because of my editorial experience). Meanwhile Kyril Bonfiglioli, a friend of Brian Aldiss and the new publisher, asked to become editor. He had no experience. I was allowed first choice and to some peoples’ surprise chose New Worlds. I felt there was more I could do with the title. I wanted a large size magazine on art paper so I could publish contemporary painting and sculpture as well as scientific features to produce a blend of art, science and fiction. Compact told me they couldn’t budget for anything more than a paperback size on fairly pulpy paper! It was probably for the best! My first editorial referred to William Burroughs, whose own fiction drew on SF, and whom I knew by that time. A  New Fiction for the Space Age, I believe it was called. I got Ballard to write our first serial and a guest editorial. Barrington Bayley, who later became a sort of icon for cyberpunks, also contributed. I soon realised there were not many writers out there ready to produce the new kind of fiction I visualised. I had to proceed slowly to develop not only the fiction I wanted but also the kind of readership I needed. Much of the early work in my New Worlds was fairly conventional, if aspiring to a slightly more ambitious level of writing. Gradually new writers began to emerge an old ones became increasingly ambitious. I published a lot of young Americans who had been given their first breaks by Cele Goldsmith at Amazing and Fantastic. 
Rather innocently, I had thought most SF readers would welcome the idea of a new kind of literary fiction coming out of science fiction! Fandom, at least, didn’t. Neither did the likes of Fred Pohl, then editing Galaxy, whom I admired. 
RKT/AS: Famously, lines were drawn between the science fiction traditionalists and the revolutionaries. Editorials, reviews, and speeches were devised to both condemn and support the New Wave. What was life like in the trenches during the early years of the transformation? 
MM: Schizophrenic was what it was like! I thought SF readers, of all people, would be open-minded and welcome innovation! At first most of my support came from the non-fandom world of regular newspapers and journals. As I said, I was a little surprised. I received quite a lot of negative mail from ‘old guard’ SF readers who felt we were somehow attacking ‘their’ SF.  At a big conference about what was being called ‘The New SF’ in 1968 attended by philosophers, poets and arts professionals as well as writers, Mike Kustow, the former director of the Royal Shakespeare Company, who had brought in innovations during his term there, said he called it the ‘anxious ownership’ syndrome. People somehow thought we were trying to ‘take away’ the SF they enjoyed. Of course this was not the case. What we were trying to do was broaden what could be done in fiction by using some SF conventions. I certainly didn’t want to see ‘old school’ SF writers, many of whom were my friends, put out of work and that of course didn’t happen. Far from it. In fact we were a bridge from conventional fiction to SF.
Esta excelente entrevista pode e deve ser lida na íntegra no blogue da Amazing Stories.

Fontes: SF Signal / Amazing Stories 

15 de setembro de 2013

Norman Spinrad (1940 - )

Poucos autores de ficção científica terão sido tão controversos como Norman Spinrad, um dos principais rostos da New Wave da ficção científica norte-americana no final dos anos 60. Sem complexos ou receios de abordar temas polémicos, Spinrad deparou-se em várias ocasiões com dificuldades em publicar as suas obras de forma convencional. Bug Jack Barron, por exemplo, acabou por ser publicado em várias partes na revista New Worlds, editada no final da década de 60 por Michael Moorcock; The Iron Dream, livro de 1972 onde imaginou Hitler como escritor de ficção científica, esteve proibido na Alemanha; e o seu livro de 2007, Osama the Gun, foi rejeitado por vários editores nos Estados Unidos, e acabou publicado em formato electrónico.

Na sua bibliografia contam-se, entre outros romances, obras como The Solarians (1966), A World Between (1979), The Mind Game (1980), Child of Fortune (1985) e The Druid King (2003) - este último adaptado ao cinema. Escreveu e publicou várias dezenas de contos - um dos mais notáveis, Carcinoma Angels, figurou na célebre antologia de 1967 Dangerous Visions, de Harlan Ellison, obra maior do movimento New Wave. Escreveu para a série televisiva Star Trek, e desenvolveu ainda uma vasta actividade como crítico e ensaísta.

Nascido em Nova Iorque em 1940, Norman Spinrad celebra hoje o seu 73º aniversário.

8 de março de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (4): As "visões perigosas" de Harlan Ellison

What you hold in your hands is more than a book. If we are lucky, it is a revolution. Assim começa Thirty-two Soothsayers, a introdução de Harlan Ellison a Dangerous Visions, antologia que editou em 1967. E, para todos os efeitos, o objectivo de Ellison foi dar continuidade a uma revolução, ao movimento "New Wave" da ficção científica que mudaria para sempre o género em termos temáticos, narrativos e estilísticos. Em termos literários, se quisermos. À distância dos mais de 40 anos passados desde a publicação desta revolução, talvez seja difícil avaliar o impacto que teve - temas como o sexo, a homossexualidade ou a experiência religiosa já perderam a novidade, e porventura a polémica, no que à literatura diz respeito. Dos temas abordados nos mais de 30 contos publicados na antologia, talvez apenas a violência o incesto e o cancro, abordados por Harlan Ellison, Theodore Sturgeon e Norman Spinrad respectivamente, mantenham um relativo grau de polémica. 

Essa questão, aliás abordada de forma muito inteligente na introdução de Adam Roberts para a edição recente da Gollancz na colecção "SF Masterworks"*, fica por isso mais ou menos arrumada: de um ponto de vista meramente temático, as visões perigosas de Ellison perderam um pouco do seu perigo. Que não se pense, porém, que a antologia se tornou por isso datada - e se tal não aconteceu, isso dever-se-á à qualidade superlativa da ficção seleccionada por Ellison, que convidou autores consagrados, em ascensão e mesmo estranhos ao género e os desafio a ser ousados e a apresentar o seu melhor. Por isso, mesmo que os temas dos vários contos não sejam hoje novos ou chocantes (foram-no na sua época, e não é difícil fazer essa contextualização), é fácil deliciarmo-nos com a alucinação de Philip K. Dick, o twist genial de Poul Anderson, a antecipação de John Brunner ou o horror do próprio Harlan Ellison. Mesmo que não se goste de todos os trabalhos - eu não gostei de todos, longe disso -, é impossível não reconhecer a qualidade da escrita, a originalidade da - narrativa, a pura força da imaginação de cada um dos 32 autores que contribuíram para este livro. 

Na segunda introdução da edição original, Isaac Asimov (que não quis participar na antologia com ficção) começa por dizer: This book is Harlan Ellison. O que está muito certo: Dangerous Visions é, de facto, Harlan Ellison. Isso não se deve apenas ao conceito ou à selecção de contos, mas também - e, diria, sobretudo - ao cuidado trabalho de edição de Ellison. No total, seleccionou 32 contos de 33 autores diferentes - e não só pediu a cada autor um curto posfácio para cada trabalho, como também escreveu uma introdução para cada um deles. Não falo de notas biográficas, mas de textos personalizados e acima de tudo pessoais. De histórias de como o editor conheceu o trabalho do autor. De como chegou até ele. De rascunhos rejeitados. De aventuras partilhadas. De amizade, em muitos casos. O tom é laudatório, claro - mas é também descontraído, bem humorado, provocador a espaços. Num caso, a introdução é maior do que o próprio conto - e, pasme-se, é tão ou mais divertida do que aquele. 

Et pour cause: não mencionei nos artigos anteriores o conto de Harlan Ellison em Dangerous Visions. A omissão foi intencional: sendo Ellison o editor da antologia, pareceu-me apropriado deixar o seu conto para o fim. E The Prowler in the City at the Edge of the World é um conto soberbo, um dos melhores da antologia (levou-me a comprar quase de imediato uma pequena antologia do autor): uma continuidade ao desafio que o próprio lançou a Robert Bloch de escrever uma história com base no seu (de Bloch) conto Yours Truly, Jack the Ripper, na qual o lendário assassino fosse parar ao futuro. Bloch aceitou o desafio e submeteu A Toy for Julliette; e Ellison escreveu-lhe uma sequela a todos os níveis brilhante, no qual Jack se vê num futuro esterilizado, amoral e nihilista. Sobre o enredo, não me vou alongar - é formidável, e a escrita rápida, incisiva e pormenorizada de Ellison confere à narrativa um ritmo vertiginoso sem descurar uma caracterização pormenorizada de Jack, da Cidade e dos seus habitantes, e uma carga emocional especialmente forte.

Em jeito de conclusão: ao longo das últimas semanas, publiquei vários artigos sobre alguns dos contos que compõem Dangerous Visions. As escolhas incidiram sobre aqueles de que mais gostei, claro, mas não foram os únicos que chamaram a minha atenção - apenas os que mais se destacaram. Fazer uma resenha a cada um dos 32 contos seria exaustivo, pelo que, para completar a análise a esta prodigiosa antologia, segue abaixo a lista completa dos contos e da minha avaliação a cada um deles seguindo o (odioso) método das estrelinhas - no caso, dos asteriscos. E, claro, fica a recomendação de leitura. Dangerous Visions poderá talvez não parecer ao leitor do século XXI um livro revolucionário, ou mesmo perigoso; mas será sempre um livro de grande qualidade, com um conjunto excepcional de autores, de temáticas e de estilos que só por si merecem uma leitura atenta. E, mais do que isso, é uma parte fundamental da história da ficção científica enquanto género literário. 
  • Evensong, de Lester del Rey. ***
  • Flies, de Robert Silverberg. *****
  • The Day After the Day the Martians Came, de Frederik Pohl ***
  • Riders of the Purple Wage, de Philip José Farmer ****
  • The Malley System, de Miriam Allen deFord ***
  • A Toy for Juliette, de Robert Bloch ****
  • The Prowler in the City at the Edge of the World, de Harlan Ellison *****
  • The Night That All Time Broke Out, de Brian W. Aldiss ****
  • The Man Who Went to the Moon — Twice, de Howard Rodman **
  • Faith of Our Fathers, de Philip K. Dick *****
  • The Jigsaw Man, de Larry Niven ***
  • Gonna Roll the Bones, de Fritz Leiber ****
  • Lord Randy, My Son, de Joe L. Hensley ***
  • Eutopia, de Poul Anderson *****
  • Incident in Moderan, de David Bunch ***
  • The Escaping, de David R. Bunch **
  • The Doll-House, de James Cross ***
  • Sex and/or Mr. Morrison, de Carol Emshwiller *
  • Shall the Dust Praise Thee?, de Damon Knight ***
  • If All Men Were Brothers, Would You Let One Marry Your Sister?, de Theodore Sturgeon *****
  • What Happened to Auguste Clarot?, de Larry Eisenberg *
  • Ersatz, de Henry Slesar **
  • Go, Go, Go, Said the Bird, de Sonya Dorman ***
  • The Happy Breed, de John Sladek ****
  • Encounter with a Hick, de Jonathan Brand **
  • From the Government Printing Office, de Kris Neville ***
  • Land of the Great Horses, de R. A. Lafferty ****
  • The Recognition, de J. G. Ballard ****
  • Judas, de John Brunner *****
  • Test to Destruction, de Keith Laumer ****
  • Carcinoma Angels, de Norman Spinrad *****
  • Auto-da-Fé, de Roger Zelazny ****
  • Aye, and Gomorrah, de Samuel R. Delany ****
*Esta edição, cuja capa ilustra o artigo, inclui várias introduções: para além das originais de Asimov e de Ellison, inclui uma de Adam Roberts, outra de Michael Moorcock e ainda uma outra, de 2002, também de Ellison.

1 de março de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (3): Contos de John Brunner, Keith Laumer, Norman Spinrad e Samuel R. Delany

Dangerous Visions. Again (pun intended). É difícil falar de uma vez só sobre uma antologia com tantos contos (33) tão diferentes como aqueles que compõem esta célebre e polémica colectânea editada por Harlan Ellison em 1967 - daí já ir no terceiro artigo a ela dedicado (e ainda falta um). Já aqui falei das contribuições de autores como Philip K. Dick, Robert Silverberg, Philip José Farmer, Brian Aldiss, Poul Anderson, Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard; hoje, dedicarei as próximas linhas a algumas das melhores peças da antologia, saídas da pena (ou da máquina de escrever) de John Brunner, Keith Laumer, Norman Spinrad e Samuel R. Delany.

Judas, de John Brunner: Se tivesse lido Judas sem o enquadramento temático e temporal que Dangerous Visions lhe confere, diria que se trataria de um conto situado em pleno movimento cyberpunk, algures nos anos 80 - e não seria difícil imaginar o cenário descrito pelo britânico como algures na vasta sprawl de Gibson. Sabendo que Brunner o escreveu em 1967 torna-o ainda mais interessante pela forma como antecipa uma certa atmosfera sombria daquele movimento numa alegoria religiosa tão poderosa como irónica. Judas coloca-nos numa igreja futurista onde a máquina se tornou objecto de culto e a Inteligência Artificial ascendeu à divindade - criada pelo Homem à sua exacta imagem e semelhança. Mas quando a máquina se torna divina, qual é o papel que resta ao Homem? De um ponto de vista pessoal, este era um dos contos que mais curiosidade me despertava em toda a antologia, devido à minha leitura da obra-prima de Brunner, Stand on Zanzibar - e a leitura não me desiludiu. Bem pelo contrário: ainda que não se revele uma das visões mais perigosas da antologia, Judas é provavelmente um dos seus melhores contos.

Test to Destruction, de Keith Laumer: Começa como uma narrativa de características noir muito vincadas para se revelar num confronto de titãs. John Mallory, um revolucionário que tenta derrubar um regime opressivo, vê a sua mente servir como campo de batalha entre duas forças de um poder incomensurável: a sede de poder dos seres humanos revelada no seu engenho para a tortura e o poder de uma enigmática raça alienígena, determinada a testar a Humanidade até às últimas consequências para determinar se constitui uma ameaça. Mas tolerará tal confronto outro vencedor? Com uma estrutura narrativa fragmentada em pequenos capítulos com vários pontos de vista distintos, Test to Destruction é a todos os níveis um conto notável - começa com uma cena de perseguição tão viva que quase ganha um carácter cinematográfico, à qual se sucede um confronto prodigioso entre dois inimigos que não se conhecem que culmina de forma... inesperada (para alguém, certamente). Mas mais do que um conto notável, Test to Destruction é uma fascinante reflexão de Keith Laumer sobre a natureza do poder e sobre como a mais benigna das intenções humanas projecta sempre uma sombra considerável.

Carcinoma Angels, de Norman Spinrad: Como o título indica, Carcinoma Angels é uma história sobre cancro. Na introdução, Ellison descreve-a como a funny cancer story - e, de facto, o conto de Norman Spinrad é uma história provocadora, irónica e bastante divertida sobre o cancro. E é exactamente neste ponto de reside a dangerous vision de Spinrad - ao contrário de outros temas arriscados e polémicos que a antologia exibe, o tema do cancro é notório por ser, em 1967, um "não-tema", algo de que ninguém falava. Como o próprio refere no posfácio: Proeminent Public Personalities, alone, escape from its ravages, as any newspaper obituary column will tell you: "dying after a long, lingering illness" or "passing away from natural causes". Algo que deverá ser familiar a todos: apesar de já se falar de forma mais aberta do tema, só há pouco tempo a comunicação social se começou a libertar do espartilho da "doença prolongada". Com um trocadilho assombroso no título (percebê-lo no texto fez-me soltar uma sonora gargalhada), Carcinoma Angels é uma história fascinante sobre a ambição e o desejo de controlo sobre algo que, para todos os efeitos, está fora do nosso controlo. E tal como o anterior, é também um conto muito rico do ponto de vista visual, com metáforas visuais muito bem conseguidas sobre um tema difícil de descrever numa perspectiva narrativa.

Aye, and Gomorrah..., de Samuel R. Delany: A Delany coube encerrar a antologia com uma história que usa como premissa para uma reflexão mais profunda um detalhe esquecido com alguma frequência na ficção científica "espacial". Num futuro tão intrigante como perverso, os astronautas que exploram o Sistema Solar e trabalham no espaço são seleccionados ainda muito jovens e castrados para evitar os efeitos nefastos da radiação espacial nos gâmetas - condenando-os à esterilidade e a uma androginia pré-púbere. Tudo o que é invulgar, porém, é motivo de curiosidade, e estes astronautas assexuais alimentam o fascínio sexual de alguns indivíduos, e a eles se entregam em troca de dinheiro e de diversão - mas serão o dinheiro e a diversão os verdadeiros motivos dessa entrega? Em Aye, and Gomorrah, Delany explora temas como a perda, as ligações humanas, o desejo sexual, o preconceito e a perversão - e fá-lo numa narrativa elaborada e algo melancólica, descrita pelo olhar subjectivo de um invulgar protagonista. Este conto foi um dos vários vencedores de Dangerous Visions ao conquistar o Prémio Nébula de 1967 na categoria de "Melhor Conto".

22 de fevereiro de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (2): Contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard

Hoje, proponho um regresso a Dangerous Visions, a antologia editada por Harlan Ellison em 1967 que se tornou num dos livros fundamentais do movimento New Wave da ficção científica. Em artigos anteriores destaquei contos de Philip K. Dick, Robert Silverberg, Philip José Farmer, Brian Aldiss e Poul Anderson; hoje, dedicar-me-ei aos contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard.

If All Men Were Brothers, Would You Let One Marry Your Sister?, de Theodore Sturgeon: Num futuro distante, no qual a Humanidade se viu obrigada a abandonar a Terra e a colonizar outros planetas - e perante uma surpreendente abundância de planetas habitáveis na galáxia (com mais ou menos terraformação) -, surgiram de forma mais ou menos espontânea vários tipos de sociedades em vários planetas diferentes, ligados numa vasta rede de comunicação e comércio. Entre os planetas habitáveis, porém, permanece um mistério: por que motivo o planeta Vexvelt permanece isolado, e ninguém deseja falar nele? Charli Bux tropeça com uma ponta do mistério e a sua curiosidade aumenta: Vexvelt é um planeta riquíssimo, com recursos de fazer inveja a qualquer outro planeta. Por que motivo, então, os seus habitantes permanecem afastados do resto da Humanidade? Com uma escrita bem ritmada e a alternar momentos dramáticos com alguns toques de comédia, Sturgeon coloca o protagonista em confronto com um dos mais antigos tabus das sociedades humanas. Ao opor o enquadramento social de Charli - com todos os seus preconceitos - à sociedade quase-utópica que reside em Vexvelt, Sturgeon desmonta pela lógica aquele tabu e procura demonstrar como o preconceito pode ser interiorizado sem sequer darmos por ele. 

The Happy Breed, de John Sladek: Em poucas páginas, John Sladek constrói uma premissa interessante: a partir do momento em que as máquinas podem substituir os humanos em todos os trabalhos (da recolha de lixo à cirurgia ou à engenharia) e assegurar todas as suas necessidades, básicas ou não, a Humanidade pode enfim dedicar-se ao mais perfeito hedonismo e às artes. Ou será que pode? Sladek coloca a questão de forma inteligente enquanto explora as consequências de uma sociedade na qual máquinas benevolentes tomam conta de todos os aspectos da vida humana em prol da felicidade de cada um. Mas será isso uma utopia de felicidade, ou uma distopia de estupidificação? À primeira vista, a premissa pode parecer banal nos dias que correm, mas é na execução que Sladek brilha - à sua escrita ritmada e concisa alia uma estrutura narrativa episódica assente em múltiplos pontos de vista que se vão misturando até ao twist final. O resultado é um conto tão divertido como perturbador, na definição e desconstrução de um nanny state absoluto - e algumas das suas ideias estão ainda muito presentes na ficção científica contemporânea.

The Recognition, de J.G. Ballard: Quase tão interessante como o conto de Ballard é a polémica que envolve a sua entrada em Dangerous Visions. O conto submetido pelo autor a pedido de Ellison não foi originalmente The Recognition, mas um outro, intitulado Assassination of J.F. Kennedy Considered as a Downhill Motor Race. Este conto, porém, nunca terá chegado às mãos de Harlan Ellison (é o que alega Ellison) por interferência do agente literário norte-americano de Ballard. The Recognition foi então submetido e aprovado, mas não sem algumas declarações polémicas de Ballard. De qualquer forma, e como disse, toda esta polémica não chega a ser tão interessante como o conto em si: The Recognition é uma das narrativas mais atmosféricas de toda a antologia. O protagonista observa a cidade durante uma caminhada, e depara-se com a chegada de um circo pequeno e especialmente desgastado - que, privado de um espaço mais central para o seu espectáculo, acaba por se instalar à beira rio, entre armazéns abandonados. O protagonista visita o circo, curioso, onde conhece a proprietária e o seu assistente - mas nas jaulas em exibição nem ele nem a população vão encontrar a exposição que esperam. Ballard cria um atmosfera tão evocativa como sombria, e a sua escrita excepcional dá forma a um dos melhores e mais estranhos contos da antologia. 

7 de setembro de 2012

Stand on Zanzibar: a distopia da sobrepopulação

Em 1968, no auge da chamada “New Age Science Fiction”, o britânico John Brunner venceu o Prémio Hugo com Stand on Zanzibar, uma intensa distopia sobre a sobrepopulação do planeta em 2010 e o respectivo impacto social. Grosso modo, Brunner acertou em metade: de facto, em 2010 a população mundial rondava os sete milhões de pessoas (mais coisa, menos coisa), que decerto caberiam todas de pé, lado a lado, na ilha africana de Zanzibar. Já o impacto desse número (e ainda bem para nós, que cá vivemos) não correspondeu bem à descrição de Brunner. O que, contudo, não quer dizer que Stand on Zanzibar seja um livro datado. Longe disso.

O futuro retorcido de Stand on Zanzibar ganha força justamente pela sua verosimilhança - e, nesse sentido, a data de 2010 é um detalhe menor. Num mundo sobrepovoado, a eugenia tomou conta das sociedades ocidentais, levando-as a assumir o controlo populacional em função da depuração genética, suportada por uma omnipresente máquina burocrática. Este controlo, porém, está longe de se revelar eficaz na pacificação da sociedade, que exibe divisões sociais mais profundas do que nunca (com uma forte componente de discriminação positiva), enganadoramente apática sob o consumo de drogas legais e o derradeiro reality show televisivo (Mr. and Mrs. Everywhere, um conceito fabuloso) que esconde uma faceta miserável e uma instabilidade ao ponto da amotinação violenta de forma espontânea - terreno fértil, como é bom de ver, para o fanatismo religioso, o extremismo social e o terrorismo. Por contraste, África continua a viver numa pobreza extrema (salvo algumas, poucas, nações), tendo contudo conhecido uma reorganização política interessante após a queda do colonialismo. Já na Ásia emerge o grande inimigo das sociedades ocidentais, na forma de uma China colossal (pouco mencionada) e de outras nações fictícias na região que conhecemos como o Sudeste Asiático (Isola, que corresponde mais ou menos às Filipinas e é um estado norte-americano; e Yatakang, uma Indonésia ficcional).

Este mundo alternativo ganha especial densidade devido à invulgar estrutura narrativa de Stand on Zanzibar. Inspirada na célebre U.S.A. Trilogy de John Dos Passos, a narrativa de Stand on Zanzibar é dispersa, fragmentada e algo caótica. O enredo não é apresentado ou descrito de forma convencional, directa ou linear, apresentando uma estrutura binária - designada por Continuity - que acompanha os dois protagonistas, Norman House e Donald Hogan. Aos capítulos de continuidade juntam-se muitos outros, agrupados em três categorias narativas: Tracking With Close-ups, onde o foco incide sobre personagens laterais cujas acções e cujo contexto servem de enquadramento para a realidade, mostrando as causas e as consequências práticas dos vários problemas sociais explorados por Brunner; This Happening World, com verdadeiros infodumps de conteúdos noticiosos, contextualizados ou não, que dão uma ideia geral do que acontece pelo mundo e ajudam a enquadrar a narrativa principal e as narrativas secundárias; e Context, onde são feitas descrições e análises económicas, políticas e sociais, recorrendo com frequência a citações, referências ou entrevistas de Chad Mulligan, um sociólogo tão polémico como brilhante. Estes quatro tipos de capítulos não estão arrumados numa estrutura narrativa coerente, surgindo de forma mais ou menos aleatória ao longo da obra - e se dentro da secção Continuity os capítulos de Hogan e House estão mais ou menos alternados, isso nem sempre acontece. Um exemplo é o excepcional capítulo da festa de Guinevere Steel, no qual o ponto de vista convencional é estilhaçado por um grande número de pessoas presentes no evento, cujos pontos de vista distintos (e anónimos) se sucedem a um ritmo quase vertiginoso, como se nós, leitores, estivéssemos dentro daquela festa a caminhar por entre as pessoas e a apanhar inúmeros fragmentos de conversas distintas.

Certo: este “malabarismo” narrativo pode parecer confuso, e a perspectiva de ler mais de seiscentas páginas de narrativa fragmentada pode parecer intimidante quando se pega em Stand on Zanzibar pela primeira vez. A verdade é que a confusão desaparece à medida que entramos na leitura e nos embrenhamos no ritmo frenético, por vezes sombrio, de Brunner. A fragmentação permite centrar a narrativa onde ela realmente importa - nos acontecimentos que envolvem Norman House e Donald Hogan - enquanto os restantes capítulos enquadram esses acontecimentos e aquelas personagens, introduzem outras personagens e mostram como funcionam os mais variados aspectos daquela realidade. Donald Hogan, por exemplo, é introduzido bem antes do seu primeiro capítulo, com uma única e desconcertante frase na secção This Happening World (de longe, a melhor introdução de personagem que já li). Com as personagens laterais - os close-ups - o leitor acompanha vários aspectos da distopia de Brunner, como as consequências das leis eugenicistas, o impacto da guerra no Pacífico ou as culturas terroristas e de narcotráfico. Já as citações e referências de Chad Mulligan - que não sendo o protagonista é uma personagem central na narrativa - fornecem um olhar cínico sobre a realidade, enquanto muitos acontecimentos e desenvolvimentos são introduzidos através de um caos de informação perturbadoramente próximo daquele que conhecemos hoje em dia (recorde-se, contudo, que Brunner não anteviu algo como a Internet, apesar de o enredo introduzir o supercomputador Shalmaneser, e de se saber que os principais Governos recorriam a análises e previsões feitas em computadores desta natureza).

Stand on Zanzibar não é um livro com heróis e vilões ou com uma progressão narrativa orientada para um clímax e uma resolução - pelo menos, não no sentido convencional. É, sim, um espelho retorcido e perturbador sobre uma realidade que poderia talvez ter sido a nossa, e de cujo espectro não estamos de todo livres. É uma realidade alternativa tão sombria como fascinante. É um livro caótico, mas claríssimo no seu caos - e brilhante a todos os níveis. Não surpreende por isso que muitos autores de ficção científica, quando interrogados sobre os melhores livros do género, enumerem Stand on Zanzibar com tanta regularidade. Não vale tanto pela acção que apresenta (que, ainda assim, é excelente), mas sim pela realidade que explora e pelas questões que suscita. Destaco uma: assumindo a relevância tanto da componente hereditária (biológica) como da social na criação daquilo que é um ser humano, se criássemos seres humanos muito superiores a nós (mais fortes, mais ágeis, mais resistentes, mais inteligentes), como os poderíamos educar de forma a alcançarem o pleno das suas capacidades?

As restantes deixo à descoberta dos leitores.