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12 de setembro de 2013

Cinco livros de ficção científica para quem não lê ficção científica

Há dias, o diário britânico The Guardian publicou na sua edição online um daqueles artigos recorrentes em forma de lista - no caso, de cinco livros de ficção científica "para pessoas que odeiam ficção científica". A questão parece-me a mim mal colocada: quem de facto "odiar" a ficção científica dificilmente irá apreciar qualquer coisa relacionada com o género. Mas, como é sabido, entre o amor e o ódio há um território muito vasto, e muitos serão os livros indicados para quem ainda não conhece o género, ou para quem acha que a ficção científica literária se resume a um Star Wars ou a um Star Trek em página escrita (mesmo que já tenha lido clássicos como Nineteen Eighty-Four ou Brave New World). A lista do The Guardian foi compilada por Damien Walter, e pode ser lida aqui. Abaixo, seguem as minhas cinco sugestões:

A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. (1960): Antes de Mad Max ter levado a iconografia do pós-apocalipse para o deserto australiano - e antes mesmo de o pós-apocalipse se ter tornado numa das grandes tendências contemporâneas da ficção de género, capaz mesmo de atrair autores mainstream -, já Walter M. Miller, Jr. tinha definido essa iconografia num dos grandes clássicos da ficção científica: A Canticle for Leibowitz. Num tom tão cínico como irónico, Miller descreve de forma bem humorada, mas nem por isso pouco séria, como a Humanidade está condenada a repetir os seus erros vários séculos após a guerra nuclear que causou a queda da civilização. Os monges da Abadia de Leibowitz procuram reproduzir e preservar todo o conhecimento científico a que consigam deitar a mão, independentemente do seu entendimento sobre esse conhecimento (quase sempre nulo).

Flowers for Algernon, de Daniel Keyes (1966): Se há um livro incontornável em termos de recomendações de ficção científica para quem não é leitor habitual do género, será sem dúvida este clássico de Daniel Keyes. Flowers for Algernon conta a história de Charlie, um jovem com um atraso mental severo que deseja, mais do que tudo, ficar inteligente. Para isso submete-se a uma intervenção revolucionária, testada apenas no ratinho Algernon. Mas nem tudo corre conforme esperado - à medida que a sua inteligência aumenta, a visão que Charlie tinha do mundo passa rapidamente de ingénua para cínica. É uma história tocante, narrada através das páginas dos "relatórios de progresso" escritas por Charlie durante as várias etapas do tratamento - com as suas aptidões linguísticas a acompanharem a sua evolução. E, acima de tudo, Flowers for Algernon é uma história especialmente humana - sobre os nossos receios, as nossas expectativas e a forma como nos relacionamos com os outros. Imperdível. 

The Lathe of Heaven, de Ursula K. Le Guin (1971): A lista do The Guardian destaca The Left Hand of Darkness, obra-prima de uma das maiores prosadoras da ficção científica; pessoalmente, porém, julgo que o sub-apreciado The Lathe of Heaven será porventura mais adequado como introdução ao género. George Orr vive atormentado pelos seus sonhos - alguns dos quais possuem a extraordinária capacidade de mudar o mundo. Literalmente. Para evitar ser internado por loucura aparente, Orr submete-se a sessões psiquiátricas com William Haber, cujo cepticismo inicial passa a espanto quando confirma o poder de Orr. E o espanto, como é evidente, cedo dá lugar a uma tentativa, sempre bem intencionada, de construir a Utopia... Numa história quase ao estilo de Philip K. Dick, Le Guin usa a premissa dos sonhos de Orr como alicerce de um enredo aliciante, que serve de pretexto para algumas intrigantes reflexões sobre a natureza humana e sobre o preconceito.

The Forever War, de Joe Haldeman (1974): Há quem diga que The Forever War foi a resposta de Haldeman ao militarismo de Heinlein no clássico Starship Troopers. Mas mais do que isso, The Forever War é uma história poderosa sobre a natureza (e, em última análise, a irrelevância) da guerra e sobre as alterações profundas, quando não irreversíveis, que causa em todos aqueles que a vivem no terreno - e sobre o regresso destes homens e destas mulheres a um mundo que juraram proteger, mas ao qual já não pertencem. Haldeman combateu no Vietname, e retira da sua vivência as bases deste romance; e utiliza com mestria convenções da ficção científica e um rigor científico impressionante para passar a sua mensagem com uma vivacidade e uma emergência singulares. Em termos meramente temáticos, dos cinco livros referidos talvez seja aquele que mais se aproxima da ideia generalizada da ficção científica no mainstream (guerras contra alienígenas); mas a verdade é que The Forever War é também um exemplo perfeito de como a ficção científica pode servir, sem abdicar das suas convenções, para explorar temas contemporâneos de grande pertinência.

A Scanner Darkly, de Philip K. Dick (1977): E, claro, se falamos de The Lathe of Heaven também podemos passar logo para Philip K. Dick - o autor de ficção cientifica cuja obra mais vezes foi adaptada ao cinema, e também um dos escritores do género mais apreciados fora dele. Os seus romances intricados questionam com frequência a condição humana e o que é, ou não é, a realidade - e A Scanner Darkly não é excepção. Bob Arctor vive duas vidas: numa delas, divide casa com alguns consumidores de drogas, sobretudo da perigosa Substância D; na outra, é um agente infiltrado da Brigada de Narcóticos, uma identidade que mantém em segredo tanto dos seus companheiros de casa como das próprias autoridades. Mas quando o seu consumo prolongado da droga faz com que as duas identidades se misturem, as fronteiras entre realidade e ilusão começam a esbater-se. A Scanner Darkly é também uma história auto-biográfico - mas mais do que isso, é um dos expoentes máximos do legado de Philip K. Dick, e uma introdução perfeita tanto à sua obra como à ficção científica, por demonstrar que esta pode ser tão terra-a-terra como qualquer romance dito literário. 

Fonte: The Guardian

12 de maio de 2013

Citação fantástica (66)

What's to be believed? Or does it matter at all? When mass murder's been answered with mass murder, rape with rape, hate with hate, there's no longer much meaning in asking whose ax is bloodier. Evil, on evil, piled on evil. Was there any justification for what they did-or was there?

Walter M. Miller, Jr., A Canticle for Leibowitz (1960)


30 de dezembro de 2012

2012 em leituras

Tal como nos videojogos, também nas leituras dediquei em 2012 muito pouco tempo às novidades editoriais do ano, optando por continuar a ler muitos dos clássicos da fantasia e da ficção científica que tenho em falta. É certo que a lista de leituras futuras continua a ser muito longa, mas algumas lacunas mais sérias já foram preenchidas - e, diga-se de passagem, com imenso prazer. Seria difícil (para não dizer inútil) falar num único artigo de todos os livros que li em 2012, isto partindo do princípio de que ainda seria capaz de enumerar a lista completa. Assim, e tendo a sensação de que me esqueço de algo, aqui ficam os meus destaques de leitura deste ano que está mesmo quase a terminar. 

The Stars My Destination (Alfred Bester, 1953)
Descrito frequentemente como O Conde de Montecristo da ficção científica, The Stars My Destination conta a fabulosa e sangrenta odisseia de vingança de Gully Foyle, um homem em nada excepcional que foi abandonado à sua sorte nos destroços de uma nave espacial à deriva no Sistema Solar. Isto num futuro em que a Humanidade se espalhou pelos vários planetas e satélites mais próximos, e em que toda a gente possui a capacidade de se teletransportar. As alterações sociais provocadas pelo teletransporte compõem o quadro de forma brilhante, mas é Gully Foyle, um autêntico Zé-Ninguém, quem carrega a narrativa às costas a passo de corrida, num ritmo tão vertiginoso como violento, cruzando-se com personagens fascinantes (como Dagenham ou Olivia Presteign) à medida que junta as várias peças do puzzle que é a sua vingança. Muito do que se seguiu na ficção científica literária tem neste livro as suas raízes, o que, julgo, diz alguma coisa sobre quão importante foi na sua época.

The Forever War (Joe Haldeman, 1973)
Numa das mais relevantes obras da ficção científica militar, Joe Haldeman transporta a Guerra do Vietname - na qual combateu - para um futuro no qual as grandes batalhas são travadas no espaço. Da recruta ao combate real, Haldeman usa o pretexto da guerra contra os "Taurans" para reflectir sobre o absurdo da guerra, sobre a forma como nunca conhecemos verdadeiramente o nosso inimigo, e sobre a forma como a guerra muda de forma inevitável e irreversível quem nela participa. Quando o familiar se torna estranho e quando as causas se tornam difusas, qual é o sentido do combate? Com uma narrativa muito bem articulada, Haldeman recorre a um realismo científico invulgar para colocar estas (e outras) questões, utilizando a relatividade do tempo no espaço para acentuar a estranheza dos combatentes à medida que os anos se sucedem a ritmos diferentes na guerra e no mundo que o soldado Mandella e os seus companheiros juraram proteger. A todos os níveis, The Forever War é uma obra fundamental na ficção científica. 

A Canticle for Leibowitz (Walter M. Miller, Jr., 1960)
É possível que A Canticle for Leibowitz seja a obra mãe da ficção pós-apocalíptica que tão bons livros e filmes nos deu ao longo das últimas décadas. Muitos anos após o cataclismo nuclear que arrasou a civilização no então longínquo século XX, os frades da Ordem de Leibowitz - que julgam um mártir - dedicam-se à preservação de todo o conhecimento científico que esteja ao seu alcance, ainda que nem sempre tenham um entendimento muito preciso daquilo que têm em mãos. Isto, claro, enquanto tentam obter a beatificação do seu santo padroeiro, e enquanto lutam pela sobrevivência num mundo devastado. Publicada originalmente na The Magazine of Fantasy and Science Fiction em três partes, A Canticle for Leibowitz é uma história muito bem conseguida e particularmente bem humorada sobre a natureza humana, e sobre o carácter cíclico - e quase sempre irónico - que a História acaba sempre por assumir.

Hyperion / The Fall of Hyperion (Dan Simmons, 1989/1990)
Ainda a leitura ia a meio e já Hyperion, de Dan Simmons, se tinha tornado num dos meus livros de ficção científica preferidos - pela escrita elegante, pelas referências literárias, e sobretudo pela densidade da narrativa. Um acaso que é tudo menos casual juntou sete desconhecidos numa peregrinação à lendária criatura conhecida como Shrike, no remoto planeta Hyperion - e, durante a longa viagem, decidem partilhar as suas histórias e o que os levou a alinhar naquela aventura suicida. Mais do que uma história, Hyperion é composto pelas formidáveis histórias individuais de cada um dos peregrinos, que contém as várias peças do vasto puzzle da guerra de proporções galácticas que se avizinha. Afinal, qual é a relevância de Hyperion no conflito entre os mundos da Web e os Ousters? E qual é o papel da AI Technocore? As respostas são dadas no surpreendente The Fall of Hyperion, fechando de forma formidável esta parte dos Hyperion Cantos

Stand on Zanzibar (John Brunner, 1968)
Para todos os efeitos, John Brunner falhou na previsão: apesar de a população terrestre em 2010 ser de (mais ou menos) sete mil milhões de indivíduos, as consequências da sobrepopulação estão longe daquelas que imaginou em Stand on Zanzibar. O que, para todos os efeitos, é irrelevante: a sobria distopia que descreveu de forma prodigiosa neste livro premiado continua a ser relevante e, acima de tudo, assustadoramente plausível. Num estilo narrativo que, sendo reminescente de John Dos Passos, nunca deixa de ser original e inovador, Stand on Zanzibar marcou os anos da "New Wave" com as histórias paralelas de Norman House e Donald Hogan num mundo caótico onde o espaço e a privacidade se tornaram luxos. As muitas histórias paralelas dão cor ao mundo imaginado por Brunner ao focar os vários aspectos desta distopia, e há qualquer coisa de vagamente premonitório (e genial) nos infodumps com que o autor apresenta personagens, introduz factos e coloca mais questões do que respostas. 

Lord of Light (Roger Zelazny, 1967)
Pode um livro excepcional ter origem num trocadilho? Pode, e Roger Zelazny demonstrou-o em 1967 com Lord of Light, misturando fantasia épica e ficção científica de forma elegante e irónica. O trocadilho fica à descoberta dos leitores, tal como a história de Mahasamatman, que deixou cair o -Maha e o  -atman para ser conhecido apenas por Sam. Sam abandonou o panteão dos deuses para viver entre os homens e, no seu caminho, decidiu devolver à Humanidade todo o conhecimento e todo o progresso que aqueles lhe negavam. Como é que uma história sobre a revolta contra o divino pode incluir ficção científica? Esse é justamente uma das maravilhas de Lord of Light e da sua recriação sui generis das divindades Hindus. Com uma interessante estrutura narrativa circular, Zelazny desenvolve uma fascinante história de queda e ascensão onde Yama, Brahma, Shiva, Ratri, Mara e Ganesha merecem destaque, mas na qual é Sam, o Buddha, quem de facto brilha. 


The Colour of Magic (Terry Pratchett, 1983)
No final do ano passado, defini como única resolução para 2012 começar a ler a série Discworld, de Terry Pratchett, após me ter maravilhado com o conto The Sea and Little Fishes que encontrei na antologia Legends, de Robert Silverberg. Logo em Janeiro li The Colour of Magic, primeiro volume nesta série que já conta com 39 livros publicados, vários contos e inúmeros livros paralelos, e apesar de esperar uma leitura divertida, acabei por me surpreender com a (aparentemente infinita) capacidade de Pratchett descrever as mais absurdas e hilariantes situações no mundo fantástico de Discworld (que, como se sabe, assenta sobre quatro elefantes enormes que estão de pé sobre a carapaça da Great A'tuin, a tartaruga cósmica). The Colour of Magic apresenta o inábil feiticeiro Rincewind, a formidável Luggage, a Morte e a grande cidade de Ankh-Morpork - e ainda que possa não ser o livro mais divertido da série, é nele que tudo tem início.


The Farthest Shore (Ursula K. Le Guin, 1972)
Earthsea, o universo de fantasia de Ursula K. Le Guin, ocupa um lugar de destaque na fantasia moderna. Com cinco romances e vários contos, Earthsea esconde vários temas adultos numa narrativa de tom mais próximo da literatura young adult e em personagens e localizações fascinantes. A Wizard of Earthsea é o primeiro desses livros, publicado em 1968, mas foi The Farthest Shore, o terceiro livro da série, que mais me tocou. Com a magia a desaparecer do mundo, o feiticeiro Ged junta-se ao jovem príncipe Arren numa viagem pelas ilhas mais remotas do vasto arquipélago de Earthsea. Nessa expedição encontram tribos muito diferentes, dragões e um terrível inimigo que os obrigará a ir para lá dos limites do mundo desconhecido e a enfrentar os seus maiores receios. Tal como nos outros livros da série, em The Farthest Shore Le Guin desenvolve uma história muito contida com um ritmo excepcional, explorando novas facetas do universo de Earthsea numa aventura que se revela mais madura do que aquelas que a antecedem.

The Last Wish (Andrzej Sapkowski, 1993)
The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings são dois dos mais aclamados videojogos dos últimos cinco anos, e têm a sua origem na obra do escritor polaco Andrzej Sapkowski. Nos vários contos que compõem a antologia The Last Wish, Sapkowksi apresenta Geralt of Rivia, o cínico caçador de monstros que assume o papel principal tanto nos livros e contos como nos populares videojogos. À primeira vista, o universo descrito nos vários contos que compõem The Last Wish parece semelhante a outros universos de fantasia medieval de inspiração tolkieniana, com elfos e anões a conviverem com os seres humanos, e com muita sword & sorcery. A diferença reside no tom, e é aqui que Sapkowski revela toda a sua mestria, criando fábulas que, num tom tão cínico como sarcástico, desconstroem as convenções e os clichés da fantasia épica e dos contos de fadas para criar histórias onde o Bem e o Mal raramente são aquilo que parecem ser

3 de agosto de 2012

A Canticle for Leibowitz

Diria que aquilo que torna A Canticle For Leibowitz, o premiado romance pós-apocalíptico de Walter M. Miller Jr., num clássico incontornável da ficção científica é a forma brilhante como o autor aborda de forma simultaneamente descontraída e densa um tema habitualmente soturno e negativo - e a ideia central, bastante simples, de que a História é cíclica e a Humanidade está condenada a percorrer o mesmo caminho outrora trilhado, e a cometer os mesmos erros.

Originalmente, A Canticle For Leibowitz foi publicado nos anos 50 em três contos na revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction, editada por Anthony Boucher - mas após a conclusão do terceiro conto, Walter M. Miller, Jr. compreendeu que as três histórias eram, na verdade, uma grande narrativa, e procedeu às alterações e adaptações necessárias para a publicação em formato de romance. Este mantém a estrutura tripartida dos três contos originais, com os títulos latinos "Fiat Homo", "Fiat Lux" e "Fiat Voluntas Tua" - que, num futuro distante, dão conta do reerguer da civilização após a guerra nuclear que devastou a sociedade do século XX. Poucos registos restam do tempo que antecedeu o desastre nuclear, conhecido como "The Flame Deluge", e a memória daquela guerra distante é preservada essencialmente através de textos religiosos (que são, diga-se de passagem, absolutamente delirantes e inteligentes nas imagens que evocam).

Ao longo das três partes, o enredo centra-se na Abadia da Ordem de Leibowitz, uma comunidade católica isolada no deserto do sudoeste norte-americano. Fundada no pós-guerra nuclear pelo enigmático Isaac Leibowitz, a esta comunidade religiosa dedica-se à preservação do conhecimento num tempo em que a ciência e a literacia são recebidas com profunda desconfiança - e, frequentemente, à pedrada - pela população maioritariamente iletrada. "Fiat Homo" acompanha o Irmão Francis Gerard durante a sua vigília no deserto, que o conduz a uma descoberta surpreendente dos tempos que se seguiram imediatamente à catástrofe, e o levam a dedicar-se à preservação de um antigo texto atribuído a Leibowitz e à santificação do seu patrono pela autoridade papal de Nova Roma. Desta primeira parte para a segunda, "Fiat Lux", decorrem alguns séculos; a Ordem de Leibowitz permanece empenhada na sua missão de preservar o conhecimento da Humanidade, mas a autoridade religiosa começa a ser desafiada pelo poder secular - tal como a fé começa a encontrar alguma oposição na ciência. Por fim, em "Fiat Voluntas Tua", a civilização humana já recuperou a tecnologia perdida, e avançou consideravelmente em muitos domínios - entre eles, a exploração e a colonização espacial. A Ordem de Leibowitz continua a desempenhar a missão de preservar o conhecimento, mas vê-se confrontada por novos desafios, à medida que o mundo parece precipitar-se novamente para o abismo. 

O tom humorístico que atravessa toda a obra empresta particular força ao carácter circular da narrativa, dando-lhe em muitas ocasiões um ponto de vista satírico, quando não cínico. Walter M. Miller, Jr. descreve na perfeição um mundo em ruínas, a todos os níveis primitivo, e mostra como a sua ascensão é feita não por inovação mas por repetição - na qual as personagens acabam por ser, sem o saberem, meros peões num jogo que não conseguem compreender. A escrita inteligente e ritmada completa uma obra imprescindível na ficção científica, e muito elogiada fora dos seus círculos tradicionais. Aliás, A Canticle for Leibowitz foi inicialmente mais bem recebido na crítica literária mainstream do que na própria ficção científica - o que diz muito sobre o carácter singular desta obra. 

22 de julho de 2012

Citação fantástica (23)

Insofar as thought could be governed at all, it could only be commanded to follow what reason affirmed anyhow; command it otherwise and it would not obey.

Walter M. Miller Jr., A Canticle for Leibowitz (1960)