
A minha apresentação a John Constantine não se deu com algum dos comics ou graphic novels do célebre detective do oculto inspirado em Sting que Alan Moore, Steve Bissette e John Totleben criaram em meados dos anos 80 durante a série de Swamp Thing e que viria a ganhar protagonismo na série Hellblazer, da linha Vertigo da DC Comics. Deu-se, sim, com o filme de 2005 (com o Keanu Reeves como protagonista - logo falarei dele um dia destes), e independentemente da qualidade ou da fidelidade da adaptação, a verdade é que fiquei muito curioso com todo o conceito subjacente à personagem - uma curiosidade que foi aumentando com o tempo, à medida que fui descobrindo mais e mais banda desenhada e que fui lendo alguns fragmentos de informação sobre a série. Talvez devesse ter entrado no universo de Constantine na banda desenhada pelas suas primeiras aparições em Swamp Thing, ou mesmo pelos primeiros fascículos de Hellblazer; uma oportunidade da Feira do Livro, porém, levou-me a optar antes pela graphic novel Hellblazer: All His Engines.
(por acaso minto: a introdução a John Constantine deu-se, sim, alguns dias antes com a leitura de Preludes & Nocturnes, o primeiro paperback de The Sandman; numa das histórias, Morpheus conta com a ajuda de Constantine para encontrar um artefacto muito especial. Mas nesta história, por sinal excelente, o protagonista é Morpheus, e não Constantine, pelo que manterei All His Engines como a minha introdução a Hellblazer. Continuemos.)
O que talvez não tenha sido um problema. Com texto de Mike Carey e ilustração de Leonardo Manco, All His Engines não conheceu publicação na sequência de comics de Hellblazer, tendo sido publicado em 2005 no formato de graphic novel - contendo uma história contida, repleta do flavour que tornou a série tão popular. Em Inglaterra (ao contrário do que mostra - ou não mostra - o filme, Constantine é britânico e não americano), várias pessoas entram em coma sem qualquer explicação - e entre elas Tricia, a neta de Chaz, eterno amigo (e sidekick) de Constantine. Na investigação do caso, a dupla viaja até à cidade de Los Angeles, onde encontram Beruel, um demónio interessado nos serviços de Constantine para lidar com a sua concorrência, e Mictlantecuhtli, deus Azteca da Morte, a perder influência mas não poder. Ao longo da narrativa, Carey vai mostrando através de flashbacks alguns momentos do passado de Constantine com influência nos acontecimentos do presente - e essas cenas são encaixadas na narrativa de forma muito natural, sem quebra de ritmo e sem se alongar para lá do estritamente necessário. Mas mais do que isso, introduz a amizade de Chaz e Constantine de forma muito eficaz, sem se perder na vasta bagagem de ambos, e revela o carácter polémico do protagonista através de uma caracterização interessante e sem papas na língua. Nesse ponto, é interessante notar como a tradutora da edição portuguesa da Devir, Beatriz Pereira, não só não poupou (e muito bem) no calão como também soube converter muito bem algumas das tão características tiradas da personagem.

Igualmente relevante é o trabalho artístico de Leonardo Manco, com o ilustrador argentino a dar vida própria e muita expressividade ao enredo convulso de Carey e à improvisação recorrente com que Constantine se move entre deuses da morte, demónios e autênticos cenários de inferno. Nos pontos mais intensos da narrativa, a arte de Manco é visceral, detalhada e expressiva; fora desses momentos, mantém uma grande solidez e muita expressividade. Vários painéis são memoráveis (as cenas da igreja têm uma arte formidável), com as criaturas sobrenaturais a serem desenhadas com muita expressividade (e especialmente... demoníacas). Os coloristas Lee Loughridge e Zylonol Studios complementaram com empenho o trabalho de Manco.
Olhando para All His Engines no seu todo, talvez não tenha sido uma escolha desadequada para me estrear no vasto universo de Hellblazer: a narrativa contida e fechada dentro do universo mais vasto onde Constantine se desloca mostra o seu carácter peculiar e o tipo de círculos por onde habitualmente se desloca - e a forma como aborda os vários obstáculos que surgem no seu caminho. Estará decerto longe de ser o mais interessante capítulo de Hellblazer - mas como introdução, funciona muito bem.
Edição portuguesa: Hellblazer: Todo o Seu Engenho. Devir, 2005. Tradução de Beatriz Pereira.