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15 de agosto de 2014

O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias: Regresso ao futuro pela ironia cósmica

Por estranho que possa parecer aos leitores mais novos (entre os quais me incluo), houve um tempo, e não tão distante quanto isso, em que se publicava por cá ficção científica em quantidade e também em qualidade (pelo menos na selecção de títulos). E essa publicação incluía autores também alguns autores portugueses, uns poucos que seguiram a trajectória habitual nos fandoms anglo-saxónicos de leitores ávidos para fãs entusiasmados para autores capazes de se afirmar pelos seus méritos estilísticos, pela originalidade das suas vozes e pela sua capacidade de dar um cunho pessoal a convenções e ideias importadas de um género que, antes deles, pouca tradição encontrava por cá. João Barreiros é um desses leitores/fãs/autores, formado no género durante os anos de ouro das colecções, tendo desenvolvido uma actividade ímpar como editor, antologista, tradutor e autor. Haverá decerto outras ocasiões para explorar as restantes facetas de Barreiros; hoje, o tema será a sua obra inicial enquanto autor, com a ficção curta compilada numa colectânea publicada na "colecção azul" da Caminho nos idos gloriosos de 1994: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias.

Que um livro como este Caçador de Brinquedos não seja hoje fácil de encontrar em qualquer estante de uma livraria que se preze, numa edição revista com capa nova e um pequeno selo a indicar uma quarta ou quinta edição (ou, neste ano de 2014, a assinalar o vigésimo aniversário da publicação original) diz praticamente tudo o que há a dizer sobre o estado estrago da ficção científica literária nacional, com os títulos originais de outros anos votados ao esquecimento e relegados às actividades quase arqueológicas dos alfarrabistas (e dos respectivos clientes), e com as novas edições traduzidas a surgirem de forma tão isolada como fugaz. Quem tiver a sorte de encontrar um exemplar sobrevivente às labaredas dos nossos pequenos Montags editoriais terá nas mãos não só um tesouro de uma era perdida, como também uma das mais importantes obras da ficção científica portuguesa.

Essa importância advém não tanto da questão da raridade mas sobretudo por mostrar alguns dos primeiros textos de ficção de João Barreiros, onde o autor começou a dar forma ao seu estilo inconfundível e aos temas e motivos que se tornaram mais ou menos recorrentes na sua obra. Como a desconstrução e a subversão da iconografia e do imaginário infantis, tão bem sintetizada no conto que dá título à colectânea: O Caçador de Brinquedos. É uma pequena fábula, tão divertida somo sombria, na qual os brinquedos de que todos os miúdos gostam são infectados com um estranho vírus cibernético que os torna homicidas - e daí à guerra declarada para com os humanos adultos vai um pequeno passo, com o jovem Jimmy retido numa infância física falsa em nome de uma vingança pessoal. Ou o ataque mais ou menos velado à literatura mainstream, eterno némesis do géneros literários na percepção de inúmeros leitores: Quatro milhões de Lolitas é também isso, e mais - uma história muito curiosa, capaz de dar a volta às expectativas dos leitores em vários momentos. Como também o são as duas Crónicas do Exílio Lunar, duas histórias que partilham um universo ficcional intrigante, no qual uma raça alienígena designada como "Aranhetas" surge no Sistema Solar e causa o caos à sua passagem - refreada apenas pelo seu apetite ao mesmo tempo orgásmico e mortal (literalmente) pela literatura humana. A imagem de uma criatura alienígena a liquefazer-se enquanto ouvem passagens de Shakespeare ou Beckett tem uma força muito própria, e não deixa quase de saber a uma pequena vendetta pessoal para com os "solilóquios existenciais" da literatura dita "erudita". 

Mas este Caçador de Brinquedos esconde mais algumas pérolas. Um dia com Júlia na Necrosfera será talvez o melhor texto da colectânea - uma narrativa sombria que parece explorar os conceitos que Philip K. Dick apresentou no excepcional Ubik para os levar noutra direcção, mais próxima do renegado Jory do que das personagens principais, Glen Runciter e Joe Chip. Saldos é um ataque violento, hilariante e trágico ao consumismo exacerbado através de um desgraçado - os protagonistas de Barreiros tendem a sê-lo - que se vê apanhado, indefeso, nas malhas compulsivas de um centro comercial; um ataque que tenta também em A gaia-concorrência, ainda que com menos eficácia. Balada para um Katástrofopoeta transforma a destruição de Lisboa num reality show visto do céu, com um resgate ousado pelo meio. E Kulturkomandos e Alice e a semente de Nyack-Nyack, as duas excelentes histórias que compõem as Crónicas do Exílio Lunar, concluem a colectânea numa nota alta, com a narrativa excepcional do primeiro e a premissa cativante do segundo a merecerem destaque.

É claro que nem tudo em O Caçador de Brinquedos funciona na perfeição. A gaia-concorrência e Balada para um Katástrofopoeta serão porventura os textos mais fracos, ainda que ambos contenham elementos conceptuais de grande interesse e sirvam como exemplos da ironia refinada e do humor negro que se tornariam habituais na ficção científica de João Barreiros. Algumas das referências infantis poderão ser já excessivamente obscuras para um público contemporâneo mais jovem (o urso Fozzy, por exemplo). E alguns dos contos - como os dois últimos - acabam por saber a pouco. Nem por isso, porém, deixam de ser contos notáveis pela construção de mundo que exibem, pelas situações que as suas personagens enfrentam, pelo absurdo irónico e muito auto-consciente que se pode ler em cada linha. Com o bónus de que quem já estiver familiarizado com a restante obra de João Barreiros - em particular com Terrarium, o magmum opus escrito a meias com Luís Filipe Silva - encontrará aqui a génese de muitos elementos e de várias ideias que se tornariam relevantes mais tarde, devidamente viradas do avesso e refinadas pela ironia mais negra. Mais do que uma colectânea notável, O Caçador de Brinquedos é um autêntico "elo perdido" da ficção científica nacional - que, pela qualidade das suas narrativas e pela raridade da sua edição, merece ser relembrado e partilhado com as novas gerações de leitores. 

Título: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias
Autor: João Barreiros
Editora: Caminho
Ano: 1994
Formato: Paperback
Páginas: 242
Género: Ficção Científica

31 de julho de 2014

João Barreiros (1952 - )

No que à ficção científica em língua portuguesa diz respeito, poucos nomes merecem o destaque de João Barreiros, um dos seus mais ilustres praticantes, com uma actividade tão relevante como multifacetada ao longo das últimas quatro décadas - foi (e é) autor, tradutor, crítico, antologista, editor, e, aicma de tudo, fã incondicional do género. Formado em Filosofia, desenvolveu a sua carreira literária em paralelo com a profissão de professor do Ensino Secundário; os seus primeiros contos publicados datam de 1977, numa edição de autor intitulada Duas Fábulas Tecnocráticas. Alguma da sua ficção curta encontra-se reunida em várias colectâneas, como O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias (1994), A Verdadeira Invasão dos Marcianos (2004) e Se Acordar Antes de Morrer (2010); outros contos encontram-se dispersos por várias antologias e publicações profissionais e amadoras. Com Luís Filipe Silva assinou Terrarium: Um Romance em Mosaicos, obra maior (na ambição e no resultado) da ficção científica portuguesa, publicado em 1996 na entretanto extinta colecção "azul" da Caminho. A Bondade dos Estranhos, de 2007, é o seu segundo romance.

Como antologista, organizou Lisboa no Ano 2000, antologia de 2012 publicada pela Saída de Emergência, na qual desenvolveu - e partilhou com outros autores - um universo ficcional retrofuturista de estilo teslapunk sob o mote de uma Lisboa alternativa na viragem do milénio. Na qualidade de editor, teve a seu cargo as (infelizmente curtas) colecções de ficção científica das editoras Clássica e Gradiva; sob a sua orientação foram publicados autores à época inéditos em Portugal como Dan Simmons, William Gibson ou Iain M. Banks. E traduziu romances como The Eye of the Queen, de Phillip Mann, The Song of Kali, de Dan Simmons, e The Forever War, de Joe Haldeman, entre vários outros. As suas críticas literárias foram publicadas em jornais como o Público e O Independente, e nas revistas Ler e Os Meus Livros. Foi um dos membros fundadores da Simetria - Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico, e em 1984 (há precisamente 30 anos) participou activamente na organização do célebre Ciclo de Cinema de Ficção Científica, da Cinemateca de Lisboa e da Fundação Calouste Gulbenkian.

João Manuel Barreiros nasceu a 31 de Julho de 1952, e assinala hoje o seu 62º aniversário. 

29 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (4): Os melhores livros de ficção científica

Será talvez difícil pensar noutra antologia tão importante para a ficção científica como Dangerous Visions, a ambiciosa e revolucionária colectânea de dezenas de contos de alguns dos mais consagrados autores que o género conhecia em 1967 – assim como algumas estrelas em ascensão e até mesmo escritores de outros temas e géneros. Ao leme do projecto esteve o inevitável Harlan Ellison – enfant terrible da ficção científica, contista exímio, antologista delirante. As suas introduções aos autores deram um cunho invulgarmente pessoal à antologia; os contos, esses, foram naquela época uma demonstração perfeita não daquilo que a ficção científica fora até ali, mas daquilo que ela poderia ser a partir dali. Com autores tão distintos como Lester Del Rey, Frederik Pohl, Robert Silverberg, Roger Zelazny, Samuel R. Delany, J. G. Ballard, John Brunner, Philip K. Dick, Poul Anderson, Larry Niven, Philip José Farmer, Miriam Allen deFord, Brian Aldiss, Norman Spinrad, Sonya Dorman, John Sladek, Keith Lauder, Theodore Sturgeon, Damon Knight ou Carol Emshwiller, entre outros, Dangerous Visions tornou-se no baluarte da “New Wave” norte-americana, mostrando as infinitas possibilidades da ficção científica e chocando os círculos tradicionalmente conservadores do género com o seu carácter experimentalista e o seu arrojo narrativo, estilístico e temático. 45 anos volvidos sobre a sua publicação original, parte do seu shock value ter-se-á sem dúvida perdido – mas a qualidade dos seus textos, essa, continua intocada. 

O magnum opus da ficção científica nacional – lusófona? – data de 1996, e resultou da combinação de dois dos maiores talentos que o género conheceu na língua portuguesa: João Barreiros e Luís Filipe Silva. O resultado não serve para introdução à ficção científica – exige uma leitura atenta, e um leitor mais experimentado nas convenções e nos temas do género. Mas para esses, Terrarium é um tesouro: um vasto romance fragmentado e meta-referencial numa Terra futura na qual a Humanidade partilha o planeta, de forma um tanto ou quanto forçada, com um sem-número de raças alienígenas, exiladas na superfície e no vasto anel orbital composto pelas suas frotas destruídas – e com as enigmáticas Potestades, sempre vigilantes, a impor a coexistência. Num mundo onde as antigas revistas pulp e de comics são relíquias de valor incalculável, várias personagens aparentemente improváveis vão ver os seus destinos cruzarem-se num jogo de poder que, estando viciado à partida, não tem vencedor definido. Poderemos sempre lamentar a falta de desenvolvimento que a ficção científica conheceu, e conhece ainda, no nosso país; mas não deixa de impressionar que um género tão pouco cultivado tenha sido capaz de produzir um romance deste calibre: ambicioso, complexo e extremamente recompensador. 

O britânico M. John Harrison considera esta sua space opera de 1975 a pior coisa que já escreveu na vida. Após lê-la, será talvez inevitável pensar quão boa será a sua obra subsequente, se The Centauri Device já se revela num romance a todos os níveis impressionantes. A prosa magnética e delirante de Harrison começa nos primeiros capítulos a dar forma àquilo que parece ser uma combinação talvez improvável entre a space opera e os policiais noir; mas Harrison cedo começa a desconstruir temas, ideias e convenções para dar forma a um texto revolucionário e influente, de uma riqueza conceptual impressionante e de um fascínio inegável, repleto de imagens que perdurarão na memória dos leitores – da “mais longa festa do Universo” aos fanáticos religiosos do culto dos “Openers”. Um clássico soturno, com um certo tom pessimista e nihilista que se tornaria recorrente uma década mais tarde no advento do cyberpunk

Escrever um romance como Desolation Road não é para todos – e mais impressiona ao saber que foi o primeiro livro escrito por Ian McDonald. Situado num Marte futuro terraformado, e indo beber tanto às crónicas melancólicas de Bradbury como à hard science fiction e ao realismo mágico sul-americano do qual Garcia Marquez é um dos expoentes máximos, McDoland cria um vasto mosaico de histórias individuais de pessoas diferentes – de cientistas a revolucionários, de aviadores a vagabundos, de famílias rivais a aventureiros. E o que toda esta gente tem em comum é Desolation Road – uma aldeia na orla de um vasto e rubro deserto, fundada pelo mais improvável dos acasos por um cientista solitário e na qual parou, durante os anos que se seguiram, todo o tipo de pessoas. Desolation Road segue todas essas personalidades para aquele ponto, e para fora dele, e para dentro dele novamente – e traça uma vasta crónica sobre como um lugar tão insignificante conseguiu ser tão decisivo para os destinos de um planeta inteiro. É um romance com um ritmo intenso, um tom atravessado de melancolia, e mais episódios mirabolantes do que seria sensato descrever por aqui – e um texto único na ficção científica. 

22 de novembro de 2013

A ficção curta de João Barreiros (1): O Saque de Lampedusa, O Coração É um Predador Solitário e O Encantador de Bombas

João Barreiros ocupa, com toda a justiça, um lugar de grande destaque na ficção científica nacional - autor de obras como O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias (1994), Terrarium: Um Romance em Mosaicos (1996), obra maior do género em Portugal escrita a quatro mãos com Luís Filipe Silva, A Verdadeira Invasão dos Marcianos (2004) e A Bondade dos Estranhos (2007). Organizou, em 2012, a antologia Lisboa no Ano 2000, uma colecção de histórias de vários autores num universo ficcional partilhado e retrofuturista. Regressando a um ano 2000 que "nunca existiu", a antologia recria um Portugal electropunk, tecnologicamente sofisticado, como se imaginado por autores na viragem do século XIX para o século XX (um exercício metaficcional realizado com alguma graça). Em Lisboa no Ano 2000, João Barreiros publicou três contos - e desde então tem publicado, em fanzines e iniciativas esporádicas, alguns contos que continuam a expandir aquele universo ficcional. Três exemplos: 

O Saque de Lampedusa, publicado na edição de 2012 do Almanaque Steampunk, editado anualmente pela Clockwork Portugal por ocasião da convenção EuroSteamCon, enquadra-se no universo partilhado que João Barreiros desenvolveu em Lisboa no Ano 2000. Recuperando um acontecimento aludido na antologia - o saque da ilha italiana de Lampedusa, dominada pelos complexos autofabris norte-africanos -, o conto assume a forma de um relatório recolhido numa espécie de "caixa negra" de um tanque gnóstico Mak-34 de fabrico alemão, enviado para aquela ilha alemã durante a guerra com a Grosse Germânia e recuperado pela tripulação de uma embarcação . As descrições pormenorizadas colocam o leitor no centro da acção, mesmo no meio do caos e da devastação que engoliram aquele pequeno território mediterrânico. Pelas várias referências que podem ser lidas em linhas e entrelinhas, O Saque de Lampedusa funciona melhor se o leitor já se tiver aventurado em Lisboa no Ano 2000, podendo assim apreciar mais um episódio deste universo ficcional; não obstante, fica para referência uma perspectiva de primeira pessoa tão invulgar como bem conseguida, uma atmosfera de guerra muito bem montada através de descrições detalhadas mas não exaustivas, e uma uma reflexão muito curiosa sobre a produção desenfreada, sem utilidade ou nexo.

O Coração É um Predador Solitário. O título alude ao romance de estreia de Carson McCullers que se viria a tornar num clássico da literatura do século XX; o texto, esse, publicado no número 2 do fanzine Lusitânia, lançado há dias no Fórum Fantástico, regressa ao universo partilhado de Lisboa no Ano 2000 para acompanhar Eduardo Sequeira, um colector de destroços. Assombrado pela presença de um espectro da electrosfera, Eduardo recorda a expedição subaquática que o levara às profundezas lamacentas da Baía de Cascais em busca de uma criatura mecânica abatida, para lhe roubar o seu Coração - um artefacto prodigioso, que contra todas as expectativas insiste em funcionar. Mas é durante a memória da expedição que o conto ganha força, envolvendo o leitor à medida que o protagonista avança pela carcaça mecânica da Serpente - para surpreender com uma interessante reviravolta no final. À semelhança de O Saque de Lampedusa, as descrições são eficazes e vivas, evocando imagens tão vivas como macrabras sem no entanto se tornarem exaustivas; e a atmosfera resultante é soberba, envolvente nos seus carregados tons negros, e sempre com um toque de nostalgia que parece atravessar todo este universo ficcional.

O Encantador de Bombas: A introdução, datada de 7 de Setembro de 1960, parece colocar este conto, publicado na edição de 2013 do Almanaque Steampunk, num passado possível do universo ficcional de Lisboa no Ano 2000. Os seus elementos estéticos, formais, e mesmo temáticos, algo reminescentes de algum imaginário da Segunda Guerra Mundial parecem confirmar a ligação; mas o regresso aos cenários e às perspectivas da infância, território temático tão caro a João Barreiros, elevam este conto bastante acima dos anteriores. Numa subversão tão intrigante como divertida ao blitz, o autor descreve o carpet bombing de Londres pelas bombas inteligentes do bloco comunista que tomou toda a Europa. Mas estas não são bombas comuns: designadas por singing bomblettes, são bombas conscientes que, como o nome indicam... cantam. Cantam para as suas vítimas antes de as mandarem pelos ares numa explosão de fósforo branco. A descrição é soberba, e a imagem de milhares de singing bomblettes a precipitarem-se em chuva musical nos céus carregados de Londres é de uma estranheza mágica que lembra alguns momentos de Harlan Ellison. Gustav Gorski, um miúdo de família russa radicada em Inglaterra, encontra uma dessas bombas durante a noite do bombardeamento; mas esta, ao invés de explodir, afeiçoa-se à criança e decide cantar só para ele, sem explodir - mas com consequências que, sendo algo previsíveis em traços gerais, nem por isso deixam de ser simultaneamente hilariantes e trágicas. É possível que a reviravolta final esteja a mais, carente que está de um maior enquadramento e desenvolvimento; mas até esse momento, todo o conto é uma leitura excepcional pelo ambiente que evoca e pelas situações que apresenta. 

18 de outubro de 2013

A Terra enquanto Terrarium: O épico em mosaicos de João Barreiros e Luís Filipe Silva

Em Julho último deu-se o milagre: por dica do Rui (devo-te esta) na última sessão da Oficina de Escrita Criativa Fantástica da Trëma, fui à Gare do Oriente desencantar numa pequena feira do livro aquele que seria porventura um dos pouquíssimos exemplares ainda em circulação de Terrarium: Um romance em mosaicos, obra de João Barreiros e Luís Filipe Silva publicada em 1996 na antiga colecção "azul" da Caminho e regra geral considerada como a grande obra da ficção científica portuguesa. Andava há já algum tempo a tentar conseguir um exemplar - em parte por conhecer os autores, mas sobretudo por saber tratar-se de um livro que, para todos os efeitos, ocupa um lugar de destaque na pequena e dispersa história da ficção científica nacional. Seja pela ambição de criar um épico longo e multifacetado com uma escala impressionante, seja pela colaboração - ao que parece, fenómeno raro por cá - entre dois dos mais consagrados autores do meio, seja até pela forma como dialoga com todo um género artístico, desde as suas raízes populares nas pulps até às suas transposições para o cinema. E o resultado, não sendo infalível, nem por isso deixa de ser extraordinário.

E aquilo que Terrarium tem de mais extraordinário é o seu worldbuilding - um futuro não muito distante, no qual a Terra recebeu enfim a visita de inteligências alienígenas. E o plural é importante: são muitas as raças de extraterrestres que chegam à Terra - das simulatrix aos kreepo, dos volpex aos bonecreiros, e de muitos outros, relevantes ou mencionados apenas de passagem -, mas não vêm nem em paz nem em guerra: vêm para o exílio. Um exílio imposto em circunstâncias misteriosas pelas Potestades, os quase-deuses que, através do Fragmento no planetóide de Ceres, comandam os destinos do melting pot galáctico em que a Terra se tornou; e são essas circunstâncias que vão ser exploradas ao longo dos vários mosaicos que constituem a obra.

Pois o subtítulo não é acidental: Terrarium é, de facto, um romance em mosaicos, com uma estrutura narrativa dividida em vários mosaicos, noveletas e novelas cronologicamente separadas e com pontos de vista distintos. Cada mosaico apresenta outras personagens, outros locais e outros acontecimentos da narrativa mais vasta que emerge da combinação sequencial das várias histórias. E assim, o leitor é convidado a conhecer o vasto anel orbital que rodeia a Terra, um big dumb object formado pela união de milhares de naves alienígenas; a Londres semi-inundada, com pragas exóticas e uma mistura cultural de escala galáctica; várias naves de diferentes raças; uma vila americana e as florestas mexicanas; a Amazónia; um simulacro; e até um paradoxo temporal ramificado em várias alternativas. 

E que não restem dúvidas: Terrarium é mesmo um exemplo perfeito da velha máxima que diz ser o todo mais do que a mera soma das suas partes. Retiradas do seu contexto e lidas a título individual, as várias histórias revelam graus diferentes de autonomia; mas juntas como azulejos no painel desenhado por João Barreiros e Luís Filipe Silva ganham uma fulgurante vida própria, formando um conjunto fascinante. Sobretudo no início, mais conciso e refinado: O segredo, conto que funciona como prólogo, atira o leitor para um dos enigmas recorrentes da narrativa - e, com a melhor prosa de todo o livro, segue Abdul, o rapaz cego que vive no orbital e que encontra um tesouro de valor incalculável; e A arder caíram os anjos, o verdadeiro início, é uma história de acção de ritmo elevado com uma abertura soberba; a manifestação de Ariel em Londres é uma das mais memoráveis passagens de todo o livro. Somewhere, under the rainbow introduz Clara de Sousa e uma oferta irrecusável - que, como todas as ofertas irrecusáveis, terá consequências imprevisíveis, com um alcance muito mais vasto do que os limites do seu ponto de vista. A agonia da arte reprimida introduz um convidado muito peculiar, duas crianças de espécies diferentes unidas por um costume de uma delas, e uma tecnologia procurada por toda a gente, no planeta ou em órbita - e A madrugada dos deuses introduz o desenlace dessa aventura, abrindo caminho para o último capítulo, No coração da luz, que posiciona com rigor as várias peças - leia-se, personagens - no vasto tabuleiro deste épico, preparando os eventos não para um final mas para três alternativas finais. 

Este mosaico encontra-se muito bem temperado por dois dos mais distintivos traços de Terrarium. O primeiro é a mistura espantosa de elementos de vários tipos e de vários géneros de ficção científica (do cyberpunk à space opera, dos simulacros ao jeito de Philip K. Dick a um certo tom pós-apocalíptico). Quase como reflexo da variedade das raças alienígenas exiladas no nosso planeta, os autores misturam inteligências artificiais com agendas próprias, armas do fim do mundo, biotecnologia, pseudodivindades, conspirações em tom quase noir com acção digna de um blockbuster - e tudo isto num épico (o termo não é desproporcionado) de proporções galácticas. O surpreendente: a mistura funciona, e dá a todo este universo ficcional um maior grau de verosimilhança. O segundo traço é o carácter manifestamente meta de Terrarium - a unir os vários elementos do enredo está um sem-número de referências, umas óbvias e outras porventura obscuras, à ficção científica enquanto género literário (das suas origens nas pulps), e mesmo à cultura popular em termos mais abrangentes, com o cinema a merecer um generoso destaque (julgo - decerto não terei detectado metade). Algumas das referências são utilizadas para fins humorísticos, com relativo sucesso; como fã de 2001: A Space Odyssey, não pude deixar de soltar uma sonora gargalhada quando me deparei com a seguinte passagem:
(...) Imagina só, se em vez de uma esfera tivéssemos usado um monólito, os direitos de autor que não teríamos recebido!
Este diálogo constante com as raízes e os ícones da ficção científica, e também com a cultura popular, pode porém revelar-se um pau de dois bicos e expor uma potencial fraqueza do romance: se por um lado enriquece a obra e dá aos leitores mais experimentados do género uma segunda camada referencial, por outro poderá torná-la demasiado hermética a leitores menos conhecedores da tradição literária onde Terrarium se insere.

Mais problemáticos poderão ser alguns aspectos menos conseguidos relacionados com a prosa. Em termos gerais, a escrita "a dois" revela-se sólida - em alguns momentos, sobretudo nas duas primeiras histórias, está bastante acima da média; e consegue, ao longo de todo o livro, conjurar imagens de grande força (Terrarium tem uma forte componente visual) e introduzir bastantes infodumps de forma algo ligeira, por vezes irónica, quase sempre bem humorada - mesmo nos momentos mais sombrios do texto (se bem que, enfim, infodumps sejam infodumps). No entanto, cai em algumas repetições irritantes (juro: ainda nem ia a metade da leitura e já não podia ler a expressão "com o máximo de prejuízo"); e nem sempre consegue ser eficaz a individualizar as muitas personagens que figuram nos vários mosaicos. O resultado é a ausência de uma voz própria, única e individual e várias personagens fundamentais - nota-se em demasia a voz dos autores*, o que acaba por retirar a força a algumas personagens (Clara de Sousa, Joel e Todd são disso exemplo; Roy Baker será talvez a excepção, ainda que não de forma consistente). A ambição dos autores neste épico de quase 600 páginas - é o maior livro de ficção científica portuguesa, título que deverá manter por muito tempo - também pode funcionar contra a história que estão a contar. O prólogo e o primeiro mosaico possuem um ritmo muito bom que não é reproduzido no resto da obra - e talvez as partes subsequentes tivessem beneficiado de uma edição mais aprofundada que lhes limasse as arestas e as carregasse com a mesma energia do início.

Mas a ambição, reconheça-se, está muito longe de ser um aspecto negativo - João Barreiros e Luís Filipe Silva propuseram-se compor um épico de ficção científica na melhor tradição do género, e mesmo que alguns dos seus elementos não estejam elevados ao seu expoente máximo, nem por isso diminuem a experiência de leitura. E essa, para os fãs de ficção científica, é soberba, diversificada e muito recompensadora. O mundo secundário de Terrarium é a todos os níveis excepcional, de uma riqueza conceptual e referencial rara; não fica de todo atrás de muito clássicos do género da melhor tradição anglo-saxónica; e a forma como os dois autores desenvolvem uma trama intricada e ramificada em várias histórias interligadas que forma um quadro maior, unindo todas as pontas soltas com perícia (os finais alternativos, longe de serem um cop-out, são uma forma elegante - e também referencial - de brincar com a tradição dos paradoxos); e, pesem embora as fraquezas de algumas personagens, as suas aventuras particulares são envolventes, e a forma como se conjugam nesta manta de retalhos em forma de romance é superlativa. 

Que Terrarium nunca tenha sido traduzido e publicado nos mercados internacionais, como merecia, é uma das muitas tragédias da ficção científica portuguesa - sinal de uma tremenda falta de visão da parte do mercado editorial do género, mesmo na época em que ainda existiam colecções com publicação regular. Tal falta de visão tornou este livro, em simultâneo e não sem ironia, na obra seminal da ficção científica portuguesa e no seu "canto do cisne" (a expressão, muito apropriada, é do Rogério Ribeiro). Não houve, antes ou depois de Terrarium, algum romance de ficção científica em Portugal capaz de o desafiar - e o género, já de si frágil, cedeu e desapareceu para parte incerta (a destruição aparente dos exemplares em stock na editora, há poucos anos, atesta a falta de visão e confirma o declínio). Mas mesmo num mercado literário como o nacional, pouco dado a experimentalismos e a géneros, e com uma escassa e irregular tradição de ficção científica, foi publicada uma obra com a ambição, o arrojo e a ousadia de Terrarium. E isso será sempre louvável. 

* Note-se que esta sensação pode muito bem dever-se ao facto de eu conhecer pessoalmente ambos os autores. 

31 de julho de 2013

João Barreiros (1952 - )

A ficção científica portuguesa pode ser escassa, mas existe - e ao falar dela importa referir João Barreiros, que ao longo de várias décadas desenvolveu uma vasta e diversificada actividade de autor, editor, tradutor e crítico. Com formação académica em Filosofia, foi professor do Ensino Secundário - e deu início à sua carreira de escritor ainda na década de 70. Na sua bibliografia contam-se obras como O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias (1994), Terrarium: Um romance em mosaicos (com Luís Filipe Silva, em 1996), A Verdadeira Invasão dos Marcianos (2004) e  A Bondade dos Estranhos (2007), para além de dezenas de contos, noveletas e novelas editados em várias publicações e fanzines, tanto em Portugal como no Brasil - país onde venceu por duas vezes o prémio Nova. Em 2012, organizou com a Saída de Emergência a antologia Lisboa no Ano 2000, onde publicou duas noveletas e uma novela. Foi o editor de duas colecções de ficção científica nas editoras Clássica e Gradiva, tendo publicado autores à época inéditos em Portugal como Iain M. Banks, Dan Simmons ou William Gibson. Como crítico, desenvolveu actividade em jornais como o Público e O Independente, e nas revistas Ler e Os Meus Livros.

João Barreiros nasceu em 1952, e faz hoje 61 anos.

20 de maio de 2013

Antologia Lisboa no Ano 2000 em debate no Clube de Leitura Bertrand do Fantástico

No passado dia 10 de Maio, o Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa regressou às suas sessões mensais, após um interregno de alguns meses e com um novo ponto de encontro - do anexo da Bertrand no Chiado passou para um espaço entre prateleiras na livraria do (quase abandonado) centro comercial Picoas Plaza. Já o moderador manteve-se - e para esta sessão em casa nova o Rogério Ribeiro escolheu como livro para debate a antologia Lisboa no Ano 2000, organizada por João Barreiros e publicada no ano passado pela Saída de Emergência (sobre a qual escrevi aqui). A acompanhá-lo estiveram João Ventura, Telmo Marçal e Guilherme Trindade, autores de três dos 17 contos incluídos na antologia.

Para João Barreiros, a gestão de um grupo de 14 autores (e mais alguns potenciais que, por motivos diversos, ficaram de fora) para este projecto foi feita "aos bochechos" - o arranque oficial deu-se no Fórum Fantástico de 2011, com a apresentação do projecto e a exibição de algumas imagens alusivas ao tema. "As participações chegaram às pinguinhas durante dois anos", recorda Barreiros, perfazendo um total de "34 participantes", ainda que a qualidade das submissões tenha sido tudo menos equilibrada. "Algumas eram terríveis; outros autores faziam sugestões e nada mais; houve mesmo um que queria meter Salazar como primeiro-ministro imortal", conta, recordando também outros anacronismos comuns, como o do plástico, ao qual nem o próprio escapou.

O mais interessante de Lisboa no Ano 2000 é o facto de todos os contos fazerem parte de um universo partilhado - algo que não estava de todo planeado quando João Barreiros escreveu o conto que serve de mote à antologia, O Turno da Noite, publicado originalmente na revista "Bang!". As inspirações para o conto - e mais tarde para a antologia - foram diversas, passando por autores como Robida, Wells, Salgari, Kipling e Mello de Matos. Num primeiro momento, a ideia passou por colocar contos num blogue, o que ajudou naquela fase; mas cedo o projecto descolou desse formato. Sobre a interligação entre os vários contos, João Barreiros alude a "pequenas coincidências entre contos, ideias comuns, e uma sincronicidade muito grande que não consigo explicar."

Já no que diz respeito à possibilidade de voltar a escrever no universo de Lisboa no Ano 2000, João Barreiros afirma que "gostaria de continuar", tendo "ideias para vários contos" - ainda que de momento esteja centrado apenas em antologias. 

Os autores presentes também tiveram a oportunidade de falar um pouco sobre os seus contos e a sua participação na antologia. João Ventura, autor do conto Energia das Almas, recorda ter partido da premissa estabelecida por João Barreiros, inspirado pelas suas leituras sobre as teorias de MacDougall sobre o peso das almas (21 gramas) e, claro, sobre a relatividade de Einstein. Telmo Marçal, que participou na antologia com o conto O Obus de Newton, diz gostar muito do conto que escreveu, e que este - o segundo que fez para a antologia - lhe permitiu explorar várias ideias, de conceitos de Verne ao canibalismo brasileiro. Guilherme Trindade, autor de Taxidermia, admite querer sair do tema dos espectros, apelativo para vários autores, tendo por isso optado por centrar a sua história numa parte pouco explorada de Lisboa - o Jardim Zoológico - para nela abordar o tema da "natureza conquistada" e da vida natural da desaparecer (inspirando-se também no clássico Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick). 

No debate, Luís Filipe Silva destacou o carácter "arrojado e improvável" de Lisboa no Ano 2000, não deixando porém de chamar a atenção para um detalhe muito curioso: a "falta de visão de império". Na viragem do século XIX para o século XX, Portugal, recorda, "era vasto; hoje estamos limitados a esta pequena terra". Referências imperiais estão de facto, e em termos gerais (há uma pequena excepção), ausentes da antologia - algo que Luís Filipe Silva explica por "os autores serem sempre influenciados pela época em que vivem". Uma tendência que, sublinha, "acompanhou a ficção científica ao longo do século XX".

O debate animado foi interrompido pelo encerramento muito pontual da livraria às 20:00 - adiando a conversa para um restaurante próximo. Em breve serão anunciadas a data da sessão do próximo mês e as obras em debate. 

10 de maio de 2013

Lisboa no Ano 2000: A Lisboa real que nunca existiu

Talvez Lisboa no Ano 2000, antologia organizada por João Barreiros e editada no ano passado pela Saída de Emergência, seja uma resposta mais ou menos (in)consciente à tendência em ascensão do steampunk e da sua estética muito própria, que se afasta das inspirações Vitorianas para idolatrar Tesla e a sua promessa de electricidade abundante e ilimitada. À luz dessa perspectiva, esta antologia é sem dúvida um objecto singular e merecedor de toda a atenção, dando forma com coerência (mas não sem falhas) a um fascinante universo no qual a electricidade, e não o vapor, se tornou na tecnologia dominante na passagem do século XIX para o século XX – mantendo tal domínio durante o século, até à viragem para o ano 2000.

Mas mais do que uma reinvenção dos alicerces conceptuais do steampunk para algo novo e imaginativo, Lisboa no Ano 2000 é uma obra indubitavelmente portuguesa, identidade que assume do primeiro ao último conto. É certo que o título pode denunciar a intenção; mas a Lisboa referida poderia ser um mero cenário, passageiro e efémero. Não o é, de todo; de conto para conto, a Lisboa electrificada imaginada por João Barreiros e desenvolvida pelos outros catorze autores da antologia ganha vida, adquire alma, e torna-se numa espécie de personagem oculta mas constante, uma presença que passa de episódio para episódio e que deixa sempre a sua marca indelével.

Isto, contudo, não significa que as 17 histórias que compõem Lisboa no Ano 2000 sejam uniformes em termos quantitativos. Longe disso; e a verdade é que, no seu todo, a antologia é mais do que a soma individual das suas partes. Isto porque a execução da ideia global, a criação de um universo abrangente, partilhado, de uma Lisboa alternativa na viragem do milénio, funciona melhor do que o micro-universo de cada conto, analisado de forma individual – e alguns elementos em vários contos que desafiam a unidade conceptual e cronológica da antologia, o que por vezes se revela problemático. Não que os vários contos sejam maus – longe disso, na verdade. Na sua maioria, as várias premissas e os diferentes conceitos que exploram são no mínimo interessantes, e no máximo entusiasmantes. Nos três contos de João Barreiros (O Turno da Noite, que abre a antologia, Tratado das Paixões Mecânicas e Chamem-nos Legião – ainda que este último pudesse beneficiar de uma nova revisão) nota-se uma escrita cuidada, atmosférica, capaz de desenvolver as premissas imaginativas do autor de forma visualmente forte – e o desfasamento qualitativo entre a escrita de Barreiros e a sólida escrita da generalidade dos autores é visível, e seria porventura mais prejudicial à unidade da antologia não fosse a sua forte coesão temática e conceptual (uma vez mais, apesar de algumas falhas). Há excepções, naturalmente – e saltam à vista as narrativas de Telmo Marçal e Guilherme Trindade, capazes de unir um certo arrojo conceptual (e, no caso da história de Marçal, narrativo) a uma componente formal que se destaca das demais. Mas falemos um pouco de cada conto:

30 de abril de 2013

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico regressa a "uma Lisboa que nunca existiu"

Após alguns meses de interregno, o Clube de Leitura Bertrand do Fantástico vai regressar a Lisboa em Maio. Esta sessão, marcada para o próximo dia 10 (Sexta-feira) às 19:00 na Livraria Bertrand do Centro Comercial Picoas Plaza, terá como tema Lisboa no Ano 2000, antologia organizada por João Barreiros e editada em 2012 pela Saída de Emergência que reúne histórias de uma Lisboa retrofuturista, alimentada pela omnipresente electricidade das Torres Tesla, num universo partilhado por vários autores. A sessão contará com a presença de João Barreiros, organizador e autor de três dos contos incluídos, e de alguns autores dos vários contos que dão vida a esta Lisboa, como João Ventura, Ricardo Correia, Guilherme Trindade, Pedro Vicente, Pedro Martins, Michael Silva e Telmo Marçal. 

23 de fevereiro de 2013

João Barreiros e Lisboa no Ano 2000 no Diário de Notícias

Estamos perante um caso curioso no qual a notícia, em si, é notícia*: no suplemento QI do Diário de Notícias de hoje foi publicado um longo (três páginas) e interessante artigo de Eurico de Barros sobre a antologia Lisboa no Ano 2000, editada pela Saída de Emergência. O artigo, baseado numa entrevista a João Barreiros (organizador da antologia), fala sobre a criação da antologia e o panorama nacional da ficção científica. Tanto quanto sei, só está disponível online a assinantes, pelo que fica como leitura recomendada para quem se interessar e ainda conseguir encontrar o jornal. 

*É notícia porque os artigos sobre ficção científica em jornais portugueses, também eles, uma raridade. 

26 de novembro de 2012

As sugestões do Fórum Fantástico

A pedido de várias famílias, seguem abaixo as sugestões que eu, o João Barreiros e o Artur Coelho deixámos na tarde de Sábado. As várias sugestões incluem referências online. A vermelho estão assinalados os livros que não recomendámos - ou melhor, que recomendámos evitar:

Artur Coelho:
Livros e BD:
Neste artigo, o Artur explica o que motivou estas escolhas, e deixa mais algumas que acabaram por ficar de fora da sessão.

João Barreiros:
Livros:


João Campos:
Livros:
Jogos:

Com um agradecimento especial ao Artur Coelho e ao João Barreiros pelo envio das suas listas de sugestões - e, claro, pela companhia naquela divertida sessão do Fórum Fantástico.

25 de novembro de 2012

Fórum Fantástico 2012: Dia 2

E ao segundo dia, a chuva salpicou o Fórum Fantástico 2012. Nada que tenha surpreendido quem esteve presente nas últimas edições da convenção (onde até houve direito a trovoada), ou que tenha feito com que várias dezenas de aficcionados do Fantástico se juntassem na Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro, em Telheiras.

O dia começou logo pela manhã, com a primeira sessão do Workshop de Escrita Criativa Fantástica do projecto Trëma, em modo mais informal e com três convidados de luxo: Bruno Martins Soares, autor da trilogia de Alex 9; Madalena Santos, autora da saga das Terras de Corza; e João Barreiros, que, enfim, dispensa quaisquer apresentações para quem costuma frequentar o Fórum Fantástico e acompanhar o género em Portugal (e cuja bibliografia na área do Fantástico em Portugal daria para muitos artigos durante muitos dias). Na sua apresentação, Bruno Martins Soares falou sobre os obstáculos à escrita, sobre as "fórmulas" da escrita, os tipos de enredo e a relevância das técnicas de escrita de guionismo. Já Madalena Santos explicou como controlar a narrativa numa saga, partindo do exemplo da sua própria série literária para ilustrar a necessidade de o autor de uma saga pensar no grande plano narrativo sem perder de vista os detalhes e a planificação das várias intrigas. E, claro, sublinhou duas coisas fundamentais para elaborar uma saga: manter a prática noutros projectos, dada uma saga exigir muito tempo e ser, por natureza, um projecto demorado, e fazer uma revisão constante. Para concluir, João Barreiros referiu a importância de escrever devagar, não deixando a velocidade da escrita sobrepor-se ao fluxo de imagens da história, e considerou ser mais relevante a opinião das personagens nas descrições do que a do narrador. Relembrou que na ficção científica, mais visual e emotiva por natureza, o enquadramento (background) é normalmente mais relevante do que as personagens em si. Essa é mesmo uma das características mais marcantes do género e um dos pontos que o distingue da restante literatura. Inevitavelmente, deixou ainda algumas sugestões nas entrelinhas (The Centauri Device, de Michael John Harrison, e Helliconia, de Brian Aldiss). 

A tarde começou com a apresentação de alguns dos mais recentes projectos do Fantástico em Portugal. Na primeira sessão, Rogério Ribeiro (o editor) apresentou a primeira edição da revista Trëma, que reuniu um conjunto de textos muito variados, do conto ao ensaio, da crítica à crónica, e até mesmo uma entrevista muito interessante com o autor Ivor Hartmann, sobre a ficção científica africana. Nos contos, a Trëma apresentou trabalhos originais de Luís Filipe Silva, Carina Portugal, Maria Amaral Ribeiro e Rui Ângelo Araújo; uma crónica do Rogério Ribeiro, uma crítica de Andreia Torres e dois ensaios - um do Artur Coelho e outro da minha autoria (que, aproveito para dizer, é uma versão revista e adaptada do ensaio O Sofisma da Ficção de Género, que publiquei aqui no Andrómeda a 1 de Novembro). 

O segundo projecto apresentado foi a revista Lusitânia, uma publicação dedicada à ficção especulativa centrada em Portugal. O projecto Lusitância conta com uma equipa composta por Carlos Silva, André Pereira, Alexandra Rolo, Anton Stark e Luís Carreto, e nesta primeira edição contou com as colaborações de Raquel Leite, Marcelina Gama Leandro, José Pedro Lopes, Catarina Lima, Pedro Miguel Ribeiro Cipriano, Andreia Silva, Inês Valente, Nuno Almeida e Bruno R.. 

Por fim, a equipa responsável pela organização pela EuroSteamCon no Porto, em Setembro último - Sofia Romualdo, Joana Lima, André Nóbrega e Rogério Ribeiro - fez uma retrospectiva do evento. Esta convenção teve lugar no Edifício Parnaso, nos dias 29 e 30 de Setembro, e contou com vários convidados, cosplay, concursos e com a edição do surpreendente Almanaque Steampunk. Ficou a promessa de nova edição para o ano.

O painel que se seguiu debateu o tema dos "Mitos e Fantasmas na Ficção Nacional", e contou com a presença da jornalista Vanessa Fidalgo, do Correio da Manhã, que a partir de uma investigação jornalística acabou por escrever o livro Histórias de um Portugal Assombrado, com uma recolha de histórias e mitos do sobrenatural de todo o país. No painel participaram ainda David Rebordão, cineasta e autor da célebre curta de terror A Curva, e Cláudio Jordão e Nélson Martins, criadores da não menos célebre curta Conto do Vento, que após ter corrido mundo e vencido vários prémios foi exibida no Fórum Fantástico.

A segunda parte do programa da tarde começou com as já clássicas sugestões de livros - este ano alargadas também para a banda desenhada e para os jogos, contando com a inevitável (e sempre excelente) presença de João Barreiros, de Artur Coelho e deste vosso escriba (que não falava em público desde que deixou de estudar há já alguns anos). Assim que me for possível, e a pedido de várias famílias, dedicarei um artigo às várias sugestões que deixámos naquele painel - tanto aos livros, às bandas desenhadas e aos jogos recomendados, como também às sugestões a" evitar".

No entanto, o que de facto fez encher o auditório da Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro foram as duas apresentações literárias que encerraram a tarde. O norte-americano Dan Wells, autor de I'm Not a Serial Killer, Hollow City e Partials, foi um dos convidados especiais desta sétima edição do Fórum Fantástico para apresentar o segundo livro da trilogia de John Cleaver, Mr. Monster (editado em Portugal pela Contraponto), e não desiludiu quem lá esteve para o ver - sempre descontraído e bem disposto, falou sobre a personagem de John Cleaver, a sua trilogia e as suas influências literárias. Houve ainda tempo para destacar os seus outros trabalhos - Hollow City e a sua incursão pela ficção científica com Partials, projecto iniciado este ano.* A apresentação de Dan Wells esteve a cargo de Luís Filipe Silva e de Rogério Ribeiro.

Seguiu-se a apresentação oficial da mais recente antologia da Saída de Emergência: Lisboa no Ano 2000 - Uma Antologia Assombrosa Sobre uma Cidade que Nunca Existiu. Organizada por João Barreiros, que a apresentou com muito humor, esta antologia teve como objectivo juntar num todo coerente histórias alternativas de escritores de ficção científica do início do século XX, mas contadas por autores do presente. Dos vários autores que contribuíram para esta antologia com contos originais estiveram presentes na apresentação Ana C. Nunes, João Ventura, Telmo Marçal e Jorge Palinhos, com outros autores a marcarem presença na sessão de autógrafos. Na apresentação, o editor Luís Corte-Real traçou uma breve história das antologias da Saída de Emergência, e anunciou a próxima - uma sequela à popular antologia dedicada à Pulp Fiction, uma vez mais organizada por Luís Filipe Silva.

Este segundo dia do Fórum fantástico 2012 terminou assim com as duas sessões de autógrafos - e com muita chuva. O programa continuará hoje, no último dia da convenção.

* A apresentação do Dan Wells foi mesmo muito boa. Não me alonguei mais pois nos próximos dias será publicada a entrevista que fiz ao autor, que incluirá mais detalhes sobre a sua obra e carreira literária. 

6 de novembro de 2012

Fórum Fantástico 2012: Lançamento da Antologia Lisboa no ano 2000

No ano passado, nas páginas da revista Bang! #10 e no Fórum Fantástico, a Saída de Emergência e João Barreiros apresentaram o projecto de preparar e publicar uma antologia dedicada ao "electropunk", partindo de uma premissa curiosa: imaginar uma Lisboa futurista e eléctrica, num ano 2000 imaginado por autores da viragem do século XIX para o século XX. Inspirado pela obra Lisboa no Ano 2000, escrita e publicada pelo engenheiro Mello de Mattos no ano de 1906, o objectivo da antologia seria criar um imaginário consensual que retrate essa Lisboa no ano 2000 através de vários contos interligados.

O mote foi dado por João Barreiros, organizador da antologia, nas páginas da revista Bang! com o conto O Turno da Noite. Daí para cá, a antologia esteve em preparação, os contos foram submetidos e seleccionados, e na edição deste ano do Fórum Fantástico terá então lugar o lançamento da antologia, intitulada Lisboa no Ano 2000 - Uma Assombrosa Antologia Sobre uma Cidade que Nunca Existiu. Organizada por João Barreiros, para esta antologia foram seleccionados 14 contos de vários autores. 

Esta antologia estará pela primeira vez à venda nas bandas da Saída de Emergência durante o Fórum Fantástico 2012.


11 de julho de 2012

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: The Empire of Fear, de Brian Stableford, com João Barreiros

A última sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico, que decorreu na passada Sexta-feira, foi curiosa: falou-se mesmo muito pouco do livro em debate, The Empire of Fear (O Império do Medo, na edição portuguesa da Saída de Emergência), de Brian Stableford - decerto para felicidade dos presentes que estavam ainda a meio da leitura. O que, entenda-se, está longe de constituir um problema quando o convidado da sessão é João Barreiros, escritor maior da ficção científica portuguesa, que tem sempre qualquer coisa interessante - e muito divertida - para contar. Nada que quem frequente anualmente o Fórum Fantástico não saiba já.

Ainda assim, houve tempo para falar um pouco sobre The Empire of Fear - uma "escolha difícil", segundo o moderador, Rogério Ribeiro, pois "não há muitos livros bons de ficção científica em português". Este, de Stableford, revela-se particularmente interessante ao abordar de uma perspectiva de ficção científica um tema mais ligado à Fantasia e ao sobrenatural, hoje muito em voga: os vampiros. "Stableford dá uma vertente cientifica a um elemento tradicionalmente místico, tratando-o como uma doença sexualmente transmissível", explica João Barreiros. 

Mas, como disse, a sessão acabou por incidir menos sobre o livro e mais sobre o próprio Stableford, autor britânico que João Barreiros conheceu pessoalmente em tempos ("numa livraria de Londres", recorda), tendo-o convidado para vir a dois encontros de ficção científica que decorreram em Cascais (e foi também a Reading jantar com o autor - mas esta história hilariante não a conto por não ser capaz de lhe fazer justiça). "Antes de O Império do Medo, Stableford escrevia space operas muito competentes e divertidas", conta João Barreiros. Foi-lhe recusada a publicação de outros livros do mesmo género - as editoras "sugeriram fantasia épica". O que João Barreiros não estranha: "agora só se publica ficção científica e terror em small presses, e estas edições são mais difíceis de encontrar."

Os problemas que o género atravessa no mercado editorial não são estranhos para João Barreiros. Para além de escrever, também dirigiu várias colecções de ficção científica ao longo dos anos, e as peripécias são mais do que muitas - de problemas editoriais a dificuldades de tradução, pode-se dizer que aquelas colecções (hoje praticamente desaparecidas, infelizmente) viram quase tudo aquilo que podemos imaginar. A história sobre o tradutor de Hyperion, de Dan Simmons, que transformou as treeships dos Templars em simples naves espaciais por o conceito não lhe fazer sentido, é particularmente delirante - e, como resultado desse e de muitos outros percalços, a tradução nunca chegou a ser publicada. E esta é apenas uma de muitas histórias, das várias que o autor contou naquele fim de tarde.

"A ficção científica começou a desaparecer na década de 90, e hoje em dia está 'estrangulada' pela fantasia", considera João Barreiros, relembrando vários exemplos de séries literárias que acabaram por não ser publicadas na íntegra em Portugal. "Tinham extraterrestres", comenta, referindo-se aos livros que se seguiram a Altered Carbon, de Richard Morgan. Na colecção que organizou na Gradiva, tentou publicar a trilogia Sprawl, de William Gibson, mas apenas Neuromancer acabou por chegar às lojas. "A fantasia é o que vende", algo que pode ser explicado pelo público a que se destina e pelas próprias capas das edições. No tema das capas, Luís Filipe Silva - que estava na assistência - relembrou a importância das colecções de ficção científica no mercado editorial por terem sido as primeiras a utilizarem capas ilustradas, tal como na tradição americana - algo que contrastava com o tipo de capas que habitualmente se publicava no mercado português, mais sóbrias e minimalistas.

Sobre a ficção científica portuguesa, João Barreiros lamenta que alguns autores não estejam actualmente a escrever - como Luís Filipe Silva e João Seixas, por exemplo, que (ainda) não deram continuidade ao projecto A Bondade dos Estranhos, previsto em formato de trilogia. 

Para concluir a tertúlia, o Rogério pediu a João Barreiros que - e muito ao estilo da sua já tradicional sessão do Fórum Fantástico - deixasse aos presentes algumas sugestões de leitura na ficção científica. Os "cinco livros" propostos acabaram por se revelar bem mais do que cinco, com as sugestões a incidirem sobre a obra de Peter F. Hamilton, Alastair Reynolds, Ian McDonald, Ian MacLeod (Light Ages) e Brian D'Amato.

O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico entra agora em "férias", regressando na primeira Sexta-feira de Outubro. Entretanto, devem ser anunciados os livros das próximas sessões (um pouco para evitar que muitos dos presentes não tenham lido o livro em debate, como aconteceu desta vez). Darei conta disso assim que houver novidades.

Logo de seguida teve lugar a Tertúlia Noite Fantástica, no restaurante Chez Degroote - um jantar bem animado, com muita conversa sobre o Fantástico (e não só).