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3 de maio de 2014

O som e a fúria (23)

E hoje entramos no jazz por via de uma das melhores séries televisivas que acompanhei, animadas ou em live action: Cowboy Bebop, de Shinichiro Watanabe. Quando aqui falei da série, destaquei a sua magnífica banda sonora como um dos seus elementos mais icónicos - não será talvez exagerado afirmar que acabam por ser as composições de jazz de Yoko Kano e da banda Seatbelts que marcam o ritmo de Cowboy Bebop e lhe conferem o seu estilo único, unindo os seus vários elementos díspares e as suas influências da ficção científica ao western num todo tão coeso e memorável. E isso nota-se desde logo no genérico - intenso, ritmado, e irresistível. Aqui fica, sem imagem mas na sua versão completa, Tank!.

13 de março de 2013

Defiance e o western na ficção científica

No io9, Meredith Woerner publicou a primeira review à próxima série de ficção científica do SyFy Channel, Defiance, com base nos três primeiros episódios (aos quais terá tido acesso). Tenho aqui falado da série, sobretudo devido ao massively multiplayer online shooter ligado à série que está neste momento em fase Alfa de testes e que será colocado à venda em Abril. E a crítica de Woerner é bastante interessante, sobretudo nas questões que suscita sobre como se desenvolverá uma série no território da western science fiction mais de uma década após a genial e malograda Firefly

Sendo curta - uma temporada incompleta -, a série de Joss Whedon perdurou na memória dos fãs e no imaginário do género quase como a definição de "ficção científica encontra o Oeste selvagem", projectando uma grande sombra sobre qualquer potencial mash-up de dois géneros simultaneamente tão distintos e tão semelhantes. Haverá outra, muito diferente na premissa e no tom mas em nada inferior na execução: Cowboy Bebop. É certo que Defiance terá certamente elementos comuns a estas séries icónicas, mas se o jogo (em cuja fase de testes tenho participado com regularidade, e no qual vários actores aparecem) servir de indicação para a atmosfera geral da série, então diria que a premissa deverá ser suficientemente diferente para as semelhanças não caírem no domínio da cópia descarada - como disse antes, mais do que Firefly, o ambiente do jogo faz-me mais pensar num híbrido de Starship Troopers com Mad Max.

De qualquer forma, o objectivo deste artigo - para além de chamar a atenção para a crítica a Defiance, série que aguardo com alguma expectativa - é mencionar um outro artigo, de Chris Gerwel, no blogue da Amazing Stories: Crossroads: Riding into Space - Westerns and Speculative Fiction. Este foi o primeiro de vários artigos sobre o tema que Gerwel publicará ao longo das próximas semanas, e merece uma leitura pelo paralelismo entre ambos os géneros, tanto de um ponto de vista temático e de imaginário como de um ponto de vista comercial. E é nesta perspectiva que o autor suscita a questão mais pertinente, e que destaco de seguida:
The commercial path of the western genre saw film and television eclipse the printed form, and ultimately lead to an over-saturation in the marketplace which damaged sales of western genre novels. Today, the western section in our local bookstores are either tiny or nonexistent. Yet a hundred years ago, the western was the largest genre in print. 
As we look at our multimedia landscape today, we find it saturated with speculative fiction. Whether we’re talking about films, video games, or television, our media consumption is saturated with speculative themes and devices. Will this one day lead to the type of over-saturation that preceded the western’s decline? Or is speculative fiction protected against this by its thematic breadth? 
I don’t know if we’ll find an answer in the coming weeks, but I’m looking forward to exploring it with you. Next week, we’ll be diving into that core of the western genre: the western hero. ‘Til then, what are your favorite westerns and how do they relate to your favorite SFnal stories?
Dado que este blogue é dedicado à ficção científica (especulativa, se preferirem) e que tenho um interesse muito especial pelos westerns , este será um tema ao qual voltarei ao longo das próximas semanas, acompanhando as questões suscitadas por Chris Gerwel.

Fonte: Amazing Stories Blog


* Uma curiosidade: a primeira edição do Fórum Fantástico a que assisti foi à de de 2008. Naquela altura ainda não conhecia Firefly, Serenity ou Cowboy Bebop, pelo que a sessão sobre os elementos e as influências western em Firefly e Serenity não me chamou a atenção no programa - e revelou-se, no auditório, num tremendo festival do bocejo. Olhando para trás à distância, não deixa de ser uma pena - o tema era fascinante, e seria mais do que suficiente para várias sessões interessantes. 

6 de fevereiro de 2013

O verdadeiro space western: Cowboy Bebop

Já que a ideia hoje é falar de Cowboy Bebop, então que se comece pelo óbvio:



A música, já agora, é de Yoko Kanno, com interpretação dos The Seatbelts. Cowboy Bebop até poderia não ter mais nada a seu favor, que continuaria a ter um genérico formidável e uma das melhores - se não a melhor - banda sonora que já ouvi numa série televisiva. E as influências musicais da série revelam-se em mais do que a banda sonora: vários episódios têm títulos de músicas muito conhecidas, ou aludem a outras composições icónicas. Mas a verdade é que este clássico da animação japonesa é muito mais do que a sua componente musical. 

É possível que Cowboy Bebop não seja o primeiro caso em que dois géneros tão distintos como o western e a ficção científica foram combinados para contar uma história, mas até à estreia (e cancelamento prematuro) de Firefly em 2002 terá sido sem dúvida um dos mais populares exemplos desta mistura - e um dos mais bem sucedidos também. Aproveitando ao máximo o que de melhor ambos os géneros têm para oferecer, Cowboy Bebop conta a história de um grupo de caçadores de prémios muito peculiar, que a bordo da nave BeBop viaja pelas várias colónias do Sistema em busca de trabalho.

A narrativa tem lugar em 2071, época na qual a Humanidade colonizou os planetas interiores, vários asteróides e algumas das luas de Júpiter. Em grande medida, esta colonização foi forçada: um acidente com um portal de hiperespaço provocou uma enorme explosão que danificou parcialmente a Lua e envolveu a Terra com detritos e meteoros que causaram uma destruição assinalável na superfície do planeta - o que levou a maioria da população a partir para outros planetas. O centro da civilização humana passou a ser Marte, com o governo, as autoridades e as principais organizações criminosas, que cedo alcançaram um enorme poder. Minadas pela corrupção e pela burocracia, as forças policiais viram a sua acção muito limitada, e um sistema de prémios (bounty) foi instituído, tal como no Velho Oeste. A associação é feita na própria série: os caçadores de prémios são conhecidos por cowboys, e programa de televisão dedicado aos alvos e às recompensas inclui apresentadores vestidos a rigor. É neste contexto que surgem os caçadores de prémios da nave BeBop, um grupo muito invulgar: Jet Black, o dono da Bebop, é um ex-polícia que decidiu exercer a justiça por outros meios; Spike Spiegel é um antigo assassino da organização criminosa Red Dragon que deixou a vida de crime; Faye Valentine é uma hábil caçadora de prémios viciada no jogo e sem memória do seu passado; e Ed é uma hacker pré-adolescente extraordinariamente talentosa. O acaso reúne este grupo, que acaba por juntar os seus talentos para resolver alguns casos mais complicados, enquanto o passado sombrio de Spike ameaça regressar para assombrar toda a tripulação da BeBop.

A história desenvolve-se no clássico formato de "um caso por episódio", com um enredo a ser desenvolvido nas entrelinhas de alguns episódios, dando à série um desfecho lógico no final da temporada. Ao longo dos episódios, o passado das várias personagens é explorado (o episódo de Faye merece destaque), assim como o seu dia-a-dia na BeBop e o problema constante que representa o frigorífico vazio. Isto dito assim tem piada, e a verdade é que Cowboy Bebop é uma série muito divertida, oscilando de forma perfeita entre episódios com uma maior carga dramática e outros mais ligeiros e propensos à comédia. E o Sistema Solar de 2071 em Cowboy Bebop é um cenário fabuloso: com a Terra rodeada por milhões de detritos e raramente visitada, as várias colónias dispersas por planetas, luas e asteróides ganham relevância e vida, ligadas através de portais de hiperespaço com portagens incluídas (um detalhe delicioso). As mais sofisticadas naves espaciais (como a BeBop e as naves individuais de Spike e Faye) convivem com carros antigos nas colónias, interfaces avançadas de inspiração cyberpunk existem ao lado de bares que não destoariam no final do século XX, e utiliza-se de forma mais ou menos indiscriminada armamento futurista e velhos revólveres de seis tiros. E, num interessante e hoje anacrónico detalhe de época, fuma-se com gosto ao som do jazz, tanto na metrópole de Marte como na sala comum da BeBop.

Cowboy Bebop estreou em 1998 e contou apenas com uma temporada de 26 episódios, que deixou a série com um final aberto e a todos os níveis extraordinário. Em 2001, estreou um filme que, na prática, consiste apenas num episódio alargado da série, não lhe dando qualquer continuidade ou esclarecendo o que quer que seja do final. A sua curta duração não limitou em nada o sucesso: Cowboy Bebop é hoje considerada uma série de culto, um marco na animação japonesa e um dos anime mais relevantes no Ocidente. Com toda a justiça, diga-se de passagem: Cowboy Bebop é uma série extraordinária, com um ambiente único e personagens inesquecíveis. E, de resto, a sua curta longevidade está longe de constituir uma fraqueza. Numa entrevista já antiga, o realizador de Cowboy Bebop, Shinichiro Watanabe, disse não tencionar fazer sequelas apenas porque sim, pois uma saída ainda no auge está mais de acordo com o espírito da série. Por muito que gostasse de ver mais episódios com Jet, Spike, Faye e Ed, não consigo não apoiar esta ideia. Cowboy Bebop é, para todos os efeitos, um clássico da animação japonesa e um clássico da ficção científica. Que se mantenha assim. 9.6/10