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26 de julho de 2014

M. John Harrison (1945 - )

Em 1975, o britânico M. John Harrison publicou The Centauri Device, uma space opera escrita com o propósito de subverter as convenções do (sub)género. Para todos os efeitos, Harrison foi bem sucedido na subversão - mas aquele que hoje considera ser o seu pior romance tornou-se na pedra angular da space opera moderna, que autores como Iain M. Banks e Alastair Reynolds desenvolveram a partir dos anos 80, influenciados por aquele futuro gritty, com o seu protagonista improvável e com a sua trama ambígua e desconcertante. 

Mas o percurso de Harrison começa muito antes de revolucionar a space opera. Publicado pela primeira vez nas páginas da New Worlds de Michael Moorcock em 1966, deu um contributo inestimável para o movimento "New Wave", que viraria a ficção científica do avesso no final dos anos 60. De autor publicado passou a colaborador regular, crítico e editor. Em 1971 viu publicado o seu primeiro romance, The Commited Man - e no mesmo ano publicou ainda The Pastel City, título de abertura da série Viriconium e hoje um clássico da fantasia literária. A Storm of Wings, de 1980, e In Viriconium, em 1982, deram continuidade a este universo ficcional - e a colectânea Viriconium Nights, de 1985, reuniu boa parte dos contos nos quais Harrison explorou outras facetas de Viriconium. Após longo interregno, regressou à ficção científica em 2002 com Light, primeiro livro da trilogia Kefahuchi Tract; seguiram-se Nova Swing em 2006 e Empy Space em 2012. 

Michael John Harrison nasceu em Rugby, no Warwickshire (Reino Unido) em 1945, e celebra hoje o seu 69º aniversário. 

29 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (4): Os melhores livros de ficção científica

Será talvez difícil pensar noutra antologia tão importante para a ficção científica como Dangerous Visions, a ambiciosa e revolucionária colectânea de dezenas de contos de alguns dos mais consagrados autores que o género conhecia em 1967 – assim como algumas estrelas em ascensão e até mesmo escritores de outros temas e géneros. Ao leme do projecto esteve o inevitável Harlan Ellison – enfant terrible da ficção científica, contista exímio, antologista delirante. As suas introduções aos autores deram um cunho invulgarmente pessoal à antologia; os contos, esses, foram naquela época uma demonstração perfeita não daquilo que a ficção científica fora até ali, mas daquilo que ela poderia ser a partir dali. Com autores tão distintos como Lester Del Rey, Frederik Pohl, Robert Silverberg, Roger Zelazny, Samuel R. Delany, J. G. Ballard, John Brunner, Philip K. Dick, Poul Anderson, Larry Niven, Philip José Farmer, Miriam Allen deFord, Brian Aldiss, Norman Spinrad, Sonya Dorman, John Sladek, Keith Lauder, Theodore Sturgeon, Damon Knight ou Carol Emshwiller, entre outros, Dangerous Visions tornou-se no baluarte da “New Wave” norte-americana, mostrando as infinitas possibilidades da ficção científica e chocando os círculos tradicionalmente conservadores do género com o seu carácter experimentalista e o seu arrojo narrativo, estilístico e temático. 45 anos volvidos sobre a sua publicação original, parte do seu shock value ter-se-á sem dúvida perdido – mas a qualidade dos seus textos, essa, continua intocada. 

O magnum opus da ficção científica nacional – lusófona? – data de 1996, e resultou da combinação de dois dos maiores talentos que o género conheceu na língua portuguesa: João Barreiros e Luís Filipe Silva. O resultado não serve para introdução à ficção científica – exige uma leitura atenta, e um leitor mais experimentado nas convenções e nos temas do género. Mas para esses, Terrarium é um tesouro: um vasto romance fragmentado e meta-referencial numa Terra futura na qual a Humanidade partilha o planeta, de forma um tanto ou quanto forçada, com um sem-número de raças alienígenas, exiladas na superfície e no vasto anel orbital composto pelas suas frotas destruídas – e com as enigmáticas Potestades, sempre vigilantes, a impor a coexistência. Num mundo onde as antigas revistas pulp e de comics são relíquias de valor incalculável, várias personagens aparentemente improváveis vão ver os seus destinos cruzarem-se num jogo de poder que, estando viciado à partida, não tem vencedor definido. Poderemos sempre lamentar a falta de desenvolvimento que a ficção científica conheceu, e conhece ainda, no nosso país; mas não deixa de impressionar que um género tão pouco cultivado tenha sido capaz de produzir um romance deste calibre: ambicioso, complexo e extremamente recompensador. 

O britânico M. John Harrison considera esta sua space opera de 1975 a pior coisa que já escreveu na vida. Após lê-la, será talvez inevitável pensar quão boa será a sua obra subsequente, se The Centauri Device já se revela num romance a todos os níveis impressionantes. A prosa magnética e delirante de Harrison começa nos primeiros capítulos a dar forma àquilo que parece ser uma combinação talvez improvável entre a space opera e os policiais noir; mas Harrison cedo começa a desconstruir temas, ideias e convenções para dar forma a um texto revolucionário e influente, de uma riqueza conceptual impressionante e de um fascínio inegável, repleto de imagens que perdurarão na memória dos leitores – da “mais longa festa do Universo” aos fanáticos religiosos do culto dos “Openers”. Um clássico soturno, com um certo tom pessimista e nihilista que se tornaria recorrente uma década mais tarde no advento do cyberpunk

Escrever um romance como Desolation Road não é para todos – e mais impressiona ao saber que foi o primeiro livro escrito por Ian McDonald. Situado num Marte futuro terraformado, e indo beber tanto às crónicas melancólicas de Bradbury como à hard science fiction e ao realismo mágico sul-americano do qual Garcia Marquez é um dos expoentes máximos, McDoland cria um vasto mosaico de histórias individuais de pessoas diferentes – de cientistas a revolucionários, de aviadores a vagabundos, de famílias rivais a aventureiros. E o que toda esta gente tem em comum é Desolation Road – uma aldeia na orla de um vasto e rubro deserto, fundada pelo mais improvável dos acasos por um cientista solitário e na qual parou, durante os anos que se seguiram, todo o tipo de pessoas. Desolation Road segue todas essas personalidades para aquele ponto, e para fora dele, e para dentro dele novamente – e traça uma vasta crónica sobre como um lugar tão insignificante conseguiu ser tão decisivo para os destinos de um planeta inteiro. É um romance com um ritmo intenso, um tom atravessado de melancolia, e mais episódios mirabolantes do que seria sensato descrever por aqui – e um texto único na ficção científica. 

26 de julho de 2013

M. John Harrison (1945 - )

Alguns autores que dão contributos importantes a um ou dois géneros literários; outros, dedicam-se a subverter as suas fundações e a mostrar alternativas; mas diria que poucos serão capazes de fazer as duas coisas em simultâneo e com mestria como o britânico M. John Harrison. Publicado pela primeira vez em 1966 na revista Science Fiction, Harrison veio a colaborar com Michael Moorcock na revista New Worlds, onde ganharia força o movimento "New Wave"; durante a sua passagem pela revista entre 1968 e 1975 publicou ficção curta, escreveu críticas e foi editor. O seu primeiro romance publicado foi The Commited Man, em 1971 - ano em que também publicou The Pastel City, um clássico de fantasia que abre a série Viriconium (continuada em 1980 por A Storm of Wings e em 1982 por In Viriconium, para além de vários contos - muitos dos quais se encontram compilados na antologia Viriconium Nights, de 1985). 

Na ficção cientifica, revolucionou o sub-género da space opera em 1975 ao torná-lo desolador e gritty com The Centauri Device, uma história tão fascinante situada num futuro em que a Humanidade se expandiu pela Galáxia, e para lá levou todos os seus problemas (curiosamente, o próprio Harrison afirma detestar o livro). Após alguns anos a publicar noutros géneros, regressou à ficção científica em 2002 com o aclamado Light, primeiro livro da trilogia Kefahuchi Tract que continuaria com Nova Swing (2006) e Empty Space (2012). Com esta trilogia venceu os prémios James Tiptree, Jr. (Light, 2003), Arthur C. Clarke e Philip K. Dick (Nova Swing, 2007 e 2008 respectivamente). A sua prosa rica, densa e quase abstracta é uma das suas imagens de marca. 

Michael John Harrison nasceu em Rugby, no Warwickshire (Reino Unido) em 1945, e celebra hoje 68 anos. 

16 de junho de 2013

Citação fantástica (71)

Uncouth, clannish, lumbering about the confines of Space and Time with a puzzled expression on his face and a handful of things scavenged on the way from gutters, interglacial littorals, sacked settlements and broken relationships, the Earth-human has no use for thinking except in the service of acquisition. He stands at every gate with one hand held out and the other behind his back, inventing reasons why he should be let in. From that first bunch of bananas, his every sluggish fit or dull fleabite of mental activity has prompted more, more; and his time has been spent for thousands of years in the construction and sophistication of systems of ideas that will enable him to excuse, rationalize and moralize the grasping hand. 

M. John Harrison, The Centauri Device (1975)

31 de maio de 2013

A galáxia decadente de M. John Harrison em The Centauri Device

Há qualquer coisa de fascinante em ler em 2013 The Centauri Device, o terceiro romance do britânico M. John Harrison, publicado em 1975. E o fascínio reside, para além da prosa assombrosa (já lá irei), em ver como uma obra tão firmemente ancorada no seu tempo (a década de 70 - com a sua narrativa subversiva reminescente da fulgurante "New Wave", o seu tom sombrio e pessimista e as suas balizas políticas bem demarcadas) consegue manter a sua frescura e a sua actualidade quase por portas travessas, como se tal fosse fruto de um extraordinário acaso.

E a verdade é que talvez seja, o que torna o caso ainda mais interessante.

A intrigante abertura de The Centauri Device faz quase lembrar uma narrativa noir deslocada quatro ou cinco séculos para um futuro sem perder o seu tom tão característico: o protagonista John Truck, capitão do cargueiro espacial Ella Speed, traficante de drogas sempre que pode e de mercadoria legar quando não tem outra alternativa, deixa a nave no porto de Sad Al Bari IV com o seu bos'n e caminha pelas ruas decrépitas, repletas de port ladies e de drogados. Há qualquer coisa de estranhamente aliciante na galáxia sombria, corrupta e degradada que Harrison descreve com depressivo vigor; as descrições são notáveis, de uma riqueza visual impressionante, com um toque de anacronismo nostálgico tão decadente como apelativo. Por exemplo:
Outside The Spacer's Rave, an ancient fourth generation Denebian with skin blackened and seamed, and eyelids perpetually lowered against the actinic glare of a star he hadn't seen for twenty years, was reciting lines from The Fight At Finnsburg. His hat was at his feet. His boots were cracked, but his voice was passable, booming out over the heads of passing whores and stoned Fleet men:
"The Spacer's Rave" é o bar que Truck procura, onde o seu amigo Tiny Skaffern, o último grande músico da Galáxia, toca regularmente com uma Fender Stratocaster com quatrocentos anos. É também no "The Spacer's Rave" que Truck vai conhecer Angina Seng, uma mulher enigmática que o vai arrastar para uma intriga de proporções galácticas onde descobrirá o seu verdadeiro legado, ambicionado por dois poderes antagónicos e algumas facções dúbias...

Tudo isto poderia ser o prelúdio para uma space opera de tons noir que seguisse mais ou menos à letra as convenções de ambos os géneros para criar algo novo - e, se fosse isso, é provável que também fosse acima da média. Mas nada em The Centauri Device é aquilo que aparenta ser, e M. John Harrison faz questão de raramente seguir as tropes tal como elas são, como se retirasse um prazer especial em dar-lhes a volta com a sua prosa magnética. E dá-lhes mesmo a volta: John Truck não é um herói convencional (ou não-convencional, de facto), ou sequer um anti-herói que faça o Bem por caminhos tortuosos; é, sim, um derrotado da vida que nunca questionou a sua condição, que nunca desafiou os ventos (e o vento é uma das metáforas mais persistentes da narrativa), que sempre se contentou com o pouco que a vida lhe deu, e que lhe permitiu ficar à tona da devassidão que grassa por todos os locais que frequenta. Da mesma forma, Angina Seng não é a femme fatale que o tom e o ambiente noir poderiam deixar adivinhar - mas o que ela é fica para descoberta do leitor. E a aventura em que Truck se envolve não é uma demanda pela salvação galáctica ou uma qualquer cruzada moral - antes um conflito esgotante e na sua aparência perpétuo entre  dois poderes cujos alicerces ideológicos há muito se esboroaram, permanecendo apenas enquanto nomes e símbolos sem significado - apenas músculo (o que constitui uma analogia interessante com o tempo presente). Pelo meio, Truck encontra a herança de um povo massacrado cuja memória persistiu de forma improvável, uma religião peculiar cujos praticantes - os Openers - acreditam que a exibição dos seus processos biológicos é a única verdadeira forma de adorar a divindade, e os exuberantes "Anarquistas Estéticos", donos de uma oportunidade clamorosamente perdida (tão perdida que nem eles a entendem). A demanda do herói dá lugar a um ressalto constante entre facções com agendas próprias, todas elas marcadas pelo misterioso "Centauri Device" - que poderá ser uma bomba, um instrumento de propaganda, uma manifestação do divino ou apenas um meio para um fim obscuro. 

Esta subversão de convenções fez de The Centauri Device a space opera que colocaria um fim à space opera - e, de facto, estará porventura mais próximo de clássicos da ficção científica como The Stars My Destination, de Alfred Bester (a comparação é quase inevitável, ainda que Gully Foyle seja muito diferente de John Truck), do que de outras obras que deram forma ao sub-género que se convencionou como space opera. Não sem ironia, acabou por projectar uma longa sombra, revitalizando o género e servindo de influência a alguns dos seus mais inspirados praticantes nas décadas que se seguiram. 

Com uma prosa arrojada, magnética (a repetição do adjectivo é intencional), rica nos seus detalhes e evocativa em cada ideia que descreve, The Centauri Device deixa o leitor com algumas imagens duradouras e fascinantes (como "a mais antiga festa a decorrer em toda a história do Universo", os bunkers labirínticos de Centauri VII, as cidades devassas e devastadas que quase fazem lembrar a Los Angeles de Blade Runner, os "Openers" - nem a "Igreja do Shrike" em Hyperion consegue ser tão macabra como os "Openers"). Opressivo, niilista e quase sempre amoral, The Centauri Device deu expressão ao ambiente e ao tom que marcariam o cyberpunk nos anos 80 e mostrou como um género de carácter tão popular como a space opera poderia ser eminentemente literário. M. John Harrison considera-o "the crappiest thing I've ever wrote" - uma expressão que poderia suscitar várias questões, mas que em momento algum ofusca The Centauri Device, que por mérito dos seus atributos se tornou num clássico do género. Soturno, mas um clássico. 

19 de maio de 2013

Citação fantástica (67)

He was alone in a charge room with the echo of his own waking cry, the sole and total literacy of the hinterlands scratched and daubed on the pale green walls around him. This is where they write their only books: Picking Nick was here, busted for speed; Og, caught holding for a friend; All coppers do it with their mothers; If you get off Angel tell the Rat I didn't. Stuff and screw and stuff again. Novels of rage, futile exposés addressed to lawyers, relatives and life; vomit and other things in corners; a cold steel door with rivets and only memories of paint through being kicked so often in silly resistance.

M. John Harrison, The Centauri Device (1975)