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11 de novembro de 2012

Citação fantástica (40)

It does not do to rely too much on silent majorities, Evey, for silence is a fragile thing... one loud noise, and it's gone.

Alan Moore e David Lloyd, V for Vendetta (1982-1989)

9 de novembro de 2012

O legado de V for Vendetta

Ao longo da semana, descrevi V for Vendetta como um comic “icónico”, e este adjectivo não surge por acaso. Alan Moore e David Lloyd criaram nas páginas da extinta “Warrior” uma verdadeira obra de culto, com um futuro próximo assustadoramente plausível, e cuja verosimilhança não se perde apesar de 1997 ser já um ano distante e de o mundo como o conhecemos ter mudando de forma muito radical (porventura mais radical do que gostaríamos) nos últimos 15 anos. V for Vendetta mostra-nos como pode ser fácil um regime autoritário erguer-se e dominar uma população, e mostra-nos o papel assustador que a tecnologia pode assumir para um nível de repressão nunca antes visto. Até aqui, nada de novo - Orwell já o fizera nos anos 40, e de forma  sublime. Aquilo que Moore e Lloyd nos mostram, e que Orwell e outros não mostraram, é os meios que um povo subjugado podem utilizar para lutar contra o totalitarismo - e como esses meios não são necessariamente bons ou justos num mundo em que o Bem e o Mal não são valores absolutos, mas variáveis e muito, muito voláteis. V for Vendetta questiona a autoridade do Estado, e a sua vertente repressiva - mas, ao mostrar-nos a luta contra essa repressão, está também a colocar questões relevantes. É legítimo falar em nome de todo o povo? É legítimo matar e torturar para obter a liberdade? Em última análise - se descemos ao mesmo abismo dos nossos inimigos, e empregamos métodos similares, o que nos distingue?

É bom de ver que, neste início do século XXI, esta mensagem é mais pertinente do que nunca.

Ainda assim, a mensagem e o simbolismo de V for Vendetta - tal como a sua excelente arte, a narrativa de complexidade literária, as personagens densas e ambíguas - poderiam ter permanecido não perdidos mas ignorados. Sim, o comic foi muito lido, e é há anos considerado uma das obras mais importantes do formato. Mas os comics, a banda desenhada - enfim, na designação mais nobre, as graphic novels - continuam conhecer um consumo reduzido em relação a outros formatos artísticos. Independentemente dos seus méritos e das suas limitações, o filme que adaptou V for Vendetta ao grande ecrã levou a luta de V para um público muito mais vasto - que absorveu desde logo a mensagem. Frases como “ideas are bulletproof”, retirada do comic e reproduzida no filme, ou “people should not be afraid of their governments. Governments should be afraid of their people”, original do filme, tornaram-se recorrentes em protestos políticos que hoje acompanhamos a uma velocidade desconcertante na Internet. E Guy Fawkes, personagem algo esquecida da história de Inglaterra, chegou por fim à cultura popular. O colectivo Anonymous, sem dúvida um dos mais interessantes fenómenos que emergiu da Internet, adoptou as máscaras de Guy Fawkes em 2008 na “Operation Chanology”, contra a Igreja da Cientologia, e desde então a máscara de Guy Fawkes tornou-se no seu símbolo. Aliás, é interessante notar como o colectivo Anonymous assumiu parte da mensagem de Moore e Lloyd: também este grupo, composto por imensa gente, não tem um rosto, um líder, uma estrutura.

Com o mediatismo do colectivo Anonymous, as máscaras de Guy Fawkes tornaram-se ainda mais populares. Ao que consta, vendem-se como pãezinhos quentes na Amazon, e não há protesto político contemporâneo que não tenha uma ou mais pessoas com a cara coberta pelo sorriso desconcertante da máscara - dos movimentos"Occupy" às revoluções da dita “Primavera Árabe”. Tanto Moore como Lloyd já manifestaram satisfação por o símbolo que criaram estar associado à luta pela liberdade em tantos locais e tantas circunstância diferentes. Mas essa associação só se tornou possível pela súbita popularidade de V - e essa popularidade só se tornou global após o filme, mesmo que o filme tenha levado (como acredito que levou) muita gente a ir ler o comic original.

Mas a verdade é que discutir se a popularidade de V for Vendetta se deve aos comics ou ao filme acaba por ser um exercício mais ou menos irrelevante - foi através das duas obras que V conquistou o seu lugar no imaginário popular, e mais como símbolo do que como personagem. O que, diga-se em jeito de conclusão, faz plena justiça ao ideal que Moore e Lloyd escreveram e desenharam juntos em V for Vendetta, e dá ao comic uma dimensão que muito poucas obras do género alcançaram.



8 de novembro de 2012

V for Vendetta: Os altos e baixos da adaptação cinematográfica

Ao longo dos últimos dias falei aqui de V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd. Abordei o universo distópico criado por Moore, as personagens e a sua importância no puzzle narrativo de V. Isto, note-se, a propósito de um comic vasto, complexo, repleto de narrativas laterais e desenvolvido ao longo de vários anos. Em 2005, estreou a adaptação cinematográfica deste fascinante universo, num filme realizado por James McTeigue, com argumento e produção de Larry e Andy Wachowsky, e com um elenco repleto de actores consagrados: Hugo Weaving, Natalie Portman, John Hurt, Stephen Rea, Stephen Fry e Ruper Graves. Sem surpresas, Alan Moore opôs-se ao projecto, e não permitiu qualquer associação do seu nome ao filme. Mas independentemente desta oposição, terá este filme conseguido fazer justiça ao formidável comic de Moore e Lloyd?

Sim e não.

Não fez justiça ao comic na medida em que tal seria impossível: V for Vendetta é demasiado denso e contém demasiadas narrativas secundárias para uma adaptação num filme de pouco mais de duas horas. Para ser franco, nem quatro horas chegariam para contar a história de V, de Evey, de Finch e de Susan, e ainda para acompanhar as narrativas laterais de Creedy, Etheridge, Heyer, Almond, Rosemary, Helen e Ally, e mesmo do supercomputador "Fate" (e, recordemos, todas estas narrativas são fundamentais para o desfecho do comic). Foi necessário fazer inúmeros desvios narrativos, alterar a ordem de muitos acontecimentos, omitir outros, cortar algumas personagens e reduzir outras a uma quase-insignificância, e ainda fazer algumas alterações drásticas tanto em personagens como em momentos fundamentais da narrativa. Adam Susan, interpretado por John Hurt, viu o seu nome alterado para Adam Sutler (uma alteração que julgo desnecessária), e passou de um tirano ambíguo para um Hitler versão século XXI; já Creedy deixou de ser o pequeno criminoso chegado ao poder para se tornar num dos cérebros do Norsefire e num vilão um tanto ou quanto cartoony. Finch, por seu lado, não foi tão longe para descobrir V, e Evey viu o seu passado drasticamente alterado. Larkhill, por exemplo, deixou de ser um mero campo de concentração onde foram feitas experiências macabras: essas experiências abriram a porta a uma vasta conspiração de terrorismo biológico, ausente no comic, que ajudou o Norsefire a ascender ao poder.

Em termos globais, o filme acaba por transmitir uma mensagem menos “anarquista” e mais contemporânea - se no comic V é sempre uma personagem ambígua, no filme essa ambiguidade esbateu-se de forma significativa, e ele é de facto um herói - como muitos disseram, um freedom-fighter (ainda assim, julgo que Alan Moore exagera quando considera que o filme passa uma mensagem “pró-americana” - aliás, julgo que a ideia é justamente a oposta).

Há, contudo, vários pontos nos quais a adaptação funciona muito. O foco na televisão, e não na rádio, está excelente e faz mais sentido para as audiências do século XXI - tal como a referência à Interlink, que suponho ser a Internet (algo que em 1982 não existia tal como a conhecemos hoje). A conspiração do terrorismo biológico para a ascensão do Norsefire, apesar de ser um elemento novo (e porventura desnecesário), está bem construído, não sendo rebuscado e não ferindo a lógica interna da narrativa. O elenco é praticamente irrepreensível - John Hurt está sólido como Sutler e Stephen Rea representa um excelente Finch; mas Natalie Portman brilha como Evey Hammond (a cena da tortura é inesquecível) e Hugo Weaving tem um desempenho tão forte que consegue dar expressividade a uma personagem que tem sempre o rosto coberto por uma máscara. Diria mesmo que o desempenho magnético de Weaving é mesmo o ponto forte do filme: consegue transmitir de forma impressionante o carácter violento mas teatral de V, com todo o seu idealismo e a sua inteligência.

A narrativa conheceu bastantes alterações de forma a adequar o ritmo à duração do filme. A vingança de V contra Prothero, Lilliman e Surridge manteve-se, ainda que com algumas alterações (sobretudo no caso de Prothero), tal como a história de Valerie Page, especialmente bem contada durante o incarceramento de Evey (também adaptado de forma fiel). Mesmo o final, apesar de muitas alterações (fruto do desaparecimento de muitas narrativas secundárias), manteém alguma fidelidade para com o comic. O início do filme é idêntico ao comic, mas muda logo nos primeiros minutos, quando V faz explorir o Old Bailey - o Parlamento é guardado para o final apoteótico.

Por muito discutível que a adaptação de V for Vendetta seja, com todas as suas alterações e todos os seus desvios, a verdade é que o resultado é um filme muito acima da média, com desempenhos memoráveis e uma carga simbólica muito forte. Creio que é neste ponto que V for Vendetta, o filme, mais se aproxima do comic: apesar de todas as mudanças (muitas delas drásticas), conseguiu preservar o essencial da subversiva mensagem elaborada por Alan Moore e David Lloyd, e passá-la de forma muito coerente, criando e adaptando algumas frases que se tornaram em autênticos soundbites (People shouldn’t be afraid of their governments, governments should be afraid of their people). Não dispensa a leitura do comic, agora compilado em graphic novel, mas vale por si só como um óptimo e poderoso filme. 8.0/10

7 de novembro de 2012

V for Vendetta: As personagens e os arcos narrativos enquanto peças do dominó

A vasta galeria de personagens que compõem V for Vendetta cruzam-se e relacionam-se em vários arcos narrativos distintos, de dimensões variáveis mas cada um com a sua importância própria dentro da história de V e a contribuir de forma muito própria para o final. Alan Moore não deixou nada ao acaso; todas as personagens surgem com um propósito muito definido e um papel a representar no vasto plano concebido por V para derrubar o Norsefire. A imagem dos dominós, presente na graphic novel e tão icónica no filme, ganha aqui especial relevância.

Excluindo V e Evey, Eric Finch terá o arco narrativo mais interessante de V for Vendetta, com as investigações que, a partir do departamento do Estado que controla (“The Nose”), vai fazer ao caso do terrorista que fez explodir o Parlamento e ameaça o poder do Norsefire. Este arco é particularmente relevante por vários motivos: por um lado, fornece muitas informações sobre V; por outro, dá ao leitor uma visão da estrutura governativa a partir de um alto funcionário do partido que, no seu pragmatismo, não mantém ilusões quando à situação real. O seu desentendimento com o recém-nomeado líder do “The Finger”, Peter Creedy, acentua o seu afastamento definitivo da estrutura do partido, tornado definitivo durante a sua visita clandestina às ruídas do campo de concentração de Larkhill. Ainda assim, não desiste da sua investigação e do seu objectivo - movido talvez por um desejo de terminar o seu trabalho e de vingar Delia Surridge, apresar do mal que ela causou.

Curiosamente, dois dos arcos narrativos mais interessantes e relevantes de V for Vendetta pertencem a duas personagens improváveis: a Rosemary Almond, mulher de Derek Almond, alto funcionário do Norsefire e líder do “Finger”; e a Helen Heyer, mulher de Conrad Heyer, também um alto funcionário do partido e líder do “Eye”. No caso de Almond, este desaparece  cedo da narrativa, deixando Rosemary desamparada e numa espiral de decadência. Com a leitura, acompanhamos a queda progressiva de Rosemary, até ao ponto em que, movida por desespero, decide agir e fazer o impensável. De todas as personagens secundárias, é a única que acompanhamos na primeira pessoa.

Já Helen Heyer é uma personagem diferente. Ao contrário de Rosemary, abusada pelo marido, Helen é uma mulher forte e determinada, que mantém o seu marido sob um controlo tão absoluto quanto cruel, manipulando-o para os seus próprios fins. Calculista, prevê a queda inevitável de Adam Susan e prepara com cuidado e astúcia a ascensão de Conrad ao poder, sabendo que será sempre ela quem o controla e quem, assim, detém de facto o poder. Para esse fim usa as armas que tem: dinheiro, inteligência e sensualidade. Através de Alistair “Ally” Harper, um criminoso escocês que surge no arco narrativo de Evey, entra no de Creedy e termina no de Helen, prepara a traição a Creedy para assumir o controlo do “Finger”.

É interessante notar como tanto Rosemary como Helen parecem estar fora dos planos de V - como se fossem jogadoras ocasionais, com uma agenda própria e objectivos muito concretos. Essas agendas próprias existem, de facto, mas estão subjugadas à agenda mais vasta de V, que as incluiu meticulosamente na vasta teia que urdiu desde que se libertou de Larkhill. Neste ponto, a mestria narrativa de Alan Moore em V for Vendetta revela-se em todo o seu esplendor - nada, desde a primeira vinheta, surge por acaso ou destituído de propósito; cada personagem, cada acção, é introduzida na narrativa no momento exacto, e desenvolvida ao ritmo certo para assumir o seu papel no clímax da história. De Rosemary a Helen, de Ally a Gordon, cada personagem, por acção ou inacção, tem um papel a representar no plano de V. Um jogo de xadrez perfeito - ou, se quisermos, uma vasta e intrincada construção com peças de dominó, semelhante à que V montou, que formam a imagem definitiva ao mais ligeiro toque numa delas.

(continua)

6 de novembro de 2012

V for Vendetta: Os protagonistas

Uma das riquezas de V for Vendetta, a par do enquadramento histórico/distópico e dos elaborados arcos narrativos, reside nas suas personagens. Neste campo, Alan Moore não se limitou ao estritamente necessário para a história funcionar (como acontece no filme), e criou uma vasta galeria de personagens principais, secundárias e figurantes que não só compõem aquela sombria Inglaterra, como lhe dão espessura, tornando a própria narrativa mais densa e complexa à medida que as histórias pessoais de cada personagem se envolve, de forma directa ou indirecta, no grande plano de V.

Há quatro personagens que podemos identificar como protagonistas: V, Evey Hammond, Eric Finch e Adam Susan. Comecemos por este último.


Adam Susan
Adam Susan é o líder do Norsefire e quem, na prática, governa o reino através do supercomputador “Fate”. Revela uma profunda convicção nos seus ideais fascistas e nas suas convicções de pureza racial, e está seguro de que as suas acções no pós-guerra para ascender ao poder foram legítimas e correctas. No entanto, Susan não é um vilão no sentido habitual do arquétipo; considera-se um homem comum ("I am a man, like any other man"). Parece amar genuinamente o seu país e o seu povo, sem contudo deixar de ter a perfeita noção de que esse sentimento não é recíproco. Contenta-se com a alternativa: o respeito através do medo. Do conceito de fascismo deriva o ideal que orienta o seu partido e a sua governação: força pela pureza e pela união - "And if that strenght, that unity of purpose, demands an uniformity of thought, word and deed, so be it". Exigiu ao seu povo que abdicasse de uma liberdade na qual não acredita em troca de estabilidade e segurança - e considera ele mesmo ter abdicado da sua liberdade, tal como o seu povo ("I sit here within my cage and I am but a servant"). Afastado até dos seus colegas de partido, vive num profundo isolamento, com um mínimo indispensável de contacto com outras pessoas e sem vida social relevante. A adoração que sente pelo supercomputador “Fate”, ao ponto da obsessão, é o indicador perfeito do grau de isolamento de um líder totalitário particularmente denso e ambíguo, e estabelece um contraste muito interessante com V.

V
A primeira pergunta que ocorre quando V surge é: quem é este personagem? Alan Moore deu muita informação: foi prisioneiro em Larkhill, o que indica que pode ter pertencido a um grupo (étnico ou político) mal visto pelo fascismo em ascensão. Foi submetido a tortura e a experiências naquele campo de concentração - como resultado, as suas capacidades físicas evoluíram de forma anormal, e desenvolveu uma psicose invulgar e uma personalidade magnética e muito carismática. Dotado de uma extraordinária inteligência (e de uma vasta cultura), concebeu um plano de longo prazo que culminou na destruição de Larkhill; nas sombras, perseguiu e matou de forma dissimulada os responsáveis pelo campo, até se revelar no rapto e tortura a Lewis Prothero e nos assassinatos de Delia Surridge e do Bispo Lilliman. Anárquico convicto, desenvolveu um plano elaborado para derrubar o partido fascista no governo e devolver o poder de Inglaterra aos cidadãos. Assumiu a máscara de Guy Fawkes e fez o que o conspirador se propusera fazer e não conseguira: explodir o Parlamento em Londres. É, para todos os efeitos um terrorista (ainda que muito teatral), e neste ponto não há qualidades redentoras: tem um objectivo e não hesita na hora de matar quem estiver entre ele e o seu propósito. Alan Moore diz-nos isto e muito mais nas páginas do comic - mas mesmo com toda esta informação, não sabemos quem de facto é V.

A densidade de V for Vendetta é bem visível na elaborada construção do seu protagonista. A identidade de V é irrelevante na medida que a personagem, considerada enquanto indivíduo, é irrelevante - o que acompanhamos ao longo das cerda de 260 páginas não é tanto uma personagem, mas uma ideia ("ideas are bulletproof", diz-se a dada altura, uma noção do comic que passou de forma particularmente forte na adaptação cinematográfica). Uma ideia de defesa intransigente de liberdade acima de tudo o resto, por todos os meios que forem necessários. Daí a sua morte não ser, para todos os efeitos, uma morte - a ideia que V encarnava perdurou em Evey, e fica a ideia de que perdurará para além dela. Podemos ter a tentação de olhar para V como um herói - afinal, combate um regime fascista opressivo -, mas Alan Moore em momento algum o ergue acima da sua ambiguidade. Como o próprio afirmou em entrevista, a decisão de definir V como herói ou vilão, como louco ou são, fica ao critério do leitor.

Evey Hammond
Apesar do protagonismo de V ao longo de toda a obra, diria que Evey Hammond é a verdadeira protagonista - quando não mesmo heroína - de V for Vendetta. É apresentada logo nas primeiras vinhetas como uma jovem e insegura rapariga que, sem outras alternativas na vida, opta pela prostituição - apenas para cair nas malhas dos “Fingermen” e ser salva por V. Na "Shadow Gallery", conhecemos o seu passado: a vida familiar em criança, a perda da mãe, a captura e presumível morte do pai, a institucionalização e o trabalho fabril, a vida no limiar da miséria. De todas as personagens de V for Vendetta, será porventura aquela que tem um crescimento mais sustentado, através de um arco narrativo longo e memorável. O seu fascínio por V leva-a a ajudá-lo, mas não a impede de contestar o seu recurso a métodos violentos.

Evey vive num estado de insegurança permanente até ao momento em que se vê obrigada a enfrentar os seus maiores medos e a decidir entre os seus princípios e a sua vida, num dos momentos mais marcantes tanto do comic como do filme. Para a sua resistência e subsequente transformação de adolescente inocente e frágila para uma mulher forte, determinada e segura de si contribui de forma definitiva a carta de Valerie Page, prisioneira de Larkhill que não sobreviveu às experiências a que foi submetida (e uma fascinante personagem ausente, com um contributo muito relevante para a caracterização da ascensão do Norsefire). No final, percebe o que V não é um indivíduo mas uma ideia - e, como tal, assume a máscara e o legado de V optando por não descobrir o rosto do homem que encarnara aquela ideia até então.

Eric Finch
Eric Finch é o líder da nova polícia de investigação e responsável pelo departamento habitualmente designado como “The Nose”. Desde o primeiro momento, com o ataque de V ao Parlamento, percebe que as autoridades não estão a lidar com um problema comum, e receia o momento em que tenha de pensar como o terrorista para poder prever o seu próximo passo. Pragmático por natureza, não só não tem ilusões quanto à natureza do regime político em vigor como também não faz questão de manter em segredo o seu desinteresse pelas questões políticas e, sobretudo, pelo Norsefire; é tolerado por Adam Susan devido à sua integridade, à sua honestidade e ao seu rigor.

A cruzada de vingança de V interfere directamente na vida pessoal de Finch quando Delia Surridge é assassinada. Finch dedica todos os seus esforços (indo mesmo a alguns extremos) para desvendar o enigma de Larkhill para descobrir quem é V e poder eliminá-lo. O seu eventual sucesso não consegue parar as engrenagens do vasto plano que V colocara em marcha.

(continua)

5 de novembro de 2012

V for Vendetta: A distopia como enquadramento da narrativa

Apesar da vasta influência exercida pela pulp fiction e pelas bandas desenhadas de mistério dos anos 30, V For Vendetta foi buscar muita inspiração a outras distopias literárias, como as de Orwell, Huxley ou Bradbury, para mostrar uma Inglaterra futurista (para a época - a narrativa situa-se em 1997) e de carácter distópico, mas fortemente ancorada ao presente histórico do Reino Unido do início dos anos 80. Alan Moore imagina um futuro próximo no qual o Partido Conservador de Margaret Tatcher perderia as eleições de 1983, seguindo-se-lhe um governo Trabalhista que, longe de conseguir colocar o Reino Unido no caminho da recuperação económica, cumpre a promessa do desarmamento nuclear absoluto do país - o que acaba por poupar as Ilhas Britânicas na guerra nuclear que se segue, pelo menos no que aos bombardeamentos diz respeito. No caos do pós-guerra, o partido fascista Norsefire, liderado por Adam Susan, ascende ao poder e rapidamente assume um controlo absoluto sobre o Reino Unido, controlando os destinos da nação através de um supercomputador intitulado "Fate" (Destino), que controla o aparelho burocrático e o sofisticado sistema de vigilância que mantém a população na ordem.

É através do Norsefire que Alan Moore dá forma à Inglaterra distópica que serve de palco à cruzada de V. Com várias semelhanças a outros partidos de regimes totalitários, o Norsefire encontra-se dividido em várias secções com funções distantas, que apesar de rivalizarem entre si estão aparentemente unidas no apoio incondicional ao líder. A originalidade de Moore reside na sua invulgar caracterização da estrutura do partido: o centro de comando a partir do qual o Partido governa o Reino Unido é designado por “The Head”; o departamento responsável pela videovigilância das ruas e dos cidadãos denomina-se “The Eye”; a vigilância áudio, particularmente relevante numa época em que o meio privilegiado de comunicação ainda é a rádio, e não a televisão, está a cargo de um departamento intitulado “The Ear”; a propaganda e a informação controlada é emitida através da emissora na Jordan Tower, designada por “The Mouth”; o departamento de investigação criminal da polícia (liderado por Eric Finch) é conhecido como “The Nose”; e, por fim, a polícia política do Norsefire, que patrulha as ruas durante a noite e incorpora a violência repressiva do regime, tem o nome de “The Finger”, com os seus agentes a serem habitualmente designados por “Fingermen”. Estas designações, como facilmente se percebe, não surgem por acaso, e descrevem de forma alegórica e elaborada os métodos de controlo empregados pelo Estado totalitário britânico. Note-se que na adaptação cinematográfica em momento algum esta caracterização é feita - a única designação presente é a dos “Fingerman”, mas sem o seu contexto alegórico a designação ganha contornos quase caricaturais ao invés de assumir o carácter simbólico que assume no comic.

Esta caracterização do Norsefire é feita ao longo de toda a narrativa mais através das acções e das interacções das várias personagens do que de contextualizações, e é relevante para compreendermos, para além do enquadramento da narrativa, três aspectos fundamentais de V for Vendetta: o plano de vingança de V, que é introduzido já na fase final da sua execução - o assassinato (a vendetta) dos três responsáveis máximos pelo campo de concentração de Larkhill; o antagonismo entre os vários altos funcionários do Norsefire, responsáveis pelos seus diversos departamentos; e a forma como estes, com os seus relacionamentos e as suas histórias individuais, são “apanhados” no grande plano de V para derrubar o governo autoritário e devolver o poder à população.

Do restante mundo de V for Vendetta pouco se sabe - subentende-se através do texto que a Europa e África terão sido arrasadas por um holocausto nuclear. O Reino Unido escapou à guerra, mas não aos seus efeitos - as alterações climáticas provocadas pela deflagração nuclear provocaram inundações e a destruição de colheitas, o que por sua vez gerou fome, caos social e racionamento alimentar. A história que se segue é a da ascensão do Norsefire e das purgas feitas contra imigrantes, homossexuais e opositores políticos, encerrados em campos de concentração. Destes, o campo de Larkhill assume particular relevância como local de origem do protagonista, V, e de elo de ligação entre várias personagens relevantes no seu plano anárquico.

(continua)

V for Vendetta: Introdução - do comic icónico à adaptação cinematográfica

Corria o ano de 1982 quando nas páginas da revista "Warrior", uma publicação britânica mensal de comics, começou a ser publicada um comic que se tornaria numa referência incontornável da banda desenhada mundial: V for Vendetta, escrito por Alan Moore e ilustrado por David Lloyd. A história do anarquista anónimo com a máscara de Guy Fawkes que procura devolver a liberdade a uma Inglaterra distópica dominada por um partido fascista rapidamente se tornou num dos comics mais populares da "Warrior" - pelo que, aquando do cancelamento da revista em 1985, várias editoras procuraram reeditar V for Vendetta e concluir a narrativa que ficara incompleta nas páginas da revista.

Essa publicação viria a ser feita pela DC Comics, numa série de dez fascículos que reeditaram as histórias da desaparecida Warrior a cores (a publicação original era a preto e branco), e completaram a narrativa de V. Desde então, a história completa de V for Vendetta já foi publicada na totalidade em edições paperback da linha Vertigo da DC Comics, e numa Absolute Edition em formato hardcover, com material inédito.

Em 2005, V for Vendetta é adaptado para o cinema, num filme realizado por James McTeigue com argumento escrito por Larry e Andy Wachowsky (The Matrix). O elento inclui Hugo Weaving no papel de V, Natalie Portman como Evey Hammond, Stephen Rea como Eric Finch e John Hurt como Adam Sutler (a versão cinematográfica do ditador Adam Susan dos comics), entre outros actores consagrados (como Stephen Fry). Alan Moore, tradicionalmente adverso a adaptações cinematográficas dos seus trabalhos, afastou-se por completo do projecto e não permitiu que o seu nome surgisse associado ao filme. Substancialmente diferente da graphic novel em que se baseia não só em termos de densidade e profundidade narrativa como também nos episódios e nas personagens, o filme V for Vendetta teve uma recepção algo tépida por parte da crítica, mas rapidamente ganhou a aclamação do público e conquistou um espaço muito próprio na cultura popular da primeira década deste milénio.

(continua)

Remember, remember, the 5th of November

Acompanhando o espírito da época, o Viagem a Andrómeda vai dedicar esta semana a V for Vendetta, a icónica graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, e à respectiva adaptação cinematográfica escrita por Larry e Andy Wachowsky em 2005 e realizada por James McTeigue. Ao longo da semana serão publicados vários artigos (ou assim espero) sobre a obra de Moore e Lloyd, sobre as características do comic que passaram para o cinema, e sobre a importância e a influência de ambas as obras. Estão assim seleccionados o livro e o filme para esta semana, apesar de os artigos sobre ambos não irem aparecer de forma convencional no blogue. 

Artigos sobre outros temas continuarão a ser publicados como é habitual.

[Texto editado para rectificar uma incorrecção: o filme foi realizado por James McTeigue, e não por Larry e Andy Wachowsky - que escreveram o guião]