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10 de julho de 2013

Que livros de fantasia e ficção científica dariam um bom videojogo?

O fantástico tem sido um terreno fértil para a construção de narrativas que se expandem por vários formatos - de filmes que dão origem a livros a obras literárias que se vêem adaptadas ao grande ecrã (e ao pequeno também), com os muito afamados (e difamados) tie-ins e as novelizações de maior ou menor sucesso. O universo dos videojogos não é excepção, sobretudo à medida que as narrativas do formato se tornam cada vez mais centrais ao desenvolvimento de novos títulos - basta ver os elogios recolhidos por jogos como The Walking Dead, The Last of Us, Bioshock, Heavy Rain - em muitos casos, devido às histórias que contam e à forma como as desenvolvem de forma interactiva. É frequente encontrarmos livros dos universos ficcionais desenvolvidos em alguns jogos - Halo, Assassin's Creed, Starcraft, Warcraft e Mass Effect serão apenas alguns exemplos de videojogos de grande sucesso cujas histórias e as personagens passaram dos pixels para as páginas. 

Mas o contrário também acontece: nos anos 90, o célebre conto I Have No Mouth, and I Must Scream, de Harlan Ellison, foi adaptado para videojogo em colaboração com o próprio autor; e, mais recentemente, o universo ficcional de dark fantasy do polaco Andrzej Sapkowski serviu de base para uma das mais populares séries de jogos de role-play dos últimos anos: The Witcher. No SF Signal perguntou-se a vários escritores, criadores de jogos e críticos que obras literárias de fantasia e ficção científica dariam universos interactivos interessantes; as respostas são variadas e podem ser consultadas aqui. E as minhas duas sugestões:

A primeira, óbvia (e não mencionada nas respostas do artigo original): Hyperion, de Dan Simmons. Não há volta a dar: o vasto universo criado por Simmons com profecias, cultos tenebrosos, planetas tão diversos como estranhos, treeships, inteligências artificiais com agendas próprias dariam um ambiente formidável para um jogo de aventura ou de role-play ambicioso. Quem tiver, como eu, jogado Resident Evil 3: Nemesis lembrar-se-á decerto do terror que era circular por os espaços claustrofóbicos de uma Raccoon City devastada com o temível 'Nemesis' no encalço do jogador (com aquela música a acompanhar). Imagine-se então isso com o Shrike nos túneis sobre Hyperion, ou nas Time-Tombs. Pois.

O segundo, talvez menos óbvio: Lord of Light, de Roger Zelazny. Também para um formato role-play, claro - o universo criado por Zelazny com uma mistura exótica e fascinante entre fantasia e ficção científica, divindades indianas e tecnologia tão sofisticada que não se distingue da magia (pun intended) serviria certamente de fundação para vários cenários distintos, criaturas prodigiosas e uma narrativa intrincada entre os céus e a terra. Fazer level up a Sam até ele se tornar no Lord of Light? Este eu compraria no dia de lançamento.

Fonte: SF Signal

10 de março de 2013

Citação fantástica (57)

Names are not important... To speak is to name names, but to speak is not important. A thing happens once that has never happened before. Seeing it, a man looks upon reality. He cannot tell others what he has seen. Others wish to know, however, so they question him saying, 'What is it like, this thing you have seen?' So he tries to tell them. Perhaps he has seen the very first fire in the world. He tells them, 'It is red, like a poppy, but through it dance other colors. It has no form, like water, flowing everywhere. It is warm, like the sun of summer, only warmer. It exists for a time upon a piece of wood, and then the wood is gone, as though it were eaten, leaving behind that which is black and can be sifted like sand. When the wood is gone, it too is gone.' Therefore, the hearers must think reality is like a poppy, like water, like the sun, like that which eats and excretes. They think it is like to anything that they are told it is like by the man who has known it. But they have not looked upon fire. They cannot really know it. They can only know of it. But fire comes again into the world, many times. More men look upon fire. After a time, fire is as common as grass and clouds and the air they breathe. They see that, while it is like a poppy, it is not a poppy, while it is like water, it is not water, while it is like the sun, it is not the sun, and while it is like that which eats and passes wastes, it is not that which eats and passes wastes, but something different from each of these apart or all of these together. So they look upon this new thing and they make a new word to call it. They call it 'fire.'

Roger Zelazny, Lord of Light (1967)

30 de dezembro de 2012

2012 em leituras

Tal como nos videojogos, também nas leituras dediquei em 2012 muito pouco tempo às novidades editoriais do ano, optando por continuar a ler muitos dos clássicos da fantasia e da ficção científica que tenho em falta. É certo que a lista de leituras futuras continua a ser muito longa, mas algumas lacunas mais sérias já foram preenchidas - e, diga-se de passagem, com imenso prazer. Seria difícil (para não dizer inútil) falar num único artigo de todos os livros que li em 2012, isto partindo do princípio de que ainda seria capaz de enumerar a lista completa. Assim, e tendo a sensação de que me esqueço de algo, aqui ficam os meus destaques de leitura deste ano que está mesmo quase a terminar. 

The Stars My Destination (Alfred Bester, 1953)
Descrito frequentemente como O Conde de Montecristo da ficção científica, The Stars My Destination conta a fabulosa e sangrenta odisseia de vingança de Gully Foyle, um homem em nada excepcional que foi abandonado à sua sorte nos destroços de uma nave espacial à deriva no Sistema Solar. Isto num futuro em que a Humanidade se espalhou pelos vários planetas e satélites mais próximos, e em que toda a gente possui a capacidade de se teletransportar. As alterações sociais provocadas pelo teletransporte compõem o quadro de forma brilhante, mas é Gully Foyle, um autêntico Zé-Ninguém, quem carrega a narrativa às costas a passo de corrida, num ritmo tão vertiginoso como violento, cruzando-se com personagens fascinantes (como Dagenham ou Olivia Presteign) à medida que junta as várias peças do puzzle que é a sua vingança. Muito do que se seguiu na ficção científica literária tem neste livro as suas raízes, o que, julgo, diz alguma coisa sobre quão importante foi na sua época.

The Forever War (Joe Haldeman, 1973)
Numa das mais relevantes obras da ficção científica militar, Joe Haldeman transporta a Guerra do Vietname - na qual combateu - para um futuro no qual as grandes batalhas são travadas no espaço. Da recruta ao combate real, Haldeman usa o pretexto da guerra contra os "Taurans" para reflectir sobre o absurdo da guerra, sobre a forma como nunca conhecemos verdadeiramente o nosso inimigo, e sobre a forma como a guerra muda de forma inevitável e irreversível quem nela participa. Quando o familiar se torna estranho e quando as causas se tornam difusas, qual é o sentido do combate? Com uma narrativa muito bem articulada, Haldeman recorre a um realismo científico invulgar para colocar estas (e outras) questões, utilizando a relatividade do tempo no espaço para acentuar a estranheza dos combatentes à medida que os anos se sucedem a ritmos diferentes na guerra e no mundo que o soldado Mandella e os seus companheiros juraram proteger. A todos os níveis, The Forever War é uma obra fundamental na ficção científica. 

A Canticle for Leibowitz (Walter M. Miller, Jr., 1960)
É possível que A Canticle for Leibowitz seja a obra mãe da ficção pós-apocalíptica que tão bons livros e filmes nos deu ao longo das últimas décadas. Muitos anos após o cataclismo nuclear que arrasou a civilização no então longínquo século XX, os frades da Ordem de Leibowitz - que julgam um mártir - dedicam-se à preservação de todo o conhecimento científico que esteja ao seu alcance, ainda que nem sempre tenham um entendimento muito preciso daquilo que têm em mãos. Isto, claro, enquanto tentam obter a beatificação do seu santo padroeiro, e enquanto lutam pela sobrevivência num mundo devastado. Publicada originalmente na The Magazine of Fantasy and Science Fiction em três partes, A Canticle for Leibowitz é uma história muito bem conseguida e particularmente bem humorada sobre a natureza humana, e sobre o carácter cíclico - e quase sempre irónico - que a História acaba sempre por assumir.

Hyperion / The Fall of Hyperion (Dan Simmons, 1989/1990)
Ainda a leitura ia a meio e já Hyperion, de Dan Simmons, se tinha tornado num dos meus livros de ficção científica preferidos - pela escrita elegante, pelas referências literárias, e sobretudo pela densidade da narrativa. Um acaso que é tudo menos casual juntou sete desconhecidos numa peregrinação à lendária criatura conhecida como Shrike, no remoto planeta Hyperion - e, durante a longa viagem, decidem partilhar as suas histórias e o que os levou a alinhar naquela aventura suicida. Mais do que uma história, Hyperion é composto pelas formidáveis histórias individuais de cada um dos peregrinos, que contém as várias peças do vasto puzzle da guerra de proporções galácticas que se avizinha. Afinal, qual é a relevância de Hyperion no conflito entre os mundos da Web e os Ousters? E qual é o papel da AI Technocore? As respostas são dadas no surpreendente The Fall of Hyperion, fechando de forma formidável esta parte dos Hyperion Cantos

Stand on Zanzibar (John Brunner, 1968)
Para todos os efeitos, John Brunner falhou na previsão: apesar de a população terrestre em 2010 ser de (mais ou menos) sete mil milhões de indivíduos, as consequências da sobrepopulação estão longe daquelas que imaginou em Stand on Zanzibar. O que, para todos os efeitos, é irrelevante: a sobria distopia que descreveu de forma prodigiosa neste livro premiado continua a ser relevante e, acima de tudo, assustadoramente plausível. Num estilo narrativo que, sendo reminescente de John Dos Passos, nunca deixa de ser original e inovador, Stand on Zanzibar marcou os anos da "New Wave" com as histórias paralelas de Norman House e Donald Hogan num mundo caótico onde o espaço e a privacidade se tornaram luxos. As muitas histórias paralelas dão cor ao mundo imaginado por Brunner ao focar os vários aspectos desta distopia, e há qualquer coisa de vagamente premonitório (e genial) nos infodumps com que o autor apresenta personagens, introduz factos e coloca mais questões do que respostas. 

Lord of Light (Roger Zelazny, 1967)
Pode um livro excepcional ter origem num trocadilho? Pode, e Roger Zelazny demonstrou-o em 1967 com Lord of Light, misturando fantasia épica e ficção científica de forma elegante e irónica. O trocadilho fica à descoberta dos leitores, tal como a história de Mahasamatman, que deixou cair o -Maha e o  -atman para ser conhecido apenas por Sam. Sam abandonou o panteão dos deuses para viver entre os homens e, no seu caminho, decidiu devolver à Humanidade todo o conhecimento e todo o progresso que aqueles lhe negavam. Como é que uma história sobre a revolta contra o divino pode incluir ficção científica? Esse é justamente uma das maravilhas de Lord of Light e da sua recriação sui generis das divindades Hindus. Com uma interessante estrutura narrativa circular, Zelazny desenvolve uma fascinante história de queda e ascensão onde Yama, Brahma, Shiva, Ratri, Mara e Ganesha merecem destaque, mas na qual é Sam, o Buddha, quem de facto brilha. 


The Colour of Magic (Terry Pratchett, 1983)
No final do ano passado, defini como única resolução para 2012 começar a ler a série Discworld, de Terry Pratchett, após me ter maravilhado com o conto The Sea and Little Fishes que encontrei na antologia Legends, de Robert Silverberg. Logo em Janeiro li The Colour of Magic, primeiro volume nesta série que já conta com 39 livros publicados, vários contos e inúmeros livros paralelos, e apesar de esperar uma leitura divertida, acabei por me surpreender com a (aparentemente infinita) capacidade de Pratchett descrever as mais absurdas e hilariantes situações no mundo fantástico de Discworld (que, como se sabe, assenta sobre quatro elefantes enormes que estão de pé sobre a carapaça da Great A'tuin, a tartaruga cósmica). The Colour of Magic apresenta o inábil feiticeiro Rincewind, a formidável Luggage, a Morte e a grande cidade de Ankh-Morpork - e ainda que possa não ser o livro mais divertido da série, é nele que tudo tem início.


The Farthest Shore (Ursula K. Le Guin, 1972)
Earthsea, o universo de fantasia de Ursula K. Le Guin, ocupa um lugar de destaque na fantasia moderna. Com cinco romances e vários contos, Earthsea esconde vários temas adultos numa narrativa de tom mais próximo da literatura young adult e em personagens e localizações fascinantes. A Wizard of Earthsea é o primeiro desses livros, publicado em 1968, mas foi The Farthest Shore, o terceiro livro da série, que mais me tocou. Com a magia a desaparecer do mundo, o feiticeiro Ged junta-se ao jovem príncipe Arren numa viagem pelas ilhas mais remotas do vasto arquipélago de Earthsea. Nessa expedição encontram tribos muito diferentes, dragões e um terrível inimigo que os obrigará a ir para lá dos limites do mundo desconhecido e a enfrentar os seus maiores receios. Tal como nos outros livros da série, em The Farthest Shore Le Guin desenvolve uma história muito contida com um ritmo excepcional, explorando novas facetas do universo de Earthsea numa aventura que se revela mais madura do que aquelas que a antecedem.

The Last Wish (Andrzej Sapkowski, 1993)
The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings são dois dos mais aclamados videojogos dos últimos cinco anos, e têm a sua origem na obra do escritor polaco Andrzej Sapkowski. Nos vários contos que compõem a antologia The Last Wish, Sapkowksi apresenta Geralt of Rivia, o cínico caçador de monstros que assume o papel principal tanto nos livros e contos como nos populares videojogos. À primeira vista, o universo descrito nos vários contos que compõem The Last Wish parece semelhante a outros universos de fantasia medieval de inspiração tolkieniana, com elfos e anões a conviverem com os seres humanos, e com muita sword & sorcery. A diferença reside no tom, e é aqui que Sapkowski revela toda a sua mestria, criando fábulas que, num tom tão cínico como sarcástico, desconstroem as convenções e os clichés da fantasia épica e dos contos de fadas para criar histórias onde o Bem e o Mal raramente são aquilo que parecem ser

20 de dezembro de 2012

Notas sobre ficção científica (5)

A crucial dynamic in the writing of speculative fiction is the tension between Fantasy and Science Fiction. Of course, for some the distinction between these two terms is very clear: Fantasy, like Tolkien, includes magic; SF, like Arthur C. Clarke, technology. But Clarke famously noted that any sufficiently advanced technology will appear magical; and the best examples of the genre demonstrate that the borderline between these two things is far from clear. Zelazny's Lord of Light is a brilliant demonstration of this: a novel at one and the same time both a superb science fictional tale, in which all the fabulous and fantastical things that happen are rationalized in technological terms; and a superb example of High Fantasy, in which gods and demons mingle with mortals and powerful magic is loosed upon the world. Indeed, one way of reading Lord of Light is as a modification of Clarke's celebrated apothegm: any sufficiently advanced technology, Zelazny is saying, is indistinguishable from religious myth.


Adam Roberts, na introdução de Lord of Light, de Roger Zelazny (1967), edição SF Masterworks da Gollancz.

12 de dezembro de 2012

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Dezembro: À conversa com João Leal

Na passada Sexta-feira o Clube de Leitura Bertrand do Fantástico voltou a reunir-se em Lisboa. Lord of Light, de Roger Zelazny, serviu de mote à tertúlia que teve como convidado o escritor João Leal, que falou sobre o seu primeiro livro, Alçapão.

Sobre Lord of Light, falou-se dos elementos religiosos e da invulgar mistura de fantasia e de ficção científica que Roger Zelazny soube desenvolver com mestria. Mas o destaque da sessão foi mesmo para Alçapão. Publicado em 2001 pela Quetzal, Alçapão foi o livro de estreia de João Leal, e é uma história dividida em duas, uma no presente e outra "num passado entre o Dilúvio e a Torre de Babel". Segundo o autor, não foi o primeiro livro que escreveu, mas sim o primeiro que publicou - e apesar de nunca antes ter escrito um livro que entrasse no Fantástico, não achou que o desafio fosse muito difícil.

A primeira parte do livro, centrada no cenário do orfanato, foi a última a ser escrita. Começou por escrever a segunda parte do livro, a história da ilha, algo que lhe deu especial prazer. "Há com a ilha uma relação quase animista", comenta, referindo todos os problemas básicos que teve de criar para tornar aquele cenário verosímil - o que comer, as distâncias, os espaços, os ofícios, entre muitos outros aspectos. Já pensou em escrever um conjunto de contos passados sobre a ilha, mas lamenta que "em Portugal ninguém queira publicar contos". Deverá, contudo, voltar a este universo. Aliás, admite desde logo que Alçapão é, de certa forma, uma "narrativa inicial" de um universo mais vasto que pretende continuar a explorar ao longo dos anos, explorando os seus estudos de teologia e angelologia.

Para já, porém, João Leal está a dedicar o seu tempo a um novo livro, que talvez seja publicado em 2013 (se estiver pronto a tempo), e que já rescreveu três vezes, com muitas alterações. "É fácil escrever um livro linear", considera, admitindo que a dificuldade reside no equilíbrio das muitas ideias que vão surgindo. Muitas foram já introduzidas, tanto em termos de conceitos como em questões meramente formais. No entanto, conclui afirmando que "o que me interessa na escrita é contar boas histórias", e que "o leitor deve divertir-se" na leitura.

Finda a sessão, decorreu mais uma Tertúlia Noite Fantástica, decerto muito animada (desta vez não me foi possível estar presente). E a indicação de que em Janeiro, o Clube de Leitura irá até Marte...

7 de dezembro de 2012

Lord of Light, ou quando os deuses misturam a fantasia e a ficção científica

Roger Zelazny venceu o Prémio Hugo em 1968 com um trocadilho. Ou quase: reza a lenda (se preferirem: de acordo com George R. R. Martin, amigo de Zelazny) que toda a ideia que veio dar origem ao formidável Lord of Light (1967) partiu do trocadilho the fit hit the Shan, que de facto se encontra reproduzido nas páginas do livro, a dada altura. É caso para dizer: pun intended. Com ou sem trocadilho, a verdade é que Lord of Light é um livro tão fascinante pela narrativa que contém como pelas inúmeras narrativas que surgiram de forma mais ou menos espontânea à sua volta. E, para todos os efeitos, é um livro fascinante, uma fusão improvável mas muito bem conseguida de ficção científica com fantasia e religião, num tom especialmente irónico. 

Mas comecemos pelo início. A coisa tem quase o estatuto de cliché - várias foram as críticas, análises ou resenhas que li de Lord of Light citam algures no texto o primeiro parágrafo do livro - que, para todos os efeitos, é uma das melhores aberturas que já li em ficção científica (e não só):
His followers called him Mahasamatman and said he was a god. He preferred to drop the Maha- and the -atman, however, and called himself Sam. He never claimed to be a god, but then he never claimed not to be a god. Circumstances being what they were, neither admission could be of any benefit. Silence, though, could. 
Assim se apresenta o protagonista, Sam, que ao longo da sua longa vida em vários corpos já tfoi conhecido por vários outros nomes: Kalkin, Siddhartha, Maitreya, Lord of Light, Binder of Demons, The Enlightened One, Buddha (entre outros). Independentemente de, no presente narrativo, ser ou não um deus, é um facto que já o foi no passado, mas desde que decidiu descer dos céus dedicou-se com zelo e fervor a derrubar o poder dos deuses e a distribuí-lo pelos homens.

E que deuses são estes? Para todos os efeitos, são os deuses Hindus, reaparecidos num planeta distante que conquistaram aos demónios para permitirem que a Humanidade o colonizasse, debaixo da sua divina protecção. Brahma, Vishnu e Shiva governam o reino celestial em triunvirato, sob o qual encontramos todos os outros deuses e semideuses do panteão Hindu: Kali, Yama, Ratri, Kubera, Ganesha, Krishna, e muitos outros. A verdade é que estes deuses não são bem aquilo que parecem ser, nem os seus poderes são exactamente divinos, ou mesmo sobrenaturais. Aliás, esse é um dos encantos de Lord of Light: nada daquilo que Zelazny descreve é o que aparenta, num jogo de espelhos tão subtil como inteligente que confere à ficção científica, base de toda a narrativa, um carácter muito verosímil de fantasia épica com uma forte temática religiosa. O resultado é a história prodigiosa da rebelião de um homem contra todo um panteão superior: com o plano que trava, as alianças que forma, e as improvisações que concebe à medida que os acontecimentos se sucedem.

Em termos de narrativa, Lord of Light não obedece a uma estrutura linear - cada um dos sete capítulos é vasto e encerra em si uma pequena história; juntos, os sete formam uma história mais vasta, que, em termos cronológicos, começa não no primeiro mas no segundo. O resultado é uma estrutura não linear mas sujeita a uma curiosa sequência interna, sujeita a uma lógica circular que propõe uma conclusão interessante. A escrita é soberba, com um tom épico e ao mesmo tempo irónico que contribui de forma decisiva para tornar Lord of Light numa obra excepcional.

Fora das páginas, e trocadilhos à parte, já se pensou, há muito tempo, em adaptar Lord of Light para o cinema - um projecto que seria sem dúvida interessante, mas que nunca chegou a ser concretizado. Não que a ideia tenha sido desperdiçada: a suposta produção de um filme de ficção científica serviu de pretexto à CIA para uma curiosa operação de extracção de cidadãos norte-americanos da embaixada do Canadá em Teerão durante a revolução iraniana de 1979. Esta história (verídica) foi há pouco tempo adaptada ao cinema no filme Argo. Já a adaptação de Zelazny ficou para sempre nas proverbiais águas de bacalhau, o que não deixa de ser uma pena. 

Voltando ao livro para a conclusão: diferentes leitores vão decerto ler Lord of Light à luz das suas próprias referências - e, nesse contexto, poderão assumi-lo tanto como um livro de fantasia pura como de ficção científica pura. É ambos - e uma das maravilhas do livro é ver como Zelazny conseguiu misturar os elementos de ambos de forma tão consistente para criar algo novo e único. Lord of Light é daqueles raros livros que apetece recomeçar a ler logo após de se ter acabado a única página, para ver todos os detalhes que compõem o quadro. Entra directamente para a lista dos melhores. 

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: Lord of Light e Alçapão em Lisboa

O Clube de Leitura Bertrand do Fantástico volta a reunir-se em Lisboa hoje ao final do dia. Na Livraria Bertrand do Chiado vai estar em discussão a partir das 19:00 Lord of Light, livro de 1967 que valeu a Roger Zelazny o Prémio Hugo e que fundiu fantasia e ficção científica de forma excepcional. O convidado desta sessão será João Leal, que irá falar sobre o seu romance de estreia, Alçapão. A moderação, para não variar, estará a cargo do Rogério Ribeiro. 

Como é habitual, logo de seguida terá lugar o sempre animado jantar da Tertúlia Noite Fantástica.

18 de novembro de 2012

Citação fantástica (41)

It is the difference between the unknown and the unknowable, between science and fantasy--it is a matter of essence. The four points of the compass be logic, knowledge, wisdom and the unknown. Some do bow in that final direction. Others advance upon it. To bow before the one is to lose sight of the three. I may submit to the unknown, but never to the unknowable.

Roger Zelazny, Lord of Light (1967)

24 de agosto de 2012

Clube de Leitura Bertrand do Fantástico: Anunciados livros e convidados para as próximas três sessões (Lisboa)

As próximas sessões do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa já têm data marcada, livros escolhidos e convidados - com a devida antecedência para que todos os interessados tenham tempo de colocar as leituras em dia. A agenda será:

12 de Outubro: The Time Traveler's Wife, de Audrey Niffenegger (2003). O romance de estreia da norte-americana Audrey Niffenegger é uma história de amor através do tempo, entre Clare Anne Abshire e Henry DeTamble -  que, devido a uma desordem genética muito invulgar, viaja no tempo de forma involuntária e fora de controlo, sem saber onde vai parar. The Time Traveler's Wife foi adaptado para o cinema em 2009 por Robert Schwentke, com Eric Bana e Rachel McAdams. O convidado desta sessão é o autor Bruno Martins Soares, que este ano concluiu A Saga de Alex 9, trilogia recentemente reeditada pela Saída de Emergência num único volume. 



9 de Novembro: Brasyl, de Ian McDonald (2007). Nomeado para os principais prémios internacionais de ficção científica em 2008 e 2009, Brasyl é uma narrativa tripartida, dividindo-se pelo tempo presente, pelo futuro em meados do século XXI e pelo século XVIII - mas sempre no Brasil. Muito apropriadamente, o convidado para a sessão dedicada a este livro é o primeiro convidado internacional do Clube de Leitura (pelo menos em Lisboa) - o autor brasileiro Eduardo Spohr, cujo livro A Batalha do Apocalipse foi publicado em Portugal pela Editorial Presença. 





7 de Dezembro: Lord of Light, de Roger Zelazny (1968). Distinguido com o Prémio Hugo na categoria "Best Novel" em 1968 (e nomeado para o Nébula), Lord of Light passa-se num planeta distante e hostil no qual os colonos da nave espacial "Star of India" se vêem obrigados a sobreviver. E para isso recorrem à tecnologia que dominam, alterando as suas mentes, reforçando os seus corpos e alcançando até uma forma de quase imortalidade... O convidado para a sessão sobre este clássico da ficção científica será o escritor João Leal, que publicou em 2011 o romance Alçapão, na Quetzal.