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14 de agosto de 2014

This happening world (19)

(os artigos de hoje chegam com um atraso maior do que o habitual - mas continuam a ser excelentes leituras para quem ainda não passou os olhos por eles)

Por que motivo Dune, de Frank Herbert, não se tornou num fenómeno cultural como The Lord of the Rings ou Star Wars apesar de ser consistentemente considerado um dos melhores e mais importantes romances da ficção científica literária? Jon Michaud procura dar uma resposta a esta questão na The New Yorker com o artigo Dune Endures - e acaba por revisitar um dos maiores clássicos que o género já conheceu, porventura mais actual hoje do que à data da sua publicação nos longínquos anos 60 (também poderíamos arriscar, em jeito de resposta, que a adaptação cinematográfica de Dune por David Lynch tem os seus... problemas, e que isso não terá decerto ajudado à popularização do texto).

A biografia de Joss Whedon deu que falar em finais de Julho e inícios de Agosto - e tanto o io9 como a Tor deram algum destaque ao lançamento, publicando excertos sobre diferentes aspectos de Firefly. Charlie Jane Anders publicou no io9 o capítulo 17 da biografia, dedicado à concepção do universo ficcional do malogrado space western do criador de Buffy; e Amy Pascale (autora da biografia) destacou no portal da Tor o capítulo 19, sobre o cancelamento prematuro de Firefly pela Fox, com as reacções de Whedon, do elenco e da equipa que conseguiu fazer de uma série interrompida um fenómeno de culto assinalável. Ambas as passagens são leitura obrigatória para qualquer browncoat que se preze.

No Ars Technica, Lee Hutchinson explora as origens do termo xenomorph na franchise cinematográfica de Alien - levantando a questão (muito interessante, por sinal) sobre se a expressão se refere a qualquer forma de vida alienígena naquele universo ficcional ou se é aplicável apenas à criatura adaptável que a tripulação da Nostromo encontrou em LV-426. E, de caminho, Hutchinston aproveita ainda para analisar, no contexto de Aliens (1986), o blackout informativo da Weiland-Yutani a propósito da criatura quando envia a expedição de Colonial Marines- com Ripley - para a colónia incontactável de Hadley's Hope.

Goste-se ou não, a verdade é que poucos fenómenos literários se podem comparar ao de Harry Potter, a saga de fantasia literária que tornou J. K. Rowling milionária e que se tornou numa força imparável na cultura pop contemporânea. No Boing Boing, Caroline Siede explora os factores que fizeram da história do jovem feiticeiro e herói acidental uma leitura compulsiva para milhões de leitores em todo o mundo, ao ponto de se tornar na obra de referência para toda uma geração.

20 de fevereiro de 2014

A ficção científica nos "anos 00": Filmes que definem o milénio (até agora)

No io9, Charlie Jane Anders pergunta aos leitores do blogue qual foi, até ao momento, a obra de ficção científica deste ainda novo milénio que melhor o definiu. O que, diga-se de passagem, é uma boa pergunta., ainda que incompleta - Anders refere-se em concreto à literatura, ao cinema e à televisão, mas os "anos 00" consagraram em definitivo os videojogos como um veículo narrativo do género, e vários são os títulos que poderiam ser mencionados. Para simplificar um pouco (e para ocultar as minhas vastas lacunas no que à literatura de ficção científica contemporânea diz respeito), este artigo vai restringir-se ao cinema - e ainda que neste meio os "anos 00" não tenham sido tão impressionantes como as duas décadas anteriores, estrearam ao longo dos últimos 14 anos vários filmes de ficção científica marcantes, talvez até revolucionários num detalhe ou outro - nada da dimensão de The Matrix no final dos anos 90, é certo, mas o milénio ainda mal começou. Nem por isso, porém, deixaram vários filmes de capturar muito bem alguns fragmentos - quando não autênticas tendências - do air du temps. Abaixo, seguem quatro propostas (e uma menção honrosa).

Minority Report (Steven Spielberg, 2002)
Deixando o óbvio fora do caminho desde logo - não, esta adaptação de Steven Spielberg ao célebre conto de Philip K. Dick não está sequer perto de ser um dos melhores filmes de ficção científica estreados após a viragem do milénio (apesar de ser um filme bastante acima da média, e um ao qual talvez não tenha dado o devido valor). Olhando hoje para trás, porém, não deixa de ser impressionante ver como as suas interfaces tácteis, tão arrojadas em 2002, se tornaram banais em 2014. Só por essa curiosidade tecnológica o filme já seria merecedor de atenção em qualquer exercício deste género; se a isso juntarmos o elefante na sala que é a erosão da privacidade pela publicidade intrusiva, direccionada e contextualizada (Google, anyone?) e as questões éticas sobre a vigilância electrónica compulsiva, então Minority Report revela-se estranhamente presciente quanto aos anos que estavam ainda por vir. 

Children of Men (Alfonso Cuarón, 2006)
Para além de ser provavelmente o melhor filme de ficção científica deste milénio (até agora), Children of Men acertou cheio no air du temps contemporâneo - cinzento carregado, depressivo e um tanto ou quanto desesperado (e desesperançado). Numa palavra odiosa: grimdark. Na ambiguidade do seu final não cabe, ou poderá não caber, a relativa paz do final de Minority Report ou de Eternal Sunshine of the Spotless Mind (outro dos grandes da década); e o futuro que prevê, de esterilidade humana generalizada, estará longe de se verificar (ainda que possa talvez servir de metáfora para o declínio populacional ocidental). Mas as questões de imigração e integração que o filme aflora com brevidade são hoje bastante actuais; e os tumultos sociais que Cuarón filmou com a sua mestria inimitável assemelham-se bastante - porventura demasiado - a algumas situações que têm emergido, com mais regularidade do que seria desejável, ao longo da última década. 

District 9 (Neill Blomkamp, 2009)
O filme de estreia de Neill Blomkamp surge aqui quase como bónus. A sua importância, é certo, não pode ser negada - a nomeação para o Óscar na categoria principal (feito alcançado por muito poucos filmes de género até à data) atesta-o, tal como a aclamação crítica mais ou menos generalizada. Mas numa época em que a ficção científica passa por uma crise de identidade, o exercício de Blomkamp torna-se notável pela sua capacidade de recuperar e refrescar convenções antigas do género, utilizando-as como veículo para um comentário social tão actual como devastador. E fê-lo sem abdicar da acção frenética e da estética sofisticada que são o bread and butter de muita ficção científica cinematográfica nos dias que correm, num filme com personagens memoráveis e uma construção narrativa muito eficaz. District 9 provou em definitivo que a ficção científica no cinema é mais do que os seus efeitos especiais - utilizada com mestria, pode dar uma perspectiva única sobre temas já antigos e tantas vezes retratados na Sétima Arte. Convenhamos: o tema da segregação racial, e mesmo do appartheid, não são novos no cinema; mas quantos filmes conseguiram abordá-los com uma metáfora tão poderosa como a transformação de Wikus van der Merwe?

The Avengers (Joss Whedon, 2012)
Na secção de comentários do artigo original, um comentador elegeu Avatar, de James Cameron, como o filme mais representativo deste milénio - pelo domínio do visual sobre a narrativa. A ideia tem o seu mérito; mas no que aos blockbusters diz respeito julgo que The Avengers, de Joss Whedon, será talvez mais representativo do blockbuster moderno - para todos os efeitos, foi o culminar de uma aposta que se estendeu ao longo de uma década inteira (o malfadado Hulk de Ang Lee estreou, convém lembrar, em 2003) que deu aos super-heróis da Marvel um lugar de destaque na cultura popular do novo milénio e que deu um contributo decisivo para retirar os super-heróis da coutada nerd à qual pertenciam e torná-los trendy. Ainda que nem todos os filmes que desaguaram em The Avengers tenham sido de facto bons (em termos médios, a coisa terá sido talvez medíocre), a aposta foi ganha e o modelo de negócio triunfou - que a segunda fase do plano, com vista a The Avengers 2: Age of Ultron esteja já em marcha e que a adaptação de Guardians of the Galaxy, muito mais arriscada por se tratar de uma propriedade intelectual menos conhecida e mais science fiction-y, esteja a ser aguardada com muita expectativa são prova disso mesmo.

Menção honrosa: Moon (Duncan Jones, 2009)
Puro wishful thinking: Moon, com o seu minimalismo narrativo, estético e, acima de tudo, orçamental, poderá vir a ser para anos vindouros exemplo de como é possível contar uma excelente história de ficção científica sem um orçamento de centenas de milhões de dólares, um elenco polvilhado de estrelas e excesso de pirotecnia visual. Para já, fica a promessa. 

Fonte: io9

10 de janeiro de 2014

You can't stop the signal, Mal: A ressureição de Firefly na banda desenhada

É possível que Firefly se tenha tornado mais conhecida ao longo dos anos pelo seu prematuro e inesperado cancelamento pela Fox ainda antes da conclusão da sua primeira temporada - mas a verdade é que com o passar dos anos, o culto em redor do universo ficcional criado por Joss Whedon com inspirações de space opera e de western cresceu de forma desmesurada. Muitas pontas soltas na narrativa ficaram inevitavelmente por atar - e o filme de 2005, ainda que tenha sido muito bem-vindo (apesar do fracasso na bilheteira), não conseguiu resolver todas as pequenas histórias deixadas em aberto. Não surpreende por isso que Firefly tenha acabado por ganhar uma nova vida na banda desenhada - e foi na Dark Horse Comics que Malcolm Reynolds, Zoe, Wash, Jayne, Kaylee, Inara, Shepherd Book, Simon e River acabaram por ganhar uma nova vida, em várias aventuras mais ou menos soltas, que exploram algumas facetas das personagens e que resolvem ideias deixadas em aberto na série (e há ainda uma nova série na calha a continuar a narrativa após os acontecimentos do filme).

É certo que as bandas desenhadas de Serenity foram feitas a pensar sobretudo nos fãs - quem não tiver o enquadramento dos 14 episódios originais e do filme dificilmente encontrará nestas páginas algo que lhe encha as medidas. Mas para os fãs de Firefly, para os verdadeiros browncoats, estas bandas desenhadas, por breves que sejam, e com todas as suas limitações e falhas (haverá algumas a registar), são sempre bem-vindas - são uma forma de regressar àquele fascinante universo ficcional, e a algumas das melhores personagens que a ficção científica conheceu no pequeno ecrã nas últimas décadas. Aqui fica uma breve análise às histórias de Malcolm Reynolds e da tripulação da "Serenity" contidas na edição paperback de Those Left Behind e no volume hardcover Better Days and Other Stories.


Those Left Behind
História de Joss Whedon e Brett Matthews / Arte de Will Conrad / Cor de Laura Martin
Publicada originalmente em três fascículos em 2005 (e em 2006 compilada numa pequena graphic novel) na sequência da estreia de Serenity, a história de Those Left Behind serve de transição entre a série inacabada e o filme, atando algumas das suas pontas soltas - a saber, o destino dos enigmáticos agentes conhecidos apenas como "Hands of Blue" e a passagem da sua missão para o "Operative" e a partida de Shepherd Book e de Inara. Para isso, Whedon e Matthews pegam numa ponta que parecia estar bem fechada: no Agente Dobson. Para quem não se lembra, no episódio piloto de Firefly o Agente Dobson infiltrou-se na "Serenity" para capturar River e Sam - para acabar, após várias peripécias, abatido a tiro e atirado para a poeira de Whitefall antes de a nave partir. Mas Dobson não morreu, e os "Hands of Blue" dão-lhe a oportunidade de se vingar da tripulação da "Serenity". Isto, claro, é o ponto de partida do segundo fascículo; o primeiro, esse, é um heist ao melhor estilo de Malcolm Reynolds e da sua equipa: um que nunca corre da forma esperada, e que acaba com uma fuga debaixo de fogo até Wash e Kaylee conseguirem salvar o dia (quanto à terceira parte, essa conclui a história com a transição para o início de Serenity). O argumento de Whedon e Matthews captura na perfeição o espírito da série, com excelentes diálogos e as one-liners ao melhor estilo whedoniano; a arte de Will Conrad, essa, reproduz com rigor as personagens tal como as vimos no pequeno ecrã, e possui excelentes detalhes em alguns momentos. 

Better Days
História de Joss Whedon e Brett Matthews / Arte de Will Conrad / Cor de Michelle Madsen
A segunda mini-série de três fascículos de Serenity data de 2006, e intitula-se Better Days. Joss Whedon, Brett Matthews e Will Conrad voltaram a juntar-se para mais uma aventura da tripulação da "Serenity" - que, tal como a de Those Left Behind, começa com um golpe. Com uma diferença fundamental: este só é mal sucedido na aparência, e termina com um resultado no mínimo inesperado para todos. Whedon e Matthews esmeraram-se neste início, que teria sem dúvida dado um excelente episódio da série: a perseguição é intensa e a reviravolta é excepcional. Claro que é de Malcolm Reynolds e da sua tripulação de que falamos - a dada altura, algo terá de correr mal. E desta vez o vilão será Ephraim Sanda, oficial da Aliança e dedicado a perseguir e a eliminar todos os "dust devils" - nome dado aos rebeldes que, após perderem a guerra, continuaram a luta através de acções violentas. Sanda chega à "Serenity" através de Inara - e fica o enigma sobre quem terá sido o "dust devil". Em termos de história, Better Days cumpre todas as expectativas que os fãs de Firefly podem ter: boa acção, excelentes reviravoltas, a equipa a sair de situações complicadas através de muita imaginação e improvisação. A arte de Will Conrad continua a revelar-se bastante sólida - não arrisca, mas também não compromete. 

The Other Half
História de Jim Krueger / Arte de Will Conrad / Cor de Julius Ortha
Serenity: The Other Half é uma história curta publicada na edição de Agosto de 2008 da revista Dark Horse Presents, mais tarde reeditada na edição hardcover intitulada Better Days and Other Stories. A história começa já após o golpe, com uma nave de Reavers no encalço de Mal e da sua equipa. Mas a bordo do veículo roubado segue também um homem ferido, que não é exactamente quem aparenta ser - e caberá a River descobrir a verdade. The Other Half tem o espírito de Firefly, mas peca por ser demasiado curta - teria sido sem dúvida interessante ver como começou aquele golpe, e ver aquelas personagens um pouco mais em acção.


Downtime
História de Zack Whedon / Arte de Chris Samnee / Cor de Dave Stewart
Downtime é mais uma história curta de Serenity publicada pela Dark Horse em 2010 e reeditada em Better Days and Other Stories - na prática, consiste num breve momento com a tripulação enquanto a "Serenity" está bloqueada devido a um nevão. Destaca-se sobretudo pela arte de Chris Samnee - é bom variar do estilo mais realista de Will Conrad nas histórias anteriores, e Samnee e Stewart fazem um excelente trabalho na ilustração e na cor. E também pela revelação final de River sobre Shepherd Book - algo que não será novo para quem tenha acompanhado a série, mas que nem por isso deixa de ser intrigante.

Float Out:
História de Patton Oswalt / Arte de Patric Reynolds / Cor de Dave Stewart
Mais uma homenagem a Wash do que uma história propriamente dita, Float Out passa-se após os acontecimentos de Serenity, com três estranhos a recordarem as aventuras vividas com o piloto antes de ele ter sido contratado por Malcolm Reynolds. É uma história interessante, mas que peca um pouco por falta de contexto - o tributo a Wash seria sem dúvida um excelente pretexto para a tripulação da "Serenity" recordar aventuras anteriores à série. Enfim, Float Out acaba por valer pela revelação final, decerto com consequências para histórias futuras neste universo.

26 de setembro de 2013

Dark Horse ressuscita Firefly com banda desenhada de Serenity

Há mais ou menos um mês, referi aqui a notícia que dava conta de a Dark Horse Comics estar a prepar algo relacionado com o universo de Firefly, desenvolvido para televisão por Joss Whedon no início da década passada. Essa notícia foi entretanto confirmada e desenvolvida: a história desenvolvida na série e no filme Serenity vai ter uma continuação em banda desenhada, estabelecida na sequência directa do final do filme - ou seja, com Wash e Shepherd Book a permanecerem mortos (a menos que se prepare algum retcon do estilo Agents of SHIELD). A Dark Horse avançou ao portal Comic Book Resources um breve resumo da premissa (via io9): 
As the series begins, Mal and the crew are recouping from their recent strike against the sinister interplanetary government, The Alliance, in which they exposed government agencies as those responsible for the creation of the Reavers — the scourge of the universe. With River Tam in the co-pilot chair and a very pregnant Zoe reeling from the death of her husband, Wash, Mal is finding himself and his ship in greater danger than ever.
E, melhor ainda, com imagens de duas páginas do primeiro fascículo do comic, que ainda não tem data de publicação definida (ou quaisquer outros detalhes como eventuais edições paperback). 

Imagem de Comic Book Resources

Imagem de Comic Book Resources


28 de agosto de 2013

Dark Horse Comics traz de volta Firefly?


Foi com esta imagem alusiva à célebre frase de Wash no filme Serenity (durante aquela memorável batalha) que a Dark Horse Comics surpreendeu no início desta semana a comunidade browncoat. A editora norte-americana já editou várias bandas desenhadas stand alone do universo de science fiction western criado por Joss Whedon em 2002, e prematuramente cancelada pela Fox; este anúncio, porém, parece indicar que está a preparar algo mais ambicioso. Uma continuação directa da série de culto em formato comic? Não se sabe ainda, mas em alguns círculos da Internet a especulação é enorme. Entretanto, aguarda-se mais novidades com optimismo moderado. 


2 de abril de 2013

The Cabin in the Woods, ou a desconstrução do terror pela ficção científica de terror

É-me especialmente difícil escrever sobre The Cabin in the Woods, o filme realizado por Drew Goddard e realizado por Goddard e Joss Whedon que se tornou num dos grandes êxitos da crítica em 2012. Isto por dois motivos. O primeiro: enquanto género cinematográfico (e mesmo literário), o Horror sempre me pareceu pouco atractivo, e poucos foram os filmes que me conseguiram cativar - as mais visíveis excepções serão The Shining (que, enfim, é Kubrick), The Storm of the Century (na prática, mais um thriller sobrenatural com alguns sustos do que um filme de terror). O segundo: o intrincado enredo construído por Goddard e Whedon torna difícil falar das suas forças sem referir spoilers que o enfraquecem. No entanto, talvez estes motivos me ajudem - não sem alguma ironia - a dar forma a algo que se assemelhe a uma crítica, ou a uma análise a The Cabin in the Woods.

Comecemos então pelo primeiro. Mais do que um filme de horror, The Cabin in the Woods é uma desconstrução do género, que utiliza as suas convenções e tropes mais conhecidas para construir uma sátira inteligente, onde nada é aquilo que aparenta aparentar. Isto torna-se evidente na sua premissa fundamental, que poderia descrever The Evil Dead e muitos outros filmes: cinco jovens vão passar um fim-de-semana à casa de campo do familiar de um deles, mas estão muito longe de imaginar o que os espera. E se o clássico  de terror de Sam Raimi é uma das mais evidentes referências ao género (desde logo pela premissa, pela cabana e por muitos outros elementos e easter eggs), ela está longe de ser a única: ao longo dos seus 95 minutos de duração, The Cabin in the Woods homenageia, parodia e alude a inúmeros filmes que fazem parte da história do horror cinematográfico, conjugando as inevitáveis referências aos clássicos do género com outras de carácter mais obscuro. Para os cinéfilos apaixonados pelo horror, o exercício será porventura fascinante.


Já o enredo - para entrar no segundo ponto - é Whedon clássico, temperando a aparente seriedade da premissa com humor e com as suas inevitáveis one-liners, uma das imagens de marca de algumas das suas criações (como Firefly ou The Avengers). Aquilo que mais impressiona no argumento de The Cabin in the Woods, porém, é a inteligência da sua escrita à medida que desenvolve a narrativa como um puzzle, jogando com as expectativas do público para lhe retirar constantemente o tapete. Sabemos desde os primeiros minutos que há algo de errado na ideia apresentada: de um lado, temos os típicos adolescentes, que pequenas sugestões indicam não ser tão típicos quanto isso, a preparar o seu fim-de-semana na floresta; do outro, temos um estranho ambiente de escritório, quase deslocado e sem dúvida descontextualizado, numa narrativa secundária cujo cruzamento com a principal parece ao início improvável (para dizer o mínimo). E diria que isto é tudo aquilo que se pode dizer do filme sem estragar a experiência: se o fim-de-semana daqueles jovens será tudo menos aquilo que eles espera, também The Cabin in the Woods será tudo menos o filme de terror que o público esperará.


Isto porque na sua essência, The Cabin in the Woods é mais do que uma sátira ou do que um filme de terror com elementos de ficção científica. É uma comédia tão negra como inteligente, que parodia de forma elegante os vários elementos que a constituem para gerar tanto sustos como gargalhadas, num misto de homenagem com reflexão sobre o próprio género. Mas o humor que atravessa toda a narrativa não poderia estar mais distante do slapstick que habitualmente acompanha o cruzamento do horror com a comédia; mais subtil, ele surge na reflexão que os vários elementos proporcionam sobre a sua natureza, sobre a forma como o suspense é construído, e pela forma como o absurdo é montado e desmontado de forma quase simultânea. Por si só, estes elementos já formariam um excelente filme. Junte-se a tudo isto um elenco sólido e a atenção dada por Goddard e Whedon ao detalhe e às referências internas externas em todo aquele puzzle narrativo, e o resultado é um filme a todos os níveis excepcional. 8.4/10


The Cabin in the Woods (2012)
Realização de Drew Goddard
Argumento de Drew Goddard e Joss Whedon
Com Kristen Connoly, Chris Hemsworth, Anna Hutchison, Fran Kranz, Jesse Williams, Richard Jenkins e Bradley Whitford
95 minutos

18 de março de 2013

You can't stop the signal, Mal

Não desejar um regresso da série, porém, não quer dizer que não goste de a rever - ou de a ver referida  ou parodiada noutras séries pelos actores que lhe deram vida há mais de uma década. Afinal, o Viagem a Andrómeda continua a ser um blogue browncoat - e todos os dias são um bom dia para relemberar Firefly/Serenity.



17 de março de 2013

Joss Whedon, Firefly e o crowdfunding: I'm booked up by Marvel for the next three years

Era mais ou menos previsível: quando na semana passada foi anunciada a produção de um filme da série Veronica Mars com financiamento através de Kickstarter (crowdfunding), as atenções voltaram-se quase de imediato para uma das séries com um mais forte culto na Internet: Firefly. Sem surpresas: a série de Joss Whedon criada em 2002 e cancelada antes mesmo de chegar ao fim da sua primeira temporada  tem ainda hoje uma autêntica legião de fãs que continua a manter viva a chama. No SF Signal, Andrew Liptak deu logo o mote:
The inevitable question that comes out of this is clear to me: How soon before Joss Whedon does this with Firefly? There’s a bit of wishful thinking here, but given that there’s a continual, growing fan base for the beloved Fox TV show, cast members who speak nostalgically about it and a director who filmed an entire movie in a house on his honeymoon, projects like this make me wonder if the long absence of new Firefly material is growing shorter. I certainly hope so.
Algo que terá certamente passado pela cabeça de muitos browncoats por esse mundo fora - e, inevitavelmente, a questão chegou a Joss Whedon, criador da malfadada série - que se apressou a esclarecer em entrevista ao jornalista Adam B. Vary, do portal BuzzFeed (via io9):
My fourth feeling when I read about [the Veronica Mars Kickstarter campaign] was a kind of dread. Because I realized the only thing that would be on everybody's mind right now. I've said repeatedly that I would love to make another movie with these guys, and that remains the case. It also remains the case that I'm booked up by Marvel for the next three years, and that I haven't even been able to get Dr. Horrible 2 off the ground because of that. So I don't even entertain the notion of entertaining the notion of doing this, and won't. Couple years from now, when Nathan [Fillion]'s no longer [on] Castle and I'm no longer the Tom Hagen of the Marvel Universe and making a giant movie, we might look and see where the market is then. But right now, it's a complete non-Kickstarter for me.
Para além, claro, da diferença óbvia entre conseguir financiar através de crowdfunding uma série como Veronica Mars e Firefly (ou um filme como Serenity):
We come to Veronica Mars to hear her talk and hear her father talk. But Firefly/Serenity, it's kind of a different animal — and then there's also the question of what kind of animal it is. Because some people are talking about Firefly episodes. Some people are talking about [a new] Serenity. (...) For me, [Kickstarter] doesn't just open the floodgates. God knows, things are cheaper now than when we made even Serenity. Good effects can be done in a different manner. Nor is that universe all about spectacle either. But it is a tad more expensive — and a little all-consuming! (...)
Enquanto fã do universo criado por Whedon, mantenho a posição que manifestei no artigo sobre Firefly que escrevi para o portal TV Dependente em Junho do ano passado: em 2002, Firefly foi a série certa no momento errado; hoje (ou a curto prazo), seria provavelmente a série errada no momento certo. E digo isto com muita pena: gosto imenso da série, e nada me teria dado mais prazer do que continuar a acompanhar as aventuras do capitão Malcolm Reynolds e da tripulação da "Serenity". Mas mais de uma década volvida, é difícil imaginar que fosse possível continuar a série de alguma forma mantendo o seu encanto original - mesmo admitindo que tanto o realizador como os vários actores continuam a nutrir um grande carinho por aquele projecto abandonado pela Fox de forma tão prematura. E para sair uma série ou um filme inferior de Firefly, será preferível ficarmos com aquilo que já existe - que é pouco, mas excepcional.

Fontes: SF SignalBuzzFeed / io9

30 de agosto de 2012

Joss Whedon prepara série televisiva de S.H.I.E.L.D., no universo de The Avengers

No seguimento do enorme sucesso de The Avengers, Joss Whedon conseguiu não só garantir a realização da sequela ao filme da Marvel, como também vai escrever - e realizar, se possível - o episódio piloto de uma série sobre a organização S.H.I.E.L.D. para a estação televisiva ABC. O irmão e a cunhada do realizador, Jed Whedon e Maurissa Tancharoen (que também colaboraram na série televisiva Dollhouse), estarão a cargo deste projecto, que não será um spin-off do filme, mas uma narrativa autónoma.

Fonte: The Verge

8 de agosto de 2012

Joss Whedon vai realizar sequela a The Avengers

É oficial: a Disney confirmou que Joss Whedon vai ser o realizador da sequela a The Avengers (que, a avaliar pelo easter egg primeiro filme, deverá ter Thanos como vilão). Mais: o realizador de Buffy the Vampire Slayer, Angel e Firefly vai também desenvolver uma série televisiva do universo da Marvel que, de acordo com as previsões, deverá ser transmitida na cadeia norte-americana ABC. 

É uma notícia que não surpreende, se consideramos que Whedon conseguiu fazer com mestria o que muitos (eu incluído) julgavam impossível - juntar todos aqueles super-heróis da Marvel num único filme realmente bom. Até agora, The Avengers é sem dúvida o melhor blockbuster de 2012. 

Fonte: io9

31 de julho de 2012

A Ficção Científica e o Cinema: Serenity

Quem costuma acompanhar este blogue sabe que sou um browncoat irredutível - e, como tal, não poderia deixar de escrever um pouco sobre Serenity (2004), filme de Joss Whedon (que entretanto ascendeu ao estatuto de top director com o excelente The Avengers) que procurou dar um final mais ou menos coerente à inacabada série televisiva Firefly

É sabido que os filmes baseados em - ou no seguimento de - séries televisivas tendem, na prática, a ser pouco mais do que um grande episódio da série, preparado para ser visto no grande ecrã. Serenity não é excepção - para todos os efeitos, é de facto um grande episódio de Firefly, escrito como um filme. Interessante é notar como Whedon conseguiu passar para um meio diferente tudo aquilo que fez de Firefly uma série de culto: uma componente visual sólida com alguns detalhes muito interessantes pelo seu realismo, um enredo interessante com reviravoltas bem construídas, um guião muito bem escrito (seguindo a fórmula convencional e eficaz que popularizou Whedon, ritmada e repleta de humor) e, acima de tudo, um elenco formidável, com uma "química" perfeita. O que não é de estranhar quando todos os actores principais da série interpretaram os seus papéis no filme. 

Não podendo fechar todas as narrativas abertas na série, o enredo centra-se na história de River (Summer Glau), a misteriosa rapariga "raptada" pelo seu irmão, Simon (Sean Maher), e "escondida" na nave Serenity. Não se sabe ao certo por que motivo a Alliance - o governo totalitário do sector - prendeu River e a submeteu a experiências tão misteriosas como traumáticas, mas quando as autoridades enviam um agente especial para a eliminar, devido à informação contida na mente dela, a tripulação da Serenity vê-se envolvida numa conspiração que envolve a origem dos Reavers (bárbaros sanguinários que vivem na orla do sistema) e um segredo muito bem guardado. Serenity leva assim Firefly para a sua conclusão lógica - e independentemente das pontas soltas que sobraram (e cuja introdução no filme seria impossível) de de alguns saltos narrativos entre os últimos episódios da série e o filme, pode-se dizer que o resultado foi muito bem sucedido.

Em jeito de conclusão, Serenity demonstra o enorme potencial de uma série televisiva cancelada muito antes de ter a oportunidade de se afirmar - mas que mesmo assim perdurou no imaginário da ficção científica da última década. As (poucas) fraquezas que o filme exibe são largamente compensadas pela solidez do seu enredo, pelo elenco extraordinário e por uma componente visual simples e eficaz - provando (se tal fosse ainda necessário provar) que um bom filme de ficção científica é muito mais do que os seus efeitos especiais. Numa década com muito poucos filmes a destacarem-se no género, Serenity figura sem dúvida entre os melhores. 8/10

11 de junho de 2012

"O curto voo de Firefly"

Dez anos volvidos sobre a sua estreia – e o seu polémico fim -, valerá a pena falarmos ainda de “Firefly“?

Será certamente inútil manter a esperança de um eventual retorno da série. Serenity, o filme-continuação escrito e realizado por Joss Whedon em 2005, deu uma conclusão lógica, ainda que curta, ao principal arco narrativo da série; e, mais recentemente, o próprio Whedon admitiu a impossibilidade de tal retorno, considerando as carreiras dos vários actores envolvidos no projecto (Nathan Fillon como protagonista em “Castle“, Morena Baccarin em “V” e na extraordinária “Homeland”… e os restantes actores noutros trabalhos). Em resumo, a chama de “Firefly“ voou pouco, consumiu-se depressa, e não voltará a acender-se.

Começa assim o meu artigo sobre a série Firefly para o portal TV Dependente, na sequência do simpático convite que me foi endereçado (o qual aproveito para agradecer uma vez mais, penitenciando-me pelo enorme atraso na resposta). Para ler na íntegra, clique aqui