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29 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (4): Os melhores livros de ficção científica

Será talvez difícil pensar noutra antologia tão importante para a ficção científica como Dangerous Visions, a ambiciosa e revolucionária colectânea de dezenas de contos de alguns dos mais consagrados autores que o género conhecia em 1967 – assim como algumas estrelas em ascensão e até mesmo escritores de outros temas e géneros. Ao leme do projecto esteve o inevitável Harlan Ellison – enfant terrible da ficção científica, contista exímio, antologista delirante. As suas introduções aos autores deram um cunho invulgarmente pessoal à antologia; os contos, esses, foram naquela época uma demonstração perfeita não daquilo que a ficção científica fora até ali, mas daquilo que ela poderia ser a partir dali. Com autores tão distintos como Lester Del Rey, Frederik Pohl, Robert Silverberg, Roger Zelazny, Samuel R. Delany, J. G. Ballard, John Brunner, Philip K. Dick, Poul Anderson, Larry Niven, Philip José Farmer, Miriam Allen deFord, Brian Aldiss, Norman Spinrad, Sonya Dorman, John Sladek, Keith Lauder, Theodore Sturgeon, Damon Knight ou Carol Emshwiller, entre outros, Dangerous Visions tornou-se no baluarte da “New Wave” norte-americana, mostrando as infinitas possibilidades da ficção científica e chocando os círculos tradicionalmente conservadores do género com o seu carácter experimentalista e o seu arrojo narrativo, estilístico e temático. 45 anos volvidos sobre a sua publicação original, parte do seu shock value ter-se-á sem dúvida perdido – mas a qualidade dos seus textos, essa, continua intocada. 

O magnum opus da ficção científica nacional – lusófona? – data de 1996, e resultou da combinação de dois dos maiores talentos que o género conheceu na língua portuguesa: João Barreiros e Luís Filipe Silva. O resultado não serve para introdução à ficção científica – exige uma leitura atenta, e um leitor mais experimentado nas convenções e nos temas do género. Mas para esses, Terrarium é um tesouro: um vasto romance fragmentado e meta-referencial numa Terra futura na qual a Humanidade partilha o planeta, de forma um tanto ou quanto forçada, com um sem-número de raças alienígenas, exiladas na superfície e no vasto anel orbital composto pelas suas frotas destruídas – e com as enigmáticas Potestades, sempre vigilantes, a impor a coexistência. Num mundo onde as antigas revistas pulp e de comics são relíquias de valor incalculável, várias personagens aparentemente improváveis vão ver os seus destinos cruzarem-se num jogo de poder que, estando viciado à partida, não tem vencedor definido. Poderemos sempre lamentar a falta de desenvolvimento que a ficção científica conheceu, e conhece ainda, no nosso país; mas não deixa de impressionar que um género tão pouco cultivado tenha sido capaz de produzir um romance deste calibre: ambicioso, complexo e extremamente recompensador. 

O britânico M. John Harrison considera esta sua space opera de 1975 a pior coisa que já escreveu na vida. Após lê-la, será talvez inevitável pensar quão boa será a sua obra subsequente, se The Centauri Device já se revela num romance a todos os níveis impressionantes. A prosa magnética e delirante de Harrison começa nos primeiros capítulos a dar forma àquilo que parece ser uma combinação talvez improvável entre a space opera e os policiais noir; mas Harrison cedo começa a desconstruir temas, ideias e convenções para dar forma a um texto revolucionário e influente, de uma riqueza conceptual impressionante e de um fascínio inegável, repleto de imagens que perdurarão na memória dos leitores – da “mais longa festa do Universo” aos fanáticos religiosos do culto dos “Openers”. Um clássico soturno, com um certo tom pessimista e nihilista que se tornaria recorrente uma década mais tarde no advento do cyberpunk

Escrever um romance como Desolation Road não é para todos – e mais impressiona ao saber que foi o primeiro livro escrito por Ian McDonald. Situado num Marte futuro terraformado, e indo beber tanto às crónicas melancólicas de Bradbury como à hard science fiction e ao realismo mágico sul-americano do qual Garcia Marquez é um dos expoentes máximos, McDoland cria um vasto mosaico de histórias individuais de pessoas diferentes – de cientistas a revolucionários, de aviadores a vagabundos, de famílias rivais a aventureiros. E o que toda esta gente tem em comum é Desolation Road – uma aldeia na orla de um vasto e rubro deserto, fundada pelo mais improvável dos acasos por um cientista solitário e na qual parou, durante os anos que se seguiram, todo o tipo de pessoas. Desolation Road segue todas essas personalidades para aquele ponto, e para fora dele, e para dentro dele novamente – e traça uma vasta crónica sobre como um lugar tão insignificante conseguiu ser tão decisivo para os destinos de um planeta inteiro. É um romance com um ritmo intenso, um tom atravessado de melancolia, e mais episódios mirabolantes do que seria sensato descrever por aqui – e um texto único na ficção científica. 

27 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (2): Os melhores contos

(Dangerous Visions, ed. Harlan Ellison, 1967)

Podia fazer esta lista apenas com contos retirados de Dangerous Visions (retrospectiva aqui), a antologia revolucionária com a qual Harlan Ellison deu em 1967 o impulso definitivo à “New Wave” norte-americana (deste lado do Atlântico, o movimento assentava na revista “New Worlds”, de Michael Moorcock). Robert Silverberg, Norman Spinrad, Poul Anderson, John Brunner, Roger Zelazny – os contos de todos estes autores na antologia mereceriam sem dúvida figurar nesta curta lista. Opto, porém, por destacar o texto submetido por Philip K. Dick: Faith of Our Fathers é um conto magnífico, psicadélico e abstracto q.b., sobre dois dos temas que mais marcaram a obra deste gigante do género: a irrealidade da realidade e a experiência religiosa. Situado num Vietname distópico reminescente da China comunista, o conto centra-se em Tung Chien, funcionário da burocracia estatal, que por consumo de uma estranha droga começa a ver alucinações tão estranhas como horríveis. Mas serão essas alucinações a realidade, ou um mero resultado das drogas? Intenso e surpreendente, Faith of Our Fathers é um conto soberbo de Philip K. Dick, e uma complexa reflexão sobre a natureza da realidade e a percepção religiosa.

("IF: Worlds of Science Fiction", Março de 1967)

Antes do HAL-9000 de Kubrick e Clarke se tornar numa das mais icónicas Inteligências Artificiais da ficção científica, antes de a Skynet causar o apocalipse em Terminator e antes da passivo-agressiva GlaDOS dizimar todos os cientistas da Aperture Science em nome da ciência, houve AM: a cruel IA que manipulou física e mentalmente os últimos cinco seres humanos da Terra e os colocou num labirinto infinito. Porquê, não se sabe; o leitor apenas fica a conhecer indícios do trágico destino da Humanidade quando a Singularidade emergiu em plena guerra mundial, e o puro horror que os cinco sobreviventes experimentam naquele labirinto, entregues aos humores e aos desígnios insondáveis de AM. Harlan Ellison é um mestre da forma curta, e isso nota-se: a prosa excepcional e visual, a construção de tensão e os momentos de puro horror fazem de I Have No Mouth, and I Must Scream um texto notável, que atravessa géneros e se lê hoje com o mesmo terrível fascínio de há quase cinco décadas.

("Galaxy Science Fiction", Dezembro de 1965)

Talvez este extraordinário conto de Harlan Ellison seja tão pertinente hoje, com as distopias e o tom grimdark, a dominar o género, como foi no seu tempo. "Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman abre com uma citação de Thoreau e conta a história do Harlequin, que com as suas partidas ameaça virar do avesso aquela sociedade futurista, distópica e obcecada com o tempo e com a pontualidade, desafiando o poder absoluto do Ticktockman. Contado de forma não-sequencial, o conto começa no meio, explica o início e termina, muito apropriadamente, no final; e nos entretantos, o leitor pode deliciar-se com a extraordinária prosa de Ellison, capaz de conjurar algumas das mais memoráveis e persistentes imagens da ficção científica que li durante 2013. Da disrupção causada por jelly beans impossíveis à descrição de como o mais pequeno atraso ameaça derrubar as fundações de toda uma sociedade escravizada pela tirania do relógio, "Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman é um texto notável, capaz de descrever a mais obscura das distopias sem em algum momento cair num tom sombrio e tenebroso.

(New Dimensions 3, 1973)

Mais uma parábola do que um conto propriamente dito, este texto de Ursula K. Le Guin descreve a cidade de Omelas, um lugar magnífico onde os seus habitantes, cultos e esclarecidos, vivem na abundância e na felicidade absoluta. Mas tal abundância e tal felicidade dependem de um segredo especialmente sórdido, do conhecimento obrigatório de todos quando atingem a maioridade; e se alguns aprendem a viver as suas vidas na abundância e na felicidade sem pensar nessa sombra, outros revelam-se incapazes de a suportar - e são esses que abandonam Omelas para parte incerta, tão incapazes de nela viver como de a mudar. Com a sua prosa excepcional e evocativa, Le Guin recria em The Ones Who Walk Away From Omelas um micro-universo verosímil, e utiliza-o com mestria para colocar algumas questões complexas sobre a oposição entre o indivíduo e o colectivo e o preço a pagar pelo bem comum.  

8 de março de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (4): As "visões perigosas" de Harlan Ellison

What you hold in your hands is more than a book. If we are lucky, it is a revolution. Assim começa Thirty-two Soothsayers, a introdução de Harlan Ellison a Dangerous Visions, antologia que editou em 1967. E, para todos os efeitos, o objectivo de Ellison foi dar continuidade a uma revolução, ao movimento "New Wave" da ficção científica que mudaria para sempre o género em termos temáticos, narrativos e estilísticos. Em termos literários, se quisermos. À distância dos mais de 40 anos passados desde a publicação desta revolução, talvez seja difícil avaliar o impacto que teve - temas como o sexo, a homossexualidade ou a experiência religiosa já perderam a novidade, e porventura a polémica, no que à literatura diz respeito. Dos temas abordados nos mais de 30 contos publicados na antologia, talvez apenas a violência o incesto e o cancro, abordados por Harlan Ellison, Theodore Sturgeon e Norman Spinrad respectivamente, mantenham um relativo grau de polémica. 

Essa questão, aliás abordada de forma muito inteligente na introdução de Adam Roberts para a edição recente da Gollancz na colecção "SF Masterworks"*, fica por isso mais ou menos arrumada: de um ponto de vista meramente temático, as visões perigosas de Ellison perderam um pouco do seu perigo. Que não se pense, porém, que a antologia se tornou por isso datada - e se tal não aconteceu, isso dever-se-á à qualidade superlativa da ficção seleccionada por Ellison, que convidou autores consagrados, em ascensão e mesmo estranhos ao género e os desafio a ser ousados e a apresentar o seu melhor. Por isso, mesmo que os temas dos vários contos não sejam hoje novos ou chocantes (foram-no na sua época, e não é difícil fazer essa contextualização), é fácil deliciarmo-nos com a alucinação de Philip K. Dick, o twist genial de Poul Anderson, a antecipação de John Brunner ou o horror do próprio Harlan Ellison. Mesmo que não se goste de todos os trabalhos - eu não gostei de todos, longe disso -, é impossível não reconhecer a qualidade da escrita, a originalidade da - narrativa, a pura força da imaginação de cada um dos 32 autores que contribuíram para este livro. 

Na segunda introdução da edição original, Isaac Asimov (que não quis participar na antologia com ficção) começa por dizer: This book is Harlan Ellison. O que está muito certo: Dangerous Visions é, de facto, Harlan Ellison. Isso não se deve apenas ao conceito ou à selecção de contos, mas também - e, diria, sobretudo - ao cuidado trabalho de edição de Ellison. No total, seleccionou 32 contos de 33 autores diferentes - e não só pediu a cada autor um curto posfácio para cada trabalho, como também escreveu uma introdução para cada um deles. Não falo de notas biográficas, mas de textos personalizados e acima de tudo pessoais. De histórias de como o editor conheceu o trabalho do autor. De como chegou até ele. De rascunhos rejeitados. De aventuras partilhadas. De amizade, em muitos casos. O tom é laudatório, claro - mas é também descontraído, bem humorado, provocador a espaços. Num caso, a introdução é maior do que o próprio conto - e, pasme-se, é tão ou mais divertida do que aquele. 

Et pour cause: não mencionei nos artigos anteriores o conto de Harlan Ellison em Dangerous Visions. A omissão foi intencional: sendo Ellison o editor da antologia, pareceu-me apropriado deixar o seu conto para o fim. E The Prowler in the City at the Edge of the World é um conto soberbo, um dos melhores da antologia (levou-me a comprar quase de imediato uma pequena antologia do autor): uma continuidade ao desafio que o próprio lançou a Robert Bloch de escrever uma história com base no seu (de Bloch) conto Yours Truly, Jack the Ripper, na qual o lendário assassino fosse parar ao futuro. Bloch aceitou o desafio e submeteu A Toy for Julliette; e Ellison escreveu-lhe uma sequela a todos os níveis brilhante, no qual Jack se vê num futuro esterilizado, amoral e nihilista. Sobre o enredo, não me vou alongar - é formidável, e a escrita rápida, incisiva e pormenorizada de Ellison confere à narrativa um ritmo vertiginoso sem descurar uma caracterização pormenorizada de Jack, da Cidade e dos seus habitantes, e uma carga emocional especialmente forte.

Em jeito de conclusão: ao longo das últimas semanas, publiquei vários artigos sobre alguns dos contos que compõem Dangerous Visions. As escolhas incidiram sobre aqueles de que mais gostei, claro, mas não foram os únicos que chamaram a minha atenção - apenas os que mais se destacaram. Fazer uma resenha a cada um dos 32 contos seria exaustivo, pelo que, para completar a análise a esta prodigiosa antologia, segue abaixo a lista completa dos contos e da minha avaliação a cada um deles seguindo o (odioso) método das estrelinhas - no caso, dos asteriscos. E, claro, fica a recomendação de leitura. Dangerous Visions poderá talvez não parecer ao leitor do século XXI um livro revolucionário, ou mesmo perigoso; mas será sempre um livro de grande qualidade, com um conjunto excepcional de autores, de temáticas e de estilos que só por si merecem uma leitura atenta. E, mais do que isso, é uma parte fundamental da história da ficção científica enquanto género literário. 
  • Evensong, de Lester del Rey. ***
  • Flies, de Robert Silverberg. *****
  • The Day After the Day the Martians Came, de Frederik Pohl ***
  • Riders of the Purple Wage, de Philip José Farmer ****
  • The Malley System, de Miriam Allen deFord ***
  • A Toy for Juliette, de Robert Bloch ****
  • The Prowler in the City at the Edge of the World, de Harlan Ellison *****
  • The Night That All Time Broke Out, de Brian W. Aldiss ****
  • The Man Who Went to the Moon — Twice, de Howard Rodman **
  • Faith of Our Fathers, de Philip K. Dick *****
  • The Jigsaw Man, de Larry Niven ***
  • Gonna Roll the Bones, de Fritz Leiber ****
  • Lord Randy, My Son, de Joe L. Hensley ***
  • Eutopia, de Poul Anderson *****
  • Incident in Moderan, de David Bunch ***
  • The Escaping, de David R. Bunch **
  • The Doll-House, de James Cross ***
  • Sex and/or Mr. Morrison, de Carol Emshwiller *
  • Shall the Dust Praise Thee?, de Damon Knight ***
  • If All Men Were Brothers, Would You Let One Marry Your Sister?, de Theodore Sturgeon *****
  • What Happened to Auguste Clarot?, de Larry Eisenberg *
  • Ersatz, de Henry Slesar **
  • Go, Go, Go, Said the Bird, de Sonya Dorman ***
  • The Happy Breed, de John Sladek ****
  • Encounter with a Hick, de Jonathan Brand **
  • From the Government Printing Office, de Kris Neville ***
  • Land of the Great Horses, de R. A. Lafferty ****
  • The Recognition, de J. G. Ballard ****
  • Judas, de John Brunner *****
  • Test to Destruction, de Keith Laumer ****
  • Carcinoma Angels, de Norman Spinrad *****
  • Auto-da-Fé, de Roger Zelazny ****
  • Aye, and Gomorrah, de Samuel R. Delany ****
*Esta edição, cuja capa ilustra o artigo, inclui várias introduções: para além das originais de Asimov e de Ellison, inclui uma de Adam Roberts, outra de Michael Moorcock e ainda uma outra, de 2002, também de Ellison.

1 de março de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (3): Contos de John Brunner, Keith Laumer, Norman Spinrad e Samuel R. Delany

Dangerous Visions. Again (pun intended). É difícil falar de uma vez só sobre uma antologia com tantos contos (33) tão diferentes como aqueles que compõem esta célebre e polémica colectânea editada por Harlan Ellison em 1967 - daí já ir no terceiro artigo a ela dedicado (e ainda falta um). Já aqui falei das contribuições de autores como Philip K. Dick, Robert Silverberg, Philip José Farmer, Brian Aldiss, Poul Anderson, Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard; hoje, dedicarei as próximas linhas a algumas das melhores peças da antologia, saídas da pena (ou da máquina de escrever) de John Brunner, Keith Laumer, Norman Spinrad e Samuel R. Delany.

Judas, de John Brunner: Se tivesse lido Judas sem o enquadramento temático e temporal que Dangerous Visions lhe confere, diria que se trataria de um conto situado em pleno movimento cyberpunk, algures nos anos 80 - e não seria difícil imaginar o cenário descrito pelo britânico como algures na vasta sprawl de Gibson. Sabendo que Brunner o escreveu em 1967 torna-o ainda mais interessante pela forma como antecipa uma certa atmosfera sombria daquele movimento numa alegoria religiosa tão poderosa como irónica. Judas coloca-nos numa igreja futurista onde a máquina se tornou objecto de culto e a Inteligência Artificial ascendeu à divindade - criada pelo Homem à sua exacta imagem e semelhança. Mas quando a máquina se torna divina, qual é o papel que resta ao Homem? De um ponto de vista pessoal, este era um dos contos que mais curiosidade me despertava em toda a antologia, devido à minha leitura da obra-prima de Brunner, Stand on Zanzibar - e a leitura não me desiludiu. Bem pelo contrário: ainda que não se revele uma das visões mais perigosas da antologia, Judas é provavelmente um dos seus melhores contos.

Test to Destruction, de Keith Laumer: Começa como uma narrativa de características noir muito vincadas para se revelar num confronto de titãs. John Mallory, um revolucionário que tenta derrubar um regime opressivo, vê a sua mente servir como campo de batalha entre duas forças de um poder incomensurável: a sede de poder dos seres humanos revelada no seu engenho para a tortura e o poder de uma enigmática raça alienígena, determinada a testar a Humanidade até às últimas consequências para determinar se constitui uma ameaça. Mas tolerará tal confronto outro vencedor? Com uma estrutura narrativa fragmentada em pequenos capítulos com vários pontos de vista distintos, Test to Destruction é a todos os níveis um conto notável - começa com uma cena de perseguição tão viva que quase ganha um carácter cinematográfico, à qual se sucede um confronto prodigioso entre dois inimigos que não se conhecem que culmina de forma... inesperada (para alguém, certamente). Mas mais do que um conto notável, Test to Destruction é uma fascinante reflexão de Keith Laumer sobre a natureza do poder e sobre como a mais benigna das intenções humanas projecta sempre uma sombra considerável.

Carcinoma Angels, de Norman Spinrad: Como o título indica, Carcinoma Angels é uma história sobre cancro. Na introdução, Ellison descreve-a como a funny cancer story - e, de facto, o conto de Norman Spinrad é uma história provocadora, irónica e bastante divertida sobre o cancro. E é exactamente neste ponto de reside a dangerous vision de Spinrad - ao contrário de outros temas arriscados e polémicos que a antologia exibe, o tema do cancro é notório por ser, em 1967, um "não-tema", algo de que ninguém falava. Como o próprio refere no posfácio: Proeminent Public Personalities, alone, escape from its ravages, as any newspaper obituary column will tell you: "dying after a long, lingering illness" or "passing away from natural causes". Algo que deverá ser familiar a todos: apesar de já se falar de forma mais aberta do tema, só há pouco tempo a comunicação social se começou a libertar do espartilho da "doença prolongada". Com um trocadilho assombroso no título (percebê-lo no texto fez-me soltar uma sonora gargalhada), Carcinoma Angels é uma história fascinante sobre a ambição e o desejo de controlo sobre algo que, para todos os efeitos, está fora do nosso controlo. E tal como o anterior, é também um conto muito rico do ponto de vista visual, com metáforas visuais muito bem conseguidas sobre um tema difícil de descrever numa perspectiva narrativa.

Aye, and Gomorrah..., de Samuel R. Delany: A Delany coube encerrar a antologia com uma história que usa como premissa para uma reflexão mais profunda um detalhe esquecido com alguma frequência na ficção científica "espacial". Num futuro tão intrigante como perverso, os astronautas que exploram o Sistema Solar e trabalham no espaço são seleccionados ainda muito jovens e castrados para evitar os efeitos nefastos da radiação espacial nos gâmetas - condenando-os à esterilidade e a uma androginia pré-púbere. Tudo o que é invulgar, porém, é motivo de curiosidade, e estes astronautas assexuais alimentam o fascínio sexual de alguns indivíduos, e a eles se entregam em troca de dinheiro e de diversão - mas serão o dinheiro e a diversão os verdadeiros motivos dessa entrega? Em Aye, and Gomorrah, Delany explora temas como a perda, as ligações humanas, o desejo sexual, o preconceito e a perversão - e fá-lo numa narrativa elaborada e algo melancólica, descrita pelo olhar subjectivo de um invulgar protagonista. Este conto foi um dos vários vencedores de Dangerous Visions ao conquistar o Prémio Nébula de 1967 na categoria de "Melhor Conto".

22 de fevereiro de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (2): Contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard

Hoje, proponho um regresso a Dangerous Visions, a antologia editada por Harlan Ellison em 1967 que se tornou num dos livros fundamentais do movimento New Wave da ficção científica. Em artigos anteriores destaquei contos de Philip K. Dick, Robert Silverberg, Philip José Farmer, Brian Aldiss e Poul Anderson; hoje, dedicar-me-ei aos contos de Theodore Sturgeon, John Sladek e J.G. Ballard.

If All Men Were Brothers, Would You Let One Marry Your Sister?, de Theodore Sturgeon: Num futuro distante, no qual a Humanidade se viu obrigada a abandonar a Terra e a colonizar outros planetas - e perante uma surpreendente abundância de planetas habitáveis na galáxia (com mais ou menos terraformação) -, surgiram de forma mais ou menos espontânea vários tipos de sociedades em vários planetas diferentes, ligados numa vasta rede de comunicação e comércio. Entre os planetas habitáveis, porém, permanece um mistério: por que motivo o planeta Vexvelt permanece isolado, e ninguém deseja falar nele? Charli Bux tropeça com uma ponta do mistério e a sua curiosidade aumenta: Vexvelt é um planeta riquíssimo, com recursos de fazer inveja a qualquer outro planeta. Por que motivo, então, os seus habitantes permanecem afastados do resto da Humanidade? Com uma escrita bem ritmada e a alternar momentos dramáticos com alguns toques de comédia, Sturgeon coloca o protagonista em confronto com um dos mais antigos tabus das sociedades humanas. Ao opor o enquadramento social de Charli - com todos os seus preconceitos - à sociedade quase-utópica que reside em Vexvelt, Sturgeon desmonta pela lógica aquele tabu e procura demonstrar como o preconceito pode ser interiorizado sem sequer darmos por ele. 

The Happy Breed, de John Sladek: Em poucas páginas, John Sladek constrói uma premissa interessante: a partir do momento em que as máquinas podem substituir os humanos em todos os trabalhos (da recolha de lixo à cirurgia ou à engenharia) e assegurar todas as suas necessidades, básicas ou não, a Humanidade pode enfim dedicar-se ao mais perfeito hedonismo e às artes. Ou será que pode? Sladek coloca a questão de forma inteligente enquanto explora as consequências de uma sociedade na qual máquinas benevolentes tomam conta de todos os aspectos da vida humana em prol da felicidade de cada um. Mas será isso uma utopia de felicidade, ou uma distopia de estupidificação? À primeira vista, a premissa pode parecer banal nos dias que correm, mas é na execução que Sladek brilha - à sua escrita ritmada e concisa alia uma estrutura narrativa episódica assente em múltiplos pontos de vista que se vão misturando até ao twist final. O resultado é um conto tão divertido como perturbador, na definição e desconstrução de um nanny state absoluto - e algumas das suas ideias estão ainda muito presentes na ficção científica contemporânea.

The Recognition, de J.G. Ballard: Quase tão interessante como o conto de Ballard é a polémica que envolve a sua entrada em Dangerous Visions. O conto submetido pelo autor a pedido de Ellison não foi originalmente The Recognition, mas um outro, intitulado Assassination of J.F. Kennedy Considered as a Downhill Motor Race. Este conto, porém, nunca terá chegado às mãos de Harlan Ellison (é o que alega Ellison) por interferência do agente literário norte-americano de Ballard. The Recognition foi então submetido e aprovado, mas não sem algumas declarações polémicas de Ballard. De qualquer forma, e como disse, toda esta polémica não chega a ser tão interessante como o conto em si: The Recognition é uma das narrativas mais atmosféricas de toda a antologia. O protagonista observa a cidade durante uma caminhada, e depara-se com a chegada de um circo pequeno e especialmente desgastado - que, privado de um espaço mais central para o seu espectáculo, acaba por se instalar à beira rio, entre armazéns abandonados. O protagonista visita o circo, curioso, onde conhece a proprietária e o seu assistente - mas nas jaulas em exibição nem ele nem a população vão encontrar a exposição que esperam. Ballard cria um atmosfera tão evocativa como sombria, e a sua escrita excepcional dá forma a um dos melhores e mais estranhos contos da antologia. 

8 de fevereiro de 2013

Dangerous Visions em retrospectiva (1): Contos de Robert Silverberg, Philip José Farmer, Brian Aldiss e Poul Anderson

Ao longo do último mês tenho-me entretido com Dangerous Visions, a célebre e polémica antologia de ficção curta inédita editada por Harlan Ellison em 1967 e que se tornou num dos mais importantes livros da "New Wave" da ficção científica. No total, a antologia reúne 33 contos e agrega submissões de alguns dos maiores autores do género nos anos 60, de outros que começavam a destacar-se e ainda de alguns escritores que, não escrevendo habitualmente ficção científica, aqui se aventuraram no género. Tenciono, ao longo das próximas semanas, regressar várias vezes a este livro: primeiro para falar de vários dos seus contos a título individual, para depois avaliar a antologia no seu todo - com a ficção dos vários autores e as muitas apresentações e introduções de Ellison. Na semana passada referi o conto Faith of Our Fathers, de Philip K. Dick, porventura (e sem surpresa) um dos melhores de todo o livro; hoje, dedicarei este artigo a quatro submissões de quatro outros autores. 

Flies, de Robert Silverberg: O conto de Silverberg é o segundo a figurar na antologia - e é a todos os níveis impressionante. No centro da narrativa está Richard Cassiday, que sobreviveu à destruição da sua nave espacial numa das luas de Saturno. Capturado por misteriosos alienígenas (os golden ones),  é "reconstruído" com um upgrade: uma maior sensibilidade empática para com os seus semelhantes, para melhor os estudar e reportar as emoções humanas aos alienígenas. Estes, porém, cometeram um pequeno erro que vai assumir proporções monstruosos: ao aumentar a sua capacidade de sentir aquilo que os outros sentem, eliminaram a sua consciência, tornando-o incapaz de sentir, ele mesmo, o que quer que seja - o que terá resultados tão inesperados como chocantes. Flies é a todos os níveis um conto extraordinário, combinando um estilo narrativo invulgar e uma escrita tão eficaz como rica para descrever o calvário de Cassiday. Apesar de não ter sido premiado, figura sem dúvida entre os melhores trabalhos da antologia. 

Riders of the Purple Wage, de Philip José Farmer: Na prática uma novela (e o trabalho mais longo da antologia), a submissão de Philip José Farmer venceu nessa categoria o Prémio Hugo de 1968. Com um estilo muito próprio e muito invulgar - para não dizer histriónico -, Riders of the Purple Wage é uma história de tons quase surrealistas que acompanha o jovem artista Chib enquanto este tenta ascender na sua comunidade fechada de "Ellay" para poder continuar a pintar e a não ser obrigado a emigrar para o Egipto. Entretanto, em sua casa esconde-se o seu avô (na prática o bisavô), um dos últimos empresários do país que anos antes, perante a nacionalização da sua empresa, deu um autêntico golpe do baú e simulou a própria morte - um esquema que enganou toda a gente menos um detective empenhado em descobrir a verdade e resolver aquele crime. Riders of the Purple Wage é uma novela complexa e multifacetada, que cruza na narrativa sobre Chib e a sua família uma abordagem peculiar à sexualidade (tema afastado da ficção científica da época), uma reflexão especialmente polémica sobre o universo artístico e uma crítica muito pouco subtil ao desprezo a que já na época era votada a ficção científica pela crítica literária e o jornalismo mainstream - isto num futuro um tanto ou quanto distópico e descrito numa narrativa tão convulsa como fascinante, com uma premissa que consegue em simultâneo parodiar uma história popular irlandesa e... James Joyce. 

The Night That All Time Broke Out, de Brian Aldiss: Aldiss apresenta neste conto uma premissa fascinante: e se o tempo pudesse ser uma comodidade como a água, o gás ou a electricidade,  controlado e canalizado para que cada um de nós pudesse dispor dele da forma que nos fosse mais conveniente? Nesta futuro visionário, o fluxo normal do Tempo de cada pessoa pode ser alterado pela inalação de uma droga - na prática,  uma espécie de Tempo condensado, ou concentrado. Torna-se assim possível, ainda que dispendioso, regressar mentalmente a um momento específico do passado, ou ter várias divisões de uma casa em momentos temporais diferentes de acordo com um estado de espírito. A narrativa acompanha Tracey e Fifi, um casal que vive no campo e que decide instalar uma "canalização temporal" para poder usufruir de um luxo reservado a quem vive nas cidades. Mas no momento mais inoportuno vai surgir um problema na distribuição temporal que gera efeitos tão curiosos como dramáticos. Aldiss explora a premissa de forma muito simples e directa, deixando espaço ao leitor para imaginar todas as consequências daquele problema. É uma abordagem singular ao tema das viagens no tempo (ou na regressão no tempo), com efeitos inesperados. 

Eutopia, de Poul Anderson: Um conto muito interessante e um daqueles casos que pede uma segunda leitura quase de imediato: o twist final, tão simples, dá um novo significado a todo o texto. Anderson criou toda uma realidade alternativa para a América do Norte, quase feudal na sua caracterização (e no seu aparente "atraso" tecnológico), e nessa realidade colocou o protagonista, o estrangeiro Iason Philippou, em fuga. Tendo violado um tabu do reino de "Norland", Philippou procura uma forma de escapar para um dos reinos vizinhos e a partir daí conseguir transporte para o seu próprio reino. Mas essa fuga não estará isenta de peripécias... A prosa e as descrições de Poul Anderson quase fazem Eutopia parecer um conto de fantasia, e não de ficção científica - o que está longe de ser um defeito. É certo que os mais de quarenta anos que passaram desde a publicação de Dangerous Visions retiraram o shock value da premissa de Eutopia, mas a reflexão cultural e civilizacional de Anderson nos momentos finais da narrativa permanece tão actual como em 1967. 

1 de fevereiro de 2013

A ficção curta de Philip K. Dick (1): The Little Movement, The Defenders, Faith of Our Fathers

The Little Movement é um conto de Philip K. Dick publicado originalmente na Magazine of Fantasy & Science Fiction em 1952 e desde então reeditado em várias antologias. Hoje, hoje pode ser encontrado na colectânea Beyond Lies the Wub, primeiro dos cinco volumes que compõem a obra The Collected Stories of Philip K. Dick. É um conto pequeno mas muito interessante, que tem como protagonista um soldado brinquedo de corda que tem vida própria, e que faz parte de um grupo de brinquedos com uma agenda um tanto ou quanto sombria - e, para a levar a cabo, necessita da ajuda (ou da obediência) não dos adultos, mas das crianças. Com um twist final muito curioso - traço comum a outros contos de Philip K. Dick -, The Little Movement é uma fantasia que, julgo, será muito apelativa a quem sempre viu os brinquedos da sua infância como algo mais do que os meros objectos inanimados que aparentavam ser. Dos ainda poucos contos que li do autor, não estará entre os melhores, mas foi sem dúvida um dos que mais me divertiu e tocou. 

The Defenders é um conto de 1953 que, tal como The Little Movement, encontra-se hoje publicado no volume Beyond Lies the Wub. Philip K. Dick imagina um futuro alternativo no qual a Guerra Fria acabou por originar um conflito nuclear entre os Estados Unidos e a União Soviética, obrigando as populações de ambas as super-potências a viver em vastas cidades subterrâneas, abrigadas da radiação, a manter uma economia de guerra que sustenta hostilidades continuadas à superfície. Mas aqui, a guerra é travada não através de seres humanos, mas de robots, autênticos soldados artificiais capazes de aguentar níveis de radiação mortíferos para os seres humanos. É uma história muito interessante sobre a natureza e a futilidade da guerra, com um ritmo excepcional a convergir na expectável mas algo inesperada reviravolta final. The Defenders conheceu uma adaptação radiofónica no programa de rádio "X Minus One", de George Lefferts, e a sua premissa serviu de base ao livro The Penultimate Truth, de 1964. O conto pode ser lido na totalidade no Project Gutenberg, e foi publicada uma tradução, da autoria de Mário Matos, no décimo número da revista Bang! (Junho de 2011).

Faith of Our Fathers é um fascinante conto - ou, para ser preciso, uma noveleta - escrito por Philip K. Dick a "pedido" de Harlan Ellison para a antologia Dangerous Visions, de 1967 - e nomeado para o Prémio Hugo para "Best Novelette" no ano seguinte (perdeu-o para outro conto da mesma antologia, Gonna Roll the Bones, de Fritz Leiber). Em Faith of Our Fathers, Philip K. Dick volta a explorar uma premissa de História alternativa idêntica àquela que celebrizou em 1962 com The Man in the High Castle, mas aqui com um twist diferente, quase orwelliano na sua natureza, com um um Comunismo do tipo chinês a dominar o mundo e com um "Grande Líder" tornado omnisciente através do progresso tecnológico. A história decorre no Vietname, e tem como protagonista Tung Chien, um burocrata que tem, em simultâneo, a oportunidade de subir quase vertiginosamente dentro da estrutura política e de colaborar com um movimento que aparenta ser dissidente. O consumo de uma droga invulgar, porém, leva-o a descobrir algo que vai alterar de forma radical e permanente a sua percepção do mundo que o rodeia. Aqui, Philip K. Dick esmerou-se, e ao invés de presentear o leitor com a já clássica punchline final, gere uma série de reviravoltas inesperadas e bem construídas para um final tão poderoso como anticlimático. Concebido, a pedido do próprio Ellison, sob o efeito de LSD (isto a fazer fé tanto na introdução de Ellison como no posfácio de Dick), Faith of Our Fathers é um conto importante na obra de Philip K. Dick, um dos primeiros textos onde se centra no fenómeno religioso que viria a dominar a sua obra tardia. Mas - o que para mim foi mais relevante - também notei no conto algo que me levou de forma subtil para A Scanner Darkly, uma das mais aclamadas obras do autor. Facto é que Faith of Our Fathers se revelou num dos melhores contos de uma antologia repleta de excelente ficção.