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24 de junho de 2014

X-Men: Days of Future Past: Regresso ao futuro

Em 1981, com Chris Claremont, John Byrne e Terry Austin a cargo do título The Uncanny X-Men, foi publicada uma das histórias mais populares da célebre equipa de mutantes heróis (e vilões): Days of Future Past. Como o título indica, trata-se de uma história de viagens no tempo que arranca num futuro apocalíptico no qual os mutantes são perseguidos pelas Sentinelas e enviados para campos de concentração próprios - aqueles que sobrevivem ao confronto com aquelas máquinas concebidas com o propósito único de caçar mutantes. Em desespero de causa, Kitty Pride utiliza os seus poderes para fazer a sua consciência regredir no tempo e, ocupando o seu corpo jovem, impedir o acontecimento que determinou aquele futuro sombrio: o assassinato do Senador Robert Kelly pelos mutantes liderados por Mystique. A premissa assenta na ideia de que uma alteração no passado provocaria alterações radicais no futuro - conceito explorado de forma mais ou menos recorrente na ficção científica (e que, no cinema do género, viria a conhecer duas entradas muito populares alguns anos mais tarde com o Terminator de James Cameron e Back to the Future de Robert Zemeckis), e que aqui é utilizado de forma inteligente. E que Bryan Singer e Matthew Vaughn aproveitaram para, num único filme, unir as duas continuidades narrativas e temporais da franchise no cinema, aproveitando uma oportunidade única para juntar, no mesmo blockbuster, dois dos melhores elencos que as adaptações cinematográficas de comics já conheceram. O resultado foi o muito aguardado X-Men: Days of Future Past.

Situando-se como sequela directa tanto a Last Stand como a First Class, Days of Future Past começa num futuro apocalíptico no qual as Sentinelas construídas pelas Trask Industries caçam e aniquilam os mutantes - isto numa primeira fase, pois cedo os alvos daqueles monstros mecânicos passa também para seres humanos comuns que revelem potencial de ter descendentes com mutações, ou que simplesmente simpatizem com a causa mutante (o paralelo com o Holocausto é evidente). Numa sequência inicial que prima pela eficácia, Singer e Vaughn mostram quão violento e desolador é aquele futuro, e quão desesperada é a luta dos sobreviventes.


Com os seus números desfalcados por várias mortes, Xavier (Patrick Stewart) e Magneto (Ian McKellen) colocaram de lado as suas diferenças para conseguirem sobreviver de forma radical. Os seus passos convergem com um outro grupo de mutantes, quem tem sobrevivido graças aos poderes únicos de Kitty Pride: quando as Sentinelas os detectam, Colossus (Daniel Cudmore), Warpath (Booboo Stewart), Sunspot (Adan Canto), Blink (Bingbing Fan) e Iceman (Shawn Ashmore) combatem enquanto Pryde envia a consciência de Bishop (Omar Sy) para o passado, alertando o grupo antes de o ataque ter lugar - permitindo-lhes assim mudar para uma localização temporariamente mais segura. 


Quando os dois grupos se encontram na China, Xavier propõe uma derivação radical desta ideia: enviar alguém até aos anos 70 para impedir o acontecimento que acabou por conduzir àquele futuro: o assassinato de Bolivar Trask (Peter Dinklage) por Mystique (Jennifer Lawrence). Os poderes regenerativos de Wolverine - e mais do que isso, convenhamos, o protagonismo de Hugh Jackman - tornam-no no emissário ideal, capaz de sobreviver aos rigores de um recuo temporal de décadas; e Logan vai acordar no seu corpo de 1973, com a missão insólita de reunir os desavindos Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) para poder parar Mystique. Mas entre um Professor perdido nas suas próprias mágoas e um Magneto obcecado com os seus sonhos de supremacia mutante, a missão de Wolverine não se vai revelar nada fácil - sobretudo quando o desastre paira sobre o futuro de todos. 


Para todos os efeitos, Days of Future Past é um dos melhores filmes da franchise: se o elenco da trilogia original era bom e o de First Class não ficou atrás, juntar os dois num mesmo filme acaba por se revelar numa aposta mais do que ganha, com as interpretações sólidas e credíveis a que os vários autores já habituaram o seu público. Singer e Vaughn conseguem recuperar para o passado vários elementos que fizeram de First Class um filme tão interessante, como o entrecruzar da História alternativa com a História real (visível, por exemplo, no envolvimento de Erik no assassinato de Kennedy ou na recruta de Havok e de outros mutantes para a guerra no Vietname) enquanto acenam em várias ocasiões, e frequentemente com muito humor, à continuidade narrativa tanto da trilogia como de First Class


Também em termos visuais Days of Future Past merece destaque pela forma como mostra o futuro negro dos mutantes, e os espantosos combates dos sobreviventes contra umas Sentinelas monstruosas, capazes de se adaptar a todos os poderes pelos genes de Mystique. As sequências com Blink são especialmente evocativas (a fazer lembrar quase uma test chamber de Portal), sincronizadas na perfeição para mostrar os poderes espantosos dos seus companheiros - e a sua derradeira inutilidade perante a força das Sentinelas. Tal como a sequência de câmara lenta de Quicksilver no resgate a Magneto - executada na perfeição e divertidíssima de acompanhar. No resto, importa sublinhar o contraste do futuro sombrio com o estilo retro das cenas dos anos 70 - a diferença é notória, e funciona muito bem.


Mas todos estes pontos positivos não evitam que Days of Future Past acabe por ser vítima da sua ambição em alguns momentos - sobretudo no desfecho, que para todos os efeitos é um reset funcional à trilogia original (quem desejou que Last Stand nunca tivesse acontecido vai ter motivos para celebrar). As consequências de todo o plano para Wolverine nunca ficam claras, e persiste a sensação de que toda a gente avançou no tempo na nova continuidade, menos ele; e o seu passado, por via de um pormenor intrigante após o clímax, acaba por desafiar o que fora estabelecido em filmes anteriores. Também é curioso notar como o desenvolvimento do enredo, a espaços feito de forma tão inteligente, acaba por se deixar cair na armadilha da conveniência (a fraqueza momentânea de Wolverine ao ver Stryker); e não deixa de ser lamentável que toda a introdução dos mutantes no Vietname acabe por se revelar um beco sem saída, com aquelas personagens a não terem qualquer relevância após o fim daquela cena. E, como não podia deixar de ser, se avançamos para as questões de continuidade narrativa com a trilogia original a coisa pode ficar mesmo confusa, com a ressurreição por explicar de Xavier a ser apenas a ponta do icebergue (afinal, Last Stand aconteceu antes de não ter acontecido).


Com uma estética irrepreensível e um estilo notável na antítese que estabelece entre dois momentos tão distintos no tempo e no tom, X-Men: Days of Future Past estabelece-se aos poucos como um dos melhores filmes de uma franchise que já vai longa: combina dois elencos notáveis de forma satisfatória, desenvolve uma trama ambiciosa que, não estando isenta de problemas, acaba por se revelar bastante satisfatória, e denota um apuro visual excepcional na utilização de efeitos especiais em prol da narrativa. Os fãs mais irredutíveis do comic original poderão encontrar alguns problemas na adaptação (um Wolverine martelado na viagem no tempo e sem a sua cena icónica com Colossus e a Sentinela), mas nem por isso o resultado deixa de ser um filme muito consistente na sua apresentação e no seu desenvolvimento. E, pasme-se, consegue ser relevante na sua qualidade de prequela, sequela e reboot funcional de uma franchise cinematográfica. O que, convenhamos, não é para todos. 7.9/10

X-Men: Days of Future Past (2014)
Realizado por Bryan Singer
Argumento de Matthew Vaughn, Simon Kinberg e Jane Goldman
Com Patrick Stewart, Ian McKellen, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Ellen Page, Nicholas Hoult, Peter Dinklage, Shawn Ashmore, Omar Sy, Evan Peters, Bingbing Fan, Josh Helman, Daniel Cudmore, Adan Canto, Booboo Stewart e Mark Camacho
131 minutos 

17 de junho de 2014

X-Men: First Class: Regresso às origens

Os sucessos recentes tanto da trilogia Dark Knight de Christopher Nolan como do Marvel Cinematic Universe legitimaram em definitivo as adaptações cinematográficas dos comics de super-heróis não como algo ligeiro e mais ou menos inconsequente, mas como uma forma de entretenimento de dimensão global, capaz de dar origem a filmes que se afastaram do tom camp que marcou boa parte das transposições de banda desenhada para o grande ecrã até à viragem do milénio (os dois Batman de Tim Burton não contam, como é bom de ver). Dado o sucesso de ambas as franchises, torna-se algo fácil desculpar algumas fraquezas mais ou menos evidentes (o desfecho do aclamadíssimo The Dark Knight é muito duvidoso em termos narrativos, e The Dark Knight Rises nunca se eleva acima da mediocridade) e a alguns acidentes de percurso (recordemos, se tivermos estômago para tanto, o Hulk de Ang Lee); tal como é fácil esquecer, perante o marketing milionário, a bilheteira estrondosa e os fanboys entrincheirados, que a afirmação dos comics no cinema antecede em alguns anos o Batman de Nolan e o Iron Man de Favreau: deu-se, sim, na viragem do milénio pela mão de Sam Raimi e Bryan Singer, com Spider-Man e X-Men, respectivamente, com o primeiro a recuperar o sentido de aventura e de diversão do género sem abdicar da qualidade, e com o segundo a mostrar como uma história de banda desenhada pode, em termos narrativos e simbólicos, ser muito mais do que isso. 

É certo que ambas as as franchises se afundam ao terceiro filme depois de um segundo capítulo sólido (a simetria é curiosa), mas o ponto hoje não é esse. Em 2000, X-Men surpreendeu pela forma como conseguiu adaptar uma banda desenhada vasta, complexa e com uma quantidade de personagens de destaque muito superior àquela que é recomendável no cinema. Como é bom de ver, para esse sucesso não terá decerto sido alheio o elenco notável que Singer conseguiu reunir, com Patrick Stewart, Ian McKellen, Hugh Jackman, Halle Berry e Anna Paquin, entre outros. Para fãs e aficionados seria sem dúvida fácil de imaginar que, num eventual reboot da série, dificilmente seria possível reunir um elenco de talento comparável. Mas quando Matthew Vaughn pegou na franchise em 2011 e se propôs explorar as origens de Charles Xavier e de Erik "Magneto" Lensherr (e companhia) em X-Men: First Class, provou ser possível não só fazer com que um relâmpago caia duas vezes no mesmo sítio, como também conjurar um relâmpago mais brilhante à segunda tentativa. 


Se na trilogia original de Singer os papéis de Professor X e de Magneto ganharam uma gravitas muito própria com o carisma de Patrick Stewart e de Ian McKellen, neste regresso ao passado temos James McAvoy e Michael Fassbender a interpretar as versões jovens daqueles dois carismáticos mutantes - e ambos mostram estar à altura do desafio, tanto nas suas cenas em conjunto como nos seus momentos individuais. Sobretudo Fassbender, magnífico como um Magneto sedento de vingança pelos traumas da sua infância às mãos do nazi Sebastian Shaw (Kevin Bacon). Mas a surpresa acaba por chegar em Raven/Mystique, que ganha uma nova e extraordinária vida com Jennifer Lawrence. 


Em termos narrativos, First Class enquadra as suas várias personagens no contexto histórico (verídico) da época - uma noção que, não sendo nova, se revela especialmente bem sucedida a reforçar a verosimilhança daquelas estranhas personagens com poderes espantosos, que para todos os efeitos mal compreendem. O filme abre com um Erik Lensherr ainda criança, deportado para um campo de concentração nazi controlado por Sebastian Shaw. Ao aperceber-se dos poderes involuntários daquela criança, Shaw manipula-o com violência para o ensinar a controlar o seu dom. Mais ou menos ao mesmo tempo, o jovem telepata Charles Xavier conhece uma mutante azul capaz de assumir a forma de quem quiser: Raven. 


Anos mais tarde, enquanto Charles constrói uma carreira académica de prestígio (sempre com o apoio da sua irmã adoptiva), uma investigação da CIA conduzida por Moira MacTaggert (Rose Byrne) leva-a a descobrir que Shaw, com um grupo de mutantes às suas ordens, está a manipular os Estados Unidos e a União Soviética para desencadear um conflito nuclear de escala mundial. Com o objectivo de saber mais sobre os mutantes, MacTaggert chega até Charles - e juntos encontram Erik no decurso da sua cruzada de vingança. Percebendo que Shaw é uma ameaça muito maior, Charles e Erik começam, com o apoio de uma divisão da CIA, a encontrar outros jovens mutantes - num conflito que irá escalar até um confronto naval ao largo de Cuba, com consequências potencialmente devastadoras.


A forma como Vaughn e os argumentistas Jane Goldman, Zack Stentz e Ashley Edward Miller tecem a história das origens dos mutantes e das facções de Charles Xavier e Magneto (a divisão que encontramos na trilogia original) com o contexto histórico da Crise dos Mísseis de Cuba é sem dúvida habilidosa no enquadramento e no tom que confere ao filme, enquanto torna os mutantes mais verosímeis ao colocá-los como actores da História. Dito isto, o argumento de First Class, ainda que sólido durante a maior parte do tempo, não deixa de acusar algumas fraquezas - com a conversão de Magneto e Mystique a acontecerem de forma demasiado rápida, sem tempo suficiente para se estabelecerem como inevitáveis para quem estiver a entrar na franchise naquele momento (sobretudo no caso de Mystique).


No resto, First Class funciona como a prequela praticamente perfeita - recupera os motivos que tornaram a trilogia original numa franchise de sucesso enquanto se reinventa com um novo tom e um novo estilo, e revitaliza as personagens numa história de origens bem contada, com um módico de coerência e um elenco talentoso a ancorá-la. E nem se esquece de deixar algumas referências de passagem: a brevíssima cena com o Wolverine de Hugh Jackman é notável pelo seu sentido de humor e pela forma como, com uma simplicidade desarmante, estabelece o nexo de continuidade entre futuro e passado. Depois da desilusão de X-Men 3: Last Stand, foi sem dúvida um regresso auspicioso à forma; e, mais do que isso, um regresso que permitiu abrir inúmeras potencialidades para o futuro da série. Como se viria a ver, aliás, em Days of Future Past. 7.5/10

X-Men: First Class (2011)
Realizado por Matthew Vaughn
Argumento de Jane Goldman, Zack Stentz e Ashley Edward Miller a partir dos comics de Jack Kirby e Stan Lee
Com James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Kevin Bacon, Rose Byrne, January Jones, Zoë Kravitz, Nicholas Hoult Lucas Till, Matt Craven e Oliver Platt
132 minutos

    29 de abril de 2014

    Unbreakable: Antítese física e ambiguidade moral

    Vivemos num tempo em que a banda desenhada de super-heróis da tradição norte-americana - usemos a designação comics para simplificar, ainda que não seja de todo rigorosa - abandonou o gueto geek no qual se manteve durante décadas para se instalar bem no centro da cultura popular contemporânea. Não será decerto incorrecto afirmar que tal fenómeno se deve em larga medida ao sucesso das adaptações cinematográficas deste novo milénio, que deram nova vida no grande ecrã a personagens já populares como Spider-Man ou Batman, que trouxeram para a ribalta personagens menos conhecidas do grande público como o Iron Man ou os mutantes de X-Men, e que possibilitaram o encadeamento narrativo do Marvel Cinematic Universe, cuja primeira fase foi concluída com The Avengers num sucesso mundial que seria difícil de prever uma década antes. É certo: já antes dos anos 00 havia adaptações de comics ao cinema, e algumas bastante bem sucedidas tanto em termos críticos como comerciais - é ver o caso de Batman e Batman Returns, de Tim Burton, exercícios notáveis de enquadramento do tom mais camp de muitos comics num filme de contornos mais sombrios. Para todos os efeitos, porém, antes do ano 2000 os filmes de super-heróis eram algo que não apelava ao grande público, e nem os sucessos passados do Batman de Burton ou do Super-Man de Richard Donner lhes retiravam o estigma de histórias over the top, com pouco a dizer sobre o seu tempo, e efectivamente irrelevantes. Para todos os efeitos, essa percepção começou a mudar com o X-Men de Bryan Singer, em 2000, e com o Spider-Man de Sam Raimi, em 2002 - filmes com elencos muito conhecidos do grande público, a dar destaque à acção e com alguma exploração do zeitgeist, ainda que limitada. Mas no mesmo ano em que X-Men mostrava as possibilidades dos super-heróis dos comics para os blockbusters de acção, um filme mais discreto pegava nos comics para contar uma história de origens de um super-herói pela via oposta - pela pausa, pelo silêncio, pela exploração do drama pessoal. Esse filme é Unbreakable, de M. Night Shyamalan. 


    As narrativas dos comics são com frequência histórias de opostos, assentando com frequência na eterna antítese ente o bem e o mal para distinguir entre heróis e vilões e colocá-los em confronto. Em termos práticos, Unbreakable não é excepção a esta norma, mas utiliza um conhecimento assinalável dos comics para desconstruir a premissa e torná-la original e refrescante. E fá-lo desde logo na apresentação dos seus protagonistas, Elijah e David.


    Elijah Price (Samuel L. Jackson) nasceu com uma condição rara que faz com que os seus ossos quebrem ao mais pequeno impacto - um autêntico homem de vidro (Mr. Glass), como é conhecido pelos seus pares em criança. A sua mãe, numa tentativa de o fazer viver com um módico de normalidade, dá-lhe a conhecer os comics de super-heróis - em troca, Elijah terá de sair de casa para os obter. Elijah acaba por se tornar num coleccionador e num estudioso do formato, e acaba por tentar encarar a sua fragilidade à luz dos princípios da banda desenhada.


    Em antítese à fragilidade de Elijah temos David Dunn (Bruce Willis), um homem aparentemente normal que trabalha como segurança num estádio de futebol americano. Dunn passou ao lado de uma carreira fulgurante na modalidade, e desde então nunca mais foi o mesmo - o seu casamento com Audrey (Robin Wright) terá sido a única coisa positiva que retirou do acidente, mas mesmo isso está a desmoronar-se; e a sua relação com o seu filho, Joseph (Spencer Treat Clark) está longe de ser afectuosa. Mas a sua vida vai mudar de forma radical no momento em que sobrevive ileso a um violento acidente de comboio que ceifou a vida a todos os outros passageiros.


    Ao sobreviver ao desastre, David chama a atenção de Elijah - que lhe pergunta se alguma vez ele esteve doente. Instigado por aquele estranho que começa a intrometer-se na sua vida, David é levado a reflectir sobre algumas peculiaridades do seu passado e sobre as versões verdadeiras de alguns acontecimentos, numa jornada de auto-descoberta feita com Joseph que irá mudar a sua vida para sempre. 


    O invés de apostar no ruído, Unbreakable joga pelo silêncio - e esse contraste com o cinema de super-heróis contemporâneo só o torna mais relevante nos dias que correm. É, acima de tudo, uma história de origens, com a descoberta do super-herói a ser feita no contexto de um drama familiar verosímil, acentuado na perfeição pelos desempenhos contidos de Bruce Willis e Robin Wright (houve críticos que se queixaram do melodrama; pessoalmente, porém, julgo que a questão familiar torna a história de Dunn mais forte). 


    Mas o ponto forte de Unbreakable é a forma como utiliza a tradição e as convenções dos comics para enquadrar a sua história e para desenvolver as duas personagens principais - as referências que Shyamalan coloca a propósito da história do formato, dos traços dos vilões e da distinção entre vilão e arqui-inimigo são notáveis, e introduzem algo de significativo para a tensa reviravolta final. E com alguns momentos deliciosos para fãs e conhecedores de comics, que decerto não terão conseguido evitar um sorriso no momento em que Elijah recusa vender uma prancha rara de um comic clássico a um homem que quer dá-la ao seu filho de quatro anos - numa defesa do formato como arte e, mais do que isso, como algo adulto, distante do preconceito que determina que comics são feitos para crianças. 


    E a isso junta-se a mestria técnica de Shyamalan, rica no pormenor e no simbolismo desde o primeiro momento com um Elijah bebé revelado através do espelho até aos enquadramentos, aos ângulos mais invulgares, às imagens de uma beleza sombria que encaixam na perfeição na narrativa e no tema. Em termos visuais, o realizador nada deixa ao acaso, e Unbreakable ganha com isso em múltiplas visualizações, quando a descoberta do final se esgota. 


    Unbreakable poderá não ser uma obra-prima, mas nem por isso deixa de ser um thriller intrigante, com uma premissa bem montada a convergir para uma reviravolta final que, não sendo de todo inesperada, nem por isso deixa de ser inteligente. E talvez seja mais relevante hoje do que há 14 anos, quando os filmes de super-heróis não eram moda, por demonstrar que é possível pegar no tema e explorá-lo por vias alternativas à intensidade alimentada a computer-generated images dos blockbusters modernos. E mais do que isso: sem se afastar das suas raízes e da sua identidade própria. Neste ponto, o filme de Shyamalan marca pontos: é uma história de origens de um super-herói que surge marcada pela ponderação, pelo drama e pela sua profunda humanidade, e não pelo ruído e pela violência. Por isso, e pelo seu carácter meta-referencial, acaba por se elevar no género. 8.2/10

    Unbreakable (2000)
    Realização e argumento de M. Night Shyamalan
    Com Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright, Spencer Treat Clark e Charlayne Woodard
    106 minutos

    24 de maio de 2013

    As origens de Hellboy em Seed of Destruction

    Depois de Hellboy, o filme, talvez seja uma boa ideia aproveitar o pretexto para regressar às origens e falar um pouco sobre Hellboy, o comic que deu origem a esta popular personagem da Dark Horse. E nada como começar pelo início, ainda que não o exacto início: os quatro issues compilados no álbum Seed of Destruction (1994), que não só introduz o protagonista e algumas das mais relevantes personagens secundárias, mas também estabelece o tom e alguns elementos que dão substância a todo o universo ficcional criado por Mike Mignola e John Byrne (este livro inclui no final duas pequenas histórias que são, de facto, as primeiras histórias de Hellboy; merecem uma leitura como apontamento, mas não apresentam a maturidade e a densidade da narrativa principal).

    Ainda que o presente narrativo de Seed of Destruction seja nos anos 90, a história de Hellboy começa muito antes disso - começa, sim, nos finais da Segunda Guerra Mundial, quando os Aliados já estavam a vencer a Guerra e os Nazis perseguiam desesperadamente qualquer vantagem que pudessem obter para dar a volta à situação. E um dos caminhos tentados foi o do sobrenatural, com os grupos do oculto afectos a Hitler a obter a ajuda do famigerado Grigori Rasputin para evocar Ogdru Jahad e iniciar o fim do mundo tal como era conhecido. Uma evocação feita numa ilha ao largo da costa da Escócia, e que não corre como esperado, pois os seus resultados fizeram-se sentir muito longe dali: em East Bromwich, na Inglaterra, um grupo de soldados Aliados, o herói mascarado Tocha da Liberdade e três elementos da Sociedade Britânica do Paranormal - Malcolm Frost, Cynthia Eden-Jones e Trevor "Broom" Brutterholm - encontram-se numa igreja assombrada e testemunham o aparecimento, numa súbita explosão, de uma criança demoníaca, a qual chamaram de "Hellboy".

    Mas chega de background. No presente, o professor "Broom" - que criou Hellboy - está dado como morto após uma expedição ao Árctico com os irmãos Cavendish, onde descobriram algo tão extraordinário como sombrio. Uma praga de rãs muito pouco comuns esconde um mal antigo, e Hellboy e os seus companheiros do "Bureau for Paranormal Research and Defense" (BPRD) ´- Liz Sherman e Abe Sapien - vão investigar o passado do misterioso clã Cavendish em busca de pistas; e o que encontram não só é mais do que esperavam, como também deixa alguns indícios muito sinistros sobre as origens do protagonista...

    Mignola e Byrne desenvolvem a narrativa com o professor "Broom" a começar como narrador e com Hellboy a tomar as rédeas da narração pouco depois - num estilo reminiscente das histórias noir, descritivo, mordaz e algo sarcástico. É neste registo - muito eficaz, diga-se de passagem - que são feitas as apresentações de Liz e Sherman, com breves descrições do seu passado; e é também assim que o leitor segue várias sequências, acompanhando os pensamentos do protagonista naquele peculiar estilo "detective" (que me traz à mente a história de Marv em Sin City ou as passagens de "Tracer Bullet" em Calvin & Hobbes). 


    Mas os autores não se ficam por aqui; e para dar maior densidade a um enredo muito bem escrito e a uma história repleta de criaturas mostruosas, pragas, demónios e feiticeiros, Mignola e Byrne juntaram vários elementos, um pouco ao estilo do que Moore e Gibbons fizeram em Watchmen, para dar maior densidade à narrativa. Ao longo de Seed of Destruction o leitor encontra assim ficheiros do BPRD relativos a personalidades de relevo entre os Nazis, mitos sobre rãs e ilustrações muito apelativas nos separadores entre capítulos. Ainda que no campo artístico este não seja um álbum excepcional, tanto a ilustração como a cor revelam-se eficazes e competentes, funcionando muito bem nos vários momentos da narrativa e dando um destaque especial às sombras, sempre presentes, dando um tom muito especial a todo o ambiente.

    Seed of Destruction é uma sólida introdução a uma personagem que rapidamente se tornou icónica no universo dos comics, traçando as origens do protagonista numa aventura bem ritmada e com alguma surpresas. O primeiro filme de Guillermo Del Toro é quase todo ele retirado destas páginas; mas nelas  - e sem retirar mérito algum ao filme - encontra-se uma narrativa mais cuidada, mais abrangente e incomparavelmente mais rica.

    A edição portuguesa - Semente de Destruição - data de 2003 e foi editada pela Devir. A tradução é de Pedro Miranda.

    21 de maio de 2013

    Hellboy, ou o (bom) lado negro dos comic book movies

    As adaptações cinematográficas de comic books ganharam força ao longo da última década - mas o percurso feito pelas várias produções do género foi, no mínimo, acidentado. Olhando para alguns filmes aclamados - e, acima de tudo, de qualidade - como The Dark Knight (Christopher Nolan, 2008), Iron Man (Jon Favreau, 2008) ou The Avengers (Joss Whedon, 2012), talvez seja fácil esquecermos fiascos como Hulk (Ang Lee, 2003), Spiderman 3 (Sam Raimi, 2007) e outros. Mas no meio da "guerra" entre os sucessos comerciais da Marvel e os altos e baixos da DC Comics também a Dark Horse entrou em jogo - e se a sua participação foi discreta (e, até ver, de curta duração, com apenas dois filmes), nem por isso deixa de merecer destaque. Em 2004, Guillermo Del Toro realizou Hellboy, levando para o grande ecrã uma das mais icónicas desta editora norte-americana de comics;quatro anos mais tarde, repetiria a graça com Hellboy 2: The Golden Army (mas sobre este falarei na próxima semana).

    Em termos narrativos, Hellboy segue de forma muito livre - mais batráquio, menos batráquio - a premissa básica do primeiro trade paperbackSeed of Destruction, recuperando a história das origens do protagonista com o destaque dado a Rasputine (sim, esse Rasputine) e não à família Cavendish. No final da Segunda Guerra Mundial, Rasputine (Karel Roden) constrói, com a ajuda de uma facção Nazi dedicada ao oculto, um portal dimensional numa ilha na costa da Escócia, com o qual tenciona evocar de uma dimensão paralela Ogdru Jahad, os Sete Deuses do Caos, para derrotar os Aliados e dar início a um reino de terror na Terra. Mas uma força dos Aliados, acompanhada pelo especialista no oculto Trevor Brutterholm (John Hurt), intervém e destrói o portal. Um pouco tarde, porém - para espanto de Brutterholm e dos soldados sobreviventes, através do portal passou uma estranha criatura, um demónio criança com uma mão de pedra ao qual dão o nome "Hellboy".


    No presente da narrativa, o professor Brutterholm lidera o "Bureau of Paranormal Research and Defense" (BPRD), onde Hellboy (Ron Perlman) vive e trabalha como detective do sobrenatural e do paranormal na companhia de alguns burocratas, agentes do sobrenatural e criaturas fantásticas, como Abe Sapien (Doug Jones) e a sua companheira, Elizabeth "Liz" Sherman (Selma Blair), ausente e internada para controlar os seus poderes pirokinéticos. Sabendo que o seu fim está próximo, Brutterholm recruta um novo agente do FBI, John Myers (Rupert Evans), para acompanhar Hellboy nas suas missões. Mas pouco tempo depois, Rasputine regressa, decidido a recuperar o tempo perdido e a trazer para a Terra os demónios que em tempos ambicionara soltar.


    Os elementos que tornam Hellboy numa obra singular e fascinante dentro do universo dos comics - o seu tom simultaneamente sombrio e humorístico, de influências pulp e com os dois pés bem firmes no sobrenatural - foram transpostos com mestria das páginas ilustradas de Mike Mignola para o cinema. Del Toro soube recriar com mestria o ambiente hardboiled com um toque de horror lovecraftiano tão característico de Seed of Destruction, orientando a narrativa para várias sequências de acção bem ritmadas, divertidas de acompanhar, mas que em momento algum interferem com o (excelente) desenvolvimento das várias personagens.


    Um dos pilares do sucesso de Hellboy reside nas interpretações de um elenco muito talentoso - mas é Ron Perlman quem rouba quase todas as cenas em que entra, empenhando-se em dar vida a uma personagem sem dúvida desafiante. E, de facto, Perlman é Hellboy - no seu sentido de humor seco, nos seus gestos característicos, na sua violência imparável (afinal, ele é um demónio - simpático, mas um demónio). A caracterização soberba ajuda a tornar a personagem verosímil - e esta é apenas uma pequena parte de uma forte componente visual, com efeitos especiais credíveis a dar forma às inevitáveis e bem construídas cenas de acção, onde Hellboy combate contra demónios que se multiplicam e criaturas gigantes com tentáculos monstruosos. Ainda assim, neste ponto não se nota ainda de forma decisiva a prodigiosa imaginação de Del Toro, que dois anos mais tarde viria a encantar o mundo com o surpreendente El Laberinto del Fauno. Os monstros de Hellboy são bons, mas não tão bons como aqueles que aquele filme e a sua sequela directa viriam a exibir.


    Hellboy não será decerto um dos mais convencionais filmes de super-heróis - a sua narrativa firmemente ancorada no misticismo e no sobrenatural e a sua atmosfera sempre sombria colocam-no sem dúvida à margem das restantes adaptações de comic books  da última década (excepção feita talvez a Watchmen). O que, diga-se de passagem, está longe de ser um defeito. Hellboy é um filme bastante sólido, que em momento algum esconde as suas origens dos comics - e que eleva o género com uma premissa muito interessante sustentada por desempenhos sólidos e por um punhado de cenas memoráveis. Mais importante do que isso, porém, é o facto de ter trazido com sucesso para o cinema mais uma personagem icónica da banda desenhada norte americana - e de ter estabelecido os elementos que viriam a fazer de Hellboy 2: The Golden Army um dos filmes de fantasia mais interessantes dos últimos anos. 7.4/10

    Hellboy (2004)
    Realizado por Guillermo Del Toro
    Argumento de Guillermo Del Toro e Peter Briggs com base nos comics de Mike Mignola
    Com Ron Perlman, John Hurt, Selma Blair, Rupert Evans, Karel Roden, Jeffrey Tambor e Doug Jones
    122 minutos

    18 de novembro de 2012

    Alan Moore (1953 - )

    A história dos comics está repleta de figuras - reais - marcantes e geniais, mas poucas terão contribuído de forma tão decisiva para a afirmação qualitativa de um meio de expressão normalmente considerado inferior como Alan Moore. Um dos mais originais autores do género, Alan Moore elevou a fasquia no universo dos comics ao dar-lhe um carácter quase literário na construção e desconstrução das suas personagens, na elaboração narrativa e mesmo nos temas abordados. Entre 1982 e 1985, na extinta revista de comics britânica Warrior, publicou com o ilustrador David Lloyd V for Vendetta, uma densa e fascinante visão de uma Inglaterra futurista e distópica dominada por um governo fascista ameaçado por um terrorista fascinante na sua ambiguidade. Mas foi entre 1986 e 1987 que Moore viria a revolucionar definitivamente os comics com Watchmen, uma série limitada de doze fascículos com ilustração de Dave Gibbons e publicação da DC Comics que desconstrói de forma soberba as histórias convencionais de super-heróis (sem nunca deixa de ser uma história de super-heróis) através de uma estrutura narrativa original e fragmentada. Watchmen recebeu uma enorme aclamação da crítica, dentro e fora da indústria dos comics: para além do Prémio Hugo e de muitas outras distinções, foi a única graphic novel a ser incluída na lista das "All-Time 100 Greatest Novels" da revista Time. 

    Mas Alan Moore não ficou por aqui: na sua vasta e extraordinária bibliografia encontram-se comics como From Hell, Lost Girls, Promethea e The League of Extraordinary Gentlemen, entre outras. Reformulou The Swamp Thing, e das páginas desta personagem acabou por contribuir para a criação de outra: o carismático John Constantine, personagem central da série Hellblazer da linha Vertigo da DC. Trabalhou também personagens conceituadas como o Super-Homem ou Batman (entre muitas outras), assinando álbuns memoráveis como The Killing Joke. Em prosa, é autor do livro Voice of the Fire, de 1996.

    É também conhecido pela oposição à adaptação dos seus trabalhos a outros meios, nomeadamente ao cinema: várias foram as polémicas desencadeadas pelas adaptações de V for Vendetta e Watchmen.

    Natural de Northampton, no Reino Unido, Alan Moore celebra hoje 59 anos. 

    11 de novembro de 2012

    Citação fantástica (40)

    It does not do to rely too much on silent majorities, Evey, for silence is a fragile thing... one loud noise, and it's gone.

    Alan Moore e David Lloyd, V for Vendetta (1982-1989)

    9 de novembro de 2012

    O legado de V for Vendetta

    Ao longo da semana, descrevi V for Vendetta como um comic “icónico”, e este adjectivo não surge por acaso. Alan Moore e David Lloyd criaram nas páginas da extinta “Warrior” uma verdadeira obra de culto, com um futuro próximo assustadoramente plausível, e cuja verosimilhança não se perde apesar de 1997 ser já um ano distante e de o mundo como o conhecemos ter mudando de forma muito radical (porventura mais radical do que gostaríamos) nos últimos 15 anos. V for Vendetta mostra-nos como pode ser fácil um regime autoritário erguer-se e dominar uma população, e mostra-nos o papel assustador que a tecnologia pode assumir para um nível de repressão nunca antes visto. Até aqui, nada de novo - Orwell já o fizera nos anos 40, e de forma  sublime. Aquilo que Moore e Lloyd nos mostram, e que Orwell e outros não mostraram, é os meios que um povo subjugado podem utilizar para lutar contra o totalitarismo - e como esses meios não são necessariamente bons ou justos num mundo em que o Bem e o Mal não são valores absolutos, mas variáveis e muito, muito voláteis. V for Vendetta questiona a autoridade do Estado, e a sua vertente repressiva - mas, ao mostrar-nos a luta contra essa repressão, está também a colocar questões relevantes. É legítimo falar em nome de todo o povo? É legítimo matar e torturar para obter a liberdade? Em última análise - se descemos ao mesmo abismo dos nossos inimigos, e empregamos métodos similares, o que nos distingue?

    É bom de ver que, neste início do século XXI, esta mensagem é mais pertinente do que nunca.

    Ainda assim, a mensagem e o simbolismo de V for Vendetta - tal como a sua excelente arte, a narrativa de complexidade literária, as personagens densas e ambíguas - poderiam ter permanecido não perdidos mas ignorados. Sim, o comic foi muito lido, e é há anos considerado uma das obras mais importantes do formato. Mas os comics, a banda desenhada - enfim, na designação mais nobre, as graphic novels - continuam conhecer um consumo reduzido em relação a outros formatos artísticos. Independentemente dos seus méritos e das suas limitações, o filme que adaptou V for Vendetta ao grande ecrã levou a luta de V para um público muito mais vasto - que absorveu desde logo a mensagem. Frases como “ideas are bulletproof”, retirada do comic e reproduzida no filme, ou “people should not be afraid of their governments. Governments should be afraid of their people”, original do filme, tornaram-se recorrentes em protestos políticos que hoje acompanhamos a uma velocidade desconcertante na Internet. E Guy Fawkes, personagem algo esquecida da história de Inglaterra, chegou por fim à cultura popular. O colectivo Anonymous, sem dúvida um dos mais interessantes fenómenos que emergiu da Internet, adoptou as máscaras de Guy Fawkes em 2008 na “Operation Chanology”, contra a Igreja da Cientologia, e desde então a máscara de Guy Fawkes tornou-se no seu símbolo. Aliás, é interessante notar como o colectivo Anonymous assumiu parte da mensagem de Moore e Lloyd: também este grupo, composto por imensa gente, não tem um rosto, um líder, uma estrutura.

    Com o mediatismo do colectivo Anonymous, as máscaras de Guy Fawkes tornaram-se ainda mais populares. Ao que consta, vendem-se como pãezinhos quentes na Amazon, e não há protesto político contemporâneo que não tenha uma ou mais pessoas com a cara coberta pelo sorriso desconcertante da máscara - dos movimentos"Occupy" às revoluções da dita “Primavera Árabe”. Tanto Moore como Lloyd já manifestaram satisfação por o símbolo que criaram estar associado à luta pela liberdade em tantos locais e tantas circunstância diferentes. Mas essa associação só se tornou possível pela súbita popularidade de V - e essa popularidade só se tornou global após o filme, mesmo que o filme tenha levado (como acredito que levou) muita gente a ir ler o comic original.

    Mas a verdade é que discutir se a popularidade de V for Vendetta se deve aos comics ou ao filme acaba por ser um exercício mais ou menos irrelevante - foi através das duas obras que V conquistou o seu lugar no imaginário popular, e mais como símbolo do que como personagem. O que, diga-se em jeito de conclusão, faz plena justiça ao ideal que Moore e Lloyd escreveram e desenharam juntos em V for Vendetta, e dá ao comic uma dimensão que muito poucas obras do género alcançaram.



    8 de novembro de 2012

    V for Vendetta: Os altos e baixos da adaptação cinematográfica

    Ao longo dos últimos dias falei aqui de V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd. Abordei o universo distópico criado por Moore, as personagens e a sua importância no puzzle narrativo de V. Isto, note-se, a propósito de um comic vasto, complexo, repleto de narrativas laterais e desenvolvido ao longo de vários anos. Em 2005, estreou a adaptação cinematográfica deste fascinante universo, num filme realizado por James McTeigue, com argumento e produção de Larry e Andy Wachowsky, e com um elenco repleto de actores consagrados: Hugo Weaving, Natalie Portman, John Hurt, Stephen Rea, Stephen Fry e Ruper Graves. Sem surpresas, Alan Moore opôs-se ao projecto, e não permitiu qualquer associação do seu nome ao filme. Mas independentemente desta oposição, terá este filme conseguido fazer justiça ao formidável comic de Moore e Lloyd?

    Sim e não.

    Não fez justiça ao comic na medida em que tal seria impossível: V for Vendetta é demasiado denso e contém demasiadas narrativas secundárias para uma adaptação num filme de pouco mais de duas horas. Para ser franco, nem quatro horas chegariam para contar a história de V, de Evey, de Finch e de Susan, e ainda para acompanhar as narrativas laterais de Creedy, Etheridge, Heyer, Almond, Rosemary, Helen e Ally, e mesmo do supercomputador "Fate" (e, recordemos, todas estas narrativas são fundamentais para o desfecho do comic). Foi necessário fazer inúmeros desvios narrativos, alterar a ordem de muitos acontecimentos, omitir outros, cortar algumas personagens e reduzir outras a uma quase-insignificância, e ainda fazer algumas alterações drásticas tanto em personagens como em momentos fundamentais da narrativa. Adam Susan, interpretado por John Hurt, viu o seu nome alterado para Adam Sutler (uma alteração que julgo desnecessária), e passou de um tirano ambíguo para um Hitler versão século XXI; já Creedy deixou de ser o pequeno criminoso chegado ao poder para se tornar num dos cérebros do Norsefire e num vilão um tanto ou quanto cartoony. Finch, por seu lado, não foi tão longe para descobrir V, e Evey viu o seu passado drasticamente alterado. Larkhill, por exemplo, deixou de ser um mero campo de concentração onde foram feitas experiências macabras: essas experiências abriram a porta a uma vasta conspiração de terrorismo biológico, ausente no comic, que ajudou o Norsefire a ascender ao poder.

    Em termos globais, o filme acaba por transmitir uma mensagem menos “anarquista” e mais contemporânea - se no comic V é sempre uma personagem ambígua, no filme essa ambiguidade esbateu-se de forma significativa, e ele é de facto um herói - como muitos disseram, um freedom-fighter (ainda assim, julgo que Alan Moore exagera quando considera que o filme passa uma mensagem “pró-americana” - aliás, julgo que a ideia é justamente a oposta).

    Há, contudo, vários pontos nos quais a adaptação funciona muito. O foco na televisão, e não na rádio, está excelente e faz mais sentido para as audiências do século XXI - tal como a referência à Interlink, que suponho ser a Internet (algo que em 1982 não existia tal como a conhecemos hoje). A conspiração do terrorismo biológico para a ascensão do Norsefire, apesar de ser um elemento novo (e porventura desnecesário), está bem construído, não sendo rebuscado e não ferindo a lógica interna da narrativa. O elenco é praticamente irrepreensível - John Hurt está sólido como Sutler e Stephen Rea representa um excelente Finch; mas Natalie Portman brilha como Evey Hammond (a cena da tortura é inesquecível) e Hugo Weaving tem um desempenho tão forte que consegue dar expressividade a uma personagem que tem sempre o rosto coberto por uma máscara. Diria mesmo que o desempenho magnético de Weaving é mesmo o ponto forte do filme: consegue transmitir de forma impressionante o carácter violento mas teatral de V, com todo o seu idealismo e a sua inteligência.

    A narrativa conheceu bastantes alterações de forma a adequar o ritmo à duração do filme. A vingança de V contra Prothero, Lilliman e Surridge manteve-se, ainda que com algumas alterações (sobretudo no caso de Prothero), tal como a história de Valerie Page, especialmente bem contada durante o incarceramento de Evey (também adaptado de forma fiel). Mesmo o final, apesar de muitas alterações (fruto do desaparecimento de muitas narrativas secundárias), manteém alguma fidelidade para com o comic. O início do filme é idêntico ao comic, mas muda logo nos primeiros minutos, quando V faz explorir o Old Bailey - o Parlamento é guardado para o final apoteótico.

    Por muito discutível que a adaptação de V for Vendetta seja, com todas as suas alterações e todos os seus desvios, a verdade é que o resultado é um filme muito acima da média, com desempenhos memoráveis e uma carga simbólica muito forte. Creio que é neste ponto que V for Vendetta, o filme, mais se aproxima do comic: apesar de todas as mudanças (muitas delas drásticas), conseguiu preservar o essencial da subversiva mensagem elaborada por Alan Moore e David Lloyd, e passá-la de forma muito coerente, criando e adaptando algumas frases que se tornaram em autênticos soundbites (People shouldn’t be afraid of their governments, governments should be afraid of their people). Não dispensa a leitura do comic, agora compilado em graphic novel, mas vale por si só como um óptimo e poderoso filme. 8.0/10

    7 de novembro de 2012

    V for Vendetta: As personagens e os arcos narrativos enquanto peças do dominó

    A vasta galeria de personagens que compõem V for Vendetta cruzam-se e relacionam-se em vários arcos narrativos distintos, de dimensões variáveis mas cada um com a sua importância própria dentro da história de V e a contribuir de forma muito própria para o final. Alan Moore não deixou nada ao acaso; todas as personagens surgem com um propósito muito definido e um papel a representar no vasto plano concebido por V para derrubar o Norsefire. A imagem dos dominós, presente na graphic novel e tão icónica no filme, ganha aqui especial relevância.

    Excluindo V e Evey, Eric Finch terá o arco narrativo mais interessante de V for Vendetta, com as investigações que, a partir do departamento do Estado que controla (“The Nose”), vai fazer ao caso do terrorista que fez explodir o Parlamento e ameaça o poder do Norsefire. Este arco é particularmente relevante por vários motivos: por um lado, fornece muitas informações sobre V; por outro, dá ao leitor uma visão da estrutura governativa a partir de um alto funcionário do partido que, no seu pragmatismo, não mantém ilusões quando à situação real. O seu desentendimento com o recém-nomeado líder do “The Finger”, Peter Creedy, acentua o seu afastamento definitivo da estrutura do partido, tornado definitivo durante a sua visita clandestina às ruídas do campo de concentração de Larkhill. Ainda assim, não desiste da sua investigação e do seu objectivo - movido talvez por um desejo de terminar o seu trabalho e de vingar Delia Surridge, apresar do mal que ela causou.

    Curiosamente, dois dos arcos narrativos mais interessantes e relevantes de V for Vendetta pertencem a duas personagens improváveis: a Rosemary Almond, mulher de Derek Almond, alto funcionário do Norsefire e líder do “Finger”; e a Helen Heyer, mulher de Conrad Heyer, também um alto funcionário do partido e líder do “Eye”. No caso de Almond, este desaparece  cedo da narrativa, deixando Rosemary desamparada e numa espiral de decadência. Com a leitura, acompanhamos a queda progressiva de Rosemary, até ao ponto em que, movida por desespero, decide agir e fazer o impensável. De todas as personagens secundárias, é a única que acompanhamos na primeira pessoa.

    Já Helen Heyer é uma personagem diferente. Ao contrário de Rosemary, abusada pelo marido, Helen é uma mulher forte e determinada, que mantém o seu marido sob um controlo tão absoluto quanto cruel, manipulando-o para os seus próprios fins. Calculista, prevê a queda inevitável de Adam Susan e prepara com cuidado e astúcia a ascensão de Conrad ao poder, sabendo que será sempre ela quem o controla e quem, assim, detém de facto o poder. Para esse fim usa as armas que tem: dinheiro, inteligência e sensualidade. Através de Alistair “Ally” Harper, um criminoso escocês que surge no arco narrativo de Evey, entra no de Creedy e termina no de Helen, prepara a traição a Creedy para assumir o controlo do “Finger”.

    É interessante notar como tanto Rosemary como Helen parecem estar fora dos planos de V - como se fossem jogadoras ocasionais, com uma agenda própria e objectivos muito concretos. Essas agendas próprias existem, de facto, mas estão subjugadas à agenda mais vasta de V, que as incluiu meticulosamente na vasta teia que urdiu desde que se libertou de Larkhill. Neste ponto, a mestria narrativa de Alan Moore em V for Vendetta revela-se em todo o seu esplendor - nada, desde a primeira vinheta, surge por acaso ou destituído de propósito; cada personagem, cada acção, é introduzida na narrativa no momento exacto, e desenvolvida ao ritmo certo para assumir o seu papel no clímax da história. De Rosemary a Helen, de Ally a Gordon, cada personagem, por acção ou inacção, tem um papel a representar no plano de V. Um jogo de xadrez perfeito - ou, se quisermos, uma vasta e intrincada construção com peças de dominó, semelhante à que V montou, que formam a imagem definitiva ao mais ligeiro toque numa delas.

    (continua)

    6 de novembro de 2012

    V for Vendetta: Os protagonistas

    Uma das riquezas de V for Vendetta, a par do enquadramento histórico/distópico e dos elaborados arcos narrativos, reside nas suas personagens. Neste campo, Alan Moore não se limitou ao estritamente necessário para a história funcionar (como acontece no filme), e criou uma vasta galeria de personagens principais, secundárias e figurantes que não só compõem aquela sombria Inglaterra, como lhe dão espessura, tornando a própria narrativa mais densa e complexa à medida que as histórias pessoais de cada personagem se envolve, de forma directa ou indirecta, no grande plano de V.

    Há quatro personagens que podemos identificar como protagonistas: V, Evey Hammond, Eric Finch e Adam Susan. Comecemos por este último.


    Adam Susan
    Adam Susan é o líder do Norsefire e quem, na prática, governa o reino através do supercomputador “Fate”. Revela uma profunda convicção nos seus ideais fascistas e nas suas convicções de pureza racial, e está seguro de que as suas acções no pós-guerra para ascender ao poder foram legítimas e correctas. No entanto, Susan não é um vilão no sentido habitual do arquétipo; considera-se um homem comum ("I am a man, like any other man"). Parece amar genuinamente o seu país e o seu povo, sem contudo deixar de ter a perfeita noção de que esse sentimento não é recíproco. Contenta-se com a alternativa: o respeito através do medo. Do conceito de fascismo deriva o ideal que orienta o seu partido e a sua governação: força pela pureza e pela união - "And if that strenght, that unity of purpose, demands an uniformity of thought, word and deed, so be it". Exigiu ao seu povo que abdicasse de uma liberdade na qual não acredita em troca de estabilidade e segurança - e considera ele mesmo ter abdicado da sua liberdade, tal como o seu povo ("I sit here within my cage and I am but a servant"). Afastado até dos seus colegas de partido, vive num profundo isolamento, com um mínimo indispensável de contacto com outras pessoas e sem vida social relevante. A adoração que sente pelo supercomputador “Fate”, ao ponto da obsessão, é o indicador perfeito do grau de isolamento de um líder totalitário particularmente denso e ambíguo, e estabelece um contraste muito interessante com V.

    V
    A primeira pergunta que ocorre quando V surge é: quem é este personagem? Alan Moore deu muita informação: foi prisioneiro em Larkhill, o que indica que pode ter pertencido a um grupo (étnico ou político) mal visto pelo fascismo em ascensão. Foi submetido a tortura e a experiências naquele campo de concentração - como resultado, as suas capacidades físicas evoluíram de forma anormal, e desenvolveu uma psicose invulgar e uma personalidade magnética e muito carismática. Dotado de uma extraordinária inteligência (e de uma vasta cultura), concebeu um plano de longo prazo que culminou na destruição de Larkhill; nas sombras, perseguiu e matou de forma dissimulada os responsáveis pelo campo, até se revelar no rapto e tortura a Lewis Prothero e nos assassinatos de Delia Surridge e do Bispo Lilliman. Anárquico convicto, desenvolveu um plano elaborado para derrubar o partido fascista no governo e devolver o poder de Inglaterra aos cidadãos. Assumiu a máscara de Guy Fawkes e fez o que o conspirador se propusera fazer e não conseguira: explodir o Parlamento em Londres. É, para todos os efeitos um terrorista (ainda que muito teatral), e neste ponto não há qualidades redentoras: tem um objectivo e não hesita na hora de matar quem estiver entre ele e o seu propósito. Alan Moore diz-nos isto e muito mais nas páginas do comic - mas mesmo com toda esta informação, não sabemos quem de facto é V.

    A densidade de V for Vendetta é bem visível na elaborada construção do seu protagonista. A identidade de V é irrelevante na medida que a personagem, considerada enquanto indivíduo, é irrelevante - o que acompanhamos ao longo das cerda de 260 páginas não é tanto uma personagem, mas uma ideia ("ideas are bulletproof", diz-se a dada altura, uma noção do comic que passou de forma particularmente forte na adaptação cinematográfica). Uma ideia de defesa intransigente de liberdade acima de tudo o resto, por todos os meios que forem necessários. Daí a sua morte não ser, para todos os efeitos, uma morte - a ideia que V encarnava perdurou em Evey, e fica a ideia de que perdurará para além dela. Podemos ter a tentação de olhar para V como um herói - afinal, combate um regime fascista opressivo -, mas Alan Moore em momento algum o ergue acima da sua ambiguidade. Como o próprio afirmou em entrevista, a decisão de definir V como herói ou vilão, como louco ou são, fica ao critério do leitor.

    Evey Hammond
    Apesar do protagonismo de V ao longo de toda a obra, diria que Evey Hammond é a verdadeira protagonista - quando não mesmo heroína - de V for Vendetta. É apresentada logo nas primeiras vinhetas como uma jovem e insegura rapariga que, sem outras alternativas na vida, opta pela prostituição - apenas para cair nas malhas dos “Fingermen” e ser salva por V. Na "Shadow Gallery", conhecemos o seu passado: a vida familiar em criança, a perda da mãe, a captura e presumível morte do pai, a institucionalização e o trabalho fabril, a vida no limiar da miséria. De todas as personagens de V for Vendetta, será porventura aquela que tem um crescimento mais sustentado, através de um arco narrativo longo e memorável. O seu fascínio por V leva-a a ajudá-lo, mas não a impede de contestar o seu recurso a métodos violentos.

    Evey vive num estado de insegurança permanente até ao momento em que se vê obrigada a enfrentar os seus maiores medos e a decidir entre os seus princípios e a sua vida, num dos momentos mais marcantes tanto do comic como do filme. Para a sua resistência e subsequente transformação de adolescente inocente e frágila para uma mulher forte, determinada e segura de si contribui de forma definitiva a carta de Valerie Page, prisioneira de Larkhill que não sobreviveu às experiências a que foi submetida (e uma fascinante personagem ausente, com um contributo muito relevante para a caracterização da ascensão do Norsefire). No final, percebe o que V não é um indivíduo mas uma ideia - e, como tal, assume a máscara e o legado de V optando por não descobrir o rosto do homem que encarnara aquela ideia até então.

    Eric Finch
    Eric Finch é o líder da nova polícia de investigação e responsável pelo departamento habitualmente designado como “The Nose”. Desde o primeiro momento, com o ataque de V ao Parlamento, percebe que as autoridades não estão a lidar com um problema comum, e receia o momento em que tenha de pensar como o terrorista para poder prever o seu próximo passo. Pragmático por natureza, não só não tem ilusões quanto à natureza do regime político em vigor como também não faz questão de manter em segredo o seu desinteresse pelas questões políticas e, sobretudo, pelo Norsefire; é tolerado por Adam Susan devido à sua integridade, à sua honestidade e ao seu rigor.

    A cruzada de vingança de V interfere directamente na vida pessoal de Finch quando Delia Surridge é assassinada. Finch dedica todos os seus esforços (indo mesmo a alguns extremos) para desvendar o enigma de Larkhill para descobrir quem é V e poder eliminá-lo. O seu eventual sucesso não consegue parar as engrenagens do vasto plano que V colocara em marcha.

    (continua)

    5 de novembro de 2012

    V for Vendetta: A distopia como enquadramento da narrativa

    Apesar da vasta influência exercida pela pulp fiction e pelas bandas desenhadas de mistério dos anos 30, V For Vendetta foi buscar muita inspiração a outras distopias literárias, como as de Orwell, Huxley ou Bradbury, para mostrar uma Inglaterra futurista (para a época - a narrativa situa-se em 1997) e de carácter distópico, mas fortemente ancorada ao presente histórico do Reino Unido do início dos anos 80. Alan Moore imagina um futuro próximo no qual o Partido Conservador de Margaret Tatcher perderia as eleições de 1983, seguindo-se-lhe um governo Trabalhista que, longe de conseguir colocar o Reino Unido no caminho da recuperação económica, cumpre a promessa do desarmamento nuclear absoluto do país - o que acaba por poupar as Ilhas Britânicas na guerra nuclear que se segue, pelo menos no que aos bombardeamentos diz respeito. No caos do pós-guerra, o partido fascista Norsefire, liderado por Adam Susan, ascende ao poder e rapidamente assume um controlo absoluto sobre o Reino Unido, controlando os destinos da nação através de um supercomputador intitulado "Fate" (Destino), que controla o aparelho burocrático e o sofisticado sistema de vigilância que mantém a população na ordem.

    É através do Norsefire que Alan Moore dá forma à Inglaterra distópica que serve de palco à cruzada de V. Com várias semelhanças a outros partidos de regimes totalitários, o Norsefire encontra-se dividido em várias secções com funções distantas, que apesar de rivalizarem entre si estão aparentemente unidas no apoio incondicional ao líder. A originalidade de Moore reside na sua invulgar caracterização da estrutura do partido: o centro de comando a partir do qual o Partido governa o Reino Unido é designado por “The Head”; o departamento responsável pela videovigilância das ruas e dos cidadãos denomina-se “The Eye”; a vigilância áudio, particularmente relevante numa época em que o meio privilegiado de comunicação ainda é a rádio, e não a televisão, está a cargo de um departamento intitulado “The Ear”; a propaganda e a informação controlada é emitida através da emissora na Jordan Tower, designada por “The Mouth”; o departamento de investigação criminal da polícia (liderado por Eric Finch) é conhecido como “The Nose”; e, por fim, a polícia política do Norsefire, que patrulha as ruas durante a noite e incorpora a violência repressiva do regime, tem o nome de “The Finger”, com os seus agentes a serem habitualmente designados por “Fingermen”. Estas designações, como facilmente se percebe, não surgem por acaso, e descrevem de forma alegórica e elaborada os métodos de controlo empregados pelo Estado totalitário britânico. Note-se que na adaptação cinematográfica em momento algum esta caracterização é feita - a única designação presente é a dos “Fingerman”, mas sem o seu contexto alegórico a designação ganha contornos quase caricaturais ao invés de assumir o carácter simbólico que assume no comic.

    Esta caracterização do Norsefire é feita ao longo de toda a narrativa mais através das acções e das interacções das várias personagens do que de contextualizações, e é relevante para compreendermos, para além do enquadramento da narrativa, três aspectos fundamentais de V for Vendetta: o plano de vingança de V, que é introduzido já na fase final da sua execução - o assassinato (a vendetta) dos três responsáveis máximos pelo campo de concentração de Larkhill; o antagonismo entre os vários altos funcionários do Norsefire, responsáveis pelos seus diversos departamentos; e a forma como estes, com os seus relacionamentos e as suas histórias individuais, são “apanhados” no grande plano de V para derrubar o governo autoritário e devolver o poder à população.

    Do restante mundo de V for Vendetta pouco se sabe - subentende-se através do texto que a Europa e África terão sido arrasadas por um holocausto nuclear. O Reino Unido escapou à guerra, mas não aos seus efeitos - as alterações climáticas provocadas pela deflagração nuclear provocaram inundações e a destruição de colheitas, o que por sua vez gerou fome, caos social e racionamento alimentar. A história que se segue é a da ascensão do Norsefire e das purgas feitas contra imigrantes, homossexuais e opositores políticos, encerrados em campos de concentração. Destes, o campo de Larkhill assume particular relevância como local de origem do protagonista, V, e de elo de ligação entre várias personagens relevantes no seu plano anárquico.

    (continua)