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26 de junho de 2014

This happening world (17)

Is Ann Leckie the Next Big Thing in Science Fiction? A pergunta é colocada por Danny Wincentowsky numa longa reportagem para o Riverfront Times sobre a autora de Ancillary Justice, o romance de ficção científica de 2013 cuja aclamação crítica generalizada lhe valeu nomeações para praticamente todos os prémios do género - já venceu o Nébula, o BSFA e o Arthur C. Clarke, e está na corrida para o Hugo em Agosto. É reportagem interessantíssima sobre a ainda curta mas relevante carreira literária de Leckie, sobre o desenvolvimento de Ancillary Justice e sobre as suas opções mais controversas em termos do retrato da identidade de género no romance. 

Iain M. Banks' Culture Spits in the Eye of Nihilism. O artigo de Mordicai Knode para o Tor.com destaca a série Culture, de Iain M. Banks, no actual panorama da ficção científica literária - com as suas utopias futuristas a sobressaírem perante o nihilismo e a distopia que tem marcado o género nos últimos anos, e com o seu sentido de humor único a pautar histórias repletas de grandes conceitos e de aventuras profundamente humanas.

M. R. Carey recupera no Huffington Post a eterna polémica da ficção de género versus ficção literária. When Will People Realize that Science Fiction Can Be Just as Great as Literary Fiction? é o título da peça e a pergunta que lhe serve de ponto de partida - e, antes de recuperar todas as pequenas polémicas que o tema conheceu nos últimos anos, desmonta um artigo publicado no The Guardian e a referência a um estudo no mínimo curioso. Para todos os efeitos, Carey não introduz nenhuma novidade nesta polémica batidíssima, mas não deixa de ser um ponto de situação interessante. 

No io9, Annalee Newitz lança uma afirmação provocadora: Science in Fantasy Novels Is More Accurate Than in Science Fiction. Tenho algumas dúvidas de que a palavra-chave aqui seja rigor e não verosimilhança, mas a argumentação de Newitz é sólida, e os exemplos que utiliza para demonstrar quão complexo e quão verosímil pode o worldbuilding ser na fantasia - muito mais do que a mera utilização de magia como plot device e deus ex machina de que o género tem mais fama do que proveito. Por outro lado, muita da ficção científica recente tem assentado mais na extrapolação social do que propriamente científica... 

Na E3, No Man's Sky esteve em destaque, como se pode ver na reportagem de Dave Tach para a Polygon - e cada pormenor revelado aguça a curiosidade para com este colorido e fascinante space sim independente, produzido por um estúdio independente com mais imaginação do que recursos. Com o hype em redor de blockbusters históricos e milionários como Star Citizen e Elite: Dangerous, é bom ver o entusiasmo crescer em redor deste jogo da Hello Games. Confirma-se: o space sim está de volta. E ainda bem.

9 de junho de 2014

Iain M. Banks (1954 - 2013)

Há exactamente um ano, a ficção científica literária perdia um dos seus mais interessantes e talentosos autores. Falo do escocês Iain M. Banks, que no início do ano recebera o diagnóstico de um cancro de tratamento impossível que o levaria alguns meses mais tarde - e demasiado cedo, diga-se de passagem. Banks até nem começou a sua carreira literária na ficção científica, mas no mainstream - como atesta o seu romance de estreia, The Wasp Factory (1994), e os vários livros que se lhe seguiram, como Walking on Glass, The Bridge, Canal Dreams, Crow Road (adaptado para televisão pela BBC), Complicity, Transition e Stonemouth, entre vários outros. Sem esquecer The Quarry, o seu último romance publicado e já a título póstumo - uma história sobre uma criança autista o seu pai doente com um cancro terminal (a ironia é triste, mas trata-se de coincidência: quando Banks começou a escrever The Quarry, não conhecia ainda o seu diagnóstico). 

Mas Banks acabou por ocupar um lugar especial na ficção científica ao criar o universo ficcional da "Culture" em Consider Phlebas (1987), uma space opera fascinante que imagina uma utopia galáctica pós-escassez na qual a Humanidade vive e convive com Inteligências Artificiais hiper-desenvolvidas (cujas, naves-corpo possuem os nomes mais originais da ficção científica, de longe). A Consider Phlebas seguiram-se oito romances e uma colectânea de contos: The Player of Games (1988), Use of Weapons (1990), Excession (1996), Inversions (1998), Look to Windward (2000), Matter (2008), Surface Detail (2010) e The Hydrogen Sonata (2012) são os títulos dos romances; The State of the Art é a colectânea, publicada em 1991. Na sua ficção cientifica incluem-se ainda Against a Dark Background (1993), Feersum Endjinn (1994) e The Algebraist (2004). Para espanto de muitos, o seu gosto pela ficção científica era tão sério como genuíno: por várias vezes desmentiu a ideia de que escrevia o género para poder publicar os seus romances mainstreams, afirmando que quanto muito, era a sua ficção "literária" que lhe permitia escrever ficção científica; e numa das suas últimas entrevistas em vida, lamentou não concluir a sua carreira com um romance da "Culture". 

Iain M. Banks era um dos convidados de honra da LonCon 3, a edição de 2014 deste ano da Worldcon, que terá lugar em Londres - onde lhe será feita uma homenagem. Nasceu a 16 de Fevereiro de 1954 em Dunfermline, na Escócia, e faleceu a 9 de Junho de 2013, aos 59 anos de idade. 

16 de fevereiro de 2014

Citação fantástica (107)

"Once one survives the trough that comes with the understanding that people are going to go on being stupid and cruel to each other no matter what, probably for ever - if one survives; many people choose suicide at this point instead - then one starts to take the attitude, Oh well, never mind. It would be far preferable if things were better, but they're not, so let's make the most of it. Let's see what fresh fuckwittery the dolts can contrive to torment themselves this time."

Iain M. Banks, The Hydrogen Sonata (2012)

Iain [M.] Banks (1954 - 2013)

No ano passado, mais ou menos por esta altura, comecei a escrever um breve texto a assinalar o aniversário de Iain Banks, cuja série de ficção científica literária "Culture" me surgia muito recomendada por alguns amigos. Por desconhecimento da obra do autor, acabei por não concluir e publicar o dito artigo - afinal, Banks fazia 59 anos; haveria tempo, pensei. Triste engano: poucas semanas mais tarde, o autor anunciou padecer de cancro terminal, e de lhe restarem talvez seis meses de vida. Restaram cerca de dois; faleceu a 9 de Junho, naquela que terá talvez sido a mais trágica das muitas perdas que a literatura de ficção científica conheceu num ano especialmente aziago - pela "juventude", pela irreverência, pelo magnífico legado de quase três décadas de escrita, tanto no género como no mainstream

Dias antes de Iain Banks - que assinava a sua ficção científica como Iain M. Banks - falecer, começava eu a leitura de Consider Phlebas, o romance de 1987 que abre o universo ficcional da "Culture". E dificilmente poderia começar melhor - uma space opera fascinante e vertiginosa, rica no pormenor e na aventura, num futuro distante pós-escassez onde as Humanidade vive e convive com Inteligências Artificiais ("Minds") e as naves espaciais têm os nomes mais... originais da ficção científica. Neste universo, Banks viria a escrever mais oito romances (The Player of Games, Use of Weapons, Excession, Inversions, Look to Windward, Matter, Surface Detail e The Hydrogen Sonata, este último em 2012) e alguns contos, compilados na colectânea de 1991 The State of the Art. Ainda na ficção científica, publicou três romances individuais: Against a Dark Background, Feersum Endjinn e The Algebraist. Na sua bibliografia incluem-se ainda títulos como The Wasp Factory, o seu romance de estreia, publicado em 1984; Walking on Glass, The Bridge, Espedair Street, Canal Dreams, Crow Road (este adaptado para mini-série televisiva pela BBC), ComplicityWhit, A Song of Stone, The Business, Dead Air, Tranision e Stonemouth. The Quarry, já publicado a título póstumo no ano passado, foi o seu último romance.

A efeméride, este ano, não fica em branco. Iain [M.] Banks nasceu a 16 de Fevereiro de 1954 em Dunfermline, na Escócia; se fosse vivo, celebraria hoje o seu 60º aniversário.

28 de junho de 2013

Consider Phlebas e o prodigioso universo literário da "Culture"

É possível argumentar que em termos estritamente narrativos Consider Phlebas, o romance de ficção científica de Iain M. Banks que em 1987 abriu as postas ao universo literário da "Culture", podia ser abreviado pela metade sem prejuízo. vejamos: o prólogo mostra a fuga espectacular de uma "Mind" da Culture (grosso modo, uma inteligência artificial) para Schar's World, um planeta isolado e guardado por uma entidade neutra com poderes extraordinários; e o primeiro capítulo apresenta o protagonista (mas não necessariamente herói), Bora Horza Gobuchul numa situação difícil e a antagonista (mas não necessariamente vilã) Perosteck Balveda. Horza e Balveda pertencem a facções opostas na guerra de escala galáctica que opõe o Império Idiran à sociedade da Culture, e é bom de ver que a história está feita - as convenções assim o determinam, nada a fazer - para que ambos cheguem a Schar's World, talvez contra todas as probabilidades, para encontrar a "Mind". Isto, note-se, não é um spoiler, antes uma constatação; entre os dois momentos decorre não só uma longa e conturbada aventura mas também uma invulgar introdução a um universo ficcional vasto que se viria a tornar num dos mais populares da ficção científica espacial dos últimos 30 anos.

De facto, Iain M. Banks aproveita (porventura estende) a odisseia de Horza para construir uma galáxia riquíssima em detalhe e diversidade. Banks refere o conceito de "humanóide" como nebuloso, e tanto de forma  directa (através de algumas personagens, como Yalson ou mesmo Horza) como indirecta mostra que a Humanidade como a conhecemos talvez não tenha lugar nesta galáxia futurista - há humanos, sim, mas muito diferentes entre si em termos biológicos e sociais. Mas há mais do que os humanos: há os Idirans, uma raça de gigantes com três membros cujo expansionismo guerreiro e religioso assenta em improváveis alicerces de pacifismo e racionalidade; há os Dra'Azon, seres incorpóreos de poderes fabulosos que se mantém longe de tudo e guardam os Planetas dos Mortos (como Schar's World) através de uma barreira invisível e poderosa; e, claro, há as Minds da Culture, inteligências artificiais de grandes dimensões com uma capacidade de processamento absurda e um sentido de humor muito peculiar. E, claro, há os lugares - os Orbitais, os Anéis (à imagem do de Ringworld, de Larry Niven, apenas aludido), as Esferas de Dyson (também aludidas), os Planetas dos Mortos, as gigantescas General Systems Vehicles da Culture, autênticas naves-mundo capazes de albergar milhares de milhões de indivíduos. 

Claro que o pano de fundo de todas estas culturas e de todos estes lugares é a guerra entre os Idirans e a Culture, duas sociedades separadas por um sem-número de diferenças inconciliáveis. Banks deu corpo a esta oposição através do ponto de vista de Horza, um humano que trabalha para os Idirans não por concordar com o expansionismo militar e religioso que aquela civilização desenvolve com violência, mas por considerar que o hedonismo utópico suportado pelas inteligências artificiais ("máquinas", como ele as designa) é uma alternativa pior: na falta da escassez que possibilite o conflito, implica o fim da evolução, a estagnação e a atrofia civilizacional. Um dos pontos de interesse de Consider Phlebas é notar como Horza constrói e desconstrói este ponto, nas suas reflexões próprias ou pela interacção com outras personagens; e a sua visão sobre aquele que é o elemento principal do livro (e da série a que dá o nome) ganha especial interesse por ser externa, descomprometida excepto talvez numa vaga ironia reminescente das contradições insanáveis que todos os seres humanos - seja qual for a sua forma - encerram.

Todo este worldbuilding poderá porventura fazer de Consider Phlebas um livro um pouco longo para o enredo que o sustenta, mas funciona na perfeição como ponto de entrada para o universo mais vasto que Banks explorou noutros nove livros entre o final dos anos 80 e 2012. No resto, a aventura de Horza e dos mercenários da "Clear Air Turbulence" é vertiginosa, horrível e divertida em simultâneo, com sequências de acção impressionantes (o assalto ao templo, a inspecção da Megaship), imagens notáveis (o jogo de Damage, uma ideia prodigiosa) e muitos pequenos elementos dispostos com paciência que convergem com mestria num final soberbo que atira por terra o carácter algo pulp e previsível que parecia dominar o enredo no início. Como leitura, dificilmente Consider Phlebas poderia abrir mais o apetite para os livros que se seguem neste universo literário. 

19 de junho de 2013

Iain M. Banks: "let's face it; in the end the real best way to sign off would have been with a great big rollicking Culture novel" (entrevista)

Iain M. Banks, o autor escocês de ficção científica que ao longo da sua carreira deixou como legado a popular série "Culture" e mais alguns romances (para além de contos e da ficção mainstream), deu a sua última entrevista ao jornalista e editor Stuart Kelly, um mês antes da sua morte. Dessa entrevista, publicada no fim-de-semana passado no jornal britânico The Guardian, deu origem a um texto tão extraordinário como tocante, cuja leitura integral não poderia recomendar mais. Na conversa falou-se de tudo um pouco: da obra literária, da "Culture" e do seu gosto especial pela ficção científica, do seu último romance, The Quarry, com publicação prevista para breve (curiosamente, uma história sobre um cancro terminal escrita antes de Banks ter o seu trágico diagnóstico), política e até Dr. Who. Alguns destaques:
(...) "Well," he says, "if you are going to write what a friend of a friend once called 'Made up space shit', then if it's going to have any ring of truth that means sometimes some of the horrible characters get to live, and for there to be any sense of jeopardy, especially in future novels, the good people have to die. Sometimes."  
Banks freely admits that he enjoys writing his SF novels more than his "literary" novels, and the Culture novels more than his other SF. The hedonistic, anarchistic, post-scarcity series is "a hoot. It's my train set. I adore the freedom and the size of the canvas," even though writing them "requires a greater degree of concentration. And there's so much baggage with the Culture now that I have to get each new novel aligned with earlier Culture history. I don't have the same leeway to make things up compared with when I started." 
(...) 
Of his new book, The Quarry, the publication of which has been brought forward, he says: "Quite realist. It's a fairly simple book as well; not many characters, there's only really one location and it doesn't muck around with flashbacks or narrative order." He adds: "If I'd known it was going to be my last book, I'd have been quite disappointed that I'm going out with a relatively minor piece; whereas something like Transition, a wild splurge of fantasy, sci-fi and mad reality frothed up together … now that would have been the kind of book to go out on. I'm still very proud of The Quarry but … let's face it; in the end the real best way to sign off would have been with a great big rollicking Culture novel." (...)

Fonte: The Guardian

9 de junho de 2013

Iain M. Banks (1954 - 2013)

Nascido a 9 de Junho de 1954 em Dunfermline, Fife, na Escócia, Iain M. Banks faleceu hoje, dois meses volvidos desde o anúncio do seu diagnóstico de cancro terminal. Tinha 59 anos. 

Como legado, Banks deixa uma uma vasta carreira literária tanto em ficção mainstream como em ficção científica. Neste género, publicou romances como Against a Dark Background (1993), Feersum Endjinn (1994) e The Algebraist (2004), mas foi com o universo de space opera da Culture, inicada em 1987 com Consider Phlebas, que se notabilizou. Retratando uma sociedade futurista pós-escassez gerida por inteligências artificiais designadas por "Minds", as várias histórias da Culture incidem sobretudo sobre o relacionamento daquela civilização com outras culturas galácticas que não partilham os mesmos ideais. Até à publicação de The Hidrogen Sonata no ano passado, publicou um total de nove livros na Culture, assim como alguns contos.

Fonte: SF Signal

2 de junho de 2013

Citação fantástica (69)

The underlying point held; experience as well as common sense indicated that the most reliable method of avoiding self-extinction was not to equip oneself with the means to accomplish it in the first place.

Iain M. Banks, Consider Phlebas (1987)