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4 de junho de 2014

This happening world (14)

Será a série Mad Men ficção científica? A proposta poderá à primeira vista parecer arrojada (para não dizer disparatada), mas Nathan Mattise, do Ars Technica, explica neste artigo intrigante por que motivos podemos ver o drama de época criado por Matthew Weiner como ficção científica - e a sua análise baseia-se tanto nas múltiplas referências encontradas ao longo das sete temporadas da série como na própria personalidade e na evolução do protagonista, o já célebre Don Draper interpretado por Jon Hamm. 

Na Amazing Stories, Steve Fahnestalk continua a sua exploração dos "juveniles" de Robert A. Heinlein - e desta vez, para além da referência aos elementos mais datados de alguns desses livros, entra no território das visões políticas e sociais de Heinlein, e da validade ou pertinência de quaisquer extrapolações simplistas levantadas a partir das suas personagens. E fala, de raspão, da bibliografia em dois volumes escrita por William Patterson, e que será decerto uma leitura fascinante para os apreciadores de Heinlein.

Estreia de Jupiter Ascending adiada de Julho de 2014 para Fevereiro de 2015 - o que não augura de bom para a space opera de Andy e Lana Wachowsky. A razão oficial para esse adiamento é a necessidade de mais tempo para trabalhar nos efeitos especiais; mas dada a passagem do filme do Verão, época alta também para as grandes estreias, para o período mais ou menos morto de Inverno, traz nas entrelinhas uma enorme falta de confiança da Warner Bros. no projecto. (via io9)

Enquanto Star Citizen conhece alguns atrasos, Elite: Dangerous avança para a fase beta. O massively multiplayer online space simulator de Chris Roberts, que até esta data já angariou mais de 44 milhões de dólares em crowdfunding, adiou uma vez mais o lançamento do módulo de dogfighting para "eliminar alguns bugs" - pelo que os apoiantes do projecto ainda terão de esperar mais um pouco para finalmente testar o combate espacial em Star Citizen. Entretanto, o desenvolvimento de Elite: Dangerous, o MMO space sim de David Braben (também financiado por crowdfunding, ainda que longe dos patamares de Star Citizen) continua a avançar a bom ritmo, e já está disponível acesso a uma fase beta "premium". (via Ars Technica)

A icónica sequência de abertura de Ghost in the Shell foi recriada em live action por uma equipa de 30 artistas digitais, num tributo em nada relacionado com a adaptação cinematográfica da Dreamworks. O vídeo completo ainda não está disponível; mas no io9 é possível ver alguns stills

14 de maio de 2014

This happening world (12)

Na sua coluna na Kirkus Reviews, Andrew Liptak (também do SF Signal) debruça-se sobre a história da Science Fiction Writers of America e da célebre, ainda que curta, série de antologias Science Fiction Hall of Fame - e, na sua página pessoal, publicou a entrevista completa que, a propósito do artigo, fez a Robert Silverberg, um dos gigantes do género, que sucedeu a Damon Knight na liderança da então ainda jovem SFWA e que promoveu a organização da primeira Science Fiction Hall of Fame. Para os interessados na história da ficção científica, tanto o artigo como a entrevista deverão ser leitura obrigatória.

Na Amazing Stories, Steve Fahnestalk continua a sua exploração dos juveniles do mestre Robert A. Heinlein - e Steve Davidson crítica com veemência a tentativa de apropriação ideológica de Heinlein por alguns sectores mais conservadores do fandom, numa época em que este se encontra especialmente (e estupidamente, acrescento) fragmentado em termos políticos (algo que, como Davidson bem aponta, Heinlein condenaria sem hesitação). 

No Tor.com, Alex Bledsoe explica por que motivo gosta mais de 2010 do que de 2001: A Space Odyssey. Ainda que a última frase do artigo seja um tanto ou quanto imbecil, o texto é interessante na separação que faz entre a exploração intelectual e tecnológica de Kubrick e a aposta na humanidade das personagens de Peter Hyams. 

Gavia Baker-Whitelaw, no portal The Daily Dot, analisa o erro fundamental da maioria das críticas mainstream ao filme Captain America 2: Winter Soldier, sobretudo no que à Black Widow de Scarlett Johansson diz respeito. E um erro que, diga-se de passagem, acaba por dizer mais acerca dos críticos do que da própria personagem em si, ou de qualquer outra personagem feminina do Marvel Cinematic Universe. 

Precisará a ficção especulativa de um novo movimento literário? A pergunta é de Charlie Jane Anders no io9; a resposta, essa, está longe de ser óbvia.

23 de abril de 2014

This happening world (10)

Em Abril começa a temporada dos prémios, das polémicas relacionadas, e das eternas discussões sobre a literatura de género. Sobre os prémios e as polémicas, escrevi este artigo para a Bang!; sobre o debate dos géneros na ficção, escreveram Juliet McKenna no The Guardian e Chris Beckett na The Atlantic - dois artigos que merecem ser lidos pela pertinência dos argumentos apresentados, pelos estigmas que não desaparecem nem mesmo numa época em que a pop culture foi capturada pelo poço gravitacional dos universos geek, e pela importância da ficção científica no presente.

Na Amazing Stories, Steve Fahnestalk recupera os juveniles de Robert A. Heinlein e pergunta: serão ainda relevantes? Numa época em que a ficção de género voltou a entrar em força no território young adult, é bem possível que sim - e Fahnestalk explora os romances publicados por Heinlein entre 1947 e 1959. Que é como quem diz: entre Rocket Ship Galileo, o primeiro dos seus livros YA, até Starship Troopers, que marca a transição da sua literatura juvenil para os temas mais adultos que marcaram a sua obra a partir dos anos 60. 

Em entrevista a Ryan Hill para o portal ScreenInvasion, Christopher Priest fala sobre o seu mais recente romance, The Adjacent, sobre o tema da magia na sua obra, e sobre adaptações cinematográficas - mais concretamente, sobre a adaptação a The Prestige realizada por Christopher Nolan em 2005 - e é interessante como o autor consegue, ao mesmo tempo, tecer críticas positivas e negativas (e ambas com justiça) ao trabalho do realizador britânico. 

13 de abril de 2014

Citação fantástica (121)

I will accept any rules that you feel necessary to your freedom. I am free, no matter what rules surround me. If I find them tolerable, I tolerate them; if I find them too obnoxious, I break them. I am free because I know that I alone am morally responsible for everything I do.

Robert A. Heinlein, The Moon Is a Harsh Mistress (1966)

16 de março de 2014

Citação fantástica (111)

A managed democracy is a wonderful thing... for the managers... and its greatest strength is a 'free press' when 'free' is defined as 'responsible' and the managers define what is 'irresponsible'.

Robert A. Heinlein, The Moon Is a Harsh Mistress (1966)

7 de julho de 2013

Recordar Robert A. Heinlein (1907 - 1988)

Robert A. Heinlein, uma das mais brilhantes e polémicas vozes que a ficção científica já conheceu, nasceu a 7 de Julho de 1907 - e o portal Tor.com assinala a efeméride com um curto mas muito interessante artigo sobre o autor falecido há 25 anos. Do seu início como escritor (com o conto Life-Line, publicado na revista "Astounding Science Fiction") à sua ligação com John W. Campbell e outros autores do género, como Isaac Asimov, o artigo aborda a sua longa carreira premiada com quatro Prémios Hugo na categoria de "Best Novel" - feito só igualado já no novo milénio por Lois McMaster Bujold - e destaca algumas das suas obras mais notáveis, como Stranger in a Strange Land ou Starship Troopers.

E já que o clássico de ficção científica militar é mencionado, deixo também como sugestão de leitura um artigo de Ryan Britt, mais antigo, também publicado no Tor.com: For Whom the Space Beacon Tolls: Another Look at Robert A. Heinlein's Starship Troopers. Não tendo ainda lido Hemingway, nunca estabeleci a mesma ligação entre ambos os autores; mas a reflexão de Britt sobre o estilo de Starship Troopers e a voz singular do protagonista destaca dois dos (vários) aspectos que tornaram esta obra num clássico incontornável da ficção científica.

Fonte: Tor.com

7 de abril de 2013

Citação fantástica (61)

When a place gets crowded enough to require ID's, social collapse is not far away. It is time to go elsewhere. The best thing about space travel is that it made possible to go elsewhere.

(...)

The second best thing about space travel is that the distances involved make war very difficult, usually impractical, and almost always unnecessary. This is probably a loss for most people, since war is our race's most popular diversion, one which gives purpose and color to dull and stupid lives.But it is a great boon to the intelligent man who fights only when he must - and never for sport.

Robert A. Heinlein, Time Enough for Love (1973)

30 de novembro de 2012

Did not grok: Stranger in a Stranger Land

No Fórum Fantástico, deixei como sugestão de livro a evitar Stranger in a Strange Land, o clássico de Robert A. Heinlein de 1961 que venceu o Hugo Award e se tornou num dos mais influentes livros de ficção científica da década de 60. Esta minha posição causou alguma estranheza, pelo que vou tentar aprofundá-la um pouco melhor, apesar de já ter lido o livro há já largos meses.

De entre os "três grandes" da ficção científica, Robert A. Heinlein será porventura o mais polémico - algo que a mim pouco ou nada me diz. Os primeiros livros dele que tive a oportunidade de ler, Starship Troopers (1959) e The Moon Is a Harsh Mistress (1966), cedo ganharam um lugar perene entre os meus preferidos do género. E mesmo Time Enough for Love (1973), ainda que substancialmente diferente, foi uma leitura bastante divertida. Também por isto, Stranger in a Strange Land foi sem dúvida uma desilusão.

A verdade é que o livro começa mesmo muito bem. A primeira parte, "His Maculate Origin", abre com um vasto e interessante enquadramento para a história que será apresentada ao longo de toda a obra: descreve a primeira expedição tripulada a Marte, que acabou por se despenhar no planeta e perder o contacto com a Terra; duas décadas mais tarde, uma segunda expedição tripulada chega ao Planeta Vermelho e encontra uma civilização antiga de criaturas nativas de Marte e um jovem humano - Michael Valentine Smith -, descendente de dois astronautas da expedição original. A descoberta de Smith e a sua vinda para a Terra causam várias polémicas - há a questão da herança dos seus pais, que devido a algumas invenções (a sua mãe inventara a tecnologia de viagens interplanetárias mais eficaz que existia) e investimentos financeiros lhe dão acesso a uma fortuna inimaginável, e há ainda o problema inerente ao estatuto jurídico da descoberta de um planeta (a explicação do caso é um dos melhores momentos de todo o livro). Enfim, Michael Valentine Smith chega à Terra rodeado por um enorme aparato, e é confinado a um hospital, enquanto se adapta à gravidade terrestre. Por nunca ter visto uma mulher, a equipa que o tem ao seu cuidado é composta apenas por elementos do sexo masculino. No entanto, uma enfermeira, Gillian Boardman, decide quebrar as regras e os procedimentos de segurança para ver com os seus próprios olhos o "Homem de Marte" - e, sem querer, vai precipitar a vasta aventura que se segue.

Heinlein introduz personagens interessantes, como o jornalista Ben Caxton e Jubal Harshaw (que mais não é do que um avatar do próprio Heinlein, tal como Lazarus Long em Time Enough for Love e noutros livros da "Future History"); o enredo, porém, começa a perder o interesse mais ou menos a partir deste ponto. Michael Valentine Smith acaba por se evadir do hospital e por se meter nos mais variados sarilhos, exibindo estranhos poderes psíquicos (ou algo que lhes valha; nunca são explicados) e uma enorme curiosidade para aprender os costumes da Terra. Essa curiosidade leva-o a explorar as religiões, procurando algo equivalente àquilo que experienciara durante toda a sua infância e adolescência em Marte. A coisa, porém, cedo começa a ganhar contornos algo inverosímeis, até se chegar a um momento em que não há suspensão da descrença que valha ao enredo de Stranger in a Strange Land. Heinlein incluiu vários elementos comuns à sua obra, como o seu sentido de humor peculiar e as suas vastas divagações - estas através de Harshaw. O humor, porém, não alcançou a forma mais refinada que Heinlein exibe em pleno em The Moon Is a Harsh Mistress e as divagações, ainda que tenham alguns momentos altos, em geral nunca ganham a relevância que outras personagens lhes conferiram noutros livros, como o Jean Dubois em Starship Troopers, Bernardo de la Paz em The Moon Is a Harsh Mistress, ou mesmo Lazarus Long). Certo - Stranger in a Strange Land antecede todos estes livros, o que poderá porventura explicar por que motivo o seu discurso ainda não se apresenta tão refinado como em obras subsequentes. Ainda assim, mesmo Time Enough for Love, com um amplo recurso à frame story e a outros tipos de narrativa irregular, parece mais consistente do que Stranger in a Strange Land.

Estas minhas impressões podem desaparecer numa futura releitura - parece-me improvável, mas não descarto a possibilidade. Não seria caso inédito - vários foram os livros que considerei fracos numa primeira leitura, incapazes de despertar o meu interesse, para numa segunda leitura me surpreenderem com uma vida que não imaginava conterem. Tratando-se Stranger in a Stranger Land de um livro de um autor que aprecio, e dada a sua relevância para a sua época (com a sua original abordagem aos temas da religião, da sexualidade e da família), é muito natural que o venha a reler, e que venha a apreender outros elementos que à primeira leitura não me cativaram. É também possível que, assumindo esta interpretação de que Stranger in a Strange Land e as obras que se seguiram são afinal sátiras, este livro ganhe todo um novo significado numa futura releitura. Isto, porém, não invalida o facto de a primeira leitura se ter revelado entusiasmante num primeiro momento, para depois se tornar maçadora e incoerente, longe do brilhantismo que Heinlein revelou noutras obras. Talvez isto, por si só, não seja motivo para que se deva evitar Stranger in a Strange Land; mas julgo que Heinlein tem muito mais para oferecer. 

23 de novembro de 2012

Time Enough for Love

Be wary of strong drink. It can make you shoot at tax collectors - and miss.
-  Notebooks of Lazarus Long

Time Enough for Love (1973), de Robert A. Heinlein, é uma das mais relevantes publicações da sua célebre série Future History. Nomeado para alguns dos mais relevantes prémios da ficção científica, este livro explora uma parte da vasta história de Lazarus Long, personagem introduzida em Methuselah's Children (1958). Lazarus, já com alguns milénios de idade, é o ser humano mais velho ainda vivo (por força de pertencer às famílias Howard e de várias terapias de rejuvenescimento), mas deseja finalmente colocar um fim à sua vida. Os seus familiares mais próximos, porém, têm outros planos, e decidem impedi-lo. Perante a teimosia dos familiares, Lazarus decide tentar um acordo: não cometerá suicídio enquanto estiverem dispostos a ouvir e a registar as várias histórias da sua vida. 
A fake fortuneteller can be tolerated. But an authentic soothsayer should be shot on sight. Cassandra did not get half the kicking around she deserved.
- Notebooks of Lazarus Long

A partir deste ponto, a narrativa abre-se numa estrutura de frame story ao longo da qual são contadas várias histórias da vida de Lazarus Long. A primeira, e porventura a mais divertida, intitula-se "The Tale of the Man Who Was Too Lazy To Fail". Decorre no (distante) século XX e conta a história de um recruta do exército que ao longo de toda a sua vida conseguiu a proeza de evitar quaisquer trabalhos duros, fazer o mínimo possível em cada situação, e não só sobreviveu como enriqueceu no processo. As outras histórias deste parte, "The Tale of the Twins Who Weren't" e "The Tale of the Adopted Daughter", centram-se em partes do passado de Lazarus enquanto explorador espacial e colonizador de um planeta com uma sociedade muito ao estilo do clássico Oeste selvagem. São relevantes para o leitor perceber não só o próprio Lazarus Long e o seu feroz carácter individualista, mas também alguns dos aspectos mais significativos de pertencer às famílias Howard e ter uma longa vida - nomeadamente no relacionamento com outros seres humanos normais, e na tragédia que ensombra qualquer relação amorosa fora do grupo muito restrito de pessoas com longas vidas ao seu dispor.

Cheops' Law: Nothing ever gets built on schedule or within budget.
- The Notebooks of Lazarus Long

Findas as histórias, a narrativa prossegue para um rumo curioso, mas apenas inesperado para quem não tiver já lido outras obras do autor. A história aborda viagens espaciais, viagens no tempo, relações poliamorosas, e está sempre pautada pela voz inconfundível de Lazarus Long - que, na prática, é a do próprio Heinlein no seu individualismo sem concessões e no seu absoluto (e despudorado) liberalismo. Em dois momentos da narrativa surgem "intervalos" com passagens dos diários de Lazarus Long, recheados de pequenas frases, alguns aforismos e ideias soltas que contribuem para a caracterização deste personagem tão peculiar. 
People who go broke in a big way never miss any meals. It is the poor jerk who is shy a half slug who must tighten his belt.
- The Notebooks of Lazarus Long

Quem já leu outros livros de Heinlein - da série Future History ou outros, como Stranger in a Strange Land ou mesmo The Moon Is a Harsh Mistress depressa se familiarizará com Time Enough for Love - no estilo, nas ideias defendidas, nas mensagens mais ou menos dissimuladas nas entrelinhas. Está repleto de excelentes (e curiosas) ideias, tem momentos excepcionais, passagens divertidíssimas - nos diários são hilariantes - e apesar da sua estrutura narrativa irregular lê-se com surpreendente regularidade. Heinlein era, por natureza, um autor extremamente polarizado, e apesar de o seu talento ser geralmente reconhecido, as suas ideias ou o seu estilo não foram nem são apreciados por todos (é bem possível que ele mesmo fosse o primeiro a reconhecer que daí não viria qualquer mal ao mundo). Quem não aprecia, decerto não irá encontrar consolo em Time Enough for Love; mas para quem, como eu, gosta de outras obras de Heinlein, este será sem dúvida um livro a não perder.
You live and learn. Or you don't live long.
- The Notebooks of Lazarus Long

23 de outubro de 2012

A ficção científica e o cinema: Starship Troopers

Falar do cinema de ficção científica do final dos anos 80 e da década de 90 sem referir Paul Verhoeeven seria deixar de fora uma obra que, não alcançando o patamar de execução de outras obras suas contemporâneas (Aliens, Terminator), deixou uma marca indelével no género graças a adaptações atrevidas e a uma componente visual que pode não ser formidável, mas é única e inesquecível à sua maneira. Filmes como Robocop (1987), Total Recall (1990) e Starship Troopers (1997) fazem parte dessa obra tão característica da sua época. Falemos hoje do último.

É frequente vilipendiar Starship Troopers devido ao seu carácter de adaptação do clássico homónimo de Robert A. Heinlein, vencedor do prémio Hugo em 1960 e uma das mais icónicas obras da ficção científica militar (verdade seja dita, é também frequente vilipendiar Heinlein como um “fascista”, entre outros mimos, mas essa é outra história). De facto, se considerarmos o filme de Verhoeeven como uma adaptação do livro de Heinlein, então há que admitir que o filme falha, como teria inevitavelmente de falhar: Starship Troopers não é um livro de acção, mas uma reflexão política, social e militar de Heinlein feita a partir do olhos de um soldado, Johnny Rico, quando este se alista no Serviço Militar e parte para combater os “Bugs” que ameaçam a civilização humana. Há, contudo, quem veja (e louve) o filme de Verhoeeven não como uma adaptação do livro de Heinlein, mas como uma sátira a este e às suas visões militaristas e de cidadania. É uma visão possível, de facto; julgo, porém, que se há ali sátira, esta foi para todos os efeitos acidental (pelo que, caso seja intencional, falha também em toda a linha). Starship Troopers, o filme, não me parece pretender ser nem uma adaptação nem uma sátira a Starship Troopers, o livro; julgo, sim, que é um filme de ficção científica de acção baseado num clássico literário do género, omitindo as suas passagens de carácter mais filosófico para se centrar no miolo da narrativa: a guerra contra os “Bugs”. E, neste sentido, Starship Troopers, com todas as suas falhas e limitações – e são muitas – é um filme mesmo muito divertido.

Não é, claro, uma obra-prima. Longe disso. Não terá a tensão constante de Aliens, uma figura icónica como o Terminator de Schwarzenegger ou as batalhas de dimensão épica de Star Wars. Mas nem por isso deixa de ter uma narrativa muito bem ritmada, com acção intensa, frenética e muito sangrenta, uma personagem memorável (o Tenente Razsack, claro - as outras são bastante planas, reconheça-se), um elenco que apesar de globalmente pouco talentoso não deixa de ser interessante e algumas cenas que ficam na memória. Está longe de ser uma obra-prima, mas a qualidade que apresenta eleva-o bastante acima dos filmes “de sábado à tarde” que as emissoras nacionais, em sinal aberto ou no cabo, repetem ad nauseam. Would you like to know more? 6.8/10

Starship Troopers (1997)
Realizado por Paul Verhoeven
Com Casper Van Dien, Denise Richards, Dina Meyer, Neil Patrick Harris e Michael Ironside
129 minutos

Nota: para os interessados, foi feita no final da década de 90 uma série de animação CGI chamada Roughnecks: Starship Troopers Chronicles que me lembro de ser muito interessante. 

14 de outubro de 2012

Citação fantástica (36)

Animals can be driven crazy by placing too many in too small a pen. Homo Sapiens is the only animal that voluntarily does this to himself.

Robert A. Heinlein, Time Enough for Love (1973)

3 de outubro de 2012

Good guy Heinlein

No io9, recomendo a leitura deste interessante artigo sobre a ajuda (de longa distância, note-se) que, em tempos, Robert A. Heinlein deu a Theodore Sturgeon para este superar o seu “writer’s block”. Na Worldcon de 1962, Sturgeon contou o episódio da carta que enviara a Heinlein, e da resposta que recebeu - com 26 ideias para histórias (e um cheque de 100 dólares). Essa missiva de resposta a Sturgeon pode - e deve - agora ser lida no site Letters of Note. Para todos os efeitos, não foi só a imaginação e a capacidade de escrita excepcionais de Heinlein que o tornaram num dos grandes escritores que o género da ficção científica conheceu, mas também a sua generosidade para com os colegas (Philip K. Dick que o diga). Abaixo, alguns excertos seleccionados da carta de Heinlein a Sturgeon:


Almost all writers need cross-pollenation—myself most certainly! (I am at present stuck on p.148 of the best set-up for a novel I ever had in my life and I cannot get the Goddam thing to gel!) The M.L.S. [Mañana Literary Society] used to give ideas such a kicking around that a man went out of there with notes enough for three months; when Jack Williams, Anthony Boucher, Cleve Cartmill, Mick McComas, and several others all got to snarling over the same bone, something had to give. 

(...) 

But I will do the best I can at this distance. I must say that I am flattered at the request. To have the incomparable and always scintillating Sturgeon ask for ideas is like having the Pacific Ocean ask one to pee in it. 

(...) 

Mmm...Sturgeonish ideas—Well, here's one that might be Campbellish: a society where there are no criminal offences, just civil offences, i.e., there is a price on everything, you can look it up in the catalog and pay the price. You want to shoot your neighbor? Go ahead and shoot the bastard. He has a definite economic rating; deposit the money with the local clearing house within 24 hrs.; they will pay the widow. Morality would consist in not trying to get away with anything without paying for it. Good manners would consist in so behaving that no one would be willing to pay your listed price to kill you. Of course if your valuation is low and your manners are crude, your survival probabilities are low, too.  

(...) 

We know very little about multiple personality, despite the many case records. Suppose a hypnoanalyst makes a deep investigation into a schizoid...and comes up with with the fact that it is a separate and non-crazy personality in the body, distinct from the nominal one, and that this new personality is a refugee from (say) 2100 A.D., when conditions are so intolerable that escape into another body and another time (even this period) is to be preferred, even at the expense of living more or less helplessly in another man's body. 

(...) 

What is a personality? A memory track? A set of evaluations? A set of habit patterns? What happens to a soul in a transorbital lobotomy? Is it murder to kill a man's personality, sick though it may be, in order to make his body a bit more tractable for ward nurses and relatives? 

(...) 

You could have a hell of a hassle in a society in which there were a group, large or small, of illuminati who really do know what happens after death (as compared with the fakers we now have) and who in consequence have different motivations and different purposes from the others who are the way we are now. Just for a touch, they might try a man in absentia for suiciding to avoid his obligations...then maybe have some one else suicide to go after him and carry out the sentence. (But hell, Bill, I don't have to tell you—just some of your usual hoke that Dick Burbage can get his teeth into. We start rehearsals Wednesday. Quote and unquote). 

(...) 

This guy sells soap and cosmetics, door to door like the Fuller Brush man. She tries their beauty soap; she becomes beautiful. So she tries their vanishing cream... 

(...) 


Fonte: io9, Letters of Note 

8 de julho de 2012

Citação fantástica (21)

[...] one does have to learn to look at art. But it's up to the artist to use the language that can be understood. Most of these jokers don't want to use the language you and I can learn; they would rather sneer because we 'fail' to see what they're driving at. If anything. Obscurity is the refuge of the incompetent. 

Robert A. Heinlein, Stranger in a Strange Land (1961) 


E sim, esta deixa é perfeita para um certo jogo e um certo filme deste ano (com o devido agradecimento ao comentador do GameFront que me fez recordar Jubal Harshaw e Stranger in a Strange Land)

3 de junho de 2012

Citação fantástica (16)

Every time we killed a thousand Bugs at a cost of one M.I. it was a net victory for the Bugs. We were learning, expensively, just how efficient a total communism can be when used by a people actually adapted to it by evolution; the Bug commisars didn't care any more about expending soldiers than we cared about expending ammo. Perhaps we could have figured this out about the Bugs by noting the grief the Chinese Hegemony gave the Russo-Anglo-American Alliance; however the trouble with 'lessons from history' is that we usually read them best after falling flat on our chins.

Robert A. Heinlein, Starship Troopers (1959)

20 de maio de 2012

Citação fantástica (14)

There is no worse tyranny than to force a man to pay for what he does not want merely because you think it would be good for him. 

 Robert A. Heinlein, The Moon Is a Harsh Mistress (1966)

6 de abril de 2012

Starship Troopers

Mais do que contar uma história, Starship Troopers, obra polémica de Robert A. Heinlein, recorre aos mecanismos de uma narrativa de ficção para desenvolver um longo - e muito interessante - ensaio militar, político e mesmo social. De facto, muitos são os momentos em que temos a sensação de que a trama - a progressão de "Johnnie" Rico na "Mobile Infantry" durante o conflito espacial com uma espécie alienígena, os "Aracnídeos" - tem como único propósito servir de veículo à visão da sociedade futurista que Heinlein descreve: uma sociedade saída da queda das democracias ocidentais do século XX, e que vive naquilo a que (muito livremente) chamaria de "democracia militar". Nesta sociedade, os direitos plenos de cidadania apenas são adquiridos após a conclusão de um período de serviço militar voluntário; quem não o fizer, não poderá votar ou candidatar-se a cargos públicos, mantendo porém outros direitos cívicos como liberdade de expressão ou de associação. Os castigos corporais são relativamente comuns, também.

As personagens, essas, mais do que serem fundamentais à evolução do enredo, são fundamentais à reflexão do próprio autor. Por exemplo, é através do Coronel Dubois e das suas aulas de História e Filosofia Moral, recordadas em constantes analepses, que uma parte significativa da mensagem da história é transmitida - e é através da recordação de Johnnie dos constantes debates daquelas aulas que o leitor compreende a formação daquela sociedade, e os diferentes factores que a sustentam. Para além de o próprio Dubois ser uma fonte aparentemente inesgotável de conhecimento militar, histórico e táctico, que Heinlein não se cansa de partilhar com o leitor.

Mas não se pense que Starship Troopers, sendo uma obra tão marcadamente ideológica, perde por isso a sua qualidade narrativa. A verdade é que a história, apesar de relativamente simples, funciona muito bem, e a constante ideologia presente não impede o leitor de "entrar" realmente naquele mundo - ajuda-o, aliás, na percepção de todo o enquadramento narrativo. Para além, claro, de todas as cenas do treino militar, e da acção frenética, sempre na primeira pessoa, dos combates. E, claro, da escrita de Heinlein - simples, fluída, ritmada.

Mas Starship Troopers não foi (é) apenas um livro polémico - é também uma obra extremamente influente, e não só em termos literários - não fosse, afinal, Heinlein um dos "três grandes" da ficção científica, a par dos mestres Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. O filme foi transposto para o cinema em 1997 por Paul Verhoeven, numa adaptação simpática que deixa a filosofia de lado para se focar na acção. Mas a influência de Starship Troopers é anterior ao filme. Aliens, de James Cameron, tem influências óbvias da obra de Heinlein. E os próprios criadores do jogo Starcraft reconheceram a obra como uma das influências determinantes na criação daquele universo.

Adaptado deste post do Delito de Opinião

11 de março de 2012

Citação fantástica (5)

Progress isn't made by early risers. It's made by lazy men trying to find easier ways to do something.

Robert A. Heinlein, Time Enough for Love (1973)


10 de março de 2012

The Moon Is a Harsh Mistress

Imaginemos um mundo futurista por volta do ano de 2075, em que as nações da Terra deram lugar a "super-nações" de dimensões continentais, e em que a colonização da Lua é uma realidade. Ou antes: em que a utilização das cidades subterrâneas (sublunares?) da Lua como uma enorme colónia prisional é uma realidade. Imaginemos que, nessa colónia, um técnico de computadores individualista e apolítico, uma agitadora profissional, um professor reformado que se define como "anarquista racional" e um supercomputador tão complexo que ganhou consciência própria acabam por se aliar para colocar em prática uma revolução que dê à Lua o estatuto de "nação independente". Quais seriam as probabilidades de sucesso dessa revolução? E como executá-la?

Este é o ponto de partida de The Moon Is a Harsh Mistress, obra premiada de Robert A. Heinlein, que aborda os aspectos teóricos de uma revolução colocando-a em prática neste cenário de ficção científica através de personagens improváveis, mas muito interessantes. Heinlein disserta sobre a natureza das revoluções, sobre o seu planeamento, sobre os factores aleatórios que, em muitos casos, as precipitam e as levam para direcções imprevisíveis - nunca esquecendo as lições que a História ensinou, como as revoluções americana e russa. E a revolução acaba por ser um pretexto para o autor explorar remas relacionados com a família, o patriotismo, a guerra, a forma de governo (existe até uma curiosa passagem sobre a monarquia, a propósito de um personagem que se afirma monárquico), e a economia - aqui, opondo o modelo libertário praticado pelas colónias lunares, aos vários modelos existentes na Terra (que todos conhecemos). Há quem diga que Heinlein terá até sido o primeiro autor a referir em livro a ideia de "não há almoços grátis" (muito associada a Milton Friedman), através da sigla TANSTAAFL (There Ain't No Such Thing As A Free Lunch), presença constante ao longo de todo o livro e, diria, base ideológica de toda a obra. Tudo isto sem nunca descurar a componente científica, de uma precisão considerável.

The Moon Is a Harsh Mistress consegue, para além de ser uma obra extremamente inteligente, ser uma leitura muito divertida. Desde o primeiro momento, em que "Mike", o computador consciente, adquire sentido de humor e procura compreendê-lo, até todas as peripécias que decorrem da revolução. Sem dúvida, uma leitura mais do que recomendada.

[adaptado deste post no Delito de Opinião]