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22 de agosto de 2014

City of Illusions: Memórias e ilusões

Antes de conquistar a fantasia e a ficção científica com dois clássicos absolutos - A Wizard of Earthsea e The Left Hand of Darkness, respectivamente -, Ursula K. Le Guin começou por desenvolver em três romances curtos um universo ficcional que, enquadrando-se na ficção científica (era o género mais popular na época), acabam por evocar uma certa atmosfera e algumas convenções da fantasia literária. City of Illusions, de 1967, fecha o ciclo iniciado um ano antes por Rocannon's World e por Planet of Exile, com os quais surgiu o "Hainish Cycle" que viria a enquadrar algumas das suas obras maiores - e fá-lo com um romance que, longe de ser um dos melhores da sua bibliografia, nem por isso deixa de ser um curioso Le Guin vintage, uma exploração inicial de uma autora à procura da sua voz literária e do seu próprio território temático.

E nesse território temático encontra-se a procura da verdade, tema que explorou a partir de várias perspectivas ao longo da sua obra. Aqui, fá-lo através de um enigma em forma de personagem: um homem anónimo e sem memória e com a mente esvaziada, perdido numa vasta floresta na Terra, encontrado por uma pequena comunidade isolada entre as árvores. Os seus olhos cor de âmbar, a lembrar os de um felino, marcam-no como estranho, atribuem-lhe uma origem desconhecida e possivelmente extra-terrestre; mas a desconfiança de alguns elementos da comunidade não é suficiente para demover o líder, que o aceita entre os seus, permite a sua educação e concede que lhe seja atribuído um nome: Falk. Durante os anos que se seguem, Falk aprende com a comunidade, e em especial com a jovem Parth, o que é ser humano - como falar, como caçar, como ser parte de todo e não um indivíduo isolado, reduzido a um estado primitivo e quase selvagem. Naquela comunidade perdida, mantida em segredo pelo receio do Inimigo, dos misteriosos Shing que mantém o mundo preso no marasmo civilizacional, Falk passa por uma rápida infância e torna-se num novo homem - mas atrás de si reside uma escuridão incomensurável, um passado desconhecido que o assombra a cada momento, e que o leva a perguntar se haverá um futuro diferente.

É esse passado e essa expectativa de futuro que leva Falk a deixar a comunidade, rumo ao desconhecido que existe para lá dos limites da floresta que, para o povo que o acolheu, é praticamente tudo o que conhecem. Como destino da sua demanda está Es Toch, a lendária - e temida - cidade dos Shing, onde Falk espera encontrar as suas respostas. Mas se o caminho para lá chegar será sinuoso - as demandas, afinal, nunca são fáceis, as respostas que irá obter poderão ser bem diferentes do que alguma vez imaginara.

A prosa da jovem Le Guin já aqui transporta a trama com facilidade, elevando-a de forma considerável em alguns momentos - as suas descrições de Es Toch são notáveis pela abstracção que evoca, e é fascinante vê-la a passar de um registo de quase fábula, como a estada de Falk na casa do eremita na floresta com os animais que falam, para as descrições tecnológicas de alguns momentos de pura ficção científica. Tal como nos romances anteriores, Le Guin revela-se hábil na combinação nem sempre provável da fantasia com a ficção científica, e utiliza-a para construir a Terra num futuro distante que há muito deixou o apocalipse da queda da Liga de Todos os Mundos para trás. O longo travelogue de Falk serve precisamente para apresentar todo esse mundo, bem mais vasto do que as fronteiras da floresta original - e ainda que por vezes careça do ritmo apropriado para se tornar numa parte mais estimulante, nem por isso deixa de ser eficaz neste propósito.

Dito isto, City of Illusions não deixa de ter os seus problemas - com os Shing e a sua caracterização a serem um dos principais, mas não o único. O ritmo narrativo, mais incerto do que nos romances anteriores, revela-se demasiado lento na primeira parte, após um início sólido e um final aberto bastante satisfatório. Ainda longe da forma perfeita de The Left Hand of Darkness ou The Dispossessed, Le Guin não toma algumas opções mais arriscadas, e em vários momentos sente-se que toda a trama poderia beneficiar de mais alguma energia e, sobretudo, de mais alguma ousadia e ambiguidade. E, claro, de mais alguma complexidade nas personagens - mais mais do que aos Shing, falta desenvolvimento a Estrel, que tem um papel fundamental no romance, e ao próprio protagonista. Ainda assim, a forma como o mistério em volta de Falk é tecido funciona bastante bem (com uma excelente red herring a meio), e a duplicidade dos Shing dá um estímulo fundamental aos últimos capítulos.

Olhando agora para trás, faz todo o sentido que Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions estejam hoje em dia publicados num único volume - ainda que não constituam uma trilogia no sentido convencional do termo, há entre eles ligações mais do que suficientes (e sobretudo entre os dois últimos) para justificar a opção e dar uma certa noção de continuidade. Uma continuidade que sai reforçada pelo tom das três histórias, pela forma como Le Guin desenvolve ficção científica em território de fantasia (ou vice-versa), e por alguns temas que acabam por se cruzar e sobrepor, explorados a partir de pontos de vista distintos. Não são o melhor de Le Guin, de facto - mas são um início promissor, ainda que discreto na sua época, e ilustram na perfeição como conseguiu a autora avançar em simultâneo por duas vertentes tão distintas como a sua ficção científica mais complexa e as histórias de fantasia de Earthsea, estabelecendo-se como uma das maiores autoras em ambos os géneros. Para os fãs de Le Guin, serão decerto leitura obrigatória; para os apreciadores de ficção científica e de fantasia, ficam como leitura recomendada. 

Título: Worlds of Exile and Illusion (Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions)
Autora: Ursula K. Le Guin
Editora: Orb Books/Tor
Ano: 1996 (1966-1966-1967)
Formato: Paperback
Páginas: 370
Género: Ficção Científica

20 de junho de 2014

Planet of Exile: Mitos e superstições do longo Inverno

Quando aqui falei de Rocannon's World, de Ursula K. Le Guin, destaquei como um dos aspectos mais marcantes da obra a fusão bem conseguida entre elementos de fantasia e de ficção científica, tão diferentes entre si e capazes de dar forma a um todo se não extraordinário, pelo menos muito promissor (trata-se, afinal, do seu primeiro romance). Dois anos mais tarde, essa promessa concretizar-se-ia em pleno em dois romances fundamentais da sua bibliografia, e da fantasia e da ficção científica enquanto géneros literários: A Wizard of Earthsea e The Left Hand of Darkness, respectivamente. Entretanto, porém, houve tempo para continuar a aprimorar a fórmula em algumas histórias do universo ficcional que mais tarde viria a ser conhecido como "Hainish Cycle". Planet of Exile, foi o romance que se seguiu, ainda em 1966.

A narrativa de Planet of Exile tem lugar em Werel, no sistema de Gamma Draconis - um planeta cuja órbita em redor do seu sol demora 60 anos terrestres, e cujas longas estações duram 15 anos. No momento em que a narrativa começa, as tribos locais estão a preparar-se para a chegada do Inverno*, reconstruindo as suas cidades hibernais para armazenarem as colheitas e, nos seus abrigos subterrâneos, enfrentarem o longo frio e as neves altas que a estação invariavelmente trará. Sem esquecer, claro, o reforço das suas muralhas para resistir às investidas de bandos de Gaal - as tribos de Norte que, com a chegada do Inverno, migram para Sul em busca de climas mais quentes e atacam quem podem em busca de recursos. Algo, porém, será diferente no Inverno que se avizinha; e tanto ao clã Tevaran do velho Wold como a Landin, a cidade costeira próxima na qual habita um povo estranho, chegam avisos de que a próxima migração dos Gaal não será desordeira e dispersa como aconteceu noutros anos, mas organizada, massiva - e perigosa. Temendo um ataque concertado que, a confirmarem-se os rumores, terá resultado na queda de cidades hibernais mais a Norte, o líder de Landin, Jakob Agat, procura uma aliança improvável com o povo de Tevar - mas o envolvimento de Rolery, uma das filhas de Wold, leva a um reacender do preconceito e da inimizade dos locais para com o povo de Landin, diferentes pela sua aparência e pelos estranhos poderes que naquele mundo passam por bruxaria. 

As primeiras páginas dão a impressão de que Planet of Exile será mais um romance de fantasia, com dois povos distintos a viver lado a lado - um com poderes e conhecimento estranhos, outro mais atrasado. Aos poucos, porém, Le Guin começa a desmontar algumas ideias e a revelar o seu verdadeiro rosto: será talvez impossível ao leitor mais experimentado evitar um sorriso quando percebe que hilf, a designação que os homens da cidade junto ao mar dão aos nativos daquela terra, não é uma designação de fantasia escolhida ao acaso, mas sim um acrónimo para highly-intelligent life-form. É a partir dessa revelação que o mito daquele povo é revelado - vieram de outro mundo para lá das estrelas há vários anos locais, com o propósito de estudar as culturas daquele planeta, e dar-lhes a oportunidade de se juntarem à Liga que une vários mundos separados pelo vazio sideral; mas a partida da sua nave deixou-os num exílio forçado, do qual a única saída deverá ser um desaparecimento inexorável. Limitados pelas leis de uma Liga cujo destino desconhecem, mas que os proíbe de adoptar e desenvolver tecnologias que condicionem a evolução cultural dos nativos, os exilados vêem-se obrigados a regredir a uma vida quase-medieval com alguns luxos dissimulados (os trekkies decerto notarão a proximidade desta ideia com a célebre "Prime Directive"). 

A prosa de Le Guin, já notável no seu início de carreira, cristaliza um tom melancólico, a espaços poético, para toda a trama - duas características que nunca perde, nem nos momentos que poderíamos considerar "de acção"; e as imagens que conjura são de uma beleza espantosa. Dito isto, o mais impressionante em Planet of Exile acaba por ser tanto o worldbuilding, enganadoramente simples nas suas premissas - com poucas palavras e sem recurso a infodumps forçados, Le Guin confere uma verosimilhança impressionante àquele mundo distante, com as suas longas estações e as suas culturas, ao mesmo tempo tão familiares e tão estranhas. E povoa esse mundo com personagens tão imperfeitas na sua humanidade - o velho Wold, sábio e teimoso, sempre provocador na sua rebeldia; a jovem Rolery, inocente e livre, uma rara filha do Inverno cujas perspectivas pouco animadoras em nada diminuem o seu gosto pela vida e a sua curiosidade natural; e Jakob Agat, o líder nobre de um povo em declínio, exilado mas orgulhoso, determinado a sobreviver até às últimas consequências. 

É certo que Planet of Exile está longe de ser um romance perfeito - ou, pelo menos, um texto do calibre a que Le Guin habituou os dois géneros nos quais se viria a tornar numa referência incontornável. Alguns elementos são deixados em aberto, como se integrassem o início de uma ideia nunca concretizada - a praia por onde Rolery passeia, e de cuja maré súbita é salva por Agat, não deixa de persistir na memória como uma Chekhov's Gun deixada por disparar sobre o rebordo da lareira . Mas nem por isso deixa de dar continuidade à promessa deixada por Rocannon's World, e por mostrar a sofisticação e a imaginação da jovem Le Guin na construção de um mundo ficcional que se revela espantosamente harmonioso na sua mescla de fantasia e ficção científica. 

*Salvaguardadas as devidas distâncias, será talvez difícil para o leitor de fantasia contemporânea ler este romance sem se lembrar de A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin - vários motivos utilizados aproximam a região Norte de Werel do Norte de Westeros. É difícil dizer, sem perguntar, se o romance de Le Guin serviu de influência, directa ou indirecta, a Martin - mas dada a paixão deste pela ficção científica, tal possibilidade não será talvez de descartar.

8 de junho de 2014

Citação fantástica (129)

We live well in the houses — well enough. But we are ruled utterly by fear. There was a time we sailed in ships between the stars, and now we dare not go a hundred miles from home. We keep a little knowledge, and do nothing with it. But once we used that knowledge to weave the pattern of life like a tapestry across night and chaos. We enlarged the chances of life. We did man’s work.

Ursula K. Le Guin, City of Illusions (1967)

15 de dezembro de 2013

Citação fantástica (97)

Between thought and spoken word is a gap where intention can enter, the symbol twisted aside, and the lie come to be.

Ursula K. Le Guin, City of Illusions (1967)

13 de dezembro de 2013

Rocannon's World: Indistinguível da magia

A terceira lei de [Arthur C.] Clarke diz que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia - uma ideia que encontra eco em muitas histórias de ficção científica. Rocannon's World, o primeiro romance de Ursula K. Le Guin (publicado em 1966) é um exemplo claro desse eco: um curto romance de ficção científica onde uma sociedade espacial avançada coexiste com nações feudais em planetas remotos, e onde a mais sofisticada tecnologia se envolve na criação mitológica de todo um povo. 

Após algumas breves notas etnográficas de um mundo e de povos estranhos, Rocannon's World começa com um prólogo extraordinário: uma história intitulada Semley's Necklace (publicada em 1964 nas páginas da revista "Amazing Stories" com o título Dowry of the Angyar), que narra a história de Semley, princesa do povo Angyar, e da sua demanda para encontrar a herança da sua linhagem: um colar de ouro com uma safira, jóia de valor incalculável - sobretudo desde que os "Starlords" tinham descido dos céus para impor tributo aos povos daquele mundo. A demanda de Semley leva-a a procurar os diurnos Fiia, amantes do mundo natural, e os nocturnos Gdemiar, subterrâneos e industriais - de certa forma, equivalentes aos Elfos e aos Anões de tantas histórias de fantasia daquele tempo. Mas Semley não consegue conceber quão literal é a ideia de que o colar se encontra para lá da longa noite; e a sua busca vai levá-la mais longe, no tempo e no espaço, do que alguma vez imaginara.

O desfecho de Semley's Necklace marca o início da história de Rocannon, o etnologista oriundo da Terra que conhecera Semley na sua demanda - e que acaba por ir para o planeta daquela princesa, Fomalhaut II, com o propósito de estudar melhor as suas raças inteligentes, as suas civilizações, as suas mitologias e o seu potencial de integrarem a Liga dos Mundos como aliados para a guerra interestelar que se avizinha. Mas essa guerra está mais próxima do que Rocannon imaginava; e Rocannon vê-se obrigado a aliar-se ao jovem Mogien, senhor de Hallan, e a partir numa perigosa jornada rumo ao Sul desconhecido para tentar encontrar um ansible que permita alertar a Liga do que se passa naquele planeta. 

É certo que, tanto em termos formais como em termos narrativos, Rocannon's World está muito longe de ser um trabalho excepcional - o que não surpreende, sendo um romance de estreia. Mas nem por isso deixa de brilhar em alguns pontos; e onde se torna verdadeiramente fascinante é na forma como Le Guin mistura temas e convenções de fantasia épica e de ficção científica numa mesma narrativa - sem que esta perca a coesão ou o seu ritmo próprio, elevado como convém a uma história tão curta. E, claro, no adivinhar de todo um universo mais vasto para além do que as personagens, primeiro Semley e depois Rocannon, observam - seja através do passado e das lendas de Fomalhaut II, seja através do fabuloso museu etnográfico em Faraday, seja pelos mundos incontáveis que se adivinham na longa noite entre as estrelas. 

Mas o verdadeiro interesse de Rocannon's World, porém, acaba por não ser isso, ou mesmo a prosa em si (muito sólida, com indícios do carácter superlativo que Le Guin viria a desenvolver), mas sim as possibilidades que encerra. Nesta história com pouco mais de 100 páginas - uma brevidade impensável para os padrões literários contemporâneos - o leitor mais experimentado nos universos ficcionais de Ursula K. Le Guin poderá encontrar as sementes de várias histórias que escreveria alguns anos mais tarde, e que a tornariam numa das mais conceituadas figuras que a ficção científica conheceu desde os loucos anos 60. O carácter mitológico das civilizações de Fomalhaut II, num tom tão próximo da fantasia, a importância dada aos nomes e a ideia constante, transportada do prólogo de Semley para o desfecho de Rocannon de que o poder tem um preço, transporta-nos para o universo de Earthsea; enquanto todo o enquadramento de ficção científica e a ideia do estranho, do deslocado, tão cara à ficção de Le Guin, encontra eco em trabalhos tão diversos como The Left Hand of Darkness, The Dispossessed ou The Lathe of Heaven. Como romance de estreia, dificilmente Le Guin poderia ter escrito algo que conseguisse resumir tão bem aquilo que o seu percurso na ficção especulativa viria a ser nas décadas que se seguiriam; e fica na memória um prólogo excepcional para uma aventura que, não se desviando muito de moldes mais convencionais, nem por isso deixa de se revelar aliciante e muito promissora. 

23 de agosto de 2013

The Left Hand of Darkness, ou a definição de humanidade para lá do género

Em 1969 e 70, Ursula K. Le Guin tornou-se na primeira mulher a vencer com o mesmo livro os prémios Nébula e Hugo (respectivamente). O livro, esse, ainda hoje é considerado um clássico na ficção científica e, para muitos, um dos primeiros exemplares de um romance feminista de ficção científica: The Left Hand of Darkness. Mas mais do que feminista, The Left Hand of Darkness é uma inteligente e fascinante desconstrução da identidade sexual e da dualidade que daí decorre, enquadrada numa história mais profunda sobre o que é de facto a amizade, o amor - e, de certa forma, o que define cada indivíduo enquanto humano. 

Em termos narrativos, Le Guin enquadrou The Left Hand of Darkness no universo ficcional do "Hainish Cycle" - onde se encontram obras tão diversas como o seu primeiro romance publicado, Rocannon's World (1966), The Dispossessed (1973) ou The Word For World Is Forest (1974), para além de vários contos. O protagonista, Genly Ai, é um humano enviado pelo Ekumen - uma federação económica e cultural de várias dezenas de mundos povoados pela Humanidade - para o planeta Gethen com o propósito de convidar as nações daquele planeta a aderir ao colectivo. Nos idiomas locais, "Gethen" significa "Inverno", o que não é por acaso - todo o planeta parece mergulhado numa longa e cruel era glacial, num Inverno quase permanente que moldou os seus povos e as respectivas culturas. Mas Genly Ai deparar-se, ao chegar àquele planeta gélido, com algo ainda mais estranho: ao contrário do que acontece com os seres humanos em todos os outros planetas do Ekumen, em Gethen, a dualidade sexual entre masculino e feminino não existe por um imperativo biológico: todos os indivíduos são assexuados excepto durante um período de poucos dias, designado por kemmer, no qual por interacção hormonal adquirem um dos géneros - qualquer um. Cada indivíduo pode, assim, ser pai ou mãe, ou mesmo pai e mãe. 

O leitor acompanha a descoberta deste mundo pelos olhos do estranho Genly Ai, olhado pelos habitantes de Gethen com relativa curiosidade, quando não como aberração (de acordo com os termos locais, o emissário estaria em kemmer permanente - uma condição invulgar, mas não impossível). E é com Genly Ai que se revela perante o leitor um mundo tão estranho como fascinante, onde nunca ocorreram guerras convencionais (mas a intriga política abunda), onde o progresso tecnológico está praticamente estagnado e onde a ausência de aves poderá ser a explicação para nunca se ter desenvolvido uma máquina voadora (uma noção tão simples como extraordinária, bem reveladora da qualidade superlativa do worldbuilding de Le Guin). A estranheza e as dúvidas de Genly Ai são também as do leitor - e é fascinante como a autora não só constrói todo aquele mundo social como lhe dá vida. Sem no entanto se esquecer do enredo, da história que pretende contar - que ganha contornos particularmente fortes na interacção e no relacionamento do protagonista com Estraven, um antigo ministro de um dos reinos de Gethen, entretanto caído em desgraça. É em Estraven que Genly vai encontrar o espelho perfeito para a sua estranheza - quando as circunstâncias vão obrigar a que descubram juntos o que é a Humanidade para lá das diferenças individuais, de género ou quaisquer outras. A última parte de The Left Hand of Darkness, mais do que uma história soberba de sobrevivência, uma narrativa mais profunda sobre aquilo que nos une.

Uma história porventura tão relevante hoje como no seu tempo, num mundo complexo na sua vertente social e bastante rico em termos mitológicos - sem que a autora precise em algum momento de descrições estafadas para lhe dar vida. Também na prosa The Left Hand of Darkness brilha, ou não fosse Le Guin uma das grandes prosadoras que a ficção científica já conheceu - é fluída, rica no detalhe, eficiente na sugestão. Mais de quarenta anos volvidos sobre a sua publicação original, The Left Hand of Darkness continua a justificar em pleno o estatuto de "clássico". Se há leituras "obrigatórias" na ficção científica, esta será sem dúvida uma delas. 

11 de agosto de 2013

Citação fantástica (79)

The prisoner is the jailer's jailer.

Ursula K. Le Guin, Rocannon's World (1966)

17 de julho de 2013

A quem pertencem os conceitos da ficção científica?

No blogue da 'Amazing Stories', Paul Cook levanta uma lebre interessante, ainda que de forma algo despropositada*: a da utilização não creditada do termo e do conceito de ansible (um dispositivo de comunicação instantânea através do universo), criado por Ursula K. Le Guin em 1966 no seu primeiro romance, Rocannon's World, por vários autores de ficção científica ao longo dos anos, e em particular por Orson Scott Card no premiado e aclamado Ender's Game. Para Cook, a utilização do termo por Card como plot device de toda a narrativa constituiu um "roubo" da ideia original de Le Guin. Há aqui um claro exagero da parte do blogger: a utilização do ansible é relevante para o enredo como as warp drives são fundamentais para boa parte das space operas - mas a narrativa de Ender's Game não se centra no dispositivo. Que diabo: nem a narrativa de The Dispossessed, de Le Guin, se centra no dispositivo, e foi o seu protagonista, Shevek, quem o criou..!* Mas adiante: Para dar validade à sua ideia, Cook vai buscar outros casos célebres, como o da disputa em tribunal entre Harlan Ellison e James Cameron pela premisa básica de Terminator, entre muitos outros. 

Isto lembra-me uma outra história recente: a da tentativa de apropriação pela Games Workshop (criadora dos jogos Warhammer e Warhammer 40K, e de toda a literatura derivada) do termo space marine, cunhado pela primeira vez por Bob Olsen no conto Captain Brink of the Space Marines (publicado, ironicamente, na 'Amazing Stories') e celebrizado por muita da ficção científica militar que se seguiu, em especial pelo clássico Starship Troopers, de Robert A. Heinlein. É certo que space marine é um termo bem mais genérico que ansible, mas ainda assim a questão revela-se pertinente: a partir de que ponto é que uma ideia ou um conceito na ficção científica (ou na fantasia, se quisermos) deixa de ser propriedade individual de um autor e passa a ser, digamos, uma trope do género, passível de ser utilizada por qualquer autor? 

Talvez mais do que qualquer outro género literário, a ficção científica e a fantasia possuem um vasto conjunto de conceitos e de ideias criados ao longo dos anos e utilizados por vários autores aparentemente sem qualquer ligação. A expressão ansible foi utilizada com um significado idêntico por muitos autores de ficção científica para além de Le Guin (a criadora) ou Card (o ladrão, segundo Cook): uma visita rápida à Wikipedia leva-nos a Vernor Vinge, Dan Simmons, Elizabeth Moon, Jason Jones e L. A. Graf. Tal como o conceito foi utilizado por outros autores com outros nomes (o lodestone resonator de Philip Pullman na trilogia His Dark Materials será talvez um dos mais interessantes). O mesmo se poderia dizer das warp drives de Star Trek, tornadas universais na ficção científica espacial - recordando duas leituras recentes, não me parece que Gene Roddenberry tenha ido atrás de M. John Harrison ou Iain M. Banks com um batalhão de advogados por utilizarem o conceito nas suas obras. 

Sendo fã de ficção científica e um escritor em ascensão nos anos 70 e 80, Orson Scott Card utilizou um conceito aproveitado por muitos autores antes de si com a designação criada por Ursula K. Le Guin para dar nome a um dispositivo utilizado no seu primeiro livro - que veio, como se sabe, a alcançar um tremendo sucesso. Talvez Card devesse ter feito uma breve nota sobre a origem do termo - só lhe teria ficado bem, assumidamente -, ainda que a forma como o introduz na narrativa** constitua sem dúvida um piscar de olho ao grande universo partilhado da ficção científica. Não foi o único a fazê-lo (o que em circunstância alguma será desculpa), como muitos foram (e serão) os autores a escrever sobre space marines, a utilizar naves com warp drives e a aproveitar muitos outros conceitos criados, desenvolvidos e subvertidos pelos autores que os antecederam. Estaremos perante casos de roubo de propriedade intelectual? Terá sido apenas um tributo? Mera conveniência desprovida de má intenção? É difícil dizer, mas o caso está longe de ser singular.

* E o tom está longe de ser o único problema do artigo; todo ele parece ser sobre algo mais do que uma mera questão de apropriação intelectual: basta lermos os comentários de Cook tanto no seu próprio artigo, como neste ou neste: o autor não se inibe de dizer que quem defende Card - ou que quem não partilha a sua visão - só pode ser fã de Card, uma batota argumentativa tristemente comum na Internet contemporânea, e mais ainda quando é utilizada por alguém que se afirma escritor), mas ignoremos esse ponto. 

** Em Ender's Game: "What matters is we built the ansible. The official name is Philotic Parallax Instantaneous Communicator, but somebody dredged the name ansible out of an old book somewhere and it caught on"


21 de outubro de 2012

Ursula K. Le Guin (1929 - )

Filha do antropólogo Alfred. L. Koeber e da escritora Theodora Koeber, desde cedo Ursula K. Le Guin se notabilizou na literatura fantástica, que procurou utilizar para abordar de forma menos restrita temas relevantes como as questões de género, o feminismo ou a identidade racial - o que é visível sobretudo (mas não só) em algumas das obras que compõem o célebre "Hainish Cycle". A sua obra valeu-lhe vários prémios - como o Hugo, o Nébula e o Locus na ficção científica, o World Fantasy Award na fantasia, e vários outros - e um reconhecimento literário que por várias vezes transcendeu as fronteiras do género. 

Na ficção científica, Ursula K. Le Guin tornou-se conhecida com The Left Hand of Darkness (1969) e The Dispossessed (1974), obras vencedoras dos prémios Hugo e Nébula e parte integrante do "Hainish Cycle". Desta série dispersa de ficção científica fazem parte vários outros livros, como Rocannon's World (1966), Planet of Exile (1966), City of Illusions (1977), The Word for World is Forest (1976), Four Ways to Forgiveness (1995) e The Telling (2000). Do "Hainish Cycle" fazem também parte vários contos publicados em inúmeras antologias de ficção curta que Le Guin publicou ao longo dos anos, como The Wind's Twelve Quarters (1975), The Birthday of the World: And Other Stories (2002), entre muitas outras. Ainda na ficção científica, publicou The Lathe of Heaven (1972) e Lavinia (2008). 

Já na fantasia, Ursula K. Le Guin notabilizou-se sobretudo pelo extraordinário mundo de Earthsea, uma série única sobre um mundo de ilhas num vasto oceano, com fortes influências das filosofias orientais. De Earthsea fazem parte os livros A Wizard of Earthsea (1968), The Tombs of Atuan (1971), The Farthest Shore (1972), Tehanu: The Last Book of Earthsea (1990) e The Other Wind (2001), assim como a antologia Tales From Earthsea (2001) e vários contos dispersos por outras colectâneas. 

Ursula K. Le Guin nasceu em Berkeley, na Califórnia (Estados Unidos) em 1929, e celebra hoje 83 anos.