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22 de agosto de 2014

City of Illusions: Memórias e ilusões

Antes de conquistar a fantasia e a ficção científica com dois clássicos absolutos - A Wizard of Earthsea e The Left Hand of Darkness, respectivamente -, Ursula K. Le Guin começou por desenvolver em três romances curtos um universo ficcional que, enquadrando-se na ficção científica (era o género mais popular na época), acabam por evocar uma certa atmosfera e algumas convenções da fantasia literária. City of Illusions, de 1967, fecha o ciclo iniciado um ano antes por Rocannon's World e por Planet of Exile, com os quais surgiu o "Hainish Cycle" que viria a enquadrar algumas das suas obras maiores - e fá-lo com um romance que, longe de ser um dos melhores da sua bibliografia, nem por isso deixa de ser um curioso Le Guin vintage, uma exploração inicial de uma autora à procura da sua voz literária e do seu próprio território temático.

E nesse território temático encontra-se a procura da verdade, tema que explorou a partir de várias perspectivas ao longo da sua obra. Aqui, fá-lo através de um enigma em forma de personagem: um homem anónimo e sem memória e com a mente esvaziada, perdido numa vasta floresta na Terra, encontrado por uma pequena comunidade isolada entre as árvores. Os seus olhos cor de âmbar, a lembrar os de um felino, marcam-no como estranho, atribuem-lhe uma origem desconhecida e possivelmente extra-terrestre; mas a desconfiança de alguns elementos da comunidade não é suficiente para demover o líder, que o aceita entre os seus, permite a sua educação e concede que lhe seja atribuído um nome: Falk. Durante os anos que se seguem, Falk aprende com a comunidade, e em especial com a jovem Parth, o que é ser humano - como falar, como caçar, como ser parte de todo e não um indivíduo isolado, reduzido a um estado primitivo e quase selvagem. Naquela comunidade perdida, mantida em segredo pelo receio do Inimigo, dos misteriosos Shing que mantém o mundo preso no marasmo civilizacional, Falk passa por uma rápida infância e torna-se num novo homem - mas atrás de si reside uma escuridão incomensurável, um passado desconhecido que o assombra a cada momento, e que o leva a perguntar se haverá um futuro diferente.

É esse passado e essa expectativa de futuro que leva Falk a deixar a comunidade, rumo ao desconhecido que existe para lá dos limites da floresta que, para o povo que o acolheu, é praticamente tudo o que conhecem. Como destino da sua demanda está Es Toch, a lendária - e temida - cidade dos Shing, onde Falk espera encontrar as suas respostas. Mas se o caminho para lá chegar será sinuoso - as demandas, afinal, nunca são fáceis, as respostas que irá obter poderão ser bem diferentes do que alguma vez imaginara.

A prosa da jovem Le Guin já aqui transporta a trama com facilidade, elevando-a de forma considerável em alguns momentos - as suas descrições de Es Toch são notáveis pela abstracção que evoca, e é fascinante vê-la a passar de um registo de quase fábula, como a estada de Falk na casa do eremita na floresta com os animais que falam, para as descrições tecnológicas de alguns momentos de pura ficção científica. Tal como nos romances anteriores, Le Guin revela-se hábil na combinação nem sempre provável da fantasia com a ficção científica, e utiliza-a para construir a Terra num futuro distante que há muito deixou o apocalipse da queda da Liga de Todos os Mundos para trás. O longo travelogue de Falk serve precisamente para apresentar todo esse mundo, bem mais vasto do que as fronteiras da floresta original - e ainda que por vezes careça do ritmo apropriado para se tornar numa parte mais estimulante, nem por isso deixa de ser eficaz neste propósito.

Dito isto, City of Illusions não deixa de ter os seus problemas - com os Shing e a sua caracterização a serem um dos principais, mas não o único. O ritmo narrativo, mais incerto do que nos romances anteriores, revela-se demasiado lento na primeira parte, após um início sólido e um final aberto bastante satisfatório. Ainda longe da forma perfeita de The Left Hand of Darkness ou The Dispossessed, Le Guin não toma algumas opções mais arriscadas, e em vários momentos sente-se que toda a trama poderia beneficiar de mais alguma energia e, sobretudo, de mais alguma ousadia e ambiguidade. E, claro, de mais alguma complexidade nas personagens - mais mais do que aos Shing, falta desenvolvimento a Estrel, que tem um papel fundamental no romance, e ao próprio protagonista. Ainda assim, a forma como o mistério em volta de Falk é tecido funciona bastante bem (com uma excelente red herring a meio), e a duplicidade dos Shing dá um estímulo fundamental aos últimos capítulos.

Olhando agora para trás, faz todo o sentido que Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions estejam hoje em dia publicados num único volume - ainda que não constituam uma trilogia no sentido convencional do termo, há entre eles ligações mais do que suficientes (e sobretudo entre os dois últimos) para justificar a opção e dar uma certa noção de continuidade. Uma continuidade que sai reforçada pelo tom das três histórias, pela forma como Le Guin desenvolve ficção científica em território de fantasia (ou vice-versa), e por alguns temas que acabam por se cruzar e sobrepor, explorados a partir de pontos de vista distintos. Não são o melhor de Le Guin, de facto - mas são um início promissor, ainda que discreto na sua época, e ilustram na perfeição como conseguiu a autora avançar em simultâneo por duas vertentes tão distintas como a sua ficção científica mais complexa e as histórias de fantasia de Earthsea, estabelecendo-se como uma das maiores autoras em ambos os géneros. Para os fãs de Le Guin, serão decerto leitura obrigatória; para os apreciadores de ficção científica e de fantasia, ficam como leitura recomendada. 

Título: Worlds of Exile and Illusion (Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions)
Autora: Ursula K. Le Guin
Editora: Orb Books/Tor
Ano: 1996 (1966-1966-1967)
Formato: Paperback
Páginas: 370
Género: Ficção Científica

17 de agosto de 2014

Citação fantástica (148)

To light a candle is to cast a shadow.

Ursula K. Le Guin, A Wizard of Earthsea (1968)

20 de junho de 2014

Planet of Exile: Mitos e superstições do longo Inverno

Quando aqui falei de Rocannon's World, de Ursula K. Le Guin, destaquei como um dos aspectos mais marcantes da obra a fusão bem conseguida entre elementos de fantasia e de ficção científica, tão diferentes entre si e capazes de dar forma a um todo se não extraordinário, pelo menos muito promissor (trata-se, afinal, do seu primeiro romance). Dois anos mais tarde, essa promessa concretizar-se-ia em pleno em dois romances fundamentais da sua bibliografia, e da fantasia e da ficção científica enquanto géneros literários: A Wizard of Earthsea e The Left Hand of Darkness, respectivamente. Entretanto, porém, houve tempo para continuar a aprimorar a fórmula em algumas histórias do universo ficcional que mais tarde viria a ser conhecido como "Hainish Cycle". Planet of Exile, foi o romance que se seguiu, ainda em 1966.

A narrativa de Planet of Exile tem lugar em Werel, no sistema de Gamma Draconis - um planeta cuja órbita em redor do seu sol demora 60 anos terrestres, e cujas longas estações duram 15 anos. No momento em que a narrativa começa, as tribos locais estão a preparar-se para a chegada do Inverno*, reconstruindo as suas cidades hibernais para armazenarem as colheitas e, nos seus abrigos subterrâneos, enfrentarem o longo frio e as neves altas que a estação invariavelmente trará. Sem esquecer, claro, o reforço das suas muralhas para resistir às investidas de bandos de Gaal - as tribos de Norte que, com a chegada do Inverno, migram para Sul em busca de climas mais quentes e atacam quem podem em busca de recursos. Algo, porém, será diferente no Inverno que se avizinha; e tanto ao clã Tevaran do velho Wold como a Landin, a cidade costeira próxima na qual habita um povo estranho, chegam avisos de que a próxima migração dos Gaal não será desordeira e dispersa como aconteceu noutros anos, mas organizada, massiva - e perigosa. Temendo um ataque concertado que, a confirmarem-se os rumores, terá resultado na queda de cidades hibernais mais a Norte, o líder de Landin, Jakob Agat, procura uma aliança improvável com o povo de Tevar - mas o envolvimento de Rolery, uma das filhas de Wold, leva a um reacender do preconceito e da inimizade dos locais para com o povo de Landin, diferentes pela sua aparência e pelos estranhos poderes que naquele mundo passam por bruxaria. 

As primeiras páginas dão a impressão de que Planet of Exile será mais um romance de fantasia, com dois povos distintos a viver lado a lado - um com poderes e conhecimento estranhos, outro mais atrasado. Aos poucos, porém, Le Guin começa a desmontar algumas ideias e a revelar o seu verdadeiro rosto: será talvez impossível ao leitor mais experimentado evitar um sorriso quando percebe que hilf, a designação que os homens da cidade junto ao mar dão aos nativos daquela terra, não é uma designação de fantasia escolhida ao acaso, mas sim um acrónimo para highly-intelligent life-form. É a partir dessa revelação que o mito daquele povo é revelado - vieram de outro mundo para lá das estrelas há vários anos locais, com o propósito de estudar as culturas daquele planeta, e dar-lhes a oportunidade de se juntarem à Liga que une vários mundos separados pelo vazio sideral; mas a partida da sua nave deixou-os num exílio forçado, do qual a única saída deverá ser um desaparecimento inexorável. Limitados pelas leis de uma Liga cujo destino desconhecem, mas que os proíbe de adoptar e desenvolver tecnologias que condicionem a evolução cultural dos nativos, os exilados vêem-se obrigados a regredir a uma vida quase-medieval com alguns luxos dissimulados (os trekkies decerto notarão a proximidade desta ideia com a célebre "Prime Directive"). 

A prosa de Le Guin, já notável no seu início de carreira, cristaliza um tom melancólico, a espaços poético, para toda a trama - duas características que nunca perde, nem nos momentos que poderíamos considerar "de acção"; e as imagens que conjura são de uma beleza espantosa. Dito isto, o mais impressionante em Planet of Exile acaba por ser tanto o worldbuilding, enganadoramente simples nas suas premissas - com poucas palavras e sem recurso a infodumps forçados, Le Guin confere uma verosimilhança impressionante àquele mundo distante, com as suas longas estações e as suas culturas, ao mesmo tempo tão familiares e tão estranhas. E povoa esse mundo com personagens tão imperfeitas na sua humanidade - o velho Wold, sábio e teimoso, sempre provocador na sua rebeldia; a jovem Rolery, inocente e livre, uma rara filha do Inverno cujas perspectivas pouco animadoras em nada diminuem o seu gosto pela vida e a sua curiosidade natural; e Jakob Agat, o líder nobre de um povo em declínio, exilado mas orgulhoso, determinado a sobreviver até às últimas consequências. 

É certo que Planet of Exile está longe de ser um romance perfeito - ou, pelo menos, um texto do calibre a que Le Guin habituou os dois géneros nos quais se viria a tornar numa referência incontornável. Alguns elementos são deixados em aberto, como se integrassem o início de uma ideia nunca concretizada - a praia por onde Rolery passeia, e de cuja maré súbita é salva por Agat, não deixa de persistir na memória como uma Chekhov's Gun deixada por disparar sobre o rebordo da lareira . Mas nem por isso deixa de dar continuidade à promessa deixada por Rocannon's World, e por mostrar a sofisticação e a imaginação da jovem Le Guin na construção de um mundo ficcional que se revela espantosamente harmonioso na sua mescla de fantasia e ficção científica. 

*Salvaguardadas as devidas distâncias, será talvez difícil para o leitor de fantasia contemporânea ler este romance sem se lembrar de A Song of Ice and Fire, de George R. R. Martin - vários motivos utilizados aproximam a região Norte de Werel do Norte de Westeros. É difícil dizer, sem perguntar, se o romance de Le Guin serviu de influência, directa ou indirecta, a Martin - mas dada a paixão deste pela ficção científica, tal possibilidade não será talvez de descartar.

18 de junho de 2014

Notas sobre ficção científica (6)

"Then let us speak of how we have changed as a genre. Long ago, my children, in the days of my youth, our tribe was small and poor, skulking in exile on the margins of the rich kingdom of Literaturia. When we attempted to approach, we were driven back with execrations and the throwing of fecal matter by the armed Critics with their battle cry of “Genre! Kill!” We found, however, that many readers so loved us that they came into exile to join us, calling their settlement Fandom, and even in Literaturia, many secretly welcomed us to their hearts and homes. Over the years, we have grown in numbers and strength, and there is much intercourse of various kinds, and exchange of mental goods. Nowadays, blue-blooded Literaturians, believing they understand our simple customs, often imitate them, badly. Some of our tribe have become somewhat respectable in the streets of Literaturia, and pass, at times, almost unscathed among the Critics. The heights of the cities, however, and the great prizes to be found there, are still closed to us. I urge you to continue on the way of your tribal Elders, my children: Ignore execrations, seduce Critics, infiltrate curricula, and keep on truckin’."
As palavras são de Ursula K. Le Guin (quem mais?) numa mesa redonda que a juntou a Pat Cadigan, Nancy Kress e Ellen Datlow para discutir a presença e a importância das mulheres na evolução da ficção científica. A iniciativa partiu de Mary Robinette Kowal para a Lightspeed Magazine; e o resultado, esse, deve ser leitura obrigatória para todos os fãs do género.

Fonte: SF Signal

8 de junho de 2014

Citação fantástica (129)

We live well in the houses — well enough. But we are ruled utterly by fear. There was a time we sailed in ships between the stars, and now we dare not go a hundred miles from home. We keep a little knowledge, and do nothing with it. But once we used that knowledge to weave the pattern of life like a tapestry across night and chaos. We enlarged the chances of life. We did man’s work.

Ursula K. Le Guin, City of Illusions (1967)

28 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (3): Os melhores livros de fantasia

Quem fizer a história da fantasia literária dos últimos 30 anos não poderá deixar de dar grande destaque a Discworld, o mundo secundário onde Terry Pratchett tem satirizado, com um humor ímpar na literatura contemporânea, tudo o que se possa imaginar – das obras de Shakespeare às convenções da fantasia moderna, das civilizações antigas à indústria cinematográfica. Em Small Gods, o décimo-terceiro volume de Discworld, a sátira afiada e inteligente de Pratchett apontou baterias no culto religioso – e o resultado é um dos melhores livros de fantasia dos anos 90. Om, em tempos uma divindade poderosa no Disco e centro de um dos seus mais importantes cultos, vê-se desprovido dos seus poderes e capturado no corpo insignificante de uma tartaruga – pois a sua religião, apesar de ter milhões de fiéis, não tem um único crente (e o poder dos deuses em Discworld, como se sabe, deriva da crença genuína). Resta-lhe Brutha, o mais simples de todos os acólitos do seu mosteiro, detentor de apenas duas qualidades dignas de nota: uma grande força física, e uma memória eidética infalível. Mas no lado oposto a Brutha – ou seja, no topo da hierarquia clerical do culto de Om – está Vorbis, grande inquisidor, homem de olhar fulminante e determinação insuperável, para quem o poder clerical e o poder secular devem ser uma e a mesma coisa. Com Om entre estas duas figuras, Pratchett traça uma sátira mordaz, inteligente e profundamente divertida ao fenómeno religioso, aos seus ritos e aos seus cultos, que talvez seja mais pertinente hoje do que o seria em 1991, quando foi publicado pela primeira vez. 

Em boa verdade, poderia completar esta lista apenas com os livros de Discworld que li durante 2013 – todos eles excelentes. Depois de Small Gods, destaco também Witches Abroad, décimo-segundo título da série, que regressa a Granny Weatherwax, a Nanny Ogg e a Magrat Garlic, as três impagáveis bruxas do pequeno reino de Lancre. A súbita herança de uma varinha mágica de uma fada madrinha por Magrat, e um detalhe antigo mas nunca esquecido do passado de Granny vai levar o pequeno círculo de bruxas (mais Greebo, o temível gato de Nanny Ogg) até um reino distante, dominado pelos contos de fadas – com os bailes faustosos e os indispensáveis finais felizes. Pelo caminho encontram anões, abóboras, lobos antropomorfizados, mais abóboras, rituais voodoo, espelhos encantados e um reino onde nada é o que aparenta ser – e pior, nada é o que devia ser. Witches Abroad é uma sátira inteligente aos contos de fadas tradicionais, e nenhum deles escapa ao olhar atento e perspicaz de Pratchett – só as inúmeras referências e as piadas hilariantes fazem valer a pena a leitura. Mas Witches Abroad é também uma história intrigante e muito bem construída, com uma das melhores personagens de Pratchett como protagonista – falo de Granny Weatherwax, evidentemente.

Tehanu, de Ursula K. Le Guin
Entre a publicação de The Farthest Shore, o terceiro volume da trilogia Earthsea original, e de Tehanu, obra que marca o regresso de Ursula K. Le Guin ao seu mundo secundário de fantasia, passaram-se quase vinte anos; e isso nota-se de forma muito positiva na leitura. Por oposição à trilogia anterior, mais próxima da fantasia literária convencional e das demandas do herói, Ged (por muito que tais convenções tenham sido contornadas), Tehanu retira o protagonismo a Ged para explorar o ponto de vista de Tenar, a jovem rapariga que o feiticeiro resgatara em The Tombs of Atuan. Mas muitos anos se passaram desde então, e isso nota-se: Ged está mais velho, e profundamente mudado pelos acontecimentos de The Farthest Shore; e Tenar, também já longe da juventude de outrora, também amadureceu e construiu uma vida familiar em Gont. Por um lado, é um prazer ver Le Guin a explorar o envelhecimento, o crescimento pessoal e as consequências das acções passadas das suas personagens; e por outro, esse enquadramento e o foco sobre Tenar dá à autora a oportunidade de explorar algumas das questões de género que se tornaram recorrentes na sua obra. Pelo contraste entre as vidas de Tenar e de Ged, Le Guin aborda o poder e a magia na perspectiva dos dois géneros naquele mundo - e fá-lo de forma mais intimista e pessoal, com resultados espantosos. 

Se Poul Anderson fosse vivo e estivesse hoje a escrever este seu clássico de 1954, The Broken Sword seria esticado para, pelo menos, uma trilogia, com cada livro a ter entre 400 e 600 páginas. Mas nos longínquos anos 50, este épico de inspirações na mitologia escandinava coube num único volume de pouco mais de duzentas páginas – e a sua trama, intensa e convulsa como só as grandes sagas sabem ser, é uma autêntica lição de storytelling. Michael Moorcock considerou-o melhor do que “o outro” livro de fantasia daquele ano, The Fellowship of the Rings – o que não faz justiça nem à obra de Anderson, quanto mais à de Tolkien. Com uma história situada na Inglaterra durante a era dos Vikings, e com a oposição entre as divindades tradicionais do Norte da Europa e o Cristianismo em ascensão, The Broken Sword parte da conquista de um território nas ilhas britânicas por Orm the Strong, e da inimizade que gera junto do reino de faerie de Elfheug. A troca do primogénito de Orm por um changeling híbrido de elfo e troll, porém, vai gerar um conflito muito amargo entre os Homens e as criaturas de faerie, e entre elfos e trolls - com os deuses do Aesir e os Jotuns envolvidos para os seus próprios fins. E, pelo meio, há ainda uma espada antiga, quebrada, que só poderá ser reforjada pelo gigante Bolverk na sua terra distante. Com um tom mais próximo das sagas nórdicas, The Broken Sword é uma aventura prodigiosa de Poul Anderson (que, recorde-se, também se notabilizou na ficção científica), um clássico da literatura de fantasia firmemente ancorado nas mitologias europeias. 

27 de dezembro de 2013

2013 em retrospectiva (2): Os melhores contos

(Dangerous Visions, ed. Harlan Ellison, 1967)

Podia fazer esta lista apenas com contos retirados de Dangerous Visions (retrospectiva aqui), a antologia revolucionária com a qual Harlan Ellison deu em 1967 o impulso definitivo à “New Wave” norte-americana (deste lado do Atlântico, o movimento assentava na revista “New Worlds”, de Michael Moorcock). Robert Silverberg, Norman Spinrad, Poul Anderson, John Brunner, Roger Zelazny – os contos de todos estes autores na antologia mereceriam sem dúvida figurar nesta curta lista. Opto, porém, por destacar o texto submetido por Philip K. Dick: Faith of Our Fathers é um conto magnífico, psicadélico e abstracto q.b., sobre dois dos temas que mais marcaram a obra deste gigante do género: a irrealidade da realidade e a experiência religiosa. Situado num Vietname distópico reminescente da China comunista, o conto centra-se em Tung Chien, funcionário da burocracia estatal, que por consumo de uma estranha droga começa a ver alucinações tão estranhas como horríveis. Mas serão essas alucinações a realidade, ou um mero resultado das drogas? Intenso e surpreendente, Faith of Our Fathers é um conto soberbo de Philip K. Dick, e uma complexa reflexão sobre a natureza da realidade e a percepção religiosa.

("IF: Worlds of Science Fiction", Março de 1967)

Antes do HAL-9000 de Kubrick e Clarke se tornar numa das mais icónicas Inteligências Artificiais da ficção científica, antes de a Skynet causar o apocalipse em Terminator e antes da passivo-agressiva GlaDOS dizimar todos os cientistas da Aperture Science em nome da ciência, houve AM: a cruel IA que manipulou física e mentalmente os últimos cinco seres humanos da Terra e os colocou num labirinto infinito. Porquê, não se sabe; o leitor apenas fica a conhecer indícios do trágico destino da Humanidade quando a Singularidade emergiu em plena guerra mundial, e o puro horror que os cinco sobreviventes experimentam naquele labirinto, entregues aos humores e aos desígnios insondáveis de AM. Harlan Ellison é um mestre da forma curta, e isso nota-se: a prosa excepcional e visual, a construção de tensão e os momentos de puro horror fazem de I Have No Mouth, and I Must Scream um texto notável, que atravessa géneros e se lê hoje com o mesmo terrível fascínio de há quase cinco décadas.

("Galaxy Science Fiction", Dezembro de 1965)

Talvez este extraordinário conto de Harlan Ellison seja tão pertinente hoje, com as distopias e o tom grimdark, a dominar o género, como foi no seu tempo. "Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman abre com uma citação de Thoreau e conta a história do Harlequin, que com as suas partidas ameaça virar do avesso aquela sociedade futurista, distópica e obcecada com o tempo e com a pontualidade, desafiando o poder absoluto do Ticktockman. Contado de forma não-sequencial, o conto começa no meio, explica o início e termina, muito apropriadamente, no final; e nos entretantos, o leitor pode deliciar-se com a extraordinária prosa de Ellison, capaz de conjurar algumas das mais memoráveis e persistentes imagens da ficção científica que li durante 2013. Da disrupção causada por jelly beans impossíveis à descrição de como o mais pequeno atraso ameaça derrubar as fundações de toda uma sociedade escravizada pela tirania do relógio, "Repent, Harlequin!" Said the Ticktockman é um texto notável, capaz de descrever a mais obscura das distopias sem em algum momento cair num tom sombrio e tenebroso.

(New Dimensions 3, 1973)

Mais uma parábola do que um conto propriamente dito, este texto de Ursula K. Le Guin descreve a cidade de Omelas, um lugar magnífico onde os seus habitantes, cultos e esclarecidos, vivem na abundância e na felicidade absoluta. Mas tal abundância e tal felicidade dependem de um segredo especialmente sórdido, do conhecimento obrigatório de todos quando atingem a maioridade; e se alguns aprendem a viver as suas vidas na abundância e na felicidade sem pensar nessa sombra, outros revelam-se incapazes de a suportar - e são esses que abandonam Omelas para parte incerta, tão incapazes de nela viver como de a mudar. Com a sua prosa excepcional e evocativa, Le Guin recria em The Ones Who Walk Away From Omelas um micro-universo verosímil, e utiliza-o com mestria para colocar algumas questões complexas sobre a oposição entre o indivíduo e o colectivo e o preço a pagar pelo bem comum.  

Ursula K. Le Guin: "I didn’t just arrive during a transition — I was one of the writers who started it" (entrevista)

Aos 84 anos de idade e com uma carreira na ficção especulativa com várias décadas, Ursula K. Le Guin é com toda a justiça uma das gigantes no género. Os seus primeiros romances de ficção científica, publicados a partir da segunda metade da década de 60, contribuiriam de forma indelével para a grande revolução operada pela "New Wave"; e livros como The Left Hand of Darkness e The Dispossessed são dos mais populares e influentes livros do género. Na fantasia, o seu legado assenta sobretudo (mas não apenas) no mundo secundário de Earthsea, o vasto arquipélago onde a autora colocou personagens memoráveis, como Ged e Tenar, e escreveu aventuras formidáveis com reflexões importantes sobre o poder e o privilégio. Em entrevista a R.K. Troughton para o blogue da Amazing Stories, Le Guin fala da sua carreira literária, da sua entrada no género numa época em que este era dominado por homens, e sobre escrita propriamente dita. Alguns excertos:
R.K. Troughton/ Amazing Stories: Science fiction started as a genre of hard science. You started publishing during a transitional phase for the industry, when many authors were exploring a broader spectrum of ideas. You focused more on sciences like anthropology, psychology, and sociology rather than chemistry, astronomy, and physics. While realism explores some of the subject matters you were writing about, you created fantastic elements to serve as your tapestry. What makes speculative fiction the perfect canvas for your imagination?

Ursula K. Le Guin: I didn’t just arrive during a transition — I was one of the writers who started it. We moved SF away from being fixated on the “hard” sciences, but that’s only part of it. SF was a white-male-dominated field of adventure stories of an intellectual or imaginative kind, sometimes brilliantly conceived, often badly written. We raised the standards and made it into the complex, inclusive, prejudice-challenging, ever- changing kind of literature it is at its best today.

I can’t tell you why most of my fiction is imaginative rather than realistic; it’s just the way my mind works. Physics tell us us how the universe works, and that’s grand, but also we’re human, and the the social sciences are a goldmine of ideas for any writer interested in how being human works.

(...)

RKT/AS: Beyond the jacket of your book, the world was working through its own gender revolution when you first started publishing. The science fiction industry was no different. You served as one of the trailblazers of the feminine voice in a male dominated industry. What obstacles did you face when you were first publishing, and how did you overcome and persevere?

UKL: The first SF editor who bought a story from me was Cele Goldsmith Lalli, at Fantastic — one of the first woman editors in the genre. Don Wollheim and Terry Carr at Ace Books, who bought my first books, weren’t afraid of women, as some editors were. I didn’t try to overcome the misogynists in the genre. Why bother? I just avoided them, or outwrote them. Having a marvelous agent, Virginia Kidd, who worked on the same principles, was a tremendous advantage.

RKT/AS: While The Left Hand of Darkness is truly amazing, many believe your novel The Dispossessed to be even better. As evidence, it won the Hugo, Nebula, and Locus awards and stands beside some of the greatest works of any genre in the last century. Where did the idea for the book come from, and how did you go about writing this legendary novel?

UKL: Part of the origin of Left Hand came from thinking about what kind of people would never have had a war. I kept on thinking about war and peace, about violence and nonviolence, and reading about it. I read Gandhi, and then the anarchists such as Kropotkin and Goodman. I found nonviolent anarchism a very useful way of thought, that fit in with the Taoism I picked up as a kid. And nobody had ever written an anarchist utopia. So I did.

(...)
A entrevista completa pode (deve) ser lida aqui.


15 de dezembro de 2013

Citação fantástica (97)

Between thought and spoken word is a gap where intention can enter, the symbol twisted aside, and the lie come to be.

Ursula K. Le Guin, City of Illusions (1967)

13 de dezembro de 2013

Rocannon's World: Indistinguível da magia

A terceira lei de [Arthur C.] Clarke diz que qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia - uma ideia que encontra eco em muitas histórias de ficção científica. Rocannon's World, o primeiro romance de Ursula K. Le Guin (publicado em 1966) é um exemplo claro desse eco: um curto romance de ficção científica onde uma sociedade espacial avançada coexiste com nações feudais em planetas remotos, e onde a mais sofisticada tecnologia se envolve na criação mitológica de todo um povo. 

Após algumas breves notas etnográficas de um mundo e de povos estranhos, Rocannon's World começa com um prólogo extraordinário: uma história intitulada Semley's Necklace (publicada em 1964 nas páginas da revista "Amazing Stories" com o título Dowry of the Angyar), que narra a história de Semley, princesa do povo Angyar, e da sua demanda para encontrar a herança da sua linhagem: um colar de ouro com uma safira, jóia de valor incalculável - sobretudo desde que os "Starlords" tinham descido dos céus para impor tributo aos povos daquele mundo. A demanda de Semley leva-a a procurar os diurnos Fiia, amantes do mundo natural, e os nocturnos Gdemiar, subterrâneos e industriais - de certa forma, equivalentes aos Elfos e aos Anões de tantas histórias de fantasia daquele tempo. Mas Semley não consegue conceber quão literal é a ideia de que o colar se encontra para lá da longa noite; e a sua busca vai levá-la mais longe, no tempo e no espaço, do que alguma vez imaginara.

O desfecho de Semley's Necklace marca o início da história de Rocannon, o etnologista oriundo da Terra que conhecera Semley na sua demanda - e que acaba por ir para o planeta daquela princesa, Fomalhaut II, com o propósito de estudar melhor as suas raças inteligentes, as suas civilizações, as suas mitologias e o seu potencial de integrarem a Liga dos Mundos como aliados para a guerra interestelar que se avizinha. Mas essa guerra está mais próxima do que Rocannon imaginava; e Rocannon vê-se obrigado a aliar-se ao jovem Mogien, senhor de Hallan, e a partir numa perigosa jornada rumo ao Sul desconhecido para tentar encontrar um ansible que permita alertar a Liga do que se passa naquele planeta. 

É certo que, tanto em termos formais como em termos narrativos, Rocannon's World está muito longe de ser um trabalho excepcional - o que não surpreende, sendo um romance de estreia. Mas nem por isso deixa de brilhar em alguns pontos; e onde se torna verdadeiramente fascinante é na forma como Le Guin mistura temas e convenções de fantasia épica e de ficção científica numa mesma narrativa - sem que esta perca a coesão ou o seu ritmo próprio, elevado como convém a uma história tão curta. E, claro, no adivinhar de todo um universo mais vasto para além do que as personagens, primeiro Semley e depois Rocannon, observam - seja através do passado e das lendas de Fomalhaut II, seja através do fabuloso museu etnográfico em Faraday, seja pelos mundos incontáveis que se adivinham na longa noite entre as estrelas. 

Mas o verdadeiro interesse de Rocannon's World, porém, acaba por não ser isso, ou mesmo a prosa em si (muito sólida, com indícios do carácter superlativo que Le Guin viria a desenvolver), mas sim as possibilidades que encerra. Nesta história com pouco mais de 100 páginas - uma brevidade impensável para os padrões literários contemporâneos - o leitor mais experimentado nos universos ficcionais de Ursula K. Le Guin poderá encontrar as sementes de várias histórias que escreveria alguns anos mais tarde, e que a tornariam numa das mais conceituadas figuras que a ficção científica conheceu desde os loucos anos 60. O carácter mitológico das civilizações de Fomalhaut II, num tom tão próximo da fantasia, a importância dada aos nomes e a ideia constante, transportada do prólogo de Semley para o desfecho de Rocannon de que o poder tem um preço, transporta-nos para o universo de Earthsea; enquanto todo o enquadramento de ficção científica e a ideia do estranho, do deslocado, tão cara à ficção de Le Guin, encontra eco em trabalhos tão diversos como The Left Hand of Darkness, The Dispossessed ou The Lathe of Heaven. Como romance de estreia, dificilmente Le Guin poderia ter escrito algo que conseguisse resumir tão bem aquilo que o seu percurso na ficção especulativa viria a ser nas décadas que se seguiriam; e fica na memória um prólogo excepcional para uma aventura que, não se desviando muito de moldes mais convencionais, nem por isso deixa de se revelar aliciante e muito promissora. 

4 de dezembro de 2013

Ursula K. Le Guin: When I create another planet, another world, with a society on it, I try to hint at the complexity of the society I’m creating (entrevista)

Uma edição recente da The Paris Review teve em destaque uma entrevista com Ursula K. Le Guin - uma longa entrevista que incidiu sobre a sua longa carreira literária, na ficção especulativa e não só, sobre as suas influências, sobre as questões de género que atravessam a sua obra, e sobre a forma como as suas experiências pessoais e familiares se reflectiram no seu trabalho. É uma conversa longa, detalhada e bem merecedora de uma leitura atenta; Le Guin é indubitavelmente um dos grandes vultos da ficção especulativa contemporânea, e tem muito para dizer. Alguns excertos
The Paris Review: It seems to me there might be authors whose work is more accurately described by the term science fiction than your own—someone like Arthur C. Clarke, for example, whose work is often directly connected to a specific scientific concept. In your fiction, by contrast, hard science is perhaps less important than philosophy or religion or social science. 
Ursula K. Le Guin: The “hard”–science fiction writers dismiss everything except, well, physics, astronomy, and maybe chemistry. Biology, sociology, anthropology—that’s not science to them, that’s soft stuff. They’re not that interested in what human beings do, really. But I am. I draw on the social sciences a great deal. I get a lot of ideas from them, particularly from anthropology. When I create another planet, another world, with a society on it, I try to hint at the complexity of the society I’m creating, instead of just referring to an empire or something like that. 
TPR: Might that be why your fiction has been more readily admired in so-called literary circles—that it’s more engaged with human complexity and psychology? 
UKL: It’s helped to make my stuff more accessible to people who don’t, as they say, read science fiction. But the prejudice against genre has been so strong until recently. It’s all changing now, which is wonderful. For most of my career, getting that label—sci-fi—slapped on you was, critically, a kiss of death. It meant you got reviewed in a little box with some cute title about Martians—or tentacles. 
(...) 
TPR: When you were starting out, did you know that you wanted to write speculative fiction? 
UKL: No, no, no. I just knew from extremely early on—it sounds ridiculous, but five or six—that writing was something I was going to do, always. But just writing, not any mode in particular. It started as poetry. I think I was nine or ten before I really wrote a story. And it was a fantasy story, because that’s mostly what I was reading. By then, my brother and I were putting our quarters together to buy, now and then, a ten-cent magazine called something like “Fantastic Tales”—pulp magazines, you know. 
(...) 
TPR: So, when you’d finished Left Hand of Darkness, you sensed that it was— 
UKL: Bigger. 
TPR: Bigger in what sense? 
UKL: It took on a lot more intellectual and moral ground, and it was quite experi- mental, after all. A novel about people with no gender is not your typical Ace Double. But I came into science fiction at a very good time, when the doors were getting thrown open to all kinds of more experimental writing, more literary writing, riskier writing. It wasn’t all imitation Heinlein or Asimov. And of course, women were creeping in, infiltrating. Infesting the premises.
A entrevista completa é imperdível - e pode ser lida aqui.


8 de novembro de 2013

A Wizard of Earthsea: Jogo de sombras

Desde a popularização do género por The Lord of the Rings que a fantasia literária se tem dedicado com regularidade aos épicos - às grandes lutas do bem contra o mal (com maior ou menor ambiguidade e grit conforme a época), aos heróis maiores do que a vida, aos detentores de grande poder que não hesitam em usá-lo. Mas há excepções; e Earthsea, o mundo secundário que Ursula K. Le Guin criou em 1968 com a publicação de A Wizard of Earthsea, é uma delas, distinguindo-se ainda hoje pelo seu extraordinário worldbuilding, pela curiosa subversão à demanda do herói e pela interessante abordagem à magia. Mas vamos por partes.

Ainda que, em termos formais, Earthsea tenha sido apresentada alguns anos antes com os contos The Rule of Names ("Fantastic", 1964) e The Word of Unbinding (idem), foi com a publicação de A Wizard of Earthsea em 1968 que Le Guin expandiu as fronteiras do universo que que criara e lhe deu a forma que se tornaria icónica: um vasto mundo de água polvilhado por inúmeros arquipélagos de milhares de ilhas, mais ou menos isoladas, onde vivem os seres humanos (e, no caso de algumas ilhas mais remotas das "West Reaches", os Dragões). Nas ilhas de Earthsea vivem várias sociedades muito diferentes entre si - e a enorme diversidade racial e cultural desta Humanidade dispersa, revelada e aludida ao longo das viagens do protagonista, é um dos traços mais característicos deste universo e um relevante indicador da sua riqueza conceptual. 

É neste mundo de mar e de terra fragmentada que o leitor é levado para a aparentemente insignificante ilha de Gont, no nordeste de "Earthsea". Nessa ilha escarpada vive um povo pacato; e, numa vila de montanha, conhecemos Duny, um jovem rapaz solitário que desenvolveu um poder institivo sobre os animais (e da sua ligação às aves de rapina surgiu a alcunha "Sparrowhawk", pela qual sempre ficaria conhecido), e a quem uma tia ensinou alguns rudimentos de magia. Mas quando a ilha é invadida e a sua aldeia atacada, Sparrowhawk defende-a com um feitiço engenhoso - e isso chama a atenção do feiticeiro de Gont, Ogion o Silencioso, que toma o rapaz como seu aprendiz e eventualmente lhe revela o seu nome verdadeiro, na linguagem antiga da criação: Ged. É a partir daqui que começa a primeira jornada de Ged, orgulhoso, ambicioso e imprudente - a deixar Gont para ir estudar as artes arcanas na ilha de Roke, onde o Arquifeiticeiro preside aos magos e à escola de feitiçaria. Mas quando um feitiço corre mal e uma sombra irrompe do reino dos mortos, Ged dá por si a enfrentar algo para o qual não estava de todo preparado - e esse acontecimento irá marcá-lo para sempre.

Mais do que uma grande cruzada para salvar o mundo, a demanda de Ged será uma fuga aos seus próprios erros e aos seus próprios fantasmas - até ao dia em que não terá alternativa que não enfrentá-los. Não há em A Wizard of Earthsea um grande e poderoso inimigo, uma ameaça velada ou exposta cuja oposição e derrota se revela um imperativo - há, sim, uma aventura extremamente pessoal que levará Ged a explorar terras distantes, a impor-se perante os majestosos dragões, a fugir em desespero e a viajar, determinado, para lá dos limites do mundo. No decorrer deste percurso, no qual o leitor acompanha o amadurecimento do protagonista, Ged conhece o sucesso e o fracasso; a vitória e a derrota; a glória e a humilhação; e tudo isso contribui para o seu crescimento, e para o surpreendente final. 

E este amadurecimento ao longo da aventura está ligado de forma íntima ao engenhoso sistema de magia que Le Guin criou para Earthsea, baseado no nome verdadeiro das coisas (na linguagem da Criação, no idioma dos Dragões) e no poder que esse nome tem para as dominar, subjugar e moldar. A esta ideia junta-se o conceito basilar do equilíbrio e da harmonia com os elementos e com o mundo envolvente - isto num mundo onde a magia, em maior ou menor escala, faz parte da vida de praticamente todas as sociedades. Na academia de Roke os jovens feiticeiros mais talentosos são treinados nas várias disciplinas mágicas (e a autora detalha isso com algum pormenor durante a juventude de Ged), partindo depois para várias ilhas onde se tornam nos feiticeiros residentes - ou regressando a Roke para ensinar. Com a sua prosa superlativa, Le Guin explora as idiossincrasias da magia na exploração de Ged, criando uma personagem muito humana e muito terra-a-terra, num universo ficcional que de facto apetece explorar para lá das (poucas) páginas do romance. 

Por tudo isto - pela excelência da prosa e do worldbuilding, pela qualidade da construção narrativa, pelo acompanhar do crescimento de Ged e pela humanidade e simplicidade da sua história -, talvez hoje seja ainda mais relevante regressar ao universo fantástico que Ursula K. Le Guin criou em Earthsea, e recuperar, numa aventura de carácter mais intimista, um dos trabalhos maiores da fantasia literária. As sequelas (The Tombs of Atuan, The Farthest Shore, Tehanu e The Other Wind, para além de vários contos) dão uma excelente continuidade à história do protaginista, e de outras personagens com as quais se irá cruzar; mas é em A Wizard of Earthsea que a extraordinária viagem de Ged começa. Que comece também a do leitor. 

21 de outubro de 2013

Ursula K. Le Guin (1929 - )

Numa época em que os veteranos do fantástico literário desaparecem talvez seja ainda mais relevante recordar Ursula K. Le Guin, uma das mais talentosas prosadoras de fantasia e de ficção científica vivas, e ainda em actividade. Natural de Berkeley, na Califórnia, Le Guin (nascida Ursula Kroeber) esteve na turma de liceu de outro dos grandes do género: Philip K. Dick. Os seus percursos, porém, dificilmente poderiam ser mais diferentes. Leitora ávida desde criança, e apaixonada pela fantasia literária de Carrol, Kipling e outros, começou a escrever muito cedo - e foi com apenas 11 anos de idade que conheceu a sua primeira rejeição, após submissão de um conto para a Astounding Science Fiction.

O interesse nascente pela ficção científica valeu-lhe a publicação, nos anos 60, de contos em outras revistas, como na Amazing Stories. E em 1966 publicou o seu primeiro romance: Rocannon's World, a primeira história longa do "Hainish Cycle", o universo ficcional no qual iria enquadrar boa parte da sua ficção científica: Planet of Exile (1966), City of Illusion (1967), The Left Hand of Darkness (1969), The Dispossessed: An Ambiguous Utopia (1973), The Word for World is Forest (1976, a partir de uma novela premiada), Four Ways to Forgiveness (1995) e The Telling (2000). Para além de inúmeros contos, como Winter's King ou Coming of Age in Karhide, entre muitos outros compilados ao longo dos anos em várias antologias. The Left Hand of Darkness, uma reflexão fascinante sobre a identidade sexual, é considerado um dos primeiros romances feministas no género - e é um dos mais aclamados livros da história da ficção científica; e The Dispossessed é uma poderosa alegoria à guerra fria e à utopia impossível (ou ambígua) dos ideais anarquistas. Ambos venceram os prémios Hugo e Nébula, tendo Le Guin sido a primeira autora a conseguir vencer ambos os prémios com os mesmos livros duas vezes.

Influenciada pela leitura de The Lord of the Rings, aventurou-se também na fantasia; mas, ao invés de seguir as pisadas do professor britânico optou por desenvolver um universo ficcional mais inspirado nas filosofias orientais. Com The Wizard of Earthsea, em 1968, expandiu em formato longo o fascinante mundo secundário de Earthsea, inaugurado quatro antes no conto The Word of Unbinding, publicado nas páginas da Fantastic; The Tombs of Atuan (1971), The Farthest Shore (1973), Tehanu: The Last Book of Earthsea (1990), Tales From Earthsea (2001) e The Other Wind (2001), assim como alguns outros contos, exploraram novas aventuras neste universo.

Mas a sua bibliografia não se resume ao ciclo "Hainish" ou a Earthsea: entre outras obras de destaque contam-se The Lathe of Heaven (1971), por duas vezes adaptada para filme, The Beginning Place (1980), Always Coming Home (1985), Lavinia (2008) e as histórias e poemas de Orsinia. As sua ficção curta encontra-se compilada em várias antologias: a mais recente, publicada no ano passado, intitula-se The Unreal and the Real: Selected Stories, e inclui um volume dedicado apenas ao fantástico.

Ursula K. Le Guin celebra hoje o seu 84º aniversário.

12 de setembro de 2013

Cinco livros de ficção científica para quem não lê ficção científica

Há dias, o diário britânico The Guardian publicou na sua edição online um daqueles artigos recorrentes em forma de lista - no caso, de cinco livros de ficção científica "para pessoas que odeiam ficção científica". A questão parece-me a mim mal colocada: quem de facto "odiar" a ficção científica dificilmente irá apreciar qualquer coisa relacionada com o género. Mas, como é sabido, entre o amor e o ódio há um território muito vasto, e muitos serão os livros indicados para quem ainda não conhece o género, ou para quem acha que a ficção científica literária se resume a um Star Wars ou a um Star Trek em página escrita (mesmo que já tenha lido clássicos como Nineteen Eighty-Four ou Brave New World). A lista do The Guardian foi compilada por Damien Walter, e pode ser lida aqui. Abaixo, seguem as minhas cinco sugestões:

A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. (1960): Antes de Mad Max ter levado a iconografia do pós-apocalipse para o deserto australiano - e antes mesmo de o pós-apocalipse se ter tornado numa das grandes tendências contemporâneas da ficção de género, capaz mesmo de atrair autores mainstream -, já Walter M. Miller, Jr. tinha definido essa iconografia num dos grandes clássicos da ficção científica: A Canticle for Leibowitz. Num tom tão cínico como irónico, Miller descreve de forma bem humorada, mas nem por isso pouco séria, como a Humanidade está condenada a repetir os seus erros vários séculos após a guerra nuclear que causou a queda da civilização. Os monges da Abadia de Leibowitz procuram reproduzir e preservar todo o conhecimento científico a que consigam deitar a mão, independentemente do seu entendimento sobre esse conhecimento (quase sempre nulo).

Flowers for Algernon, de Daniel Keyes (1966): Se há um livro incontornável em termos de recomendações de ficção científica para quem não é leitor habitual do género, será sem dúvida este clássico de Daniel Keyes. Flowers for Algernon conta a história de Charlie, um jovem com um atraso mental severo que deseja, mais do que tudo, ficar inteligente. Para isso submete-se a uma intervenção revolucionária, testada apenas no ratinho Algernon. Mas nem tudo corre conforme esperado - à medida que a sua inteligência aumenta, a visão que Charlie tinha do mundo passa rapidamente de ingénua para cínica. É uma história tocante, narrada através das páginas dos "relatórios de progresso" escritas por Charlie durante as várias etapas do tratamento - com as suas aptidões linguísticas a acompanharem a sua evolução. E, acima de tudo, Flowers for Algernon é uma história especialmente humana - sobre os nossos receios, as nossas expectativas e a forma como nos relacionamos com os outros. Imperdível. 

The Lathe of Heaven, de Ursula K. Le Guin (1971): A lista do The Guardian destaca The Left Hand of Darkness, obra-prima de uma das maiores prosadoras da ficção científica; pessoalmente, porém, julgo que o sub-apreciado The Lathe of Heaven será porventura mais adequado como introdução ao género. George Orr vive atormentado pelos seus sonhos - alguns dos quais possuem a extraordinária capacidade de mudar o mundo. Literalmente. Para evitar ser internado por loucura aparente, Orr submete-se a sessões psiquiátricas com William Haber, cujo cepticismo inicial passa a espanto quando confirma o poder de Orr. E o espanto, como é evidente, cedo dá lugar a uma tentativa, sempre bem intencionada, de construir a Utopia... Numa história quase ao estilo de Philip K. Dick, Le Guin usa a premissa dos sonhos de Orr como alicerce de um enredo aliciante, que serve de pretexto para algumas intrigantes reflexões sobre a natureza humana e sobre o preconceito.

The Forever War, de Joe Haldeman (1974): Há quem diga que The Forever War foi a resposta de Haldeman ao militarismo de Heinlein no clássico Starship Troopers. Mas mais do que isso, The Forever War é uma história poderosa sobre a natureza (e, em última análise, a irrelevância) da guerra e sobre as alterações profundas, quando não irreversíveis, que causa em todos aqueles que a vivem no terreno - e sobre o regresso destes homens e destas mulheres a um mundo que juraram proteger, mas ao qual já não pertencem. Haldeman combateu no Vietname, e retira da sua vivência as bases deste romance; e utiliza com mestria convenções da ficção científica e um rigor científico impressionante para passar a sua mensagem com uma vivacidade e uma emergência singulares. Em termos meramente temáticos, dos cinco livros referidos talvez seja aquele que mais se aproxima da ideia generalizada da ficção científica no mainstream (guerras contra alienígenas); mas a verdade é que The Forever War é também um exemplo perfeito de como a ficção científica pode servir, sem abdicar das suas convenções, para explorar temas contemporâneos de grande pertinência.

A Scanner Darkly, de Philip K. Dick (1977): E, claro, se falamos de The Lathe of Heaven também podemos passar logo para Philip K. Dick - o autor de ficção cientifica cuja obra mais vezes foi adaptada ao cinema, e também um dos escritores do género mais apreciados fora dele. Os seus romances intricados questionam com frequência a condição humana e o que é, ou não é, a realidade - e A Scanner Darkly não é excepção. Bob Arctor vive duas vidas: numa delas, divide casa com alguns consumidores de drogas, sobretudo da perigosa Substância D; na outra, é um agente infiltrado da Brigada de Narcóticos, uma identidade que mantém em segredo tanto dos seus companheiros de casa como das próprias autoridades. Mas quando o seu consumo prolongado da droga faz com que as duas identidades se misturem, as fronteiras entre realidade e ilusão começam a esbater-se. A Scanner Darkly é também uma história auto-biográfico - mas mais do que isso, é um dos expoentes máximos do legado de Philip K. Dick, e uma introdução perfeita tanto à sua obra como à ficção científica, por demonstrar que esta pode ser tão terra-a-terra como qualquer romance dito literário. 

Fonte: The Guardian

23 de agosto de 2013

The Left Hand of Darkness, ou a definição de humanidade para lá do género

Em 1969 e 70, Ursula K. Le Guin tornou-se na primeira mulher a vencer com o mesmo livro os prémios Nébula e Hugo (respectivamente). O livro, esse, ainda hoje é considerado um clássico na ficção científica e, para muitos, um dos primeiros exemplares de um romance feminista de ficção científica: The Left Hand of Darkness. Mas mais do que feminista, The Left Hand of Darkness é uma inteligente e fascinante desconstrução da identidade sexual e da dualidade que daí decorre, enquadrada numa história mais profunda sobre o que é de facto a amizade, o amor - e, de certa forma, o que define cada indivíduo enquanto humano. 

Em termos narrativos, Le Guin enquadrou The Left Hand of Darkness no universo ficcional do "Hainish Cycle" - onde se encontram obras tão diversas como o seu primeiro romance publicado, Rocannon's World (1966), The Dispossessed (1973) ou The Word For World Is Forest (1974), para além de vários contos. O protagonista, Genly Ai, é um humano enviado pelo Ekumen - uma federação económica e cultural de várias dezenas de mundos povoados pela Humanidade - para o planeta Gethen com o propósito de convidar as nações daquele planeta a aderir ao colectivo. Nos idiomas locais, "Gethen" significa "Inverno", o que não é por acaso - todo o planeta parece mergulhado numa longa e cruel era glacial, num Inverno quase permanente que moldou os seus povos e as respectivas culturas. Mas Genly Ai deparar-se, ao chegar àquele planeta gélido, com algo ainda mais estranho: ao contrário do que acontece com os seres humanos em todos os outros planetas do Ekumen, em Gethen, a dualidade sexual entre masculino e feminino não existe por um imperativo biológico: todos os indivíduos são assexuados excepto durante um período de poucos dias, designado por kemmer, no qual por interacção hormonal adquirem um dos géneros - qualquer um. Cada indivíduo pode, assim, ser pai ou mãe, ou mesmo pai e mãe. 

O leitor acompanha a descoberta deste mundo pelos olhos do estranho Genly Ai, olhado pelos habitantes de Gethen com relativa curiosidade, quando não como aberração (de acordo com os termos locais, o emissário estaria em kemmer permanente - uma condição invulgar, mas não impossível). E é com Genly Ai que se revela perante o leitor um mundo tão estranho como fascinante, onde nunca ocorreram guerras convencionais (mas a intriga política abunda), onde o progresso tecnológico está praticamente estagnado e onde a ausência de aves poderá ser a explicação para nunca se ter desenvolvido uma máquina voadora (uma noção tão simples como extraordinária, bem reveladora da qualidade superlativa do worldbuilding de Le Guin). A estranheza e as dúvidas de Genly Ai são também as do leitor - e é fascinante como a autora não só constrói todo aquele mundo social como lhe dá vida. Sem no entanto se esquecer do enredo, da história que pretende contar - que ganha contornos particularmente fortes na interacção e no relacionamento do protagonista com Estraven, um antigo ministro de um dos reinos de Gethen, entretanto caído em desgraça. É em Estraven que Genly vai encontrar o espelho perfeito para a sua estranheza - quando as circunstâncias vão obrigar a que descubram juntos o que é a Humanidade para lá das diferenças individuais, de género ou quaisquer outras. A última parte de The Left Hand of Darkness, mais do que uma história soberba de sobrevivência, uma narrativa mais profunda sobre aquilo que nos une.

Uma história porventura tão relevante hoje como no seu tempo, num mundo complexo na sua vertente social e bastante rico em termos mitológicos - sem que a autora precise em algum momento de descrições estafadas para lhe dar vida. Também na prosa The Left Hand of Darkness brilha, ou não fosse Le Guin uma das grandes prosadoras que a ficção científica já conheceu - é fluída, rica no detalhe, eficiente na sugestão. Mais de quarenta anos volvidos sobre a sua publicação original, The Left Hand of Darkness continua a justificar em pleno o estatuto de "clássico". Se há leituras "obrigatórias" na ficção científica, esta será sem dúvida uma delas. 

11 de agosto de 2013

Citação fantástica (79)

The prisoner is the jailer's jailer.

Ursula K. Le Guin, Rocannon's World (1966)

21 de julho de 2013

Citação fantástica (76)

Freedom is a heavy load, a great and strange burden for the spirit to undertake. It is not easy. It is not a gift given, but a choice made, and the choice may be a hard one. The road goes upward towards the light; but the laden traveler may never reach the end of it.

Ursula K. Le Guin, The Tombs of Atuan (1970)

17 de julho de 2013

A quem pertencem os conceitos da ficção científica?

No blogue da 'Amazing Stories', Paul Cook levanta uma lebre interessante, ainda que de forma algo despropositada*: a da utilização não creditada do termo e do conceito de ansible (um dispositivo de comunicação instantânea através do universo), criado por Ursula K. Le Guin em 1966 no seu primeiro romance, Rocannon's World, por vários autores de ficção científica ao longo dos anos, e em particular por Orson Scott Card no premiado e aclamado Ender's Game. Para Cook, a utilização do termo por Card como plot device de toda a narrativa constituiu um "roubo" da ideia original de Le Guin. Há aqui um claro exagero da parte do blogger: a utilização do ansible é relevante para o enredo como as warp drives são fundamentais para boa parte das space operas - mas a narrativa de Ender's Game não se centra no dispositivo. Que diabo: nem a narrativa de The Dispossessed, de Le Guin, se centra no dispositivo, e foi o seu protagonista, Shevek, quem o criou..!* Mas adiante: Para dar validade à sua ideia, Cook vai buscar outros casos célebres, como o da disputa em tribunal entre Harlan Ellison e James Cameron pela premisa básica de Terminator, entre muitos outros. 

Isto lembra-me uma outra história recente: a da tentativa de apropriação pela Games Workshop (criadora dos jogos Warhammer e Warhammer 40K, e de toda a literatura derivada) do termo space marine, cunhado pela primeira vez por Bob Olsen no conto Captain Brink of the Space Marines (publicado, ironicamente, na 'Amazing Stories') e celebrizado por muita da ficção científica militar que se seguiu, em especial pelo clássico Starship Troopers, de Robert A. Heinlein. É certo que space marine é um termo bem mais genérico que ansible, mas ainda assim a questão revela-se pertinente: a partir de que ponto é que uma ideia ou um conceito na ficção científica (ou na fantasia, se quisermos) deixa de ser propriedade individual de um autor e passa a ser, digamos, uma trope do género, passível de ser utilizada por qualquer autor? 

Talvez mais do que qualquer outro género literário, a ficção científica e a fantasia possuem um vasto conjunto de conceitos e de ideias criados ao longo dos anos e utilizados por vários autores aparentemente sem qualquer ligação. A expressão ansible foi utilizada com um significado idêntico por muitos autores de ficção científica para além de Le Guin (a criadora) ou Card (o ladrão, segundo Cook): uma visita rápida à Wikipedia leva-nos a Vernor Vinge, Dan Simmons, Elizabeth Moon, Jason Jones e L. A. Graf. Tal como o conceito foi utilizado por outros autores com outros nomes (o lodestone resonator de Philip Pullman na trilogia His Dark Materials será talvez um dos mais interessantes). O mesmo se poderia dizer das warp drives de Star Trek, tornadas universais na ficção científica espacial - recordando duas leituras recentes, não me parece que Gene Roddenberry tenha ido atrás de M. John Harrison ou Iain M. Banks com um batalhão de advogados por utilizarem o conceito nas suas obras. 

Sendo fã de ficção científica e um escritor em ascensão nos anos 70 e 80, Orson Scott Card utilizou um conceito aproveitado por muitos autores antes de si com a designação criada por Ursula K. Le Guin para dar nome a um dispositivo utilizado no seu primeiro livro - que veio, como se sabe, a alcançar um tremendo sucesso. Talvez Card devesse ter feito uma breve nota sobre a origem do termo - só lhe teria ficado bem, assumidamente -, ainda que a forma como o introduz na narrativa** constitua sem dúvida um piscar de olho ao grande universo partilhado da ficção científica. Não foi o único a fazê-lo (o que em circunstância alguma será desculpa), como muitos foram (e serão) os autores a escrever sobre space marines, a utilizar naves com warp drives e a aproveitar muitos outros conceitos criados, desenvolvidos e subvertidos pelos autores que os antecederam. Estaremos perante casos de roubo de propriedade intelectual? Terá sido apenas um tributo? Mera conveniência desprovida de má intenção? É difícil dizer, mas o caso está longe de ser singular.

* E o tom está longe de ser o único problema do artigo; todo ele parece ser sobre algo mais do que uma mera questão de apropriação intelectual: basta lermos os comentários de Cook tanto no seu próprio artigo, como neste ou neste: o autor não se inibe de dizer que quem defende Card - ou que quem não partilha a sua visão - só pode ser fã de Card, uma batota argumentativa tristemente comum na Internet contemporânea, e mais ainda quando é utilizada por alguém que se afirma escritor), mas ignoremos esse ponto. 

** Em Ender's Game: "What matters is we built the ansible. The official name is Philotic Parallax Instantaneous Communicator, but somebody dredged the name ansible out of an old book somewhere and it caught on"


23 de junho de 2013

Citação fantástica (72)

You cannot buy the revolution. You cannot make the revolution. You can only be the revolution. It is in your spirit, or it is nowhere.

Ursula K. Le Guin, The Dispossessed (1974)

5 de maio de 2013

Citação fantástica (65)

In so far as one denies what is, one is possessed by what is not, the compulsions, the fantasies, the terrors that flock to fill the void.

Ursula K. Le Guin, The Lathe of Heaven (1971)