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25 de abril de 2014

Hugo Awards 2014: Contos nomeados de Sofia Samatar, Rachel Swirsky, John Chu e Thomas Olde Heuvelt

Longe das dúvidas que se instalaram a propósito de outras nomeações noutras categorias, os quatro contos seleccionados para a shortlist de "Best Short Story" na edição de 2014 dos Prémios Hugo destacam-se pela sua qualidade global, muito acima da média, e pela diversidade nas origens dos seus autores. Lendo-os no seu conjunto, será talvez difícil não reparar na predominância de temas , passe a expressão, românticos - não há aqui uma exploração mais tradicional das convenções da fantasia ou da ficção científica, sendo estas relegadas para segundo plano perante a beleza das metáforas e o destaque dado às personagens, às suas personalidades, aos seus dramas e aos seus relacionamentos - com aqueles que amam, com as famílias, e até com estranhos. E, diga-se de passagem, não há mal nenhum nisso - sobretudo quando estes quatro talentosos autores apresentam contos deste calibre. Aqui ficam hoje em destaque: 

Selkie Stories Are for Losers, de Sofia Samatar, foi publicado na Strange Horizons a 7 de Janeiro de 2013. Samatar utiliza a selkie (uma criatura do folclore irlandês e escocês que assume a forma de uma foca na água, o seu elemento natural, e que despe a pele para vir a terra - podendo ser capturada se a pele for recolhida por alguém) para reflectir sobre os laços familiares, sobre o compromisso e sobre as oportunidades - as que se perdem por falta de atrevimento, e as que se aproveitam quando surge a única chance para tal. E fá-lo através de um curioso enquadramento narrativo, explorando a história da jovem protagonista e da sua colega de trabalho/amiga/amante (Mona) enquanto reflecte sobre o seu passado, sobre o significado das fábulas de selkies - e sobre a ligação que o seu passado tem com estas histórias. Sofia Samatar tece a história com uma prosa superlativa, cuja simplicidade e verosimilhança esconde uma sofisticação assinalável, e que dá a cada momento uma carga emotiva extraordinária na conjugação. A todos os níveis, Selkie Stories Are for Losers é um conto extraordinário - não surpreende que esteja nomeado para os prémios Hugo e Nébula, e que tenha chegado à shortlist dos British Science Fiction Awards.

If You Were a Dinosaur, My Love é um conto de Rachel Swirsky que, por detrás da sua premissa aparentemente infantil (e explicada de forma perfeita no título) e por detrás da sua construção ao estilo de algumas histórias infantis que encandeiam ao longo da sua estrutura narrativa várias ideias numa série de extrapolações imaginativas, por vezes oníricas, quase no ritmo vertiginoso da livre-associação, esconde uma história de amor tão bela como trágica (Sim: a categoria de ficção curta dos Hugos - e já agora dos Nébulas - parece tomada por micro-romances. E isso é óptimo). Com uma prosa magnífica, Rachel Swirsky tece um jogo de palavras e de imagens fascinante, misturando noções de fantasia e de ficção científica numa narrativa que escapa às convenções de ambos os géneros - e com o mesmo ritmo perfeito e a mesma inocência encantadora com que transporta o leitor ao sabor dos saltos da sua imaginação, desfere um golpe duríssimo ao revelar a faceta trágica do enredo, e o escape que a livre-associação proporcionou. If You Were a Dinosaur, My Love foi publicado na Apex Magazine a 5 de Março de 2013.

The Water That Falls on You From Nowhere, de John Chu, assume a forma de uma comédia e de um drama de costumes a partir de uma premissa espantosa: a de que a mentira atrai chuva, e sempre que alguém mente, abate-se sobre si uma carga de água, com a gravidade da mentira a definir o volume do aguaceiro. Dito assim, a ideia parece engraçada - e é-o de facto. Também por isso impressiona a forma como John Chu a consegue revestir de uma carga dramática espantosa ao enquadrá-la na história de Matt, um jovem de ascendência chinesa com uma família muito conservadora, a tentar explicar aos seus pais e à sua irmã tradicionalistas que é homossexual. Chu constrói em poucas palavras uma história familiar verosímil, e com um ritmo perfeito desenvolve um drama bem temperado com momentos de comédia linguística - e recria com mestria o caos comunicativo de uma família composta por pessoas com diferentes idiomas nativos através da simples utilização de expressões e frases em chinês (literalmente). The Water Falls on You From Nowhere foi publicado no Tor.com a 20 de Fevereiro de 2013.

The Ink Readers of Doi Saket é um conto humorístico de Thomas Olde Heuvelt, publicado a 24 de Abril de 2013 no Tor.com. À primeira vista, será talvez difícil ler este conto sem pensar no mestre definitivo do humor no fantástico literário: Terry Pratchett. Nem as notas de rodapé faltam (com a sétima a revelar-se especialmente inspirada) nesta breve narrativa, situada na aldeia remota de Doi Saket, nas margens do rio Mae Ping, na Tailândia. Para além dos seus afazeres diários, os habitantes da aldeia dedica-se com zelo à tarefa de realizar os desejos que são deixados no rio - mas a trama começa, não sem ironia, com Tangmoo, um rapaz cuja singularidade reside no facto de ser incapaz de desejar o que quer que seja. Thomas Olde Heuvelt desenvolve com um humor delicioso as desventuras das várias figuras da aldeia, sobretudo durante as festividades anuais - mas utiliza todo este riquíssimo panorama apenas para enquadrar o acontecimento central que dá o mote à narrativa, numa exploração tão fascinante como hilariante de temas como a coincidência, as relações determinísticas por vezes invisíveis na aparência que se desenvolvem entre as mais improváveis das situações, e sobre a ordem invulgar que consegue emergir do caos. A prosa, essa, está à altura das aspirações cómicas do texto: fluída, sofisticada e capaz de conjurar imagens surpreendentes. 

24 de abril de 2014

Sofia Samatar: "(...) I do think there’s a connection between my love for languages and my love for speculative fiction" (entrevista)

Na lista dos Hugo Awards deste ano, e independentemente de outras polémicas, há vários nomes que merecem destaque - sobretudo nas categorias de fãs, com vários nomes novos e com uma presença de qualidade nos meandros do fandom anglo-saxónico (está ainda por vir o dia em que os Hugo e a Worldcon sejam de facto prémios globais, mas o caminho faz-se caminhando), mas também nas categorias literárias. E nestas, o nome de Sofia Samatar surge em evidência, pela sua nomeação na categoria de "Best Short Story" com o conto Selkie Stories Are for Losers, publicado originalmente na Strange Horizons em Abril de 2013 (pode - e deve - ser lido aqui; é extraordinário) e também pela sua presença na shortlist do John W. Campbell Award for Best New Writer. Natural dos Estados Unidos e com ascendência somali, Sofia Samatar já viveu e trabalhou no Sudão e no Egipto, e tem formação académica em idiomas e literaturas africanas e árabes. Em entrevista a Sarah McCarry para o Tor.com, Sofia Samatar fala sobre o processo de escrita do seu primeiro romance, A Stranger in Olondria (publicado em 2012), e sobre a influência do conhecimento e do estudo de linguagens na sua escrita e no seu gosto pela ficção especulativa. Dois excertos:
Sarah McCarry/Tor.com: Language itself is a character in A Stranger in Olondria, particularly in the different ways its characters relate to oral versus written histories, and the way the act of reading figures so prominently into the book. Did you set out to explore the ways oral and written traditions inform our ways of being in the world, or is that something that evolved as you worked on the book?
Sofia Samatar: It’s definitely something that evolved, as the whole book evolved! One thing about A Stranger in Olondria is that I spent over a decade writing it. I mean, I wrote the first draft in two years, but then I spent another 10 years on and off getting it into shape. That first draft was a monster. It was 220K words long—almost exactly twice as long as the published version. And that’s because my “writing process,” which I totally don’t recommend, involved having no outline, following the character around through tons of random cities, getting him into vague predicaments, getting him out again, introducing him to useless people, and deleting and deleting and deleting. I knew that there was a ghost, and that ghosts were illegal in Olondria, but that’s it. And through this arduous process of wandering through imagined country, I slowly brought in things I was experiencing at the time, and one of those was teaching English in South Sudan, where the mode of expression was primarily oral. I had a lot of ambivalence about that job, and the anxiety worked itself into the book. I wound up exploring how reading and writing, my favorite things in the world, things I’m used to thinking of as utterly good and right and true, are also tools of empire.
(...)
SMC/TOR: You speak multiple languages yourself—do you think your ability to move between them informs the way you approach fiction? Or nonfiction? Or are those different places for you?
SS: Well, I don’t know if this is going to answer your question exactly, but it reminds me of a conversation I had with a colleague recently. He’d read A Stranger in Olondria, and he said that, as someone who doesn’t read fantasy or science fiction, he was pretty uncomfortable for the first few chapters. It was the names. The names were throwing him off. He was like, “I didn’t know whether I was supposed to memorize these names or whether they were important or what!” Eventually he realized that he could just go with the story and relax, and then he started enjoying it. That was so interesting to me, because I’ve never, ever been thrown off by weird names. You can give me the first page of a story that’s 50% bizarre names, and I’ll be like, “Cool.” I just read it as music, as atmosphere. I know that eventually the important stuff will float to the surface, and the less important stuff will sink. And it seems to me that that’s a valuable skill, to be able to keep your balance in uncertainty, and that in fact it’s what I ask from my students when I teach world literature. Don’t let foreign words or unfamiliar syntax throw you. Trust the story. It’s a language student’s skill too, because when you’re learning, you’re often terribly lost. So I do think there’s a connection between my love for languages and my love for speculative fiction. Both of them ask you to dwell in uncertainty. And I love that. Uncertainty is home for me. It’s the definitions that scare me.
(...)
A entrevista completa pode ser lida na íntegra no Tor.com.

Fonte: Tor.com