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10 de julho de 2014

Guillermo Del Toro: "It was hard to create a world that did not come from a comic book, that had its own mythology, so we had to sacrifice many aspects to be able to cram everything in the first movie" (entrevista)

Entre a série televisiva The Strain, com estreia marcada nos Estados Unidos para o próximo fim-de-semana, e pós-produção do seu próximo filme, Crimson Peak (com estreia prevista para o Outono do próximo ano), Guillermo Del Toro não terá decerto mãos a medir com todos os projectos em que está envolvido - e a confirmação da continuidade de Pacific Rim em filme, série de animação e banda desenhada decerto irão mantê-lo bem ocupado ao longo dos próximos anos. Em entrevista a Michael Calia para o blogue Speakeasy (do The Wall Street Journal), Del Toro fala dos seus vários projectos, reabrindo a porta para a sua adaptação cinematográfica de At the Mountains of Madness, de Lovecraft (ainda que em PG-13) e explicando o rumo a seguir com o universo ficcional de Pacific Rim. Três excertos:
Michael Calia/Speakeasy: With this support from Legendary, do you have any hope that your adaptation of H.P. Lovecraft’s “At the Mountains of Madness” will be made? 
Guillermo Del Toro: That’s exactly what I discussed with them. I said to them, that’s the movie that I would really love to do one day, and it’s still expensive, it’s still … I think that now, with the way I’ve seen PG-13 become more and more flexible, I think I could do it PG-13 now, so I’m going to explore it with [Legendary], to be as horrifying as I can, but to not be quite as graphic. There’s basically one or two scenes in the book that people don’t remember that are pretty graphic. Namely, for example, the human autopsy that the aliens do, which is a very shocking moment. But I think I can find ways of doing it. We’ll see. It’s certainly a possibility in the future. Legendary was very close to doing it at one point, so I know they love the screenplay. So, we’ll see. Hopefully it’ll happen. It’s certainly one of the movies I would love to do. 
MC/SE: If it doesn’t work out, what are the chances we see (Lovecraft’s) Cthulhu appear as a kaiju in a “Pacific Rim” movie? 
GDT: (laughs) Not really. I think there’s a really strong possibility we can do it (“At the Mountains of Madness”) at Legendary because now they are at Universal, and Universal, you may remember, almost greenlit the movie. The fact that we now have two studios together that love the material, and if they support each other, they are risking a lot less. It would be great to do it, but I’ve understood that you don’t plan your career, it just happens. 
MC/SE: Without spoiling anything, what can fans expect from “Pacific Rim 2″? 
GDT: We are three years away, so to spoil anything would be fantastically silly of me. What I can tell you: [screenwriter Zak Penn] and I really went in, we started with [screenwriter Travis Beacham] about a year and a half ago, kicking ideas back and forth. And, admittedly, I said to Zak, let’s keep kicking ideas till we find one that really, really turns the first movie on its ear, so to speak. (…) It was hard to create a world that did not come from a comic book, that had its own mythology, so we had to sacrifice many aspects to be able to cram everything in the first movie. Namely, for example “the Drift” (editor’s note: the neural link between pilots of the giant robots, or jaegers), which was an interesting concept. [Then there was] this portal that ripped a hole into the fabric of our universe, what were the tools they were using? And we came up with a really, really interesting idea. I don’t want to spoil it, but I think at the end of the second movie, people will find out that the two movies stand on their own. They’re very different from each other, although hopefully bringing the same joyful giant spectacle. But the tenor of the two movies will be quite different.
A entrevista completa pode ser lida na íntegra no Speakeasy.

Fonte: Speakeasy

28 de junho de 2014

Guillermo del Toro confirma continuidade de Pacific Rim



O anúncio foi feito ontem pelo próprio Guillermo del Toro - Pacific Rim irá ter uma sequela em filme com estreia prevista para 2017. E mais do que isso: a banda desenhada Tales From Year Zero, do argumentista Travis Beecham, também irá ser continuada, e será produzida ainda uma série animada neste universo ficcional. O que parece indicar que os resultados da bilheteira internacional (leia-se: não norte-americana) foram suficientes para convencer os responsáveis da Legendary Pictures a dar continuidade ao projecto de del Toro.

Recebo a notícia com um misto curioso de satisfação e frustração. Por um lado, Pacific Rim - com todas as suas falhas e limitações - foi, de longe, o filme que mais gostei de ver em cinema nos últimos anos: duas horas de diversão pura, com uma história positiva como poucas na ficção científica contemporânea. Mais do que isso, por entre a espectacularidade das batalhas entre Jaegers e Kaiju, Pacific Rim deixa antever uma sociedade profundamente alterada após anos de invasões sucessivas, num mundo apocalíptico que se percebe ser rico, detalhado e muito interessante - e é excelente que del Toro, Beecham e Zak Penn tenham uma oportunidade de o aprofundar. Por outro lado, não deixa de ser mais uma sequela num mercado saturadíssimo de continuações e derivações - e por mais interessante que Pacific Rim 2 se venha a revelar, nem por isso deixa de ser um tanto ou quanto desnecessário, dada a forma como o filme original consegue contar a sua história sem deixar pontas soltas ou mesmo um fio condutor evidente para alimentar eventuais continuações. Dito de outra forma: Pacific Rim dispensava tornar-se numa franchise. Sobretudo quando permanece em águas de bacalhau (ou, para usar o termo de Hollywood, em development hell) o terceiro e último capítulo da (excelente) trilogia Hellboy, previsto no argumento dos dois filmes anteriores mas nunca produzido. 

Mas, por mais que tenha gostado do filme original, preferia ver novos projectos, originais ou adaptados, de de Toro. Enfim, retire-se a boa notícia do caso: mais kaiju serão sempre bem-vindos. 

Fonte: io9 / The Verge

27 de janeiro de 2014

This happening world (2)

Adaptação live action de Ghost in the Shell deverá avançar com Rupert Sanders ao leme (realizador de Snow White and the Huntsman). Depois dos remakes e dos reboots, eis a próxima tendência de Hollywood - recontar com actores reais clássicos da animação japonesa. Poderia haver algum interesse numa readaptação da (excepcional) banda desenhada de Masamune Shirow, sobretudo em termos estéticos - o filme de Mamoru Oshii, afinal, aproximou-se mais de um visual inspirado em Blade Runner e por isso mais próximo das convenções estéticas do cyberpunk. Mas a verdade é que o filme de Oshii, estreado em 1995, continua a ser uma das melhores obras da ficção científica cinematográfica das últimas três décadas, e talvez a melhor entrada que o cyberpunk conheceu no cinema. Personagens como Motoko Kusanagi, Batou, Togusa e Aramaki já se tornaram tremendamente familiares - pelas bandas desenhadas, pelos filmes, pela superlativa série televisiva Stand Alone Complex; será difícil a algum actor ou actriz, por bons que sejam, encarnar tais personagens com um módico de credibilidade. Que tal projecto seja entregue a um realizador inexperiente só consegue sublinhar o carácter desnecessário da empreitada. (via io9)

Neill Blomkamp poderá estar de regresso ao universo de Halo para realizar o episódio piloto da série televisiva. Fã da franchise de first-person shooters da Microsoft, Blomkamp realizou várias curtas promocionais para Halo 3 em 2007 - antes de se distinguir com a excelente longa-metragem em estilo de documentário que se tornaria numa das melhores entradas da ficção científica cinematográfica da última década: District 9. Blomkamp também já esteve à frente do projecto, entretanto descartado, de levar Halo para o cinema; a oportunidade de regressar para a série televisiva é sem dúvida interessante, mesmo estando limitada, até ver, à Xbox One. (via Polygon)

A adaptação para série televisiva da trilogia The Strain, escrita por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, já tem um primeiro teaser (ver abaixo). A série será produzida pelo canal FX e recupera o tema dos vampiros, tão maltratado na literatura e no cinema ao longo dos últimos anos. (via io9)



O número cinco da International Speculative Fiction já se encontra disponível para download gratuito. Este número conta com ficção de Manuel Alves (Portugal), Thomas Olde Heuvelt (Holanda) e Francesco Verso (Itália), para além de artigos, notícias, críticas e entrevistas. (via Amazing Stories)

14 de janeiro de 2014

El laberinto del fauno: Contos de fadas em tempo de guerra

É algo recorrente na fantasia observarmos a construção de mundos secundários que convivem com o nosso mundo - ou com um mundo verosímil e que poderíamos identificar como o nosso -, ocultos pelas sombras, à espera que o ou a protagonista descubra uma forma de nele entrar. Da toca do coelho em que Alice cai no clássico de Lewis Carrol à descoberta da Narnia de C. S. Lewis, dos universos paralelos de Philip Pullman ao mundo de magia que J. K. Rowling descreveu numa fronteira da nossa realidade que apenas alguns podem ver; muitos poderiam ser os exemplos deste tipo de universos ficcionais. Guillermo Del Toro optou por uma abordagem similar na construção do mundo ficcional de El laberinto del fauno, filme de 2006 que contrapõe a dura realidade do pós-Guerra Civil espanhola a um mundo, ou a um submundo, de fadas que existe no limiar da percepção e da imaginação: um mundo sombrio, tão maravilhoso como perigoso, onde habitam fadas de aspecto rústico, faunos telúricos, plantas mágicas e monstros inomináveis. É nessa mistura de fronteiras incertas entre o real e o fantástico que Del Toro, na qualidade de realizador e argumentista, coloca um conto de fadas tão escapista como tenebroso em marcha.

E o filme abre justamente com esse conto de fadas: com a história de Moanna, princesa do submundo, curiosa sobre o mundo onde vivem os humanos. A curiosidade leva-a a subir à superfície - mas a luz do Sol cega-a e apaga a sua memória, obrigado-a a uma vida mortal entre os homens. O seu pai, rei do submundo, acredita porém que o seu espírito encontrará o caminho de regresso para o seu mundo; e é com esta ideia que a narrativa passa da animação do mundo de fadas para uma Espanha rural em 1944. Numa coluna de carros protegida por militares segue Ofélia (Ivana Baquero num desempenho de antologia) e a sua mãe, Carmen (Ariadna Gil), grávida do seu novo marido, o Capitão Vidal (Sergi López), que as aguarda na guarnição falangista montada junto a um velho moinho para erradicar a guerrilha rebelde que continua a desafiar a autoridade de Franco.


Fascinada por contos de fadas, Ofélia encontra na estrada um estranho insecto que imagina ser uma fada - e que a segue, para diante dos seus olhos se transformar de facto numa fada, e para a conduzir pelo labirinto antigo que se encontra nas imediações do moinho. Ao centro, numa espécie de poço iniciático com um estranho altar, a jovem rapariga encontra um fauno (Doug Jones), uma criatura fantástica que lhe diz ser ali o último portal para o submundo - e ser ela, Ofélia, a Princesa Moanna daquela história. Mas para regressar ao seu reino perdido, terá de passar três perigosas provas.


É a partir daqui que a fronteira entre ambos os mundos se começa a esbater para Ofélia, que descobre todo um mundo encantado e tenebroso logo ali em seu redor, visível apenas aos seus olhos - com sapos gigantes e um mostro de pesadelo a existir paredes meias com a debilidade física da sua mãe, consumida por uma gravidez de risco, e com a crueldade do seu padrasto, o Capitão Vidal, impiedoso na sua perseguição aos rebeldes e a todos aqueles que os possam de alguma forma ajudar, por acção ou omissão.


De facto, a força narrativa de El laberinto del fauno reside na forma magnífica como Del Toro consegue criar um conto de fadas credível e gritty e enquadrá-lo com uma história de guerra realista e sangrenta - ou será a guerra real que estará enquadrada no conto de fadas de que Ofélia parece fazer parte? O filme mostra uma realidade do pós-Guerra Civil muito credível, com racionamento para evitar que a população fornecesse víveres ao movimento rebelde, propaganda franquista, uma guerrilha sangrenta - e um Capitão Vidal desumano, obcecado com o seu pai (a história do relógio é um detalhe excepcional) e com o seu filho por nascer, capaz de levar a cabo as mais horríveis formas de tortura para obter as informações que deseja.


No elenco, Ivana Baquero e Sergi López destacam-se com duas interpretações merecedoras de um longo aplauso; mas o resto do elenco também se revela bastante sólido. Maribel Verdú encarna na perfeição Mercedes, a jovem e desencantada criada de Vidal que simpatiza com a causa rebelde e se afeiçoa àquela criança inocente que acredita em contos de fadas e em criaturas fantásticas. Álex Angulo é o médico da guarnição cuja profunda humanidade contrasta de forma gritante com a crueldade de Vidal - e a sua indecisão é representada de forma muito competente. E Doug Jones, eterno companheiro de Del Toro nestas andanças, regressa uma vez mais para interpretar o fauno e o temível Pale Man.


Será talvez difícil pensar numa criatura mais aterrorizante do que o Pale Man no cinema fantástico da última década - memorável naquela que é uma das melhores e mais tensas cenas de todo o filme, no vasto banquete subterrâneo. Seria talvez fácil construir o monstro em computador; Del Toro, porém, optou pelas técnicas mais convencionais da caracterização física, proteses e maquilhagem, tanto para o Pale Man como para o Fauno - e isso salta à vista no filme, com ambas as criaturas a serem muito mais credíveis (e por que não dizê-lo, incomparavelmente mais arrepiantes). Utilizando uma combinação inteligente de efeitos práticos, imagens digitais e uma fotografia exemplar, El laberinto del fauno apresenta uma componente visual excepcional, capaz de capturar na perfeição a atmosfera sombria tanto do mundo real como do mundo secundário - e sem em momento algum confundir as duas. Os Óscares para Cinematografia, Direcção Artística e Maquilhagem não foram conquistados sem justiça.


Resta falar na música, também ela magnífica (e também ela nomeada para os prémios da Academia), criada pelo compositor espanhol Javier Navarrete a partir de uma canção de embalar que pauta o filme e lhe confere uma atmosfera perfeita, mágica e ao mesmo tempo triste.


Em El laberinto del fauno, Guillermo Del Toro tem a sua obra-prima: um filme tão belo como trágico, um conto de fadas que transporta o espectador para um contexto histórico muito concreto e lhe apresenta um mundo secundário que, sendo algo convencional na sua construção narrativa (a inspiração nos contos de fadas é evidente e assumida), se revela absolutamente mágico na sua concepção visual. Os efeitos especiais e práticos, de uma execução a todos os níveis exímia, dão às criaturas uma verosimilhança ímpar e cada vez mais rara nesta época em que as CGI se tornam dominantes; e os desempenhos superlativos de Ivana Baquero e Sergi Lopes elevam a premissa. Numa década em que a fantasia cinematográfica parecia dominada por The Lord of the Rings e Harry Potter, é bem possível que Del Toro tenha realizado a melhor entrada no género, com um filme emotivo e inesquecível. 9.6/10

El laberinto del fauno (2006)
Realização e argumento de Guillermo Del Toro
Com Ivana Baquero, Sergi López, Maribel Verdú, Doug Jones, Ariadna Gil, Álex Angulo, César Vea e Roger Casamajor
118 minutos

10 de outubro de 2013

Os bloppers de Pacific Rim

Pacific Rim foi, sem qualquer dúvida, o grande filme do último Verão - com Guillermo Del Toro a homenagear os géneros mecha e kaiju japoneses com um filme notável numa escala assombrosa. E agora foi disponibilizado, possivelmente como prelúdio para a edição DVD e Blu-Ray, um pequeno vídeo dos bloppers da rodagem do filme - com Ron Perlman a destacar-se em alguns momentos muito inspirados.


Fonte: Tor.com

4 de outubro de 2013

Guillermo Del Toro realiza genérico para episódio de Halloween de The Simpsons

E o resultado, como se pode ver abaixo, é absolutamente genial - com mais referências ao Horror enquanto género ficcional do que seria expectável em pouco menos de três minutos. Sem esquecer, claro, os seus próprios filmes: Hellboy 2: The Golden Army, Blade 2, El laberinto del fauno e Pacific Rim são também parodiados neste extraordinário genérico. E não só recorda os mestres Ray Bradbury e Richard Matheson, falecidos nos últimos dois anos, como também dá uma irónica achega à discussão (estranhamente reacendida nas últimas semanas) sobre Stephen King e a adaptação de Stanley Kubrick a The Shining. Mas vejam, vejam. 



23 de julho de 2013

Pacific Rim, ou o encantamento (e o coração) do cinema-espectáculo

Quis a sorte que o primeiro filme que vi em cinema - improvisado, é certo, mas ainda assim cinema - tenha sido Jurassic Park, de Steven Spielberg. Na aldeia alentejana onde cresci, cinema era coisa inexistente, algo que acontecia nas cidades onde só se ia uma vez por acaso a cada dois meses, e nunca com tempo para aproveitar tais coisas. Em 1993, porém, isso mudou - e poucos meses após a estreia, o cinema regressou à aldeia por mão de um projeccionista ambulante da terra que conseguiu lá levar um dos maiores blockbusters daquela década pouco tempo depois da sua estreia. Para um miúdo de gostos geek e completamente apaixonado por tudo o que estivesse relacionado com dinossauros (sabia tudo o que era possível um miúdo de oito anos saber sobre Tyranossaurus Rex, Brachiosaurus ou Velociraptors), aquela estreia foi um Natal antecipado; e foi com um entusiasmo desmedido que fui assistir ao filme, exibido na Casa do Povo da aldeia. De 93 a esta parte vi dezenas de filmes em dezenas de salas de cinema - e, na sua maioria, foram filmes bons ou muito bons; nenhum, porém, conseguiu deixar aquela sensação de encantamento puro, de estar a assistir a algo fascinante, com criaturas maravilhosas numa escala desmesurada, larger than life. Foram precisos 20 anos para recuperar essa sensação - e, desta vez, pela mão de Guillermo Del Toro com Pacific Rim.

Para quem gosta do género, ou para quem tenha alguns filmes e algumas séries de monstros ou robots gigantes como referências da infância, será porventura difícil assistir a Pacific Rim sem um sorriso. De facto, a primeira coisa que salta à vista no blockbuster de Guillermo Del Toro é a sua escala tremenda, incomparável a qualquer outro filme do seu género (ou de outro género). Os mostros de Del Toro, os Kaiju, são a perfeita definição de gigante numa tela - e os robots, os Jaegers, não lhes ficam atrás. 


Mas o tamanho não é tudo: os monstros parecem mesmo monstros e os robots parecem mesmo robots, ganhando vida através de uma componente visual cuidada e de efeitos especiais deslumbrantes, capazes de os recriar com a imponência e a força que parecem ter quando se entregam a combates violentos, atmosféricos como nenhuns outros (o ambiente chuvoso serve um propósito essencialmente prático, bem sei, mas funciona também no plano emocional), com uma energia contagiante. A promessa do realizador, o único compromisso que fez para o filme, foi cumprido na íntegra: giant fucking monsters against giant fucking robots.


É na diversidade de monstros e robots que começamos a ver como Del Toro e o argumentista Travis Beacham conceberam não só o seu espectáculo de acção mas como todo um mundo interessante em redor da premissa básica do filme. Qual desastre natural, os Kaiju são agrupados em cinco categorias de acordo com as suas dimensões e capacidades, e ainda que haja em cada monstro uma certa evidência de origem comum, são individualizados na sua forma e na sua habilidade (Leatherback e Otachi são disso excelentes exemplos) - e nota-se nas formas a estética inconfundível de Del Toro, presente em filmes como Hellboy ou El Laberinto Del Fauno. Mas também os Jaegers são diversos, com o americano Gipsy Danger a ser bastante diferente do russo Cherno Alpha ou do chinês Crimson Typhoon.


A acção é, como não podia deixar de ser, o prato principal de Pacific Rim, e Del Toro serve-a em doses generosas. Mas não se fica por aí, e constrói à volta da ideia central de monstros versus robots todo um universo ficcional interessante que empresta verosimilhança à premissa. O filme abre com um prólogo fascinante, que começa quase em estilo de documentário: em Agosto de 2013, abriu-se um portal interdimensional no fundo do Oceano Pacífico e de lá emergiu o primeiro Kaiju - um monstro de Classe 1 que arrasou São Francisco e obrigou as autoridades a medidas extremas para o travar. Como resposta a ataques cada vez mais frequentes de monstros cada vez maiores e mais difíceis de abater com recurso a métodos convencionais, foi criado o programa Jaeger - sob o qual se construíram robots gigantescos, à escala dos monstros, para os combater.


Para cada Jaeger, dois pilotos (pelo menos) - unidos por uma ligação cerebral e empática designada por "Drift", sob a qual partilham todas as suas memórias e todo o seu conhecimento, coordenando os movimentos como se fossem uma única entidade. Os irmãos Raleigh e Yancy Beckett (Charlie Hunnam e Diego Klattenhoff) são os pilotos do Gipsy Danger, um Jaeger norte-americano (cuja voz da interface é dada por Ellen McLain e é idêntica à de GlaDOS, a inteligência artificial de Portal) enviado para o Alasca com a missão de parar Knifehead, um Kaiju de nível 3. É a partir desta missão, do seu resultado e das suas consequências, que o enredo de Pacific Rim arranca. Seis anos volvidos, o programa Jaeger está ameaçado e os Kaiju estão cada vez mais poderosos; e Stacker Pentecost (Idris Elba) volta a recrutar Raleigh para tentar o impossível.


A Raleigh junta-se Mako Mori (Rinko Kikuchi), uma aspirante a piloto com um passado um tanto ou quanto obscuro - revelado naquela que será talvez a mais memorável cena de todo o filme. Pacific Rim aposta muito nas várias vertentes da ligação entre dois pilotos de um Jaeger - como se vê também nas equipas da Austrália, da Rússia e da China -, mas é em todo o mundo que está à sua volta que reside a riqueza do universo de Del Toro. Um mundo sitiado, devastado por uma guerra longa que consumiu - consome - demasiados recursos, onde os cientistas Newt e Gottlieb (Charlie Day e Burn Gorman) testam hipóteses arrojadas em modo comic relief (funciona surpreendentemente bem) e onde um gangster como Hannibal Chau (Ron Perlman a roubar todas as cenas) estabelece uma vasta rede de negócio com base em partes de Kaiju abatidos. Tudo isto é mostrado com detalhe - vemos uma Hong-Kong efervescente, onde os artefactos dos monstros invasores convivem com luzes de néon e mercados tradicionais.


Não há nada de pós-moderno no argumento de Pacific Rim - nada de grandes conflitos ou da ambiguidade soturna e frequentemente melancólica que parece ter tomado conta das narrativas de acção contemporâneas (como atestam algumas das últimas entradas cinematográficas de super-heróis). A história traçada por Del Toro e Beacham é simples, linear e muito clássica - sem reviravoltas inesperadas, sem twists convolutos, sem qualquer reflexão ou moralidade nas entrelinhas. Não há sequer espaço para algum subtexto e para algumas questões mais incómodas como - e para não sair do género - em Neon Genesis Evangelion; é, sim, a história pela história, o espectáculo pelo espectáculo. E isso, nos dias que correm, é quase uma lufada de ar fresco.


Há em Pacific Rim um optimismo esperançoso, um certo heroísmo mais convencional, uma energia muito própria e uma certa ideia de humanidade reminescentes de alguma ficção científica e das muitas inspirações de Del Toro. Certo: analisado de forma estritamente racional, Pacific Rim será talvez um filme demasiado frágil - as personagens são interessantes mas não são excepcionalmente densas, o diálogo não escapa a alguns clichés do género (se bem que o discurso motivacional de Pentecost seja dos melhores que já se viu), e a premissa, tal como nos clássicos de monstros e nas séries animadas japonesas (mesmo nas mais complexas), pede-nos que a aceitemos nos seus próprios termos. Algo que não será (ou não devia ser) estranho aos fãs de ficção científica.


Se não o fizermos, então o blockbuster de Del Toro decerto parecerá pouco apelativo. Mas se o fizermos - se vermos o filme com o mesmo espírito com que víamos o Godzilla a destruir cidades de esferovite (ou com que vi Jurassic Park há 20 anos), com o mesmo espírito com que Del Toro rodou este filme, como se fosse uma criança a recuperar e reinventar as suas histórias preferidas -, então Pacific Rim revela-se a todos os níveis uma obra notável, na qual a espectacularidade inegável da sua acção e da sua componente visual não ofusca um worldbuilding muito bem construído e personagens suficientemente interessantes para manter o encantamento durante pouco mais de duas horas (e mais houvesse). Da minha parte, regresso à infância e delicio-me com os robots e os monstros (e a GlaDOS) de Del Toro. 8.4/10

Pacific Rim (2013)
Realizado por Guillermo Del Toro
Argumento de Travis Beacham e Guillermo Del Toro
Com Charlie Hunnam, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Diego Klattenhoff, Charlie Day, Burn Gorman, Ron Perlman, Max Martini, Robert Kazinsky, Clifton Collins Jr. e Ellen McLain
131 minutos

26 de junho de 2013

Pacific Rim: Novo trailer e previsões para o fim-de-semana de estreia

Foi ontem divulgado mais um trailer de Pacific Rim, com algumas cenas novas e centrado no discurso "inspirador" da personagem de Idris Elba (e coloco as aspas porque é raro este tipo de discursos no cinema ou em televisão soarem inspiradores; neste filme, veremos). Mas o que é verdadeiramente sintomático no que ao blockbuster de Guillermo Del Toro diz respeito é a sondagem referida neste artigo da Variety, dando conta de que para o fim-de-semana de 12 de Julho, data de estreia de Pacific Rim, a maior parte do público parece preferir ver Grown Ups 2 (mais uma "comédia" com Adam Sandler). O que se não surpreende, não deixa também ajudar a explicar por que motivo Hollywood aposta cada vez menos em conceitos alternativos, arrojados ou simplesmente diferentes e cada vez mais em franchises estabelecidas e filmes formulaicos.

Pacific Rim estreia em Julho, e aqui fica o mais recente trailer:


Fontes: io9 / Variety

1 de junho de 2013

Guillermo Del Toro: "Every movie has to have a portion of analog, practical effects"

Mais uma featurette de Pacific Rim - desta vez sobre a construção das "cabeças" dos Jaegers e sobre a forma como estes cenários foram construídos e utilizados com os actores e com os efeitos especiais digitais. A posição de Del Toro quanto à importância dos practical effects é especialmente interessante quando falamos de um filme como este, cujos vários elementos fundamentais (escala, worldbuilding, acção) dependem quase na totalidade de CGI.




Fonte: io9

28 de maio de 2013

Hellboy II: The Golden Army, ou o detective do paranormal de Mignola no conto de fadas de Del Toro

Talvez valha a pena introduzir o filme de hoje com uma pequena história pessoal. Quando Hellboy II: The Golden Army estreou no Verão de 2008, foi com imensa relutância que acabei por ir vê-lo ao cinema. Por vários motivos: não conhecia o universo de fantasia noir desenvolvido por Mike Mignola na Dark Horse desde os anos 90, nutria uma profunda desconfiança por quase todas as adaptações cinematográficas de comic books, e não só não tinha visto o primeiro filme como também ainda desconhecia por completo o trabalho de Guillermo Del Toro. Um amigo mais insistente, porém, acabou por me convencer a dar-lhe uma oportunidade, e ainda bem que o fiz: em duas horas fiquei a conhecer Del Toro, descobri o universo de Hellboy, aproximei-me do universo dos comics - que hoje conheço bem melhor, ainda que esteja muito longe de ser um expert - e o preconceito para com os filmes adaptados deste meio começou a dissipar-se. E, claro, vi no grande ecrã um filme notável, sem dúvida merecedor de um lugar de destaque entre a melhor fantasia cinematográfica do novo milénio. 

Agora que já estou mais familiarizado com o universo de Mignola e que já vi o filme original de Del Toro, é-me um tanto ou quanto difícil evitar comparações entre ambos. E se em Hellboy o realizador mexicano se preocupou acima de tudo com uma recriação bastante fiel da história das origens do protagonista tal como Mignola e Byrne a conceberam nos comics, já The Golden Army parece ser mais do que uma adaptação cinematográfica de uma personagem de banda desenhada - um Hellboy no qual o realizador, tendo deixado para trás a introdução do universo e a apresentação das personagens, pudesse dar largas à sua (tremenda) imaginação.


Olhando hoje para trás, é bom de ver que entre Hellboy e The Golden Army aconteceu... El Laberinto del Fauno, a obra-prima em tom de conto de fadas retorcido que confirmou Guillermo Del Toro como um cineasta a seguir com atenção. Livre dos espartilhos lovecraftianos do comic, o realizador e argumentista deu largas à imaginação para preencher todo um mundo sobrenatural povoado por trolls com membros mecânicos, fadas-dos-dentes carnívoras (e estranhamente adoráveis quando não estão a triturar ossos), semideuses de uma Natureza esquecida, um Anjo da Morte notável e toda uma sociedade fantástica a viver nas sombras da Humanidade naquele prodigioso troll market.


Claro que uma história não é feita apenas de criaturas fantásticas - e Del Toro soube criar uma mitologia interessante para enquadrar a narrativa, falando de um conflito primordial, relegado ao estatuto de lenda, entre os seres humanos e as criaturas do mundo natural, entre as quais se destacavam os elfos, liderados pelo Rei Balor. Uma guerra ancestral levou à criação pelos goblins, a pedido do rei, do Exército Dourado - setenta vezes sete guerreiros mecânicos, incansáveis e incapazes se sentir remorso ou compaixão, cuja capacidade destrutiva levou Balor e a Humanidade a estabelecer uma trégua entre o mundo natural e o mundo humano. Toda esta backstory é contada por Broom a Hellboy quando este ainda era uma criança, e é mostrada através de um prólogo animado tão simples como eficaz.


No presente, os Elfos são uma raça decadente, o seu mundo natural original destruído pelo avanço da Humanidade. O príncipe Nuada (Luke Goss) regressa do exílio para declarar guerra aos humanos e recuperar o mundo da sua raça - e para isso procura obter as três peças da coroa real que permitem ao seu dono acordar e controlar o Exército Dourado - contando com a oposição de Balor (Roy Dotrice), o seu pai, e Nuada (Anna Walton), a sua irmã.


Eventualmente, o seu caminho vai cruzar-se com os agentes do B.P.R.D., cujo carácter incógnito desagrada a um Hellboy (Ron Pearlman) desejoso de mostrar ao mundo o trabalho que desenvolve com os seus colegas - minando sistematicamente o trabalho de Tom Manning (Jeffrey Tambor). Um problema que assume proporções tais que obriga à vinda de um novo líder para a equipa: o etéreo médium ectoplásmico Johann Krauss.


É certo que alguns momentos na narrativa parecem um tanto ou quanto forçados (a transição entre Nova Iorque e a Irlanda, sobretudo), mas os raros momentos de falta de articulação narrativa são compensados pelo sentido de humor e pelo excepcional equilíbrio alcançado entre um certo tom mais ligeiro e o ambiente de dark fairy tale presente e praticamente todas as cenas. É aqui que se nota o cunho muito pessoal de Guillermo Del Toro: os efeitos especiais são utilizados com mestria para recriar o mundo de Hellboy, com as suas lendas e as suas criaturas, suportando passagens de acção de grande impacto e vários momentos memoráveis com a sua estética inconfundível.


Se naquela hoje longínqua sessão de cinema no Verão de 2008 Hellboy II: The Golden Army me pareceu um filme muito interessante, hoje, cinco anos volvidos, o interesse é redobrado - e ainda que os motivos sejam diferentes, todos os elementos que me fizeram gostar tanto do filme quando o vi continuam frescos e apelativos. Ritmado, imaginativo e visualmente impressionante, o segundo filme de Hellboy é uma pequena maravilha. Pode não ter a carga emocional e imaginativa de El Laberinto del Fauno ou a solenidade épica de The Lord of the Rings, mas em momento algum - e apesar das influências evidentes - ambiciona ser um ou outro, traçando o seu próprio caminho com um tom muito próprio e um worldbuilding inspirado. Seria sem dúvida interessante ver um terceiro filme realizado por Del Toro para encerrar o arco narrativo mais amplo que Hellboy e The Golden Army constroem; até lá, há neste segundo filme motivos mais do que suficientes para justificar novos visionamentos*8.3/10

Hellboy II: The Golden Army (2008)
Realizado por Guillermo Del Toro
Argumento de Guillermo Del Toro e Mike Mignola, com base nos comics de Mike Mignola
Com Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, Jeffrey Tambor, John Alexander, Seth MacFarlane, Luke Goss e Anna Walton
120 minutos

* Ora aqui está uma palavra que abomino - mas de madrugada revelou-se impossível arranjar melhor. 

23 de maio de 2013

Os dois pilotos de Pacific Rim

Um dos elementos de Pacific Rim que tem causado mais curiosidade - para além de saber que testes estará a GlaDOS a esconder - é a necessidade de cada Jaeger ser controlado por dois pilotos. É evidente desde o primeiro minuto que o motivo, seja ele qual for, pode ser resumido na expressão plot device - ou, dito de outra forma, porque fica interessante (ou cool, passe mais este anglicismo). Claro que na ficção científica é relevante que os vários plot devices tenham uma explicação lógica, sob o risco de se tornarem em plot holes; algo que é válido mesmo para um filme como Pacific Rim, assumidamente mais orientado para a acção e para a espectacularidade visual do que para a subtileza narrativa.

Ora é precisamente a essa questão - para que precisam os Jaegers de dois pilotos? - que Guillermo Del Toro e alguns actores respondem na pequena featurette que se segue:


Fonte: io9

21 de maio de 2013

Hellboy, ou o (bom) lado negro dos comic book movies

As adaptações cinematográficas de comic books ganharam força ao longo da última década - mas o percurso feito pelas várias produções do género foi, no mínimo, acidentado. Olhando para alguns filmes aclamados - e, acima de tudo, de qualidade - como The Dark Knight (Christopher Nolan, 2008), Iron Man (Jon Favreau, 2008) ou The Avengers (Joss Whedon, 2012), talvez seja fácil esquecermos fiascos como Hulk (Ang Lee, 2003), Spiderman 3 (Sam Raimi, 2007) e outros. Mas no meio da "guerra" entre os sucessos comerciais da Marvel e os altos e baixos da DC Comics também a Dark Horse entrou em jogo - e se a sua participação foi discreta (e, até ver, de curta duração, com apenas dois filmes), nem por isso deixa de merecer destaque. Em 2004, Guillermo Del Toro realizou Hellboy, levando para o grande ecrã uma das mais icónicas desta editora norte-americana de comics;quatro anos mais tarde, repetiria a graça com Hellboy 2: The Golden Army (mas sobre este falarei na próxima semana).

Em termos narrativos, Hellboy segue de forma muito livre - mais batráquio, menos batráquio - a premissa básica do primeiro trade paperbackSeed of Destruction, recuperando a história das origens do protagonista com o destaque dado a Rasputine (sim, esse Rasputine) e não à família Cavendish. No final da Segunda Guerra Mundial, Rasputine (Karel Roden) constrói, com a ajuda de uma facção Nazi dedicada ao oculto, um portal dimensional numa ilha na costa da Escócia, com o qual tenciona evocar de uma dimensão paralela Ogdru Jahad, os Sete Deuses do Caos, para derrotar os Aliados e dar início a um reino de terror na Terra. Mas uma força dos Aliados, acompanhada pelo especialista no oculto Trevor Brutterholm (John Hurt), intervém e destrói o portal. Um pouco tarde, porém - para espanto de Brutterholm e dos soldados sobreviventes, através do portal passou uma estranha criatura, um demónio criança com uma mão de pedra ao qual dão o nome "Hellboy".


No presente da narrativa, o professor Brutterholm lidera o "Bureau of Paranormal Research and Defense" (BPRD), onde Hellboy (Ron Perlman) vive e trabalha como detective do sobrenatural e do paranormal na companhia de alguns burocratas, agentes do sobrenatural e criaturas fantásticas, como Abe Sapien (Doug Jones) e a sua companheira, Elizabeth "Liz" Sherman (Selma Blair), ausente e internada para controlar os seus poderes pirokinéticos. Sabendo que o seu fim está próximo, Brutterholm recruta um novo agente do FBI, John Myers (Rupert Evans), para acompanhar Hellboy nas suas missões. Mas pouco tempo depois, Rasputine regressa, decidido a recuperar o tempo perdido e a trazer para a Terra os demónios que em tempos ambicionara soltar.


Os elementos que tornam Hellboy numa obra singular e fascinante dentro do universo dos comics - o seu tom simultaneamente sombrio e humorístico, de influências pulp e com os dois pés bem firmes no sobrenatural - foram transpostos com mestria das páginas ilustradas de Mike Mignola para o cinema. Del Toro soube recriar com mestria o ambiente hardboiled com um toque de horror lovecraftiano tão característico de Seed of Destruction, orientando a narrativa para várias sequências de acção bem ritmadas, divertidas de acompanhar, mas que em momento algum interferem com o (excelente) desenvolvimento das várias personagens.


Um dos pilares do sucesso de Hellboy reside nas interpretações de um elenco muito talentoso - mas é Ron Perlman quem rouba quase todas as cenas em que entra, empenhando-se em dar vida a uma personagem sem dúvida desafiante. E, de facto, Perlman é Hellboy - no seu sentido de humor seco, nos seus gestos característicos, na sua violência imparável (afinal, ele é um demónio - simpático, mas um demónio). A caracterização soberba ajuda a tornar a personagem verosímil - e esta é apenas uma pequena parte de uma forte componente visual, com efeitos especiais credíveis a dar forma às inevitáveis e bem construídas cenas de acção, onde Hellboy combate contra demónios que se multiplicam e criaturas gigantes com tentáculos monstruosos. Ainda assim, neste ponto não se nota ainda de forma decisiva a prodigiosa imaginação de Del Toro, que dois anos mais tarde viria a encantar o mundo com o surpreendente El Laberinto del Fauno. Os monstros de Hellboy são bons, mas não tão bons como aqueles que aquele filme e a sua sequela directa viriam a exibir.


Hellboy não será decerto um dos mais convencionais filmes de super-heróis - a sua narrativa firmemente ancorada no misticismo e no sobrenatural e a sua atmosfera sempre sombria colocam-no sem dúvida à margem das restantes adaptações de comic books  da última década (excepção feita talvez a Watchmen). O que, diga-se de passagem, está longe de ser um defeito. Hellboy é um filme bastante sólido, que em momento algum esconde as suas origens dos comics - e que eleva o género com uma premissa muito interessante sustentada por desempenhos sólidos e por um punhado de cenas memoráveis. Mais importante do que isso, porém, é o facto de ter trazido com sucesso para o cinema mais uma personagem icónica da banda desenhada norte americana - e de ter estabelecido os elementos que viriam a fazer de Hellboy 2: The Golden Army um dos filmes de fantasia mais interessantes dos últimos anos. 7.4/10

Hellboy (2004)
Realizado por Guillermo Del Toro
Argumento de Guillermo Del Toro e Peter Briggs com base nos comics de Mike Mignola
Com Ron Perlman, John Hurt, Selma Blair, Rupert Evans, Karel Roden, Jeffrey Tambor e Doug Jones
122 minutos

16 de maio de 2013

Pacific Rim: Mais detalhes sobre os Kaiju e os Jaeger (trailer)

Não sei se ainda há muito para dizer sobre o próximo projecto cinematográfico de Guillermo Del Toro, Pacific Rim - excepto que Julho tarda em chegar, e com ele a estreia deste filme. Enquanto a data não chega, Del Toro parece apostado em disponibilizar trailers cada vez mais impressionantes. Aqui fica o mais recente, com mais detalhes sobre a narrativa - e, claro, mais combates formidáveis entre Jaegers e Kaiju:



Fonte: io9

29 de abril de 2013

Pacific Rim: Novo trailer

Ao longo das últimas semanas, Guillermo Del Toro tem insistido que o seu próximo filme, Pacific Rim, tem uma escala completamente diferente (leia-se "maior") do que qualquer outro filme do género. A avaliar pelo segundo trailer do filme, entretanto disponibilizado, torna-se difícil discordar. 

Pacific Rim tem estreia prevista para Julho próximo. 



8 de janeiro de 2013

Cinema fantástico: as estreias de 2013 (6) - Pacific Rim

Para minha surpresa, Pacific Rim é o filme que aguardo com mais expectativa. A surpresa reside em dois factos distintos. O primeiro, apesar de ter alguma curiosidade para com os subgéneros kaiju e mecha, tão populares no Japão, nunca me atraíram de forma significativa no contexto da ficção científica. O segundo, por à partida - e com um preconceito que assumo sem complexos - uma qualquer descrição simples (ou simplista) do filme me levar a descartá-lo como mais um grande blockbuster feito mais a contar com efeitos especiais grandiosos e um 3D desnecessário para conquistar as bilheteiras na guerra de blockbusters de Verão. A diferença, porém, é que Pacific Rim não é realizado por um Michael Bay da praxe, mas por Guillermo Del Toro - que, na última década, realizou duas adaptações muito boas de Hellboy e o extraordinário El Labirinto Del Fauno - e esteve quase a realizar também a adaptação cinematográfica de The Hobbit. Imaginação não lhe falta, e é por isso que, mesmo antes de ver o primeiro trailer, já tinha alguma esperança de que Pacific Rim fosse mais do que um mero filme de monstros e robots gigantes - dito de outra forma, que fosse um filme de monstros e robots gigantes com uma narrativa interessante e personagens com alguma densidade. 

O trailer divulgado em Dezembro último surpreendeu a Internet gamer ao mostrar algo tão familiar como inesperado: a voz Ellen McLain no seu brilhante papel de GlaDOS, a extraordinária inteligência artificial vilã dos videojogos Portal e Portal 2, da Valve. Perdoem os leitores não familiarizados com os jogos a adjectivação excessiva, mas esta acaba por se revelar escassa para descrever a qualidade do voice acting de McLain. A voz de GlaDOS está incorporada nos mechas de Pacific Rim - ao que consta, Del Toro é fã dos jogos e decidiu apelar directamente a Gabe Newell, o patrão da Valve. Se o facto de o filme ser realizado por Del Toro já me estava a interessar, a voz de GlaDOS e a qualidade do trailer conquistaram-me em definitivo.

Até ao momento, a expectativa para com Pacific Rim já me levou a começar a ver (finalmente) uma das mais populares séries anime do género: Neon Genesis Evangelion. A estreia está prevista para Julho de 2013. Abaixo, o mais recente trailer, apresentado na CES 2013.

13 de dezembro de 2012

Pacific Rim: Primeiro trailer já disponível

Já está disponível o primeiro trailer de Pacific Rim, o novo e muito aguardado projecto de Guillermo Del Toro. Num filme de homenagem ao kaiju e ao mecha, subgéneros da ficção científica extremamente populares no Japão, com os seus monstros e os seus robots gigantes. O elenco conta com Idris Elba, Ron Pearlman, Charlie Hunnam e Rinko Kikuchi, entre outros. Aqui fica o trailer:



Normalmente, este filme não me entusiasmaria por aí além - parece ser um filme feito apenas e só pela acção e pelos efeitos especiais, e não por qualquer motivação narrativa relevante. No entanto, o facto de ser realizado por Guillermo Del Toro, responsável pelos sólidos filmes da série Hellboy e pelo excepcional El Labirinto Del Fauno (e cuja desistência da realização de The Hobbit ainda lamento), faz-me ter algumas expectativas e pensar que este filme poderá ser muito mais do que um Transformers glorificado. 

Ainda assim, aquilo que mais me chamou a atenção neste trailer não foi o monstro, ou os mecha, ou os espantosos efeitos especiais. Foi, sim, GlaDOS - ou melhor, a cantora e actriz Ellen McLain, inesquecível no papel da formidável vilã de Portal e Portal 2, a dar voz à inteligência artificial dos robots gigantes. Julgo que para qualquer pessoa que tenha jogado Portal vai ser mesmo muito difícil descolar desse detalhe, e evitar imaginar durante o filme um robot a dizer I'm doing this for science. You monster.

Pacific Rim deverá estrear em Portugal em Julho de 2013.

Fonte: io9