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8 de agosto de 2014

Red Mars: A nova fronteira

Poucos lugares serão tão familiares na ficção científica como Marte, o célebre "Planeta Vermelho", transportado para inúmeras páginas tanto na sua versão imaginada antiga, com os canais de Lowell, como com a aridez rubra que as sondas da era espacial revelaram. Marte serviu de palco para inúmeras histórias de ficção científica, das aventuras de Edgar Rice Burroughs às crónicas quase poéticas de Ray Bradbury; e sem esquecer, claro, as tramas de autores tão consagrados como Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, Frederik Pohl, Philip K. Dick, Ben Bova ou Ian McDonald (entre muitos outros), cada um imaginando à sua maneira como seria a vida num Marte ficcional. No início dos anos 90, Kim Stanley Robinson - que até já se tinha aventurado pelos territórios literários do Planeta Vermelho com Icehenge em 1984 - decidiu explorar uma vez mais o nosso vizinho do Sistema Solar, mas através de uma perspectiva em simultâneo hard science fiction detalhada e sociopolítica, com todas as componentes de um drama em território hostil que, em momentos, quase se aproxima da ideia de western. O resultado foi a célebre Mars Trilogy, iniciada em 1993 com Red Mars.

Tendo como tema a colonização e a terraformação de Marte, Red Mars centra-se em algumas das personagens que integraram os "cem primeiros" - os cem indivíduos que integram a expedição "Ares" e para fundar a primeira colónia humana permanente em Marte. Seleccionados após um árduo treino na Antárctida, os cem primeiros são lançados no vazio numa nave colossal, rumo ao planeta vermelho - e é no tédio relativo (para as personagens) da viagem que o leitor começa a conhecer as figuras de destaque do romance (após um prólogo estimulante que faz com que a maior parte da trama seja narrada in medias res - adensando consideravelmente o mistério ao introduzir a morte de um dos protagonistas): John Boone, lendário por ter sido o primeiro homem a pisar o solo marciano; Frank Chalmers, o cínico líder do grupo norte-americano, que tem na volátil Maya Toitovna a sua equivalente na facção russa; Arkady Bogdanov, o engenheiro russo idealista, com o sonho de criar uma sociedade nova no planeta; e outros, como Nadia Chernyshevski (talvez a melhor personagem de todo o romance), Ann Clayborne, Hiroko Ai, Sax Russel, Michel Duval, Phyllis Boyle - cem no total, com estes a assumirem os papéis mais relevantes e, no caso de John, Frank, Nadia, Michel, Ann e Arkady, os pontos de vista da narrativa.

Claro que a colonização e a terraformação estão longe de ser pacíficas, e apesar de o desenvolver como inevitável, nem por isso deixa Kim Stanley Robinson de questionar a sua legitimidade a todo o momento - com a progressiva degradação da Terra colocada à distância a servir de exemplo (o debate constante, e por vezes agressivo, entre Ann, Phyllis e Sax é o melhor exemplo dessa discussão permanente). No seu esforço de construir uma sociedade nova num mundo tão diferente e hostil, os cem primeiros colonos procuram deixar o passado para trás para dar forma a algo adequado às circunstâncias - esquecendo-se com frequência de que eles mesmos, com toda a sua bagagem, fazem também parte dessas circunstâncias. Do entusiasmo da construção da primeira aldeia à fragmentação do grupo original e ao início da emigração interplanetária e da apropriação do território e dos recursos de Marte por megacorporações transnacionais mais poderosas que estados soberanos é um pequeno passo - que, uma vez dado, só pode ter como resultado uma revolução. Robinson desenvolve com bom ritmo cada uma destas partes - da atenção dada ao pormenor da construção dos primeiros abrigos à precipitação dos acontecimentos durante a revolução, nada é deixado ao acaso - e o drama das personagens é suficientemente cativante para manter o interesse na trama. 

Mas é no detalhe científico que Red Mars se excede e se eleva para o panteão da hard science fiction, fruto de uma pesquisa pormenorizada e exaustiva que transborda para as páginas e que confere uma verosimilhança ímpar à narrativa. Talvez não seja exagerado afirmar que a experiência de leitura de Red Mars será porventura o mais próximo que os leitores contemporâneos estarão de viajar de facto até Marte e de colonizar o planeta - e se alguns decerto serão afastados pelas longas e constantes descrições científicas explicadas de forma bastante acessível mas nem por isso menos rigorosa, outros decerto apreciarão a atenção dada ao pormenor e a forma como cada detalhe contribui para dar ao Marte de Kim Stanley Robinson uma aura de realismo que poucos romances conseguiram alcançar. A história dos cem primeiros colonos é, acima de tudo, verosímil

Já nas questões económicas, políticas e sociais, de resto quase tão importantes como as científicas, acabam por surgir um pouco... estranhas nesta segunda década do novo milénio. Apesar de ter sido escrito e publicado após a queda do Muro de Berlim, Red Mars ainda tem a dicotomia da Guerra Fria profundamente entranhada na sua trama - a divisão entre norte-americanos e russos, com um punhado de colonos de outras nacionalidades, a oposição constante entre capitalismo e marxismo, a veia revolucionária de várias personagens. É possível, no entanto - e este é um pormenor fascinante - que Red Mars estivesse mais datado no final dos anos 90 do que hoje, com o ressurgimento da Rússia na cena internacional e com a ascensão das sociedades muçulmanas, nem sempre pelos melhores motivos. Quase como se nas suas páginas ecoasse aquela velha ideia de que a História acaba sempre por se repetir, 

De certa forma, o que Red Mars acaba por ilustrar de forma exemplar (para lá de toda a enorme complexidade que uma expedição a Marte com o propósito de lá estabelecer uma colónia humana permanente acarreta, e que Robinson explora de uma forma que seria exaustiva se não fosse tão interessante) é a manifesta incapacidade de nós, enquanto humanos, sermos incapazes de deixar o nosso passado para trás - mesmo quando, para todos os efeitos, esse passado reside para lá de um enorme abismo espacial, a distâncias que a mente humana tem sérias dificuldades de conceber; e quando toda essa bagagem de pouco serve numa realidade completamente nova, estranha e hostil. Como intriga científica e social, Red Mars é um êxito assinalável - uma "novela" marciana, sim, mas com uma complexidade, uma atmosfera e um nível de detalhe que elevam o drama e tornam toda a leitura numa experiência memorável, como se o leitor, também ele, fosse um dos "cem primeiros" colonos a participar naquela expedição única.

[Há ainda um pormenor de Red Mars que merece referência, ainda que me tenha esquecido de o incluir no texto: ciente da vasta "ficção marciana" existente, e em muita da qual decerto se terá também inspirado, Kim Stanley Robinson deu várias designações familiares a algumas localidades que vão surgindo no decurso da trama - como as cidades de Burroughs e de Bradbury, por exemplo. São uma espécie de easter eggs, digamos assim - e dão um toque muito especial ao worldbuilding]

Título: Red Mars
Autor: Kim Stanley Robinson
Editora: Bantam Spectra
Ano: 1993
Formato: Paperback
Páginas: 572
Género: Ficção Científica / Hard Science Fiction

27 de julho de 2014

Citação fantástica (145)

In games there are rules, but in life the rules keep changing. You could put your bishop out there to mate the other guy’s king, and he could lean down and whisper in your bishop’s ear, and suddenly it’s playing for him, and moving like a rook. And you’re fucked.

Kim Stanley Robinson, Red Mars (1993)

13 de julho de 2014

Citação fantástica (143)

History was like some vast thing that was always over the tight horizon, invisible except in its effects. It was what happened when you weren't looking - an unknowable infinity of events, which although out of control, controlled everything.

Kim Stanley Robinson, Red Mars (1992)

24 de março de 2014

Kim Stanley Robinson: “All awards are club awards” (entrevista)

Ainda a propósito do aniversário de Kim Stanley Robinson, autor da consagrada "Mars Trilogy" (Red Mars, Blue Mars e Green Mars), de The Years of Salt and Rice e de 2312, aqui fica um destaque de uma entrevista recente que o autor concedeu ao portal húngaro SF Mag. Na entrevista, Robinson fala sobre a importância dos vários prémios de fantasia e ficção científica, sobre a sua carreira literária, sobre alguns progressos científicos contemporâneos e sobre as perspectivas quanto à colonização de Marte, numa alusão à sua célebre trilogia. Um excerto:
SF Mag: Your novel 2312 was posted on several short lists, and won the Nebula Award, too. What’s your take on science fiction awards, how serious do you consider them?
Kim Stanley Robinson: All awards are club awards, this is important to remember. Even the Nobel Prize is just one Swedish club. So I keep that in mind, and what I feel about awards depends on what I feel about clubs; also I know I’m not eligible for many awards, as I am not in the clubs involved, either through my choice or theirs. If it’s their choice I’m not in their club, and I don’t get their award, then that’s their problem, not mine.

So, as a science fiction writer, I think the Hugo award is important, as it comes from the central group of science fiction fans. That’s not exactly my core audience, but I am fond of them, and if they like a book of mine, it means something to me. Then the Locus awards, given out by Locus magazine, used to be a readers’ poll, and the readers of Locus are the industry itself: writers, editors, publishers, booksellers, people who really care. So a Locus Award was a big thing to me, coming from the industry. Now they have opened the award to anyone who wants to vote, which reduces its meaning for me greatly. In fact I am pleased that they report that if the poll was restricted to Locus subscribers only, both Galileo’s Dream and 2312 would have won the Locus awards in the year they came out. I remember that even though it is not official, because it’s a sign from the industry I am part of. Then the Nebula award comes from my fellow sf writers, and that matters of course, but writers all have their own agendas, and it’s the young sf and fantasy writers who care most about that one, so they vote for their friends, and it’s very clubby.

The British SF Awards come from British fans and I love the British sf community, so that one matters to me. The various jury awards (Clarke, Tiptree, Pulitzer, any jury award) are simply jury awards and the juries have to reconcile their votes and it’s a mess; I’ve been on juries and seen it. So no jury award means much to me, though if a book of mine were to get one, I would be pleased of course. But it would mean precisely that 7 people compromised by picking my book. So in fact, real sales matter hugely more, as being choices by that many more readers. What counts are readers. Giving a book the time to read it; the effort; that’s a big gift!
A entrevista completa pode ser lida em inglês no SF Mag.

Fontes: SF Mag / SF Signal

23 de março de 2014

Kim Stanley Robinson (1952 - )

A ficção científica contemporânea tem em Kim Stanley Robinson uma das suas vozes mais conceituadas e premiadas. Com uma carreira iniciada ainda nos anos 70 com a publicação de ficção curta, publicou em 1984 os seus primeiros romances: Icehenge e The Wild Shore, este último a constituir a primeira parte da trilogia “Three Californias”, da qual fazem ainda parte The Gold Coast (1988) e Pacific Edge (1990). Mas a sua consagração deu-se já em 1990 com a publicação de uma outra trilogia, a célebre “Mars Trilogy”, uma obra de longo alcance na qual imaginou um Marte futuro, terraformado e colonizado pela Humanidade. Red Mars, de 1993, aborda a colonização humana do Planeta Vermelho: Green Mars, de 1994, explora o tema da terraformação; e Blue Mars, de 1996, mostra as implicações a longo prazo dos temas dos dois livros anteriores. Neste universo ficcional, Robinson publicou ainda vários contos, compilados em 1999 no volume intitulado The Martians

A sua longa bibliografia inclui ainda a trilogia "Science in the Capital", constituída por Forty Signs of Rain (2004), Fifty Degrees Below (2005) e Sixty Days and Counting (2007); e títulos como The Memory of Whiteness (1985), Antartica (1997), The Years of Rice and Salt (2002), Galileo’s Dream (2009) e 2312 (2012). O seu mais recente romance, Shaman: A novel of the Ice Age, foi publicado no ano passado. A sua ficção curta encontra-se publicada em várias antologias, como The Planet on the Table, de 1986, Escape from Kathmandu, de 1989 e Vinland the Dream, de 2001, entre outras. Entre os temas mais recorrentes da ficção de Kim Stanley Robinson encontramos a ecologia e a sustentabilidade, assim como a justiça económica e social

Com um total de 29 nomeações para os principais prémios da ficção científica e fantasia, Robinson venceu 13. Nas categorias de “Best Novel”, os três romances que compõem a “Mars Trilogy” conquistaram seis distinções: Red Mars venceu o prémio Nébula e o British Science Fiction Award, e Green Mars e Blue Mars conquistaram ambos o Hugo e o Locus. O seu romance de estreia, The Wild Shore, venceu o Prémio Locus na categoria de “Best First Novel”; Pacific Edge foi agraciado com o Prémio John W. Campbell , e The Years of Rice and Salt e o recente 2312 valeram a Robinson o Locus e o Nébula nas categorias principais, respectivamente. No que à ficção curta diz respeito, a novela Black Air foi distinguida com o World Fantasy Award, e A Short, Sharp Shock venceu o Nébula. A colectânea The Martians foi ainda distinguida com o Locus na categoria de “Best Collection”.

Robinson trabalhou ainda a ficção científica na sua carreira académica: a sua tese de doutoramento, publicada em 1984, intitula-se The Novels of Philip K. Dick, e incidiu sobre a obra daquele que terá sido um dos mais influentes autores que o género conheceu.

Kim Stanley Robinson nasceu em Waukegan, no estado do Illinois, em 1952, e celebra hoje o seu 62º aniversário.

26 de setembro de 2013

Kim Stanley Robinson: "Dystopias are all basically the same, and easy" (entrevista)

Autor de séries consagradas como a trilogia Mars e vencedor, por várias ocasiões, dos principais prémios literários da ficção de género (como o Nébula de "Best Novel" este ano, com 2312), Kim Stanley Robinson será sem dúvida um dos nomes incontornáveis da ficção científica das últimas duas décadas. Em entrevista a R. K. Troughton para o blogue da Amazing Stories, Robinson fala sobre a sua carreira e a sua obra - do mais recente Shaman, publicado este ano, até aos aclamados Red Mars, Green Mars e Blue Mars -, da relevância da ciência na ficção científica, da influência do fandom e de vários outros assuntos, entre os quais a sua preferência por utopias, ao invés das distopias que hoje em dia estão tão na moda. Dois excertos:
Amazing Stories Magazine: So much of modern science fiction speculates on dystopian futures, but many of your works lead the reader towards utopian possibilities. What inspires and drives this positive outlook you portray in so many of your novels?
Kim Stanley Robinson: I think it’s interesting. Dystopias are all basically the same, and easy: oppression, resistance, conflict, blah blah. Like car crashes in thriller movies. But utopian novels are interesting (I know this is backwards to the common wisdom) because they force us to think about what we are, what we could become, and if we were to make a decent civilization, what would endanger it, or keep it from spreading, etc. One point I’ve been making all along is that even in a utopian situation, there will still be death and lost love, so there will be no shortage of tragedy in utopia. It will just be the necessary or unavoidable tragedies; which perhaps makes them even worse, or more tragic. They won’t be just brutal stupidities, in other words, but reality itself. This is what literature should explore.  
Also, thinking of utopia, I’ve always felt this: since we could do it, we should. And that will take some planning, some vision. 
(...)  
Amazing Stories Magazine: Within the science fiction community, the bond between fans and authors approaches symbiosis. How do you view this relationship, and how has fandom changed since you first fell in love with science fiction? 
Kim Stanley Robinson: Again I came to all this late, as I walked into my first sf convention when I was 26, and at first didn’t understand what I was seeing. Eventually I learned that this was a community like a small town, cast across space and time as in some wild sf scenario, that reconvenes (partially) at weekends in hotels scattered everywhere. It’s a very intense intellectual community, very expert at thinking about the future, in ways that most of our culture is not—although it is true that everyone thinks about the future to one extent or another. But fandom makes it their hobby and so is expert at it. This can lead to the myopia of expertise, but generally is a very good thing. I’m proud to be part of the community, which is my intellectual home and where I met many of my best friends. 
Fandom has gotten bigger but more diffuse, with interests in media and gaming and things other than literature per se, but stories stay at the heart of it, so there is common core interest. For the literary side, maybe it’s true that fandom has gotten older. I mean we do all get older, but a community aging as a totality, that’s different. But it’s hard to say, also.
A entrevista completa pode ser lida aqui.