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21 de fevereiro de 2014

Cat's Cradle: No apocalipse, a comédia

Talvez seja difícil ler Cat's Cradle, a sátira negra de Kurt Vonnegut publicada em 1963, sem evocar, ou pelo menos recordar, a célebre "Lei de Murphy": se algo pode correr mal, vai correr mal. Com uma estrutura narrativa fragmentada por mais de uma centena de capítulos de dimensões reduzidas - na prática, pequenos episódios organizados de forma mais ou menos sequencial em jeito de memórias, este quarto romance de Vonnegut propõe uma desconstrução ousada e invariavelmente inteligente de alguns aspectos das sociedades humanas e da própria natureza humana, da política, da religião e até mesmo da ciência (com o mérito de em momento algum cair no proselitismo político, religioso ou científico - Vonnegut dispara em todos os sentidos, e a sua pontaria é impressionante).

Mas comecemos pelo início. Cat's Cradle abre uma frase que decerto soará muito familiar à maioria dos leitores:
Call me Jonah. My parents did, or nearly did. They called me John.
E esta alusão ao clássico de Herman Melville Moby Dick marca desde logo todo o tom satírico, bem temperado por um certo cinismo desesperançado e polvilhado por um humor especialmente negro, que atravessa toda a obra - para além de, numa curiosa alusão bíblica, descrever na perfeição John - Jonah -, narrador e protagonista. John apresenta-se no primeiro capítulo como um escritor a recolher material para um livro factual intitulado The Day the World Ended - um título bastante presciente, no qual pretende compilar pequenas histórias sobre o que alguns cidadãos norte-americanos tinham feito durante o dia 6 de Agosto de 1945, quando os Estados Unidos lançaram a primeira bomba atómica sobre a cidade de Hiroshima. A sua investigação acaba por conduzi-lo até ao Dr. Felix Hoenniker, o físico laureado com o Prémio Nobel da Física e instrumental na criação da primeira bomba nuclear, e falecido anos antes do início da narrativa; e a fim de descobrir mais sobre o enigmático Felix Hoenniker, John começa a corresponder-se com o mais novo dos três filhos do cientista, Newton "Newt" Hoenniker, que dá a resposta à pergunta: no dia do bombardeamento de Hiroshima, tinha ele seis anos, o seu pai passara o dia a fazer uma "cat's cradle" com fio, entre os dedos.

Intrigado, John viaja até à vila na qual os Hoenniker viveram para entrevistar os habitantes locais que o pudessem conhecer. E é lá que descobre um segredo extraordinário: num projecto de Defesa, Felix Hoenikker desenvolveu uma substância designada por ice-nine. O seu propósito original era permitir que tropas não perdessem mobilidade num pântano eliminando o problema da lama; na prática, o que o ice-nine faz é congelar, instantaneamente e à temperatura ambiente, toda a água com a qual entra em contacto. A busca por toda a verdade sobre esta substância apocalíptica vai levar John até à nação (ficcional) de San Lorenzo, numa ilha sem qualquer valor nas Caraíbas, governada com pulso firme por um ditador que mantém a população numa miséria material que um truque religioso notável consegue camuflar, desafiando toda a lógica - ou talvez evocando uma lógica muito própria. 

E é neste exacto ponto que Cat's Cradle se revela um texto espantoso: pela forma como Vonnegut utiliza um elenco muito peculiar e um encandeamento de peripécias quase rocambolesco para desconstruir, em jeito de sátira a roçar o absurdo a espaços, as construções políticas que estão na base das sociedades e toda a natureza do fenómeno religioso (enquanto atira algumas farpas à ciência). Vonnegut descreve longamente (mas nunca de forma exaustiva) a religião de San Lorenzo, que designa como bokononism - um culto assente no conceito de foma, ou de mentiras inofensivas. "Live by the foma that make you brave and kind and healthy and happy" é o mote, a pedra angular de todo o edifício religioso do bokononism; e este alberga não uma promessa espiritual mas um propósito notável pelo seu carácter material e pragmático. Mas onde se poderia ler uma crítica mordaz à religião acaba por se encontrar uma sátira estranhamente neutra: não importa se assenta em verdades ou mentiras, pois o ponto, bem vistas as coisas, não é esse.

Talvez Cat's Cradle não seja um texto para todos os leitores - o humor poderá talvez ser demasiado negro, o tom poderá pecar por excesso de cinismo, e a estrutura nem sempre sequencial em termos de cronologia interna poderá por vezes dispersar um pouco o enredo. Esta estrutura, porém, imprime a todo o texto um ritmo rápido, intenso, cada vez mais frenético à medida que o final se precipita; a escrita cativante de Vonnegut, essa, torna a leitura urgente, quase vertiginosa. E há na inteligência da sua construção, no absurdo de algumas das suas passagens e no engenho da suas peripécias aproximações a verdades desconfortáveis, mas nem por isso menos plausíveis; vários são os momentos em que o riso dá quase lugar ao horror. Cat's Cradle é um trabalho notável, um clássico da ficção científica de pleno direito e, acima de tudo, uma obra espantosamente humana. Que o consiga ser quando desenvolve um comentário à estupidez e à futilidade humanas talvez acabe por ser o seu maior feito. 

27 de outubro de 2013

Citação fantástica (90)

People have to talk about something just to keep their voice boxes in working order so they'll have good voice boxes in case there's ever anything really meaningful to say.

Kurt Vonnegut, Cat's Cradle (1963)