8 de abril de 2014

The Congress: Escapismo digital

Poucos são os filmes que conseguiram combinar num todo coerente acção real e animação - e por animação refiro-me em concreto a animação convencional, irreal nas suas cores e formas impossíveis, e não à animação hiper-realista que hoje em dia atravessa alegremente todas as fronteiras do uncanny valley para dar forma aos mais variados, e tantas vezes desnecessários, efeitos especiais dos blockbusters contemporâneos. Who Framed Roger Rabbit?, de 1988, será talvez o clássico maior do género (e merecerá um artigo um dia destes); na memória mais recente, Richard Linklater mascarou em A Scanner Darkly a live action com rotoscopia para recriar a paranóia do romance de Philip K. Dick. E no ano passado, Ari Folman, o realizador israelita que em 2008 se viu sob as luzes da ribalta devido ao extraordinário Waltz With Bashir, levou o conceito ainda mais longe em The Congress, numa adaptação muito livre do romance The Futurological Congress do polaco Stanislaw Lem.

O que se revela mais fascinante em The Congress - mais ainda do que a espantosa e alucinada trip que o filme induz durante o segundo acto, é a forma como coloca questões que fazem hoje mais sentido do que nunca - numa época em que o digital parece tomar conta de tudo e em que o cinema surge vergado à artificialidade da imagem, a possibilidade que Folman aponta parece plausível. Quando os cenários são artificiais, criados a posteriori em computador para actores que representam sozinhos para o vazio das telas verdes, cada vez mais ligados às máquinas da motion capture, e quando ao lado os videojogos (uma indústria que, recorde-se, já ultrapassou a cinematográfica em termos de receitas) criam e recriam as suas personagens interactivas a cada instante, será assim tão irreal imaginarmos a digitalização dos actores que tão bem conhecemos, livres na rede para interpretarem todos os papéis e para servirem de avatares a todas as fantasias?


É esse pacto diabólico que serve de ponto de partida a The Congress, ao abrir com Robin Wright numa espantosa interpretação de si mesma - uma actriz popular na juventude, cujas escolhas erradas e as decisões desaconselhadas votaram a um lento esquecimento público na meia-idade, a quem os estúdios cinematográficos da Miramount (pun intended?) oferecem uma última oportunidade: abdicar da sua carreira de actriz em prol de uma Robin Wright digitalizada ao mais ínfimo pormenor, uma cópia exacta de si pronta para desempenhar qualquer papel em qualquer filme.


A braços com a misteriosa doença do filho mais novo, Aaron (Kodi Smit-McPhee), Robin Wright é, para todos os efeitos, uma mulher destroçada, longe dos seus anos de glória (as referências ao clássico The Princess Bride estão lá todas, dando verosimilhança a esta sua versão fictícia), cujas perspectivas de carreira parecem cada vez mais sombrias a cada ano que passa. Quando os estúdios lhe fazem a proposta, a primeira reacção é a negação veemente da artificialidade galopante, da despersonalização da nobre arte de representar, entregue a avatares digitais e a linhas de código; a seu tempo, porém, acaba por ceder ao pacto com o Diabo.


Não o faz, note-se, sem condições - e é aqui que surge um dos momentos mais curiosos do filme, numa espantosa ironia meta-referencial, quando se discute o que é a ficção científica enquanto género cinematográfico. Para Wright e o seu agente, Al (Harvey Keitel), é um género superficial e infantil no qual não quer de todo participar; para o representante dos estúdios, Jeff (Danny Huston), é um género especialmente lucrativo, e por isso fundamental para os projectos futuros da Miramount. É uma discussão breve, que poderia talvez ter sido levada um pouco mais longe - mas que se revela fascinante pela ironia da reflexão num filme de ficção científica que se baseia num livro de ficção científica.


Entra uma elipse de duas décadas - e, cumprindo a profecia, tudo aquilo que representa o pináculo da inovação tecnológica que no momento em que a Robin Wright actriz deixa de pertencer à própria para se tornar propriedade digital (intelectual?) dos estúdios da Miramount (o seu anonimato real contrasta com agressividade com a popularidade da sua versão digital enquanto action hero cinematográfica, completa com a referência à cena clássica de Dr. Strangelove) está obsoleto e ultrapassado: naquele futuro, a química é a mãe de todas as possibilidades e oportunidades, e abre caminho para uma nova revolução. Robin Wright, mais velha, viaja até ao Congresso Futurológico onde lhe será apresentado um novo contrato, e onde ficará a conhecer a revolução da Miramount, o estúdio de cinema tornado laboratório: a transformação de cada indivíduo num avatar animado, livre de ser quem e o que quiser ser, numa realidade irreal e psicadélica.


Mas se toda a gente se entrega à concretização química e animada das suas aspirações, o que resta do mundo real, físico? E o que resta da identidade individual de cada um perante a alucinação colectiva da gratificação instantânea de todos os desejos (menos, talvez, daqueles que verdadeiramente importam)? E qual será a diferença prática entre a ilusão/alucinação e a realidade, quando A odisseia de Robin Wright para se encontrar revela-se fascinante nas questões que suscita, hoje mais pertinentes do que nunca, sem respostas óbvias - confrontada com as consequências das suas decisões a cada turno, Wright vê-se obrigada a alguns passos extremos e a vários tiros no escuro.


As cores garridas da animação de The Congress acabam por se revelar enganadoras - longe de ser uma odisseia alegre e algo psicadélica pelas avenidas da alucinação colectiva, o filme de Ari Folman é uma viagem dura pelos pesadelos da desumanização tecnológica contemporânea, pelas questões de identidade na era da primazia da imagem e de um hedonismo ilusório, e pelo escapismo virtual, ilimitado nas suas possibilidades e em contraste com a crueza da realidade (e é de génio o momento em que Folman traça de forma definitiva este contraste). Mas acaba por ser a interpretação magnífica e pungente de Robin Wright que eleva The Congress a mais do que um mero filme-análise ao zeitgeist deste novo milénio. 8.4/10

The Congress (2013)
Realização de Ari Folman
Argumento de Ari Folman a partir do romance The Futurological Congress de Stanislaw Lem
Com Robin Wright, Harvey Keitel, Paul Giamatti, Danny Huston, Jon Hamm, Kodi Smit-McPhee e Sami Gayle
122 minutos

4 comentários:

artur coelho disse...

podes juntar à meta-análise a questão do obsoletismo humano numa era onde os interesses financeiros investem na automação como forma de reduzir custos laborais em áreas até agora aparentemente imunes à robótica e algorítmica avançada. e sim, a ironia de um filme de fc a questionar a fc de forma tão bom humorada é genial! reparaste na promo ao filme com o slogan "rise of the machines where the streets have no name"? uma delícia. dei-me ao trabalho (prazeiroso) de ler o the futurological congress e sim, a adaptação é muito livre e actualizada, mas o livro, quer no espírito quer nas situações concretas, está lá todo. e, bela crítica!

João Campos disse...

Hehe, é um slogan magnífico, sem dúvida.

Há muito por onde pegar neste filme - uma pérola, de facto, e quase que a deixava passar.

Ainda não li nada do Lem - ando para o fazer há alguns anos, e quero começar pelo "Solyaris" (até por causa do filme do Tarkovsky). Hei-de passar por este também.

E obrigado!

artur coelho disse...

mas aconselho mesmo ler este ainda com a memória quente do the congress. porque ficas com ideia do que o folman levou para o filme (muitos, muitos detalhes) e boquiaberto com a forma como o texto de Lem, apesar da variância evolutiva das tecnologias, continua incisivo e actual.

João Campos disse...

Ainda me vais fazer ir ao BookDepository fora de horas... :)