De regresso ao seminário Tolkien: Construtor de Mundos, da passada Terça-feira na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Às duas sessões ontem mencionadas seguiram-se três, no feminino e com temas curiosos: a primeira, com Iolanda Zorro (da FLUL), sobre o "encantamento", as fairy stories como Tolkien as definia e a suspensão da descrença; a segunda, de Inês Meira Araújo (também da FLUL), dedicada ào Tolkien ilustrado; e a terceira, a concluir a manhã, com Maria do Rosário Monteiro, professora na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e com vários trabalhos académicos dedicados à obra de Tolkien. Comecemos, então, pelo início.
Com uma sessão intitulada O encantamento do Homem: a sub-criação em J.R.R. Tolkien, Iolanda Zorro recuperou o célebre ensaio On Fairy Stories de Tolkien para dissertar sobre as diferenças entre mundos primários e mundos secundários. A Terra Média faz assim parte de um "mundo secundário como encantamento", no qual o leitor entra ao aceitar as regras que lhe estão implícitas - o célebre mecanismo de "suspensão da descrença". Esse mecanismo é fundamental para qualquer mundo secundário - a racionalização sobre a leitura quebra a sensação de verosimilhança e retira o leitor da narrativa. Nesse sentido, a fantasia de Tolkien pode ser considerada escapista, mas jamais no sentido que é habitualmente atribuído ao adjectivo, sobretudo no contexto dos géneros literários (o "estigma da literatura fantástica" a que aludiu). E a criação mitológica que lhe dá origem assenta numa lógica dialética de perguntas e respostas (a criação de The Lord of the Rings em simultâneo com The Silmarillion), estando orientada para a eucatástrofe (e não para mecanismos de deus ex machina), e com uma ligação nostálgica ao mundo primário (constituindo assim um refúgio).
Já Inês Meira Araújo optou para abordar a ilustração no universo de Tolkien numa interessante e divertida palestra intitulada Os desenhadores de Tolkien. É uma pena não poder apresentar aqui as várias ilustrações daquele imaginário - algumas chegaram às capas de edições em vários países, outras foram vetadas pelo próprio autor. Tolkien chegou mesmo a produzir algumas ilustrações, mas não se via como um profissional nessa área. O que, porém, não o impediu de ser extremamente exigente: afastou artistas americanos por um estilo que considerava "uma aproximação à Disney", e teceu duras críticas a muitas capas de que não gostou. Em 1963, Maurice Sendak (mais conhecido pelo clássico Where the Wild Things Are) chegou a produzir algumas ilustrações para uma edição ilustrada comemorativa, mas essas ilustrações não chegaram a ser publicadas. Dos vários ilustradores com quem trabalhou, Pauline Baynes, sua amiga pessoal, terá porventura sido uma das profissionais que mais se aproximou da sua visão; os mais conhecidos, porém, são Alan Lee e John Howe, que nunca trabalharam directamente com Tolkien mas que ilustraram diversas edições dos vários livros dedicados ao seu universo fantástico - e que contribuíram para a visão artística dos filmes de Peter Jackson.
A manhã terminou com a professora Maria do Rosário Monteiro, com vários trabalhos académicos dedicados à obra de Tolkien (e que praticamente dispensa apresentações). Na sua sessão, intitulada Tolkien e a criação de mundos ficcionais possíveis, começou por considerar "um erro, uma abordagem simplista" a definição de literatura fantástica como escapista ("toda a literatura é escapista, mesmo a pós-moderna", disse a dada altura), e respondeu com muito humor a algumas questões deixadas no ar nos debates anteriores (sobretudo no que diz respeito a Galadriel). Esclarecidas estas questões, deu início a uma fascinante dissertação sobre a criação do universo ficcional fantástico de Tolkien, das influências que absorveu e que exibiu na sua obra (como as cristãs: Tolkien, como se sabe, era católico convicto) à importância da sua formação como filólogo e da sua paixão pelo estudo e pela criação de línguas para a génese da sua ficção (Tolkien considerava a língua "essencial para definir a cultura"). Traçando as origens da Terra Média num "poema publicado em 1915" (The Voyage of Earendël the Evening Star), falou do seu trabalho de uma vida em The Silmarillion e na forma como não concebeu discrepâncias narrativas entre esta obra inacabada e The Lord of the Rings (segundo o que disse, até nas fases da lua as duas obras estão em sintonia). A criação deste universo prendeu-se com uma ambição de "escrever uma mitologia para Inglaterra", nação desprovida de algo que se pudesse caracterizar como tal (as lendas Arturianas não são anglo-saxónicas), que Tolkien desenvolveu com um ritmo narrativo rebuscado a Aristóteles e às tragédias clássicas. E é um universo "masculino" (reminiscências da guerra em que combateu, porventura), onde as personagens femininas nunca são desenvolvidas - Arwen é, para todos os efeitos, uma donzela, e Éowyn funciona um pouco como "um mito reformulado das Amazonas", mas acaba por se revelar "uma personagem feminina falhada, pois nunca consegue ser perfeita" nos objectivos a que se propõe. "Mas também Frodo" (protagonista), disse, "é um falhado".
Isto, note-se, é apenas um resumo um tanto ou quanto mal amanhado de uma excelente palestra sobre Tolkien, com várias ideias interessantes que me levaram a prestar mais atenção ao que dizia do que às notas que anotava no meu caderno. Amanhã, escreverei sobre as sessões que decorreram durante a tarde.
Imagem: The Dark Tower, de Alan Lee
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