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20 de junho de 2014

This happening world (16)

We're losing all our Strong Female Characters to Trinity Syndrome. Tasha Robinson explora neste interessante artigo publicado no portal The Dissolve a constante secundarização de personagens femininas com potencial no fantástico cinematográfico contemporâneo - e dá como exemplo a protagonista feminina de The Matrix (interpretada por Carrie-Anne Moss), que abre o filme com uma sequência de acção inesquecível para, a cada cena, perder importância para as personagens masculinas até ao ponto em que se vê dependente delas. De acordo com Robinson, o mesmo aconteceu com Mako Mori em Pacific Rim, Carol Marcus em Star Trek: Into Darkness - ou com as mais recentes Tauriel em The Hobbit, Wyldstyle em The Lego Movie e Valka em How to Train Your Dragon 2. Mas por que motivo personagens femininas complexas, competentes e, acima de tudo, interessantes, continuam a passar para segundo plano?

No The Guardian, Sandra Newman faz uma apologia estranha, para não dizer polémica, à ficção científica literária clássica - sobretudo àquela ficção científica denegrida de forma consistente na crítica e na academia pelas suas personagens pouco densas, pela sua pobreza estilística, pelo sexismo dos tempos e pela submissão da riqueza estilística às premissas e às ideias. É uma ideia curiosa e polémica, sobretudo se pensarmos que a ficção científica moderna continua a tentar libertar-se desse estigma, não inteiramente verdadeiro - e mesmo Newman, na sua tentativa de o demonstrar, acaba por cair na falácia de cherry picking. Nem por isso, porém, deixa o artigo de ser pertinente, e sobretudo por uma ideia: os conceitos continuam, ou deviam continuar, a ser o centro de todo o género. 

Ainda no The Guardian (era bom termos em Portugal um jornal de referência a falar tanto de ficção científica, não era?), Nicholas Barber augura o ressurgimento da space opera no cinema com o muito antecipado Guardians of the Galaxy - e traça a história do sub-género, desde o seu apogeu em Star Trek e Star Wars nos anos 60 e 70 até ao seu declínio nas duas últimas décadas. 

E a propósito de space operao que significa ao certo o adiamento da estreia de Jupiter Ascending, o próximo blockbuster de ficção científica de Andy e Lana Wachowsky, da época alta de Julho para a época baixíssima de Fevereiro? O tema é explorado neste artigo da Variety, mas sem respostas definitivas: os exemplos de outros filmes recentes que viram a sua estreia adiada, como o aclamadíssimo Gravity ou o não tão aclamado 300: Rise of an Empire, acabam por não permitir grandes extrapolações. 

Anne Elizabeth Moore, no Salon, coloca uma pergunta interessante: Why is the horror genre particularly horrible for women. E, mais do que dar uma resposta, explora o tema à luz de acontecimentos recentes e antigos na sociedade norte-americana. 

17 de maio de 2014

O som e a fúria (25)

Poucas bandas rock serão tão difíceis de classificar como os norte-americanos Tool, que hoje aqui recupero a propósito de um dos seus temas mais memoráveis. Corria o ano de 1996 quando a banda de Maynard James Keenan lançou Ænima - um álbum que, por entre a aclamação crítica, se tornaria num disco incontornável daquela década. E o terceiro single, também intitulado Ænima, emergiu sem surpresa como um dos seus mais persistentes hinos - um tema apocalíptico e intenso (quem já o viu/ouviu ao vivo que o diga), que se fez acompanhar por um videoclip especialmente bizarro, mesmo para os padrões da banda (que habituou o seu público a uma boa dose de abstracção horrível). Aqui fica hoje, na sua versão alargada.


13 de maio de 2014

Under the Skin: Estranha num corpo estranho

Há filmes que, mais do que impressionar pela história que contam, deixam marcas pelas emoções que transmitem - e que tantas vezes se revelam difíceis, se não mesmo impossíveis, de definir. Lembro-me da ocasião em que vi o magnífico Let the Right One In, do sueco Thomas Alfredson, julgo que numa sessão televisiva na RTP2: o desconforto que marca a história daquele rapaz vítima de bullying e da menina enigmática que vive na casa do lado é palpável, quase sufocante - uma sensação difusa mas persistente de que algo ali está profundamente errado. Ou quando fui ver Melancholia, de Lars Von Trier, nos últimos dias da sua passagem pelas salas de cinema de Lisboa (isto em 2011): um filme apocalíptico poderoso como nenhum outro que tenha visto, atrevido ao ponto de mostrar a cena final nos primeiros minutos, numa das mais belas sequências de imagens do cinema recente - não é o final que importa, afinal, mas jornada das irmãs Justine e Claire perante o fim. E será talvez essa inevitabilidade que faz a angústia de Melancholia transbordar para o espectador - esse conhecimento absoluto de que não há redenção possível, e que tão fútil é a aceitação serena como a negação insana. Ou quando, há dias, tive a oportunidade de assistir a Under the Skin, o mais recente filme de Jonathan Glazer, que pegou no romance homónimo do holandês Michel Faber para recriar no grande ecrã a estranheza absoluta e desconfortável do outro, através do seu ponto de vista. 


O que se revela interessante desde logo pela ambição. Na ficção científica, poucos desafios são tão complexos como a representação do outro, do derradeiro desconhecido, do alienígena. Há aqui uma certa ironia: um género rico na imaginação de outros mundos, de viagens nos abismos que separam as estrelas, e das civilizações misteriosas que habitam esses mundos e esses abismos,  a revelar-se com tanta frequência incapaz de mostrar o outro como um verdadeiro alienígena. Mais um reflexo do familiar do que do desconhecido, os extraterrestres da ficção científica, mesmo os mais icónicos, surgem quase sempre humanizados nas suas características; mesmo aqueles que se tentam destacar por um módico de estranheza e de distanciamento racional acabam quase sempre por se aproximar de alguma forma de sociopatia ou autismo do que do estranho. Até o célebre  xenomorph de Alien, por estranho que possa parecer acaba por assumir uma forma que conhecemos: a forma do predador, metódico e implacável (e a alien queen de James Cameron manifesta mesmo uma atitude maternal). É possível que o defeito esteja no olhar humano: a interpretação do desconhecido acaba sempre por ser feita à luz daquilo que já conhecemos. Mas se o ponto de vista fosse o deles, dos alienígenas – se fosse a sua história, vista por nós com os seus olhos, como seria?


Profundamente desconfortável. É a resposta possível que Jonathan Glazer arrisca em Under the Skin ao reduzir a narrativa ao seu mínimo denominador comum e ao esbater os motivos na atmosfera enevoada da Escócia no olhar frio de uma mulher que não é quem, ou o que, aparenta ser. Scarlett Johansson supera-se numa interpretação superlativa, silenciosa na sua melancolia e emotiva na sua ausência absoluta de emoção: ela é a alienígena em pele humana, sensual e inescrutável, que caça homens incautos na noite de Glasgow – para quê, ninguém sabe ao certo. Os seus motivos, esses, são tão insondáveis como ela.


Under the Skin abre com uma sequência de imagens herdeira de 2001: A Space Odyssey (será talvez difícil olhar para o filme sem pensar em Kubrick, referência e influência assumidas por Glazer). No fundo abstracto, ouve-se uma voz a repetir palavras em inglês - como se estivesse a aprendê-las. Num momento, passamos para um território indefinido da Escócia, onde um motoqueiro sem rosto recupera o corpo de uma rapariga de uma vala - e de seguida, vemos a personagem de Scarlett Johansson a despir o cadáver, que é igual a si, e a vestir as suas roupas. E a partir daqui, começa a caçada.


Um dos feitos mais extraordinários de Under the Skin é a forma como consegue retirar a carga sexual de uma actriz como Scarlett Johansson - e isto num filme cuja premissa narrativa reside no ponto de ela seduzir homens. Despida de todo o seu glamour, a alienígena de Johansson afigura-se como uma rapariga evidentemente bela, mas nem por isso menos comum. Vemo-la ao volante de uma Ford Transit branca a guiar ao acaso pela Escócia, abordando homens na rua - Glazer filmou várias cenas com câmaras escondidas, e muitos dos homens que ela aborda não são actores, mas cidadãos comuns. Alguns dão-lhe as indicações que ela solicita e afastam-se. Outros alinham no jogo de sedução, e deixam-se conduzir para o seu covil.


Todo este jogo é, na sua essência, profundamente sexual e sensual - mas a interpretação de Johansson, a realização de Glazer e a banda sonora excepcional de Mica Levi anulam toda a sensualidade e sexualidade da actriz e do momento e substituem esses elementos por um autêntico pesadelo sensorial, numa subversão intrigante e desconcertante. No início, o motivo é repetido sem que se conheça o destino das suas vítimas, até ao momento em que, deixando os propósitos abertos para interpretação, esse destino é revelado - e revela-se indescritível (o livro, tanto quanto sei, é bem mais explícito). 


Aqui chegados, poderíamos pensar que o filme iria conduzir a uma exploração dos motivos daqueles extra-terrestres, cuja aparência humana esconde a sua alienação absoluta. Glazer descreve com detalhe e sem poupar meios o carácter inescrutável daquelas criaturas - alheias às emoções humanas, indiferentes à banalidade das suas vidas, capazes de as imitar com um módico de competência mas incapazes de compreender o que são aquelas criaturas que caçam (a cena da praia, horrível para muitos, é exemplar na sua ilustração absoluta de indiferença). Mas Under the Skin ambiciona mais do que isso, e Glazer opta por deixar os motivos envoltos em mistério para mudar as regras do jogo com uma das vítimas da protagonista, agente involuntário no despontar da curiosidade - e de um fragmento de auto-consciência que a irá mudar de forma radical.


E é neste ponto que Under the Skin se revela superlativo: na reflexão que faz sobre a identidade e sobre o outro através da jornada de descoberta da personagem de Scarlett Johansson, a alienígena perfeita, uma estranha num corpo estranho que se começa a questionar sobre o que é a humanidade, e sobre quão limitada é a sua capacidade de pertencer. Se na primeira parte Glazer embebeu o filme de um desconforto tenso, quase palpável, na segunda fez esse desconforto dar lugar a uma sensação difusa de estranheza, de alienação, de não pertença. De incompreensão. Os momentos da discoteca e dos hooligans são muito ilustrativos da dissonância entre a protagonista e a sua aparência; e o que se segue leva a ideia ainda mais longe. 


No resto, Under the Skin é cinema elevado a arte, no sentido mais subjectivo do termo. A realização de Glazer é metódica, evocativa, muito atenta ao pormenor; a fotografia de Daniel Landin é de uma beleza melancólica ímpar no cinema de ficção científica; a banda sonora da jovem Mica Levi, estreante nestas andanças, é notável pela forma como se funde com as imagens e lhes dá toda uma nova dimensão; e o desempenho de Scarlett Johansson, como já se disse, é magnífico na sua actuação em duplo sentido, na sua transição da indiferente frieza predatória da primeira parte para a confusão identitária da segunda. Uma interpretação espantosa, que eleva o filme e que provavelmente não terá o reconhecimento que merece.


Under the Skin não será um filme para todos - o seu ritmo pausado, meditativo mesmo nos momentos mais tensos, o desconforto que evoca e a forma como Glazer e Campbell reduzem a narrativa de Michel Faber aos seus elementos primordiais para desafiar o espectador a reflectir sobre o significado de cada imagem, de cada sequência, de cada acção. Mais do que mostrar ao invés de contar, Glazer sugere - e deixa ao espectador um amplo espaço para a sua própria interpretação. Quem, no entanto, aceitar o filme nos seus próprios termos, terá em Under the Skin uma obra espantosa, das mais importantes que o género conheceu nos últimos anos. Mais do que isso: terá um filme tão belo como tenebroso, tão estimulante como estranho, tão sossegado como arrojado, onde a estranheza assume o papel principal e onde nos podemos verdadeiramente ver pelos olhos do outro. 9.0/10

Under the Skin (2013, com estreia ao público em 2014)
Realização de Jonathan Glazer
Argumento de Walter Campbell e Jonathan Glazer a partir do romance homónimo de Michel Faber
Com Scarlett Johansson e Jeremy McWilliams
108 minutos

1 de abril de 2014

Aconteceu em Abril:

01 de Abril:

  • 1926 - Nasceu Anne Inez McCaffrey, autora irlandesa de ascendência norte-americana que se notabilizou por ter sido a primeira mulher a vencer os prémios Hugo e Nébula em categorias de ficção - e pela criação da série de ficção científica Dragonriders of Pern, iniciada em 1967 com a novela Weyr Search, publicada nas páginas da revista Analog Science Fiction and Fact. Até ao presente, a série conta com 22 romances (incluindo os escritos pelo seu filho Todd) e inúmeros contos. Na vasta bibliografia de Anne McCaffrey incluem-se ainda obras como The Ship Who Sang (1969), Crystal Singer (1982) e muitos outros. Faleceu aos 85 anos de idade, a 21 de Novembro de 2011.
  • 1942 - Nasceu Samuel Ray Delany, autor, professor e crítico literário norte-americano, cuja obra venceu quatro prémios Nébula e dois prémios Hugo. O seu primeiro romance publicado foi The Jewels of Aptor, em 1962; e nos anos que se seguiriam viria a assinar títulos clássicos da ficção científica como Babel-17 (1966), The Einstein Intersection (1967), Nova (1968), Dhalgren  (1975) e Triton (1976), entre muitos outros. Afro-americano e homossexual assumido, na sua obra encontramos temas recorrentes como a linguagem, a sexualidade e a memória. 

02 de Abril:

  • 1948 - Nasceu Joan D. Vinge (nascida Joan Carol Dennison), autora de ficção científica que se notabilizou no início dos anos 80 ao conquistar o prémio Hugo na categoria principal com The Snow Queen, um romance de ficção científica notável que transporta para um futuro longínquo os temas e os motivos do conto homónimo de Hans Christian Andersen. The Snow Queen teve duas prequelas - World's End, de 1984, e The Summer Queen, de 1991, e uma prequela, Tangled Up in Blue, de 2000. Na sua bibliografia incluem-se ainda a trilogia Cat (Psion, de 1982 Catspaw, de 1988, e Dreamfall, de 1996), e The Outcasts of Heaven Belt (1988), assim como várias novelizações de filmes e colectâneas de ficção curta. 

04 de Abril:

  • 1948 - Nasceu Dan Simmons, autor norte-americano de fantasia, ficção científica e horror. O seu primeiro romance publicado foi The Song of Kali, de 1985, obra vencedora do World Fantasy Award; mas foi com o díptico Hyperion/The Fall of Hyperion (1989 - 1990) que se tornaria num autor de destaque na ficção científica, ao construir uma space opera intricada reminescente de The Canterbury Tales, de Chaucer, e dos poemas de John Keats. Os romances Endymion (1996) e The Rise of Endymion (1997) e o conto Orphans of the Helix (1999) continuam a narrativa de Hyperion. Na bibliografia de Dan Simmons podemos ainda encontrar títulos como Carrion Comfort (1989), vencedor do Prémio Bram Stoker; o díptico Ilium e Olympos (2003 - 2005) e The Terror (2007), entre muitos outros. 

11 de Abril:

  • 2007 - Faleceu Kurt Vonnegut, Jr., autor e satirista norte-americano, combatente na Segunda Guerra Mundial, prisioneiro de guerra e sobrevivente dos bombardeamentos aliados à cidade alemã de Dresden. Na sua bibliografia encontramos clássicos como The Sirens of Titan (1959), Cat's Cradle (1963), Slaughterhouse-Five (1969) e Breakfast of Champions (1973), entre outros. Nasceu a 11 de Novembro de 1922.

12 de Abril:

  • 1921 - Nasceu Carol Emshwiller, autora norte-americana de ficção científica que assinou obras como Carmen (1988) e The Mount (2002).

14 de Abril:

  • 1954 - Nasceu Bruce Sterling, escritor, orador e futurista, e um dos fundadores do sub-género cyberpunk que mudaria de forma radical a ficção científica literária na década de 80. Autor de Schismatrix (1985) e colaborador da antologia Mirrorshades (1986), juntamente com William Gibson, Pat Cadigan e outros. Na sua bibliografia incluem-se ainda títulos como Involution Ocean (1977), o seu romance de estreia, The Artificial Kid (1980), Islands in the Net (1988), Heavy Weather (1994) e Holy Fire (1966). Com William Gibson escreveu ainda The Difference Engine, romance seminal do género retrofuturista steampunk, em 1990. 

15 de Abril:

  • 2002 - Faleceu Damon Knight, autor, editor, crítico e fã de ficção científica, que se notabilizou sobretudo como contista e como organizador das antologias Orbit. A sua ficção curta encontra-se compilada em várias antologias publicadas desde os anos 60.  

16 de Abril:

  • 1922 - Nasceu John Christopher (nome de baptismo: Sam Youd), autor inglês de ficção científica que se distinguiu pelo romance The Death of Grass e pela série de ficção científica The Tripods, orientada para um público young adult. Faleceu a 03 de Fevereiro de 2012. 

19 de Abril:

  • 2009 - Faleceu James Graham "J. G." Ballard, autor avant-garde britânico e um dos mais icónicos rostos do movimento "New Wave" que mudou de forma radical a ficção científica literária na década de 60. No género, notabilizou-se pelas suas distopias sombrias e por romances como The Drowned World (1962), The Burning World (1964), The Crystal World (1966) e High Rise (1975), para além de outros romances e inúmeros contos. A bibliografia de Ballard, porém, não ficaria restrita à ficção científica, tendo entrado no mainstream com obras como a polémica The Atrocity Exibition (1970), Crash (1973) e Empire of the Sun (1984). Nasceu a 15 de Novembro de 1930.

20 de Abril:

  • 1912 - Faleceu Abraham "Bram" Stoker, escritor britânico e autor (entre outros textos) de Dracula, um dos clássicos maiores e mais persistentes do período gótico vitoriano. Nasceu a 8 de Novembro de 1847.

25 de Abril:

  • 1988 - Faleceu Clifford D. Simak, autor norte-americano de ficção científica associado à Golden Age (mas não só). Na sua bibliografia incluem-se romances como Time and Again (1951), Ring Around the Sun (1953) e Way Station (1964), que venceu o prémio Hugo na categoria principal, entre muitos outros. Simak escreveu e publicou ainda dezenas de contos. Nasceu a 3 de Agosto de 1904. 

26 de Abril:

  • 1914 - Nasceu Horace Leonard "H. L." Gold, escritor e editor de ficção cientifica que se notabilizou pela direcção da revista Galaxy Science Fiction entre 1950 e 1961. Publicou contos e romances de alguns dos mais aclamados escritores de ficção científica, como Alfred Bester, Ray Bradbury, Robert A. Heinlein, Cyril M. Kornbluth e Frederik Pohl - o qual seria o seu sucessor ao leme da Galaxy. Faleceu a 21 de Fevereiro de 1996.

28 de Abril:

  • 1948 - Nasceu Terry Pratchett (nome de baptismo: Terence David John Pratchett), escritor inglês que se tornou numa das mais aclamadas figuras da fantasia contemporânea com o universo ficcional de Discworld - um mundo plano e circular assente em quatro elefantes que, por sua vezes, permanecem sobre a carapaça da Great A'Tuin, a tartaruga cósmica que vagueia pelo Universo. O primeiro romance deste universo, The Colour of Magic, foi publicado em 1983; o mais recente, Raising Steam, foi editado no ano passado, e é o 40º livro desta série que começou como paródia à tradição, às imagens e aos conceitos da fantasia, mas que foi evoluindo para histórias satíricas cada vez mais refinadas - e sempre hilariantes. O seu primeiro trabalho foi o romance The Carpet People, de 1971. Pratchett padece de uma forma rara de Alzheimer precoce, e é actualmente uma das figuras mais destacadas na consciencialização para esta doença. 

29 de Abril:

  • 1960 - Nasceu Robert J. Sawyer, autor canadiano de ficção científica cuja bibliografia inclui títulos como Far-Seer (1992), Calculating God (2000) e Rollback (2007), entre outros. O seu romance de 1999, Flashforward, foi adaptado para uma série televisiva com o mesmo título em 2009.  
  • 1968 - Faleceu Anthony Boucher (nascido William Anthony Parker White a 21 de Agosto de 1911), autor de contos de mistério e de ficção científica que se notabilizou também como editor. Foi um dos fundadores da Magazine of Fantasy and Science Fiction.
  • 2011 - Faleceu Joanna Russ, crítica, académica, ensaísta, dramaturga e escritora de ficção científica, e uma das mais reputadas vozes do movimento feminista dentro do género. Na sua bibliografia de ficção incluem-se obras como Picnic on Paradise (1968), The Female Man (1975) e On Strike Against God (1980), entre outros. A sua ficção científica encontra-se compilada em várias antologias. Nasceu a 22 de Fevereiro de 1927.

30 de Abril:

  • 1938 - Nasceu Larry Niven (nome de baptismo: Laurence van Cott Niven), escritor norte-americano de ficção científica e de fantasia. Ringworld, publicado em 1970, viria a ganhar os principais prémios do género e a servir de mote para a série literária homónima. Na sua bibliografia incluem-se ainda as séries Known SpaceMan-Kzin Wars, relacionados com Ringworld, e romances como The Mote in God's Eye (1974). A sua colaboração com Jerry Pournelle tornou-se célebre devido a romances como Inferno (1976) e Lucifer's Hammer (1977). Na fantasia, distinguiu-se com o célebre The Magic Goes Away (1978), que tratou a magia como um recurso não-renovável. 

25 de fevereiro de 2014

Prémios Bram Stoker 2013: Os finalistas

Foi ontem divulgada a lista das obras finalistas do Prémio Bram Stoker 2013, atribuídos pela Horror Writers Association desde 1987 para distinguir com periodicidade anual alguma da melhor literatura de Horror publicada. O prémio distingue trabalhos publicados em várias categorias de prosa, poesia e banda desenhada; o anúncio dos vencedores terá lugar no 27º Bram Stoker Awards Banquet, durate a World Horror Convention 2014 em Portland, Oregon. Os nomeados são (por categoria):

Superior Achievement in a Novel:
  • NOS4A2, de Joe Hill (William Morrow)
  • Doctor Sleep, de Stephen King (Scribner)
  • Malediction, de Lisa Morton (Evil Jester Press)
  • A Necessary End, de Sarah Pinborough e F. Paul Wilson (Thunderstorm/Maelstrom Press)
  • The Heavens Rise, de Christopher Rice (Gallery Books)

Superior Achievement in a First Novel:
  • Candy House, de Kate Jonez (Evil Jester Press)
  • The Year of the Storm, de John Mantooth (Berkley Trade)
  • The Evolutionist, de Rena Mason (Nightscape Press)
  • Redheads, de Jonathan Moore (Samhain Publishing)
  • Stoker’s Manuscript, de Royce Prouty (G.P. Putnam’s Sons)

Superior Achievement in a Young Adult Novel:
  • Special Dead, de Patrick Freivald (JournalStone)
  • Unbreakable, de Kami Garcia (Little, Brown Books for Young Readers)
  • Project Cain, de Georffrey Girard (Simon & Schuster Books for Young Readers)
  • Dog Days, de Joe McKinney (JournalStone)
  • In the Shadow of Blackbirds, de Cat Winters (Harry N. Abrams)

Superior Achievement in a Graphic Novel:
  • Fatale Book Three: West of Hell, de Ed Brubaker (Image Comics)
  • Alabaster: Wolves, de Caitlin R. Kiernan (Dark Horse Comics)
  • Witch Doctor, Vol. 2: Mal Practice, de Brandon Seifert (Image Comics)
  • Sin Titulo, de Cameron Stewart (Dark Horse Comics)
  • Colder, de Paul Tobin (Dark Horse Comics)

Superior Achievement in Long Fiction:
  • “The Bluehole”, de Dale Bayley (The Magazine of Fantasy & Science Fiction, Maio/Junho de 2013)
  • “The Great Pity”, de Gary Braunbeck (Chiral Mad 2, Written Backwards)
  • “The Slaughter Man”, de Benjamin K. Ethridge (Limbus, Inc., JournalStone)
  • “No Others Are Genuine”, de Gregory Frost (Asimov’s Science Fiction, Outubro/Novembro de 2013)
  • House of Rain, de Greg F. Gifune (DarkFuse)
  • East End Girls, de Rena Mason (JournalStone)

Superior Achievement in Short Fiction:
  • “Primal Tongue”, de Michael Bailey (Zippered Flesh 2, Smart Rhino Publications)
  • “Snapshot”, de Patrick Freivald (Blood & Roses, Scarlett River Press)
  • “Night Train to Paris”, de David Gerrold (The Magazine of Fantasy & Science Fiction, Janeiro/Fevereiro de 2013)
  • “The Hunger Artist”, de Lisa Mannetti (Zippered Flesh 2, Smart Rhino Publications)
  • “The Geminis”, de John Palisano (Chiral Mad 2, Written Backwards)
  • “Code 666”, de Michael Reaves (The Magazine of Fantasy & Science Fiction, Março/Abril de 2013)

Superior Achievement in a Screenplay:
  • The Returned: “The Horde”, de Fabien Adda e Fabrice Gobert (Ramaco Media I, Castelao Pictures)
  • American Horror Story: Asylum: “Spilt Milk”, de Brad Falchuk (Brad Falchuk Teley-Vision, Ryan Murphy Productions)
  • Hannibal: “Apéritif”, de Bryan Fuller (Dino De Laurentiis Company, Living Dead Guy Productions, AXN: Original X Production, Gaumont International Television)
  • Dracula: “A Whiff of Sulfur”, de Daniel Knauf (Flame Ventures, Playground, Universal Television, Carnival Films)
  • The Walking Dead: “Welcome to the Tombs”, de Glen Mazzara (AMC TV)

Superior Achievement in an Anthology:
  • Horror Library: Volume 5, ed. R. J. Cavender e Boyd E. Harris (Cutting Block Press)
  • After Death…, ed. Eric J. Guignard (Dark Moon Books)
  • Barbers & Beauties, ed. Michael Knost e Nancy Eden Siegel (Hummingbird House Press)
  • The Grimscribe’s Puppets, ed. Joseph S. Pulver (Miskatonic River Press)
  • Dark Visions: A Collection of Modern Horror, Volume One, ed. Anthony Rivera e Sharon Lawson (Grey Matter Press)

Superior Achievement in a Fiction Collection:
  • North American Lake Monsters: Stories, de Nathan Ballingrund (Small Beer Press)
  • The Beautiful Thing That Awaits Us All and Other Stories, de Laird Barron (Night Shade Books)
  • The Tears of Isis, de James Dorr (Perpetual Motion Machine Publishing)
  • The Ape’s Wife and Other Stories, de Caitlin R. Kiernan (Subterranean)
  • Dance of the Blue Lady, de Gene O'Neill (Bad Moon Books)
  • Bible Stories for Secular Humanists, de S. P. Somtow (Diplodocus Press)

Superior Achievement in Non-Fiction:
  • Images of the Modern Vampire: The Hip and the Atavistic, ed. Barbara Brodman e James E. Doan (Fairleigh Dickinson)
  • Ramsey Campbell: Critical Essays on the Modern Master of Horror, de Gary William (Scarecrow Press)
  • Nolan on Bradbury: Sixty Years of Writing about the Master of Science Fiction, de William F. Nolan (Hippocampus Press)
  • The Intermedial Experience of Horror: Suspended Failures, de Jarkko Toikkanen (Palgrave Macmillan)
  • Lovecraft and Influence: His Predecessors and Successors, ed. Robert H. Waugh  (Scarecrow Press)

Superior Achievement in a Poetry Collection:
  • Dark Roads: Selected Long Poems 1971-2012, de Bruce Boston (Dark Renaissance Books)
  • The Sex Lives of Monsters, de Helen Marshall (Kelp Queen Press)
  • Dangerous Dreams, de Marge Simon e Sandy DeLuca (Elektrik Milk Bath Press)
  • Four Elements, de Marge Simon, Rain Graves, Charlee Jacob e Linda Addison (Bad Moon Books/Evil Jester Press)
  • Hysteria: A Collection of Madness, de Stephanie M. Wytovich (Raw Dog Screaming Press)

16 de janeiro de 2014

John Carpenter (1948 - )

Poucos realizadores terão deixado uma marca tão indelével no cinema fantástico dos anos 70 e 80 como John Howard Carpenter. Nascido em Carthage, no estado de Nova Iorque, Carpenter cedo manifestou um gosto muito especial pelo cinema, sobretudo por westerns, por filmes de terror e por ficção científica - não surpreendendo por isso que muitos elementos destes três géneros possam ser encontrados em várias das suas icónicas películas. Após uma mão-cheia de curtas realizadas nos anos 60, Carpenter estreou-se nas longas-metragens com a comédia de ficção científica Dark Star, de 1974 - mas seria quatro anos mais tarde que se tornaria numa referência ao realizar um dos maiores clássicos do cinema de terror e filme seminal do sub-género slasher: Halloween, que tornaria Michael Myers como um dos grandes vilões do horror cinematográfico.

Ainda no horror, Carpenter realizou The Fog em 1980 - para logo de seguida regressar à ficção científica com dois filmes que se tornaram em clássicos. O primeiro, a distopia que imagina a ilha de Manhattan como uma vasta prisão de segurança máxima, e que teve no anti-herói Snake Plissken o seu protagonista: Escape From New York. O segundo foi The Thing, de 1982: uma nova adaptação da novela Who Goes There?, de John W. Campbell, Jr, mais fiel ao texto original do que o filme realizado por Christian Nyby e Howard Hawks em 1951. Em ambos o papel principal foi dado a Kurt Russel, com quem Carpenter viria a colaborar em mais alguns filmes. Na sua filmografia da década de 80 ainda se incluem o filme Christine (1983), adaptação de uma história de Stephen King, Starman (1984), com Jeff Bridges, o clássico de culto Big Trouble in Little China (1986), o apocalíptico Prince of Darkness (1987) e They Live! (1988). 

O seu trabalho a partir dos anos 90 já não conheceu o fulgor das duas décadas anteriores - ainda se podem destacar Escape From L. A. (1996), sequela directa de Escape From New York, e Vampires, adaptando para o grande ecrã o romance Vampire$, de John Steakley - ainda que ambos os filmes estejam longe dos padrões estabelecidos por algumas das películas anteriores. O que, diga-se de passagem, em nada diminui o estatuto de cineasta de culto que granjeou com os seus filmes dos anos 80 - mesmo quando estes não foram sucessos críticos e comerciais no seu tempo. Carpenter distinguiu-se pela qualidade dos seus efeitos práticos, pela sua estética minimalista e pelas bandas sonoras atmosféricas dos seus filmes, quase sempre compostas pelo próprio. 

John Carpenter comemora hoje o seu 66º aniversário. 

1 de novembro de 2013

Dracula: O vampiro moderno

Não é difícil de imaginar que, quando viu Dracula publicado pela primeira vez no Reino Unido em 1897, Bram Stoker jamais terá imaginado que acabara de criar não só um dos romances mais notáveis do horror gótico, mas também um dos fenómenos literários mais persistentes do século que se seguiria. Para todos os efeitos, mesmo quem nunca tenha lido o livro estará familiarizado com o seu protagonista: Drácula, tão célebre quanto tenebroso, conde da região romena conhecida como Transilvânia, na orla dos Cárpatos. Amaldiçoado pelos seus actos, Drácula é o vampiro, criatura nocturna e imortal que ataca as suas vítimas durante após o pôr-do-Sol para lhes beber o sangue e as transformar em criaturas da noite.

Numa época em que os vampiros na literatura já ultrapassaram todas as fronteiras do ridículo e da paródia involuntária, será talvez mais importante do que nunca regressar a Dracula, texto fundador de uma das mais persistentes criaturas ficcionais da noite. É certo: Bram Stoker não inventou o vampiro. Com o Conde Drácula, porém, deu forma ao vampiro moderno, ao vampiro definitivo - àquele que serviu (serve ainda) de molde a praticamente todos os que se lhe seguiriam. É certo: em larga medida, a transversalidade de Drácula na cultura popular contemporânea deve-se em larga medida à descoberta da obra literária por outra arte: a sétima. A adaptação cinematográfica não autorizada de F. W. Murnau, Nosferatu, levou o Conde Drácula para o cinema  - se não em nome, pelo menos em espírito, em ideia; e deu o mote para uma das personagens mais persistentes no grande ecrã, interpretada em várias épocas por actores tão distintos como Bela Lugosi, Christopher Lee ou Gary Oldman, em três das versões mais conhecidas; mas muitos outros filmes de muitos outros países retrataram a personagem de Bram Stoker, transpondo a história original ou criando algo novo, no mesmo género ou noutros. 

A imagem do cinema reforçou a popularidade do romance e o seu estatuto de clássico da literatura gótica, ao lado de obras como Frankenstein; Or, the Modern Prometheus ou The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde. Um estatuto que, diga-se de passagem, não alcançou por acaso. À semelhança dos clássicos de Mary Shelley e Robert Louis Stevenson, Dracula constrói-se sobre uma estrutura narrativa epistolar, neste caso fragmentada e dispersa pelas notas, memorandos e apontamentos e entradas de diários das muitas personagens que se cruzam no caminho de Drácula. Clippings e outros registos completam o quadro ao introduzir perspectivas neutras de acontecimentos envolvendo o protagonista nos quais nenhuma outra personagem teve qualquer intervenção, directa ou directa. Esta estrutura narrativa poderá talvez parecer estranha para os leitores contemporâneos num primeiro contacto, mas a verdade é que funciona surpreendentemente bem, imprimindo ao texto um ritmo e uma tensão assinaláveis, criando momentos de horror perfeitos e contribuindo de forma decisiva para a atmosfera desconfortável que a história vai criando à medida que se desenrola com urgência para o clímax memorável.

Dracula abre com a viagem do solicitador John Harker de Londres para a Transilvânia, em busca do longínquo castelo do Conde Drácula - que deseja adquirir propriedades em Londres. O encantamento inicial perante aquele conde tão carismático como misterioso cedo dá lugar ao horror quando Harker se apercebe do que se passa no castelo durante a noite; e, quando Drácula parte por fim, é quase por milagre que o solicitador se salva das criaturas que habitam entre aquelas paredes. Em Inglaterra, um estranho naufrágio esconde algo sinistro entre um carregamento invulgar de caixas com terra oriunda da Roménia. Recordando as conversas com Harker, Drácula começa a procurar a sua noiva, Wilhelmina Murray (Mina), e a sua amiga, Lucy Westenra. As suas acções, porém, não passam desapercebidas; e quando Lucy cai doente, o Dr. John Seward chama da Holanda o seu mentor, o Professor Abraham Van Helsing, que vai expor as origens sobrenaturais das aflições de Lucy e tentar encontrar uma forma de parar a criatura que ameaça Londres. E a história progride, repleta de tensão e de memoráveis momentos de horror, aberta por um elenco tão vasto como interessante: ao casal formado por Mina e Harker junta-se Lucy e os seus três pretendentes, o Dr. Seward, o norte-americano Quincey Morries e Arthur Hornwood; e, mais tarde, Van Helsing, portador de grande carisma, inteligência e sagacidade. Os pontos de vista individuais destas personagens dão forma à narrativa; e os seus contactos com Drácula, directos e indirectos, tornam possível a construção excepcional do vilão, com uma textura digna de nota. 

Com o seu tom sempre sombrio, a sua prosa impecável e a sua estrutura epistolar a imprimir uma cadência muito própria e muito eficaz à narrativa, Drácula é uma obra-prima em todos os sentidos da palavra - com a aventura que encerra e os horrores que descreve. E a lenda de Drácula transbordou das páginas do manuscrito de Bram Stoker - tornou-se na imagem original do vampiro, no padrão por excelência que muitos autores imitaram, homenagearam ou evitaram - mas que não conseguiram contornar. Por mais reinvenções e actualizações e modas que surjam e passem, Conde Drácula só há um: eterno, único e inigualável.

4 de outubro de 2013

Guillermo Del Toro realiza genérico para episódio de Halloween de The Simpsons

E o resultado, como se pode ver abaixo, é absolutamente genial - com mais referências ao Horror enquanto género ficcional do que seria expectável em pouco menos de três minutos. Sem esquecer, claro, os seus próprios filmes: Hellboy 2: The Golden Army, Blade 2, El laberinto del fauno e Pacific Rim são também parodiados neste extraordinário genérico. E não só recorda os mestres Ray Bradbury e Richard Matheson, falecidos nos últimos dois anos, como também dá uma irónica achega à discussão (estranhamente reacendida nas últimas semanas) sobre Stephen King e a adaptação de Stanley Kubrick a The Shining. Mas vejam, vejam. 



16 de julho de 2013

A fábula natalícia e referencial de Gremlins

Será possível encontrarmos um filme que encaixe nas categorias de produção de "comédia" e "horror" para "toda a família"? Nos anos 80 e no início dos anos 90, vários foram os filmes que demonstraram que sim, misturando elementos tradicionais do cinema de horror com várias formas de comédia para criar obras passíveis de serem apreciadas por vários tipos de audiências - como Ghostbusters ou The Addams Family, obras indissociáveis da sua época concreta mas que nem por isso deixam de preservar, duas ou três décadas volvidas, alguma frescura em relação ao cinema familiar contemporâneo e um charme vintage muito especial. Em 1984, Steven Spielberg, Chris Columbus e Joe Dante uniram esforços como produtor executivo, argumentista e realizador (respectivamente) e deram o seu contributo para este género muito específico com Gremlins, um dos mais curiosos e divertidos filmes de Natal de que há memória.

E tal como os outros filmes mencionados, Gremlins é um filme que só poderia ter sido produzido nos anos 80 - a estética tão característica daquela época entra pela película adentro desde os primeiros minutos e está presente em cada cena, em cada imagem da pequena cidade a acordar para um pesadelo em vésperas de Natal. 


Em plena quadra natalícia, o inventor (falhado) Randall Peltzer (Hoyt Axton) procura um presente para dar ao filho, e numa loja obscura de Chinatown encontra uma criatura tão prodigiosa como encantadora - um Mogwai. O dono da loja não o quer vender, com o argumento de que ter um Mogwai é uma tremenda responsabilidade; o seu neto, porém, ignora a advertência e vende a criatura a Randall, deixando-lhe três regras para cuidar do animal que deverá seguir à risca: nunca o expor à luz do Sol, nunca o molhar e nunca o alimentar depois da meia-noite.


Como em qualquer filme de terror que se preze, estas três regras não vão ser cumpridas à risca (ainda que de forma não intencional), o que vai conduzir a consequências imprevisíveis quando o adorável Gizmo dá origem a uma série de outros Mogwai, que por sua vez se transformam em algo um tanto ou quanto sinistro, e deixam a pacata cidade de Kingston Falls mergulhada no caos, com Billy (Zach Galligan) e Kate (Phoebe Cates) a terem de encontrar uma solução para os ataques dos 'Gremlins'...


Para todos os efeitos, Gremlins joga com as mais convencionais regras das narrativas cinematográficas de terror - o quebrar das regras de cuidado dos Mogway, um monólogo em jeito de foreshadowing (sobre as criaturas no limpa-neves), e uma série de acontecimentos macabros - e, por que não dizê-lo, surpreendentemente violentos para um filme familiar. Mas Gremlins nunca se assume como um filme de terror, tendo Dante, Columbus e Spielberg optado por um twist cómico através de Stripe e dos seus lacaios. Mais do que assustadoras ou violentas, as acções dos 'Gremlins' - tal como a reacção de algumas personagens - são sobretudo cómicas, com a segunda parte do filme a incluir mais puns e mais piadas bem construídas e divertidas do que a maior parte daquilo que hoje em dia passa por comédia em cinema. 'Gremlins' a fazer cânticos de Natal? Sim. 'Gremlins' numa luta de bar com álcool, cigarros e armas à mistura? Sim. 'Gremlins' a construir armadilhas dignas de um Home Alone? Sim. E mais, muito mais.


Claro que, vindo de onde vem - e tendo sido produzido por quem foi -, Gremlins é também um filme marcadamente referencial, não só na desconstrução que faz de todo um género cinematográfico, mas também no tributo que presta a outros temas fortes do cinema (e mesmo à obra de Spielberg em alguns momentos e em pelo menos um easter egg muito bem encaixado), e mesmo ao cinema propriamente dito. A imagem dos ruidosos 'Gremlins' na sala de cinema a ver Snow White com os óculos 3D estaria talvez datada no final da década de 90 - mas será hoje mais pertinente do que o era aquando da estreia original.


Em termos visuais, as marionetas prestam tributo aos Muppets de Jim Henson e conseguem ser em simultâneo adoráveis e terríveis; e em pleno 2013, a conjugação das marionetas com as técnicas de animatronics algo antiquadas confere a Gremlins um charme que decerto não teria se fosse um filme moderno, feito com CGI topo de gama. Também aqui se notam os traços indeléveis dos anos 80 - mas se Gremlins é um filme decididamente filho do seu tempo, nem por isso está hoje datado, quando se passaram quase 30 anos sobre a sua estreia. Com a sua combinação improvável de ambiente familiar a oscilar entre o cómico e o horror, com referências cinematográficas e um guião inteligente a proporcionar muitas e diversas leituras (e, não esquecer: uma Chekhov's blender!), Gremlins merece sem dúvida o estatuto de 'clássico'. A ver e rever, no Natal ou no Verão. 7.8/10

Gremlins (1984)
Realizado por Joe Dante
Argumento de Chris Columbus
Com Zach Galligan, Phoebe Cates, Hoyt Axton, Harry Carey Jr., Corey Feldman, Polly Holiday e Frances Lee McCain
107 minutos

25 de junho de 2013

Richard Matheson (1926 - 2013)

Está a ser um ano especialmente difícil para a ficção científica literária. Richard Matheson faleceu há dois dias. Tinha 87 anos. A sua longa e produtiva carreira literária teve início em 1950 com o conto Born of Man and Woman, publicado na revista The Magazine of Fantasy and Science Fiction; e, nas seis décadas que se seguiram, assinou inúmeros contos e vários romances que se tornaram clássicos da fantasia, da ficção científica e do horror. I Am Legend (1954) será porventura o mais conhecido, mas obras como The Shrinking Man (1956), Bid Time Return (1975) e What Dreams May Come (1978) merecerão igualmente destaque. E poucos autores viram uma parcela tão vasta da sua obra ser adaptada para o cinema: I Am Legend (três vezes), The Shrinking Man, Hell House, A Stir of Echoes, Bid Time Return e Steel conheceram adaptações cinematográficas.

Richard Matheson escreveu ainda argumentos para várias séries televisivas de sucesso, como The Twilight Zone e Star Trek, e também para filmes destinados ao pequeno e ao grande ecrã. Foi o autor do argumento do filme The House of Usher, que adaptou para o cinema o célebre conto de Edgar Allan Poe. 

2 de abril de 2013

The Cabin in the Woods, ou a desconstrução do terror pela ficção científica de terror

É-me especialmente difícil escrever sobre The Cabin in the Woods, o filme realizado por Drew Goddard e realizado por Goddard e Joss Whedon que se tornou num dos grandes êxitos da crítica em 2012. Isto por dois motivos. O primeiro: enquanto género cinematográfico (e mesmo literário), o Horror sempre me pareceu pouco atractivo, e poucos foram os filmes que me conseguiram cativar - as mais visíveis excepções serão The Shining (que, enfim, é Kubrick), The Storm of the Century (na prática, mais um thriller sobrenatural com alguns sustos do que um filme de terror). O segundo: o intrincado enredo construído por Goddard e Whedon torna difícil falar das suas forças sem referir spoilers que o enfraquecem. No entanto, talvez estes motivos me ajudem - não sem alguma ironia - a dar forma a algo que se assemelhe a uma crítica, ou a uma análise a The Cabin in the Woods.

Comecemos então pelo primeiro. Mais do que um filme de horror, The Cabin in the Woods é uma desconstrução do género, que utiliza as suas convenções e tropes mais conhecidas para construir uma sátira inteligente, onde nada é aquilo que aparenta aparentar. Isto torna-se evidente na sua premissa fundamental, que poderia descrever The Evil Dead e muitos outros filmes: cinco jovens vão passar um fim-de-semana à casa de campo do familiar de um deles, mas estão muito longe de imaginar o que os espera. E se o clássico  de terror de Sam Raimi é uma das mais evidentes referências ao género (desde logo pela premissa, pela cabana e por muitos outros elementos e easter eggs), ela está longe de ser a única: ao longo dos seus 95 minutos de duração, The Cabin in the Woods homenageia, parodia e alude a inúmeros filmes que fazem parte da história do horror cinematográfico, conjugando as inevitáveis referências aos clássicos do género com outras de carácter mais obscuro. Para os cinéfilos apaixonados pelo horror, o exercício será porventura fascinante.


Já o enredo - para entrar no segundo ponto - é Whedon clássico, temperando a aparente seriedade da premissa com humor e com as suas inevitáveis one-liners, uma das imagens de marca de algumas das suas criações (como Firefly ou The Avengers). Aquilo que mais impressiona no argumento de The Cabin in the Woods, porém, é a inteligência da sua escrita à medida que desenvolve a narrativa como um puzzle, jogando com as expectativas do público para lhe retirar constantemente o tapete. Sabemos desde os primeiros minutos que há algo de errado na ideia apresentada: de um lado, temos os típicos adolescentes, que pequenas sugestões indicam não ser tão típicos quanto isso, a preparar o seu fim-de-semana na floresta; do outro, temos um estranho ambiente de escritório, quase deslocado e sem dúvida descontextualizado, numa narrativa secundária cujo cruzamento com a principal parece ao início improvável (para dizer o mínimo). E diria que isto é tudo aquilo que se pode dizer do filme sem estragar a experiência: se o fim-de-semana daqueles jovens será tudo menos aquilo que eles espera, também The Cabin in the Woods será tudo menos o filme de terror que o público esperará.


Isto porque na sua essência, The Cabin in the Woods é mais do que uma sátira ou do que um filme de terror com elementos de ficção científica. É uma comédia tão negra como inteligente, que parodia de forma elegante os vários elementos que a constituem para gerar tanto sustos como gargalhadas, num misto de homenagem com reflexão sobre o próprio género. Mas o humor que atravessa toda a narrativa não poderia estar mais distante do slapstick que habitualmente acompanha o cruzamento do horror com a comédia; mais subtil, ele surge na reflexão que os vários elementos proporcionam sobre a sua natureza, sobre a forma como o suspense é construído, e pela forma como o absurdo é montado e desmontado de forma quase simultânea. Por si só, estes elementos já formariam um excelente filme. Junte-se a tudo isto um elenco sólido e a atenção dada por Goddard e Whedon ao detalhe e às referências internas externas em todo aquele puzzle narrativo, e o resultado é um filme a todos os níveis excepcional. 8.4/10


The Cabin in the Woods (2012)
Realização de Drew Goddard
Argumento de Drew Goddard e Joss Whedon
Com Kristen Connoly, Chris Hemsworth, Anna Hutchison, Fran Kranz, Jesse Williams, Richard Jenkins e Bradley Whitford
95 minutos

11 de dezembro de 2012

O hilariante horror de Evil Dead 2 e Army of Darkness

Quem costuma acompanhar o blogue já terá certamente reparado que, dentro dos vários géneros do Fantástico, é muito raro referir o horror. O que, convenhamos, não acontece por acaso: em termos gerais, de facto, o horror enquanto género interessa-me menos do que a fantasia ou a ficção científica. O que não quer dizer que não aprecie algumas obras marcantes do género: na literatura, o clássico Drácula de Bram Stoker revelou-se numa leitura cativante, e estará para breve a leitura de Lovecraft; e como poderia esquecer as incontáveis horas que, durante a adolescência, passei a jogar Resident Evil 2 e Resident Evil 3: Nemesis na velhinha Playstation? Hoje, porém, é dia de falar de cinema, e nesse sentido vou aproveitar para falar de dois dos poucos filmes de horror que realmente aprecio: Evil Dead 2 e Army of Darkness.

Certo: podemos debater se Evil Dead 2 é de facto um filme de horror ou uma comédia - tem elementos de ambos os géneros, e julgo que é nessa combinação muito bem conseguida por Sam Raimi que reside o charme deste filme de série B de baixo orçamento e muitos recursos. Poderíamos também debater se Evil Dead 2 é uma sequela ou um remake ao original que Raimi realizou em 1981 - não o farei porque, confesso, nunca vi o famoso filme original (por aquilo que li sobre ambos, diria que o segundo é um misto de sequela e remake do primeiro, mas quem conhecer bem a trilogia que diga de sua justiça). Ficamos, então, pela sequência de Evil Dead 2 e Army of Darkness, e julgo que ficamos muito bem.

No centro de ambos os filmes está o Necronomicon Ex-Mortis, o Livro dos Mortos sumério, encadernado em pele humana e escrito com sangue, que contém vários feitiços e encantamentos de evocação demoníaca. Em Evil Dead 2, esse livro foi encontrado por um casal de arqueólogos que o levaram para a sua cabana na floresta, onde começaram a tradução das suas páginas. Sem saber disso, Ash Williams (Bruce Campbell) decidiu ir passar o fim-de-semana com a sua namorada, Linda (Denise Bixler) para uma cabana remota que conhece na floresta, certo de que os seus proprietários não estarão por lá. Como esperado, encontram a cabana vazia - e nela encontram o Necronomicon e um gravador. A gravação contém o início da tradução das páginas do livro, e ao ouvirem-na, libertam uma força demoníaca que vai tornar o seu fim-de-semana idílico num tremendo pesadelo. Army of Darkness vai continuar a narrativa exactamente onde Evil Dead 2 a deixou: com as páginas que faltavam ao Necronomicon, Ash conseguiu abrir um portal para levar a força demoníaca, mas acabou por ser também sugado para o seu interior. Para seu espanto e horror (e tal como estava ilustrado numa das páginas), vai parar à Idade Média durante um ataque de deadites, as criaturas demoníacas do Necronomicon. E com ele segue o seu Oldsmobile, a sua moto-serra e, claro, a sua caçadeira - doravante apelidada de "boomstick".

Começando pelo óbvio: nem Evil Dead 2 nem Army of Darkness seriam memoráveis sem Bruce Campbell, um mestre do humor slapstick que com a sua expressividade dá vida a todo o filme. A cena da possessão demoníaca da sua mão direita em Evil Dead 2 é disso o exemplo perfeito, mas muitas outras, de ambos os filmes, poderiam ser mencionadas. O desempenho de Campbell é de tal forma notável que coloca na sombra os restantes actores, quase tornando os filmes na sua batalha pessoal contra as forças do Mal - e o mais curioso é que isso resulta muito bem. 

Ambos os filmes são também exemplares na sua economia de meios e, diria, na imaginação com que Raimi e a sua equipa improvisaram (ou parece que improvisaram) imensos detalhes. Uma visualização mais superficial pode dar a ideia de estes serem filmes quase amadores, mas esse aspecto mais gritty dos filmes acaba por se revelar num dos seus principais pontos fortes. Com orçamentos muito limitados, e numa época em que ainda não se resolviam todos os problemas com CGI (para o bem e para o mal), Raimi colocou todas as fichas nos truques de câmara, na maquilhagem, nas próteses e na stop-motion, reservando os (poucos) efeitos especiais para os momentos em que são efectivamente necessários. Como resultado, os monstros são de facto monstruosos, as cenas mais cómicas de Evil Dead 2 nunca deixam de ser vagamente creepy e o famigerado Army of Darkness é um vasto e espectacular exército de esqueletos stop-motion. Do ponto de vista visual, ambos os filmes constituem uma obra única, fruto da enorme criatividade de Sam Raimi e do talento slapstick de Bruce Campbell.

Evil Dead 2 e Army of Darkness alcançaram um estatuto de culto ao longo dos anos, e estão hoje firmemente ancorados na cultura popular. Alguns dos seus momentos, como a cena da mão no segundo filme, são a todos os níveis icónicos inesquecíveis. O legado de ambos os filmes é vasto, e muitas das suas cenas foram referidas e parodiadas em muitos outros trabalhos em vários meios. Duke Nukem, uma das personagens mais icónicas dos videojogos da década de 90, é uma mistura dos heróis musculados do cinema de acção com Ash Williams ("Groovy!"), e até os autores de Mass Effect não resistiram a aproveitar os métodos muito peculiares de Ash para lidar com palavras mágicas num momento tão surpreendente como hilariante do jogo. É certo que Evil Dead 2 e Army of Darkness podem causar mais gargalhadas do que sustos, mas sejamos francos - em ambos os casos, isso está muito longe de ser um problema. 8.5/10 // 8.0/10

Evil Dead 2 (1987)
Realizado por Sam Raimi
Com Bruce Campbell, Sarah Berry, Danny Hicks, Kassie Wesley, Denise Bixler e Ted Raimi
84 minutos

Army of Darkness (1992)
Realizado por Sam Raimi
Com Bruce Campbell, Embeth Davidtz, Marcus Gilbert, Ian Ambercrombie, Richard Groove e Ted Raimi
81 minutos

22 de outubro de 2012

Sugestões de leitura

No The Verge, recorda-se Douglas Adams e Dirk Gently's Holistic Detective Agency, livro que faz parte da minha "to buy-list" desde que li The Hitchhiker's Guide to the Galaxy há quatro ou cinco anos. Pela descrição, parece tão hilariante como o clássico de comédia FC. 

No io9, entrevista com Bruce Campbell, o único e inigualável dos lendários filmes da série Evil Dead de Sam Raimi. A entrevista é sobre o remake que está a ser produzido, e que estreará para o ano. É sempre um prazer ler/ouvir Campbell (como é sempre um prazer rever Evil Dead 2 e Evil Dead 3: Army of Darkness), mas deste lado mantém-se o cepticismo: Evil Dead sem Campbell não é Evil Dead.

Na BBC News (ignorem a data de publicação, por favor), um artigo muito interessante a propósito dos 30 anos de Blade Runner e dos dez anos de Minority Report: Blade Runner: Which Predictions Have Come True? Ambos os filmes - baseados em obras de Philip K. Dick - se situam em futuros relativamente próximos que mostram um certo grau de previsão. Quais dessas previsões bateram certo? (Nota: ainda temos cinco anos para desenvolver os hovercars do Blade Runner).