28 de maio de 2013

Hellboy II: The Golden Army, ou o detective do paranormal de Mignola no conto de fadas de Del Toro

Talvez valha a pena introduzir o filme de hoje com uma pequena história pessoal. Quando Hellboy II: The Golden Army estreou no Verão de 2008, foi com imensa relutância que acabei por ir vê-lo ao cinema. Por vários motivos: não conhecia o universo de fantasia noir desenvolvido por Mike Mignola na Dark Horse desde os anos 90, nutria uma profunda desconfiança por quase todas as adaptações cinematográficas de comic books, e não só não tinha visto o primeiro filme como também ainda desconhecia por completo o trabalho de Guillermo Del Toro. Um amigo mais insistente, porém, acabou por me convencer a dar-lhe uma oportunidade, e ainda bem que o fiz: em duas horas fiquei a conhecer Del Toro, descobri o universo de Hellboy, aproximei-me do universo dos comics - que hoje conheço bem melhor, ainda que esteja muito longe de ser um expert - e o preconceito para com os filmes adaptados deste meio começou a dissipar-se. E, claro, vi no grande ecrã um filme notável, sem dúvida merecedor de um lugar de destaque entre a melhor fantasia cinematográfica do novo milénio. 

Agora que já estou mais familiarizado com o universo de Mignola e que já vi o filme original de Del Toro, é-me um tanto ou quanto difícil evitar comparações entre ambos. E se em Hellboy o realizador mexicano se preocupou acima de tudo com uma recriação bastante fiel da história das origens do protagonista tal como Mignola e Byrne a conceberam nos comics, já The Golden Army parece ser mais do que uma adaptação cinematográfica de uma personagem de banda desenhada - um Hellboy no qual o realizador, tendo deixado para trás a introdução do universo e a apresentação das personagens, pudesse dar largas à sua (tremenda) imaginação.


Olhando hoje para trás, é bom de ver que entre Hellboy e The Golden Army aconteceu... El Laberinto del Fauno, a obra-prima em tom de conto de fadas retorcido que confirmou Guillermo Del Toro como um cineasta a seguir com atenção. Livre dos espartilhos lovecraftianos do comic, o realizador e argumentista deu largas à imaginação para preencher todo um mundo sobrenatural povoado por trolls com membros mecânicos, fadas-dos-dentes carnívoras (e estranhamente adoráveis quando não estão a triturar ossos), semideuses de uma Natureza esquecida, um Anjo da Morte notável e toda uma sociedade fantástica a viver nas sombras da Humanidade naquele prodigioso troll market.


Claro que uma história não é feita apenas de criaturas fantásticas - e Del Toro soube criar uma mitologia interessante para enquadrar a narrativa, falando de um conflito primordial, relegado ao estatuto de lenda, entre os seres humanos e as criaturas do mundo natural, entre as quais se destacavam os elfos, liderados pelo Rei Balor. Uma guerra ancestral levou à criação pelos goblins, a pedido do rei, do Exército Dourado - setenta vezes sete guerreiros mecânicos, incansáveis e incapazes se sentir remorso ou compaixão, cuja capacidade destrutiva levou Balor e a Humanidade a estabelecer uma trégua entre o mundo natural e o mundo humano. Toda esta backstory é contada por Broom a Hellboy quando este ainda era uma criança, e é mostrada através de um prólogo animado tão simples como eficaz.


No presente, os Elfos são uma raça decadente, o seu mundo natural original destruído pelo avanço da Humanidade. O príncipe Nuada (Luke Goss) regressa do exílio para declarar guerra aos humanos e recuperar o mundo da sua raça - e para isso procura obter as três peças da coroa real que permitem ao seu dono acordar e controlar o Exército Dourado - contando com a oposição de Balor (Roy Dotrice), o seu pai, e Nuada (Anna Walton), a sua irmã.


Eventualmente, o seu caminho vai cruzar-se com os agentes do B.P.R.D., cujo carácter incógnito desagrada a um Hellboy (Ron Pearlman) desejoso de mostrar ao mundo o trabalho que desenvolve com os seus colegas - minando sistematicamente o trabalho de Tom Manning (Jeffrey Tambor). Um problema que assume proporções tais que obriga à vinda de um novo líder para a equipa: o etéreo médium ectoplásmico Johann Krauss.


É certo que alguns momentos na narrativa parecem um tanto ou quanto forçados (a transição entre Nova Iorque e a Irlanda, sobretudo), mas os raros momentos de falta de articulação narrativa são compensados pelo sentido de humor e pelo excepcional equilíbrio alcançado entre um certo tom mais ligeiro e o ambiente de dark fairy tale presente e praticamente todas as cenas. É aqui que se nota o cunho muito pessoal de Guillermo Del Toro: os efeitos especiais são utilizados com mestria para recriar o mundo de Hellboy, com as suas lendas e as suas criaturas, suportando passagens de acção de grande impacto e vários momentos memoráveis com a sua estética inconfundível.


Se naquela hoje longínqua sessão de cinema no Verão de 2008 Hellboy II: The Golden Army me pareceu um filme muito interessante, hoje, cinco anos volvidos, o interesse é redobrado - e ainda que os motivos sejam diferentes, todos os elementos que me fizeram gostar tanto do filme quando o vi continuam frescos e apelativos. Ritmado, imaginativo e visualmente impressionante, o segundo filme de Hellboy é uma pequena maravilha. Pode não ter a carga emocional e imaginativa de El Laberinto del Fauno ou a solenidade épica de The Lord of the Rings, mas em momento algum - e apesar das influências evidentes - ambiciona ser um ou outro, traçando o seu próprio caminho com um tom muito próprio e um worldbuilding inspirado. Seria sem dúvida interessante ver um terceiro filme realizado por Del Toro para encerrar o arco narrativo mais amplo que Hellboy e The Golden Army constroem; até lá, há neste segundo filme motivos mais do que suficientes para justificar novos visionamentos*8.3/10

Hellboy II: The Golden Army (2008)
Realizado por Guillermo Del Toro
Argumento de Guillermo Del Toro e Mike Mignola, com base nos comics de Mike Mignola
Com Ron Perlman, Selma Blair, Doug Jones, Jeffrey Tambor, John Alexander, Seth MacFarlane, Luke Goss e Anna Walton
120 minutos

* Ora aqui está uma palavra que abomino - mas de madrugada revelou-se impossível arranjar melhor. 

4 comentários:

Loot disse...

Como já tinha referido o facto do Del Toro se ter aventurado fora da BD (mto fora) levou a algumas opiniões negativas que não gostaram disso.

Eu pessoalmente adorei. As personagem do Mignola no universo Del Toriano funcionou muito bem. Já agora se gostaste do Labirinto aconselho o El Espinazo del diablo dele também.

Abraço

João Campos disse...

Eu também.

Lá está - não conheço a fundo os comics, tendo lido pouca coisa (ainda - gostei muito do que li, quero continuar e até sei que o Hellboy veio a Tavira, que é quase a minha segunda casa). Para mim, a mistura funciona mesmo muito bem.

Abraço

Nuno Vargas disse...

Vi cada filme uma vez, há já algum tempo, mas entretanto comprei os DVDs porque realmente são grandes filmes. Um dia destes vejo outra vez!

João Campos disse...

Também os verei - e espero mesmo que o Del Toro faça um terceiro filme para fechar o ciclo (tanto quanto sei, o Ron Perlman quer fazê-lo).

Aliás, esse é um dos motivos pelos quais espero que o próximo filme de Del Toro, Pacific Rim, seja um sucesso estrondoso (o outro, enfim, é o facto de tudo o que já foi mostrado do filme ser espectacular). Depois de trabalhos como os dois Hellboy e El Laberinto del Fauno, Del Toro precisa de acertar com um grande blockbuster (como o Joss Whedon no ano passado). A partir daí, será sem dúvida mais fácil vê-lo a realizar outros projectos...