6 de junho de 2014

Frankenstein, ou: os horrores do Prometeu moderno

Será talvez difícil para os leitores contemporâneos afastarem-se da imagem do monstro de Frankenstein que se tornou icónica na cultura popular moderna - o rosto mortificado e imortal a que Boris Karloff deu vida no célebre filme de James Whale, estreado nos hoje longínquos anos 30 (1931). Mais difícil será ainda essa separação quando, para todos os efeitos, criador e criatura se fundiram no imaginário popular, com o nome do primeiro a ser utilizado com frequência para nomear o segundo - e com as imagens persistentes do colosso disforme a ser animado pela energia de um relâmpago, e a aterrorizar aquele que lhe deu vida, e quem o rodeia. Algo que se torna especialmente relevante quando a leitura das primeiras páginas de Frankenstein; or, the Modern Prometheus de Mary Shelley dá desde logo indícios de que a história que se segue não será talvez tão "visual".

Desenvolvida numa estrutura de vários momentos enquadrados a surgir ligados pelo contacto entre as personagens que servem de ponto de vista, Frankenstein abre com a viagem exploratória do Capitão Walton ao Árctico, ávido de revolucionar o conhecimento científico da sua época no que ao magnetismo polar diz respeito. Mas nos gelos flutuantes do pólo vai encontrar algo muito mais improvável ao vislumbrar um trenó que transporta uma criatura de grandes proporções, na sua aparência disforme impossível de identificar; e, pouco depois, ao recolher a bordo do seu navio um homem severamente abatido, tanto em termos físicos como emocionais. Esse homem diz chamar-se Victor Frankenstein, e ao reconhecer a ambição e a sede de conhecimento do jovem Walton, decide contar-lhe a história da sua vida - um conto bucólico que cedo se revela macabro ao revelar a criação de um mostro que animou com vida, só após esse acto irreversível tendo percebido a sua natureza horrível; e como tal criatura o atormentou até aos gelos de Norte, no fim dos seus dias. Do longo conto de Frankenstein passamos para o conto da própria criatura, narrado ao seu criador numa gruta nos Alpes suíços; a história do seu acordar no desconhecimento e na ignorância, na descoberta deliciosa do mundo que o rodeia e das criaturas fascinantes que nele vivem, e na rejeição dessas criaturas - e do seu criador, acima de todas as outras - que o conduziu ao mal. Do monstro regressamos a Frankenstein, perseguido pelo terrível destino que soltou na sua sede de fama e de conhecimento, e que o conduziu, a ele e à sua família, à mais grotesca das tragédias; e o longo desenvolvimento que Shelley deu à juventude bucólica de Victor constrói com esta segunda parte do seu conto uma antítese espantosa pela sua carga emocional e dimensão trágica. Por fim, com a tragédia consumada, regressamos a Walton, preso no Árctico, encerrando o círculo numa simetria perfeita. 

É através dessa tragédia de Frankenstein que Shelley explora os vários temas que tornam Frankenstein num livro tão relevante e tão influente, revelando-se no célebre cautionary tale sobre os perigos do processo científico descontrolado, movido apenas pela ganância e ao arrepio de quaisquer considerações éticas e morais. Para todos os efeitos, é a ambição desmedida do jovem Victor, tão desejoso de deixar a sua marca no mundo científico, que o conduz à perdição; na sua cegueira não se apercebe de que se prepara para dar vida a um monstro, e não à criatura maravilhosa com que sonhava, e ao deixá-la só no mundo, sem educação ou orientação, acaba por tornar inevitável a sua queda da graça original. A alusão religiosa está bem presente nas referências ao Éden bíblico e ao inferno que Milton descreve no seu Paradise Lost (obra referida de forma directa no texto, sendo um dos livros que a criatura lê): Victor no seu desejo ardente de obter pela ciência a dádiva divina da criação de vida; e a criatura, qual Adão, escorraçada do Paraíso. 

Não é por acaso que Frankenstein é considerado com frequência um dos textos fundadores da ficção científica enquanto género literário - a sua exploração da ciência da época para a criação, a oposição entre as ciências então modernas e as lições datadas de pseudociências do passado que para os cientistas contemporâneos não passariam de superstição e, acima de tudo, o tema da responsabilidade científica, asseguram ao romance de Mary Shelley um lugar importantíssimo na formação de um género que só se popularizaria ao fim de mais de um século. Mas Frankenstein é muito mais do que isso: em última análise, é uma desconstrução notável do mito de criação e é, ao mesmo tempo, uma parábola tão fascinante como desconcertante sobre o que verdadeiramente significa ser-se humano - tanto nos seus momentos mais nobres como nos mais ignóbeis.  

4 comentários:

artur coelho disse...

spoilers: o prometeu do título revela tudo... ;)

João Campos disse...

Não se não conheceres o mito do Prometeu (e acredita: nem toda a gente conhece, e muita gente só lá chega pelo Cáucaso, a águia e as iscas de cabidela. E o ponto, como bem sabes, não é esse :) )

Rui Bastos disse...

É um dos meus livros favoritos. O que eu acho mais revolucionário é o facto de mostrar ambos os lados da questão, do criado e do monstro, revelando que não há propriamente um vilão... Ou que só há vilões.

João Campos disse...

Para a época em que foi escrito, não creio que seja esse o aspecto mais revolucionário de "Frankenstein". Mas merece a referência, sem dúvida. É uma excelente leitura, juntamente com "Dracula" e "The Strange Case of Jekyll and Mr. Hyde".