6 de setembro de 2013

The Lord of the Rings: A aventura e a construção de um mundo secundário

Ainda mesmo antes de The Hobbit ser publicado em 1937 e de se revelar um inesperado sucesso, J. R. R. Tolkien começou a escrever uma sequela - um projecto que lhe ocupou boa parte do seu tempo (livre) entre os finais dos anos 30 e 1949, dividido que estava entre desenvolver a história da Guerra do Anel, que enquadrava a história de Bilbo, pela descoberta do Anel, no corpo mitológico mais vasto da Terra Média, e ordenar essa mesma mitologia, na sua mente em em notas e trechos dispersos havia mais de duas décadas. O segundo projecto, mais tarde conhecido como The Silmarillion, só viria a ser publicado a título póstumo pelo seu filho, Christopher Tolkien; o primeiro, porém, foi escrito e publicado pela Allen & Unwin em 1954, e mudaria para sempre a fantasia enquanto género literário: The Lord of the Rings


Curiosamente, a publicação de The Lord of the Rings em três livros reveste-se de um carácter quase acidental - uma decisão dos seus editores motivada pelo enorme risco que a publicação de uma obra tão vasta acarretava. Na perspectiva de Tolkien, a única divisão interna possível em The Lord of the Rings seria em seis partes, ou livros - uma divisão interna que se manteve na estrutura narrativa global. O formato trilogia foi uma concessão editorial de Tolkien - que, não sem ironia, se viria a tornar no padrão mais recorrente para séries de fantasia subsequentes. Mas não foi apenas no formato de edição que The Lord of the Rings estabeleceu um padrão. A sua combinação de um mundo secundário denso, complexo e extraordinariamente bem construído a todos os níveis com uma aventura de carácter épico, personagens relevantes e um tema clássico garantiu o sucesso imediato; o seu impacto na fantasia, esse, foi como uma pedrada no charco. De género literário menor e escapista e mesmo adolescente, a fantasia ganhou maturidade e relevância académica - e, convém não esquecer, estatuto de best-seller.

The Lord of the Rings liga-se a The Hobbit por via de alguns dos seus enredos secundários, recuperados com protagonismo pela trilogia: o anel encontrado por Bilbo na gruta de Gollum e o resultado (contado por Gandalf) do confronto entre o Conselho Branco e o Necromante de Dol Guldur, o próprio Sauron, daí regressado à terra de Mordor e à fortaleza de Barad-dûr. Esse anel mágico é, na verdade, o Anel Um, forjado à traição pelo próprio Sauron na Segunda Era. A célebre inscrição do anel narra a sua história e o seu propósito:
Three Rings for the Elven-kings under the sky,
Seven for the Dwarf-lords in their halls of stone,
Nine for Mortal Men doomed to die,
One for the Dark Lord on his dark throne
In the Land of Mordor where the Shadows lie.
One Ring to rule them all, One Ring to find them,
One Ring to bring them all and in the darkness bind them
In the Land of Mordor where the Shadows lie.
Durante anos o Anel esteve em segredo na posse de Bilbo Baggins, confortável no Shire graças à aventura de Erebor do qual regressou rico. Aos 111 anos, o anel preservou a sua aparência miraculosamente jovem - ainda que por dentro se sinta cansado, e desejoso de tornar a partir. O anel passa para Frodo, a quem Gandalf aconselha a deixar o Shire. É assim que começa a aventura que levará quatro pequenos Hobbits a conhecer o vasto mundo que existe para lá das suas (limitadas) fronteiras e a desempenhar papéis fundamentais numa guerra na qual em circunstâncias normais jamais se envolveriam. Mas se The Lord of the Rings tem em Frodo (sempre acompanhado por Sam e perseguido por Gollum) o seu herói principal, por improvável que seja, nem por isso se limita a acompanhar a sua demanda para destruir tão poderoso artefacto; pelo olhar das restantes personagens da Irmandade do Anel, o leitor acompanha a guerra contra Sauron noutras partes da Terra Média. Merry e Pippin mostram a perspectiva dos Ents de Fangorn (com a invasão a Isengard, uma das mais memoráveis passagens dos livros); por Aragorn, Gimli e Legolas vemos Rohan e Gondor; e com Gandalf acompanhamos o formidável cerco de Minas Tirith. Estas personagens unem vários pontos de um mundo de grandes dimensões com vida própria, não só oriunda dos seus habitantes mas também dos seu passado palpável, da História que se adivinha a cada momento.

E esse é um dos pontos que torna The Lord of the Rings numa aventura tão fascinante - para além da demanda (das várias demandas) em si, há todo um mundo secundário desenvolvido como nenhum outro - anterior ou posterior - no género. Tolkien, convém lembrar, era um académico, um professor - a sua paixão pelas línguas e a criação dos idiomas élficos estão na génese da Terra Média e de todas as histórias que esta contém. Aqueles idiomas, tal como a vasta mitologia e as histórias da Primeira e da Segunda Era, estão perfeitamente integrados em The Lord of the Rings - e contribuem de forma decisiva para aprofundar todo aquele mundo e os povos que o habitam, através de vários indícios, fragmentos e mesmo histórias que são reveladas ou anunciadas por várias personagens. Como Aragorn, um dos últimos Dunédain do Norte, descendente directo dos Homens de Númenor, ou Galadriel, a Senhora de Lothlórien, descendente dos povos das lendas antigas e exilada na Terra Média desde a Primeira Era. A tudo isso juntam-se alguns mistérios (o mais persistente dos quais surge na figura de Tom Bombadil, uma das mais extraordinárias personagens criadas por Tolkien), uma prosa rica e elaborada, digna de um verdadeiro contador de histórias, e um tema persistente (mesmo que as modas do momento possam apontar noutro sentido).

Este texto, entenda-se, é apenas um resumo muito breve e muito incompleto de uma ínfima parte de The Lord of the Rings. Os seus méritos tornaram-no no padrão qualitativo da fantasia épica, fasquia ambicionada pelos muitos autores que se lhe seguiram - uns imitiando-o, outros afastando-se tanto quanto possível, mas muito poucos renegando a influência (veja-se o caso de George R. R. Martin, por exemplo, e a reverência que tem para com a obra). O seu legado é tão vasto como o universo que comporta, e estende-se muito para lá da literatura fantástica; e a sua riqueza possibilita uma grande diversidade de leituras possíveis. Esse legado e essas leituras serão tema para outro dia.

4 comentários:

Nuno Vargas disse...

Nada mais a dizer, é um obra que vai ser lembrada enquanto existirem livros.
Ainda me falta ler em Inglês, acho que pode ser um pouco diferente da versão Portuguesa.

João Campos disse...

Li primeiro em inglês e depois em português. A prosa de Tolkien merece ser lida no original, claro; mas não tenho qualquer razão de queixa das edições da Europa-América - um excelente trabalho de tradução (de Fernanda Pinto Rodrigues) e de edição, diga-se de passagem.

E sim, se há obra na literatura de fantasia que se pode dizer "incontornável", é mesmo esta. Goste-se ou não (e por isso mesmo, aliás).

Nuno Vargas disse...

A única "queixa" na tradução que me recordo agora é a alcunha do Aragorn. No Português "Passo-de-Gigante" dá a sensação de uma personagem pesada, grande. Ou pelo menos a mim deu-me, quando primeiro o li. Depois descobri o original "Strider", que me evoca ligeireza, rapidez. Pode ser uma coisa pequena, mas fez-se notar.

João Campos disse...

Na prática, a tradução é literal (stride (v.intr.), 1. To walk with long steps, especially in a hasty or vigorous way), mas percebo a dúvida.

Detectei um ou dois erros menores na tradução de "The Children of Húrin", mas pouco mais. NO geral, é um excelente - e exaustivo - trabalho.