26 de julho de 2013

Ubik e a irrealidade da realidade

Num ano de 1992 alternativo, a Humanidade já colonizou a Lua, desenvolveu tecnologia capaz de preservar a consciência de pessoas falecidas durante algum tempo (num estado de half-life, em animação criogénica) e pessoas com poderes psíquicos tornaram-se algo comuns - ou pelo menos suficientemente comuns para o fenómeno não causar estranheza, e ser aproveitado para vários fins mais ou menos legais. Como a espionagem industrial, por exemplo. Com base nessas circunstâncias, o empresário Glen Runciter fundou uma empresa muito especial, que contrata pessoas com a capacidade de anular poderes psíquicos (anti-psíquicos, digamos assim), "vendendo" privacidade a pessoas e empresas que possam adquirir tais serviços. 

Esta premissa formidável, por si só, seria mais do que suficiente para um escritor talentoso desenvolver uma história de ficção científica fascinante - mas Philip K. Dick elevou-a à sua potência máxima em 1969 com um dos seus mais conceituados romances. Em Ubik, Dick desenvolve uma narrativa complexa com uma realidade estranha, num estado impossível de desintegração e regressão após um estranho incidente envolvendo Runciter e a equipa de anti-psíquicos liderada pelo protagonista, Joe Chip. Mas o que terá causado o acidente? E qual será o papel que Pat, a enigmática mulher com quem Chip se envolveu, estará a representar com o seu poder extraordinário? E o que será "Ubik"? Talvez esta seja a pergunta mais pertinente: cada capítulo abre com um pequeno texto publicitário a "Ubik", sempre com um estilo diferente e sempre referindo-se a um tipo de produto diferente. 

Dick explora em Ubik múltiplas realidades com um grau de incerteza elevado - um dos seus temas mais caros, aqui excepcionalmente desenvolvido. Do início ao fim, a aventura de Chip e da sua equipa é pautado por uma estranheza constante, sempre em crescendo - com uma das mais extraordinárias red herrings que já tive a oportunidade de encontrar na ficção científica literária. Philip K. Dick desenvolve com mestria um mundo ficcional verosímil e interessante para logo de seguida envolver o leitor com um enigma cuja resolução assenta em pistas e indícios aparentemente impossíveis - e cujo excelente final talvez não esclareça todas as dúvidas (e acrescente mesmo uma camada às múltiplas camadas de mindfuck). Tal como em A Scanner Darkly ou The Man in the High Castle (ou em muita da sua excelente ficção curta), em Ubik Dick interroga o leitor sobre a natureza da realidade através das suas personagens e das situações ambíguas em que as envolve - e, como aqueles títulos, Ubik é um clássico incontestável tanto da vasta bibliografia de Philip K. Dick como da ficção científica em geral.

A adaptação de Ubik para o cinema encontra-se ainda no início do seu desenvolvimento, com realização de Michel Gondry (Eternal Sunshine of the Spotless Mind).

2 comentários:

Nuno Vargas disse...

Eu acho que li este livro demasiado cedo. Teria talvez uns 14 anos, e lembro-me que na altura só pensava que este livro era muito estranho...

João Campos disse...

Está a pedir uma releitura, portanto :)

(pessoalmente, acho que o termo perfeito para descrever "Ubik" é mindfuck... )