7 de setembro de 2012

Stand on Zanzibar: a distopia da sobrepopulação

Em 1968, no auge da chamada “New Age Science Fiction”, o britânico John Brunner venceu o Prémio Hugo com Stand on Zanzibar, uma intensa distopia sobre a sobrepopulação do planeta em 2010 e o respectivo impacto social. Grosso modo, Brunner acertou em metade: de facto, em 2010 a população mundial rondava os sete milhões de pessoas (mais coisa, menos coisa), que decerto caberiam todas de pé, lado a lado, na ilha africana de Zanzibar. Já o impacto desse número (e ainda bem para nós, que cá vivemos) não correspondeu bem à descrição de Brunner. O que, contudo, não quer dizer que Stand on Zanzibar seja um livro datado. Longe disso.

O futuro retorcido de Stand on Zanzibar ganha força justamente pela sua verosimilhança - e, nesse sentido, a data de 2010 é um detalhe menor. Num mundo sobrepovoado, a eugenia tomou conta das sociedades ocidentais, levando-as a assumir o controlo populacional em função da depuração genética, suportada por uma omnipresente máquina burocrática. Este controlo, porém, está longe de se revelar eficaz na pacificação da sociedade, que exibe divisões sociais mais profundas do que nunca (com uma forte componente de discriminação positiva), enganadoramente apática sob o consumo de drogas legais e o derradeiro reality show televisivo (Mr. and Mrs. Everywhere, um conceito fabuloso) que esconde uma faceta miserável e uma instabilidade ao ponto da amotinação violenta de forma espontânea - terreno fértil, como é bom de ver, para o fanatismo religioso, o extremismo social e o terrorismo. Por contraste, África continua a viver numa pobreza extrema (salvo algumas, poucas, nações), tendo contudo conhecido uma reorganização política interessante após a queda do colonialismo. Já na Ásia emerge o grande inimigo das sociedades ocidentais, na forma de uma China colossal (pouco mencionada) e de outras nações fictícias na região que conhecemos como o Sudeste Asiático (Isola, que corresponde mais ou menos às Filipinas e é um estado norte-americano; e Yatakang, uma Indonésia ficcional).

Este mundo alternativo ganha especial densidade devido à invulgar estrutura narrativa de Stand on Zanzibar. Inspirada na célebre U.S.A. Trilogy de John Dos Passos, a narrativa de Stand on Zanzibar é dispersa, fragmentada e algo caótica. O enredo não é apresentado ou descrito de forma convencional, directa ou linear, apresentando uma estrutura binária - designada por Continuity - que acompanha os dois protagonistas, Norman House e Donald Hogan. Aos capítulos de continuidade juntam-se muitos outros, agrupados em três categorias narativas: Tracking With Close-ups, onde o foco incide sobre personagens laterais cujas acções e cujo contexto servem de enquadramento para a realidade, mostrando as causas e as consequências práticas dos vários problemas sociais explorados por Brunner; This Happening World, com verdadeiros infodumps de conteúdos noticiosos, contextualizados ou não, que dão uma ideia geral do que acontece pelo mundo e ajudam a enquadrar a narrativa principal e as narrativas secundárias; e Context, onde são feitas descrições e análises económicas, políticas e sociais, recorrendo com frequência a citações, referências ou entrevistas de Chad Mulligan, um sociólogo tão polémico como brilhante. Estes quatro tipos de capítulos não estão arrumados numa estrutura narrativa coerente, surgindo de forma mais ou menos aleatória ao longo da obra - e se dentro da secção Continuity os capítulos de Hogan e House estão mais ou menos alternados, isso nem sempre acontece. Um exemplo é o excepcional capítulo da festa de Guinevere Steel, no qual o ponto de vista convencional é estilhaçado por um grande número de pessoas presentes no evento, cujos pontos de vista distintos (e anónimos) se sucedem a um ritmo quase vertiginoso, como se nós, leitores, estivéssemos dentro daquela festa a caminhar por entre as pessoas e a apanhar inúmeros fragmentos de conversas distintas.

Certo: este “malabarismo” narrativo pode parecer confuso, e a perspectiva de ler mais de seiscentas páginas de narrativa fragmentada pode parecer intimidante quando se pega em Stand on Zanzibar pela primeira vez. A verdade é que a confusão desaparece à medida que entramos na leitura e nos embrenhamos no ritmo frenético, por vezes sombrio, de Brunner. A fragmentação permite centrar a narrativa onde ela realmente importa - nos acontecimentos que envolvem Norman House e Donald Hogan - enquanto os restantes capítulos enquadram esses acontecimentos e aquelas personagens, introduzem outras personagens e mostram como funcionam os mais variados aspectos daquela realidade. Donald Hogan, por exemplo, é introduzido bem antes do seu primeiro capítulo, com uma única e desconcertante frase na secção This Happening World (de longe, a melhor introdução de personagem que já li). Com as personagens laterais - os close-ups - o leitor acompanha vários aspectos da distopia de Brunner, como as consequências das leis eugenicistas, o impacto da guerra no Pacífico ou as culturas terroristas e de narcotráfico. Já as citações e referências de Chad Mulligan - que não sendo o protagonista é uma personagem central na narrativa - fornecem um olhar cínico sobre a realidade, enquanto muitos acontecimentos e desenvolvimentos são introduzidos através de um caos de informação perturbadoramente próximo daquele que conhecemos hoje em dia (recorde-se, contudo, que Brunner não anteviu algo como a Internet, apesar de o enredo introduzir o supercomputador Shalmaneser, e de se saber que os principais Governos recorriam a análises e previsões feitas em computadores desta natureza).

Stand on Zanzibar não é um livro com heróis e vilões ou com uma progressão narrativa orientada para um clímax e uma resolução - pelo menos, não no sentido convencional. É, sim, um espelho retorcido e perturbador sobre uma realidade que poderia talvez ter sido a nossa, e de cujo espectro não estamos de todo livres. É uma realidade alternativa tão sombria como fascinante. É um livro caótico, mas claríssimo no seu caos - e brilhante a todos os níveis. Não surpreende por isso que muitos autores de ficção científica, quando interrogados sobre os melhores livros do género, enumerem Stand on Zanzibar com tanta regularidade. Não vale tanto pela acção que apresenta (que, ainda assim, é excelente), mas sim pela realidade que explora e pelas questões que suscita. Destaco uma: assumindo a relevância tanto da componente hereditária (biológica) como da social na criação daquilo que é um ser humano, se criássemos seres humanos muito superiores a nós (mais fortes, mais ágeis, mais resistentes, mais inteligentes), como os poderíamos educar de forma a alcançarem o pleno das suas capacidades?

As restantes deixo à descoberta dos leitores.

3 comentários:

Jéfither Freitas disse...

Este romance possui tradução em português?

João Campos disse...

Em Portugal, não. No Brasil, não faço ideia.

Ricardo disse...

No Brasil também não, Sr. João Campos.