4 de março de 2014

Revisitando The Matrix: Reloaded e Revolutions

Larry e Lana Wachowsky estarão a trabalhar numa nova trilogia The Matrix para a Warner Brothers. Isto, note-se, não é notícia mas rumor: surgiu ontem no io9 a partir de uma notícia publicada no portal SlashFilm, que por sua vez a publicou a partir de um artigo avançado por um outro portal (Latino-Review), pelo que a coisa deve ser entendida dessa forma: como um rumor. A verdade é que, independentemente de ter ou não um fundo de verdade - a seu tempo o saberemos - este rumor tem é verosímil. Numa época em que a indústria cinematográfica parece estar dependente da repetição eterna de sequelas, remakes e reboots de propriedades intelectuais que tenham conhecido algum sucesso, a noção de que um novo filme ou mesmo uma nova trilogia nesta franchise esteja a ser planeada - seja em sequela, prequela ou reboot - só surpreenderá por não ter sido já mencionada. The Matrix, afinal, fez o pleno no final dos anos 90: obteve receitas milionárias, aclamação do público e reconhecimento crítico. Tornou-se em simultâneo num sucesso comercial e num fenómeno de culto; e estabeleceu-se como o grande clássico da ficção científica da sua geração.


É provável que o relativo desinteresse para com The Matrix se deva à fraca recepção crítica das suas duas sequelas directas, Reloaded e Revolutions - ambos foram êxitos de bilheteira (sobretudo Reloaded), mas nenhum deles conseguiu aproximar-se do reconhecimento crítico do filme original. Há alguma justiça na má critica, é certo; em parte, porém, diria que alguma da frustração para com Reloaded e Revolutions se deve ao facto de nenhum dos filmes ter conseguido pelo menos alcançar a fasquia altíssima que o filme original estabeleceu (um objectivo, admitamos, praticamente impossível), e pela sensação de cash-grab que os quatro anos de interregno deixam (mesmo não tendo qualquer motivo para duvidar da versão dos Wachowski de que o objectivo sempre foi fazer os três filmes). Por muito que se critique algumas passagens desnecessárias em ambos os filmes (a rave party será a mais óbvia), ambos incluíram também cenas memoráveis - a perseguição na auto-estrada continua notável pelo seu ritmo desenfreado e pela forma como se funde na perfeição, e a batalha de Zion continua intensa como sempre, por mais falhas que sejam apontadas às CGI.


É contudo inegável que em termos globais ambos os filmes ficaram muito aquém das expectativas. Onde The Matrix surpreendeu com os seus visuais extraordinários assentes numa combinação inteligente de efeitos práticos, fotografia astuciosa e imagens geradas por computador, Reloaded e Revolutions seguiram o caminho fácil do CGI de qualidade duvidosa, que terá talvez sido suficiente em 2003 mas que não sobrevive ao teste do tempo após uma década - sobretudo quando reparamos que no mesmo ano estreou The Return of the King. Os combates intensos, bem coreografados, tornados possíveis através de cabos e força de braços, tornaram-se insípidos na voragem dos efeitos especiais; e o encadeamento perfeito entre as sequências de acção e as ideias apresentadas num argumento arrojado possibilitou um ritmo narrativo harmonioso que as sequelas, privadas da sua independência em termos temáticos e de enredo, nunca conseguiram recapturar.


De certa forma, isso também se deve à expansão do universo ficcional e do elenco: The Matrix, afinal, funcionou de forma algo contida, introduzindo apenas a tripulação da Nebuchadnezzar, a Oráculo e Smith. Esta limitação desaparece nas sequelas - o espaço fechado da nave de Morpheus Nebuchadnezzar abre-se para Zion, onde o espectador encontra tanto os habitantes da cidade como as tripulações de outras naves; e as deambulações pela Matriz trazem novos cenários e novas personagens - Merovingian e os seus minions, Persephone, Seraph, Sati, o Keymaker, o Arquitecto. E se algumas personagens funcionaram (o Merovingian de Lambert Wilson é inesquecível), outras pouco mais são do que plot points glorificados, quando não apenas action pieces.


Já a crítica, recorrente nos idos de 2003, de que Reloaded e Revolutions eram demasiado obscuros sempre me soou injusta, para não dizer preguiçosa. É verdade que a exposição temática mais convencional de The Matrix dá lugar a uma maior ambiguidade nas suas sequelas, mas isso está longe de ser uma falha. No primeiro filme, todo o simulacro da realidade é apresentado ao espectador através da viagem de descoberta de Neo: o seu encontro com os Agentes, a saída do programa, o treino, o regresso à matriz a partir do seu exterior - tudo isto é mostrado e explicado de forma clara e, exceptuando um momento, livre de ambiguidade no que à interpretação da premissa diz respeito. Reloaded e Revolutions não seguem esta fórmula: os Wachowskis optam por desconstruir a premissa estabelecida no primeiro filme, suscitando questões tanto sobre a realidade como sobre o simulacro - e fazem-no com um maior grau de ambiguidade, com mais sugestão do que explicação, convidando a uma especulação mais profunda sobre os temas originais: a natureza da realidade e a natureza do livre arbítrio. A opção, diga-se de passagem, não foi de todo inédita: bem vistas as coisas, em termos temáticos a conversa entre Neo e o Arquitecto nos momentos finais de Reloaded pouco acrescenta ao que Smith disse a Morpheus no filme original (quanto muito, explica o solilóquio de Smith ao tornar claras as consequências das suas afirmações).


Foi esta ambiguidade que tornou The Matrix - a trilogia no seu todo - num tema capaz de gerar debates ilimitados e interessantíssimos em inúmeros fóruns da Internet pré-Web 2.0 de 2003 e 2004. As questões acumularam-se, e deram origem a um terreno fértil para especulação e teorias de fãs (a minha preferida, que subscrevo, parte da ideia de que Zion é também parte da matriz; explorarei a tese noutra ocasião). Enquanto objectos cinematográficos per seReloaded e Revolutions não chegam sequer perto do virtuosismo o filme original; mas se em ambos há muito para criticar, nem por isso deixa de haver mérito no que à exploração temática da premissa diz respeito. No campo das ideias, as sequelas de The Matrix revelaram-se igualmente estimulantes, repletas de possibilidades mais ou menos canónicas, e deram forma a uma trilogia de blockbusters única na sua ambição e na sua complexidade temática. E isso hoje, numa época em que as grandes produções se querem simples, revela-se mais importante do que nunca. 07/10*

The Matrix Reloaded / The Matrix Revolutions (2003)
Realização e argumento de Larry e Andy Wachowski
Com Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Gloria Foster, Jada Pinkett-Smith, Monica Bellucci, Lambert Wilson, Collin Chou, Nona Gaye, Randall Duk Kim, Harry Lennix, Harrold Perrineau, Gina Torres, Clayton Watson, Helmut Bakaitis, Ian Bliss e Mary Alice
138 minutos / 129 minutos

* A classificação aplica-se a ambos os filmes no seu todo, já que em termos narrativos a separação acaba por se revelar artificial.

6 comentários:

Nuno Vargas disse...

Lembro-me que quando vi pela primeira vez estes filmes gostei bastante deles. Não tanto como do primeiro, é certo, mas fiquei com uma impressão bem positiva. Por isso nunca percebi bem toda a crítica negativa que receberam.

Loot disse...

Vi o Matrix imensas vezes, lembro-me do fascínio que senti no cinema (não esperava que fosse tão bom) e de rever e rever em casa. A todos os níveis Matrix deslumbrou.

Já Reloaded e Revolutions são dois filmes que preciso regressar e tenho adiado. Vi-os no cinema e nunca mais repeti a visualização. Em termos de argumento, como é normal, o universo foi mais explorado e lembro-me de ao terminar reloaded ter começado a explorar uma série de teorias. Foi emocionante, mas concordo contigo, ambos ficaram aquém do primeiro. Mesmo tecnicamente. Depois de tudo que o primeiro trouxe aquele cgi manhoso usado nos outros dois desiludiu-me. Preferia menos mas com o mesmo nível de qualidade do 1.

E pronto não tenho nada a acrescentar pq me revejo nas tuas palavras. O 1º é um clássico e envelhecerá melhor, já estes não - o que não quer dizer que não valham a pena.

abraço

João Campos disse...

Nuno, na altura fiquei muito impressionado tanto com "Reloaded" como com "Revolutions" - e defendi-os à exaustão em várias conversas. Olhando agora para trás, de facto os efeitos especiais não se aguentaram - é pena, pois os do primeiro continuam a ser excepcionais. Tudo o resto, porém, continuam excelente.

João Campos disse...

Loot: a quantidade de teorias debatidas online na altura da estreia do "Reloaded" foi impressionante. E muitos desses debates ainda podem ser recuperados, com algum trabalho e muitas pesquisas no Google - maravilhas da Internet pré-advento das redes sociais, onde tudo se tornou efémero. Hoje teríamos memes no 9gag, posts no facebook e em uma semana a coisa estaria esquecida.

Mas divago. Pessoalmente, julgo que os filmes continuam a ter um bom replay value. É uma pena os efeitos especiais, de facto.

juliano cesar de oliveira disse...

Oi adorei.. muito obrigado, me fez se interessar pelo livro....mas vc já leu o livro reverso escrito pelo autor Darlei... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura e digite reverso...a capa do livro é linda ela traz o universo de fundo..abraços. www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?

João Campos disse...

Livro? Qual livro?

(ah, os spammers...)