22 de janeiro de 2014

A ficção científica no mainstream: Nomeações para os Óscares

No Tor.com, encontro um artigo de Ryan Britt sobre os dois filmes de ficção científica nomeados para o Óscar da Academia na categoria de "Melhor Filme" que merece comentário - tanto pela pertinência do tema como pela argumentação utilizada. Tal como Britt, também gostaria de ver uma longa-metragem de ficção científica a vencer os mais mainstream - e mais reconhecidos - prémios cinematográficos; e também concordo que a atribuição desta distinção a um filme de género seria deveras importante para a sua afirmação no mainstream e para começar a erradicar alguns estereótipos de que a ficção especulativa continua a ser vítima. Mas o artigo, por interessante que seja (e é), parte de um pressuposto errado que acaba por contaminar todo o texto. Diz Britt:
Two of the best and most thoughtful science fiction films in recent memory came out in 2013 and both of them are nominated for best picture at the impending Academy Awards. Better yet, both are original screenplays and also bonafide science fiction. So, between Her and Gravity, why should Her win? Because, in many ways, it’s the first science fiction film that deserves to. Plus it’s a great representative for what science fiction can do for people who think they don’t like this sort of thing.
Her ainda não estreou por cá, pelo que ainda não tive oportunidade de vê-lo - conto fazê-lo assim que estrear em Fevereiro - não me custa acreditar, porém, que mereça todas as nomeações. Vi Gravity, e as nomeações recebidas são mais do que merecidas (tal como o Globo de Ouro que Alfonso Cuáron conquistou na categoria de "Melhor Realizador") - não só o filme é magnífico, fruto do argumento muito sólido e da virtuosidade técnica da equipa de Cuáron, como também a interpretação de Sandra Bullock é a todos os níveis excepcional. Dito isto, ambos estão longe, muito longe, de ser os primeiros filmes a merecerem o prémio. 

Mas vamos por partes. Excluindo as duas nomeações deste ano, até ao presente houve apenas seis filmes de ficção científica nomeados para os Óscares na categoria de "Melhor Filme", e três deles em edições muito recentes:
  • A Clockwork Orange, de Stanley Kubrick, em 1972
  • Star Wars, de George Lucas, em 1978
  • E.T., de Steven Spielberg, em 1983
  • District 9, de Neill Blomkamp, em 2010
  • Inception, de Christopher Nolan, em 2010
  • Avatar, de James Cameron, em 2011

Destes filmes, julgo que metade não justifica nomeação. Star Wars, Avatar e Inception não terão sido nomeados pela mestria dos seus argumentos, pela densidade das suas personagens ou pela relevância do seu comentário - nas três categorias, a excepcionalidade dos seus aspectos técnicos conseguiram elevar as obras muito acima dos seus patamares narrativos (a popularidade ou o carácter de culto não contam como factor pois esse aspecto só se torna relevante bem mais tarde). Em parte, o mesmo argumento pode ser feito a propósito de District 9: é inegável que na segunda parte do filme há um predomínio da acção e da violência sobre a narrativa. Ainda assim, o desenvolvimento da personagem principal e a poderosa alegoria ao apartheid fazem do filme de Blomkamp uma obra muito mais relevante do que as outras três quando encarada no seu todo - pelo menos, no que aos prémios de cinema mais imediatos diz respeito. A Clockwork Orange e E.T., a meu ver, são inquestionáveis.


Mas outros filmes falharam, com evidente injustiça, nomeações. Utilizando o mesmo critério que serviu para nomear Star Wars, Avatar e Inception, torna-se difícil - para não dizer escandaloso - não considerar também 2001: A Space Odyssey e The Matrix - ambos profundamente revolucionários no que à técnica e à estética diz respeito - mais até do que qualquer outro dos filmes referidos -, com personagens mais memoráveis e bem construídas (HAL-9000 no primeiro caso, Morpheus e Agent Smith no segundo), com premissas inteligentes e com temas bastante mais pertinentes. Britt omite ambos, decerto por estar a pensar num caso concreto:
This is why science fiction films are usually frustrating for the science fiction fan. It doesn’t matter how great the concept is in any one given SF film because for the most part, most science fiction movies are bogged down by a preponderance of violence and “zap the bad guy” mentality. In my lifetime, I’ve seen Star Trek films turned from sometimes thoughtful explorations of humanity in the future to straight-up punching-and-shooting orgies of doom.
Adiante. The Matrix tem, de facto, uma forte componente de acção e de violência - porventura indispensável, mas não será esse o ponto aqui. À luz deste critério de Britt, porém, poderíamos ainda encontrar outra obra merecedora da distinção: Brazil, de Terry Gilliam. Uma poderosa alegoria burocrática em tons distópicos, relevante de um ponto de vista temático, exímia de um ponto de vista técnico, e com um elenco muito bem aproveitado. Mais relevante, ainda seria considerado noutro ponto cuja importância é sublinhada por Britt, independentemente da cena em que a personagem de Robert De Niro troca os tubos:
Both Her and Gravity are different because there’s zero human on human violence, nor is there a sense that our toasters are trying to eat us.
É certo que Britt tem alguma razão quando critica a obsessão com a violência que o género revela no grande ecrã. No entanto, reduzir a pertinência da ficção científica cinematográfica à questão da violência cedo se revela um exercício demasiado redutor. É difícil imaginar no género um filme mais violento do que A Clockwork Orange - e, no entanto, em momento algum a violência surge ali deslocada. Pelo contrário: ela é fundamental para a exploração da personagem de Alex, para a crítica despudorada ao comportamentalismo e para a pergunta que pauta todo o filme: se o Bem e o Mal deixarem de ser uma escolha, poderá um indivíduo continuar a ser humano?


I think because Her is about everyday working stiffs looking for love in a weirdly impersonal science fictional world, it’s simply more appealing to the general public. Which is what stuff like the Oscars should be for; a kind of cultural lighthouse guiding everyone to stuff that is good and relatable.
Nestes termos, como esquecer Children of Men, também de Alfonso Cuarón? Adaptando para o cinema a distopia The Children of Men da britânica P. D. James, o filme retrata um futuro próximo no qual a Humanidade se tornou estéril - e acompanha um homem comum no seu esforço hercúleo para proteger uma estranha que está grávida, tanto do poder político instalado como das forças revolucionárias. Children of Men é sem dúvida um filme violento: mas poucos filmes da última década, ficção científica ou não, conseguiram mostrar uma imagem tão poderosa como o momento em que Theo e Kee saem de um edifício em ruínas, pelo meio de soldados e tanques, com uma criança recém-nascida nos braços - isto após uma das mais intensas cenas de guerra do cinema da última década. Mas é difícil pensar numa premissa mais pessoal do que a reprodução, ou a impossibilidade de reprodução. Children of Men foi nomeado em três categorias, mas excluído da corrida para "Melhor Filme." Injustamente.

The subtlety of Her is its greatest strength. It doesn’t wield its science fiction like a blunt instrument, trying to make a big point about society and the loss of physical objects and physical affection. Instead, it makes its characters fully immersed in asking the oldest question of science fiction: “what if?” 
À luz deste argumento, o último que apresenta, a omissão inicial de Britt torna-se demasiado evidente, mesmo que sejam excluídos todos os exemplos anteriores. Antes de Gravity ou Her houve um filme que merecia ter sido nomeado para "Melhor Filme" por ser "um grande representante do que a ficção científica pode ser para quem acha não gostar deste tipo de filmes"; por não estar preso à "preponderância da violência" e por ser uma "exploração inteligente da Humanidade no futuro" sem cair "na orgia da violência", na "violência de humanos contra humanos" ou em qualquer noção de "as nossas torradeiras nos tentarem comer"; por ter uma premissa genuinamente "boa e fácil de nos identificarmos com ela"; por ser "subtil" na sua abordagem", nunca "martelando" os conceitos de ficção científica e explorando temas a perda e os afectos, enquanto "envolve as personagens na pergunta mais antiga da ficção científica: e se?" E mais: fê-lo com dois actores excepcionais em desempenhos memoráveis. 

Esse filme foi Eternal Sunshine of the Spotless Mind, e foi merecedor do Óscar para "Melhor Filme" muito antes de Gravity ou Her. Que não tenha sequer sido nomeado é um daqueles mistérios insondáveis da Academia.


Fonte: Tor.com  

9 comentários:

Rui Bastos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rui Bastos disse...

Excelente artigo. É daqueles que devias traduzir e enviar ao senhor, para ele se sentir envergonhado.

Confesso que o Her me tem chamado a atenção, pela premissa, exactamente por ser, digamos, FC à paisana, super apelativa para o pública mainstream (e porque acho o Joaquin Phoenix um tipo fixe), mas independentemente disso, se há algo em que tens razão é o facto de "2001 - Odisseia no Espaço" e "A Laranja Mecânica" não serem incluídos nestas coisas. Filmes excepcionais a vários níveis!

Não vi alguns dos que falas, mas estes 2 vi e não tenho dúvidas. Do Matrix já não sei muito bem, mas também já vi há tento tempo que só me lembro mesmo bem que "o tipo que faz de Elrond aparece e é awesome"

Loot disse...

Excelente comentário, o artigo em questão falha redondamente nos aspectos que apontas e este teu texto espelha muito bem aonde. Devia se um complemento ao artigo :P

Curiosamente já não me lembrava que o Avatar e o Inception tinham sido nomeados, até estranhei quando li. A falta do 2001 surpreende-me já a do Matrix não. Mas não porque já contava com isso, que a academia não nomeasse um filme desse género, porque concordo que era merecido.

Acho que foi nos globos de ouro que o Jim Carry foi nomeado para melhor actor de comédia pelo eternal sunshine... um filme excepcional.

O Terry Gilliam é outro que dificilmente via e verá a nomeação. Demasiado louco. Adoto o Brazil.

Nem o teu texto, nem eu, pretende denegrir os nomeados deste ano, longe disso. Muito curioso com Her tb, o gravity já vi. Gosto de os ver nomeados, mas não é razão de que sejam os que mais merecem ao longo de toda a história.

Já agora, no caso do Star Wars o filme teve mto impacto quando estreou. foi um daqueles que alterou a indústria do cinema (acho). Porque enquanto filme o 2º é que é o melhor :P

abraço

João Campos disse...

Rui, obrigado. Mas não, não vou traduzir. Já foi bom ter servido de pretexto para este artigo.

"The Matrix" foi uma bomba, no bom sentido da palavra. Duvido que tenha havido outro filme debatido com tanta intensidade na primeira década do novo milénio. Para além de ter mudado a forma como os filmes de acção eram filmados. Existe claramente uma época "pré-Matrix" e uma era "pós-Matrix". Mas ninguém conseguiu explorar tão bem o "bullet time".

No resto, aguardo com expectativa a estreia de "Her".

João Campos disse...

Loot, obrigado! Enquanto lia o texto embiquei naquela frase... enfim, tive de escrever isto..!

Sim, "Avatar" e "Inception" foram nomeados. Tanto que no ano da nomeação do filme do Cameron venceu "The Hurt Locker", que foi realizado... pela ex-mulher dele. Ele há coisas..!

O Jim Carrey não chegou a ser nomeado, injustamente - o desempenho dele merecia, sobretudo por ter sido numa época em que ele ainda estava muito colado à comédia física que o celebrizou nos anos 90. Mas neste filme ele está soberbo. Foi a Kate Winslet, como "Melhor Actriz" - não ganhou, mas merecia.

"Brazil" é soberbo.

Sim, "Star Wars" teve impacto quando estreou - era inevitável que tivesse. Julgo, porém - e posso bem estar enganado - que entre o impacto que causou e o fenómeno popular que gerou ao longo dos anos, com o Extended Universe, os parques temáticos e o merchandising infinito ainda vai alguma distância. Era mais ou menos por aí que estava a pensar. E sim, o segundo filme, que é o quinto, é excepcional.

Abraço

Fyredrake disse...

Boa crítica. É claro que as opiniões sobre que filme mereceria ter sido nomeado são tão variadas e subjectivas como o critério e gosto pessoal de cada um. Mais do que o E.T. gostaria de ter visto nomeado os Encontros imediatos do 3º Grau ou o Contacto. Pessoalmente o meu favorito de todos os tempos continua a ser Blade Runner; meu filme culto que alterou profundamente a maneira como eu via cinema em geral e não só o de fc.

João Campos disse...

Obrigado. Sim, há sempre alguma subjectividade envolvida no processo. Pessoalmente, não fiquei impressionado pelo "Close Encounters"; ando para o rever e confirmar se a opinião se mantém. Já o "Blade Runner"... não é o meu preferido, mas está perto. Muito perto.

Luís Filipe Silva disse...

Embora BRAZIL seja o meu preferido do lote, o filme de FC mais "pura" das recentes décadas (e muito mais que MOON em muitos aspectos) é sem dúvida PRIMER - uma incursão envolvente sobre o processo de descoberta científica das viagens no tempo com os devidos paradoxos à mistura.

João Campos disse...

O "Primer" ainda está na lista de "a ver um dia destes". Não és a primeira pessoa a recomendar-me o filme; mas já ouvi dizer que é também uma valente mindfuck.