10 de setembro de 2013

A Terra Média segundo Peter Jackson (1): The Fellowship of the Ring, ou o início da adaptação impossível

Não será talvez disparatado dizer que, em larga medida, a adaptação cinematográfica de The Lord of the Rings realizada por Peter Jackson foi, acima de tudo, simpleseficiente - por estranho que possa parecer empregar tais adjectivos para descrever uma série de três filmes de três horas cada (ou mais, se considerarmos as edições director's cut). A verdade é que o realizador neozelandês, fã assumido do universo literário de J. R. R. Tolkien, soube tratar a obra que adaptou com reverência, mas sem (demasiado) temor reverencial. Percebendo desde logo que, dada a dimensão dos livros, não poderia fazer uma transposição literal da página escrita para a película, Jackson não hesitou reordenar e reconfigurar os vários elementos para os ajustar à linguagem cinematográfica (necessariamente diferente da literária) e criar uma história fiel às suas origens, mas também um pouco ajustada ao público contemporâneo - e, por que não dizê-lo, também com um cunho um tanto ou quanto pessoal. O resultado foi exemplar: uma série de três filmes aclamados pelo público e pela crítica, que recuperou a obra de Tolkien para a ribalta e a mostrou como ela nunca antes tinha sido vista, num épico a todos os níveis impressionantes - porventura o mais extraordinário que o fantástico cinematográfico conheceu. 

Seguindo a ordem e os títulos dos livros, The Fellowship of the Ring foi o primeiro destes filmes, com estreia em 2001. Procurando cativar desde o primeiro momento tanto os fãs de Tolkien como um público que nunca lera os livros, Jackson abre o filme com um prólogo que começa assim, pela voz magnética de Cate Blanchett, magnífica no papel de Galadriel: 
The world is changed. I feel it in the water. I feel it in the earth. I smell it in the air. Much that once was is lost, for none now live who remember it. 
It began with the forging of the Great Rings. Three were given to the Elves, immortal, wisest and fairest of all beings. Seven to the Dwarf lords, great miners and craftsmen of the mountain halls. And nine, nine rings were gifted to the race of men, who, above all else, desire power. But they were, all of them, deceived, for another Ring was made. 
In the land of Mordor, in the fires of Mount Doom, the Dark Lord Sauron forged in secret a master Ring, to control all others. And into this Ring he poured his cruelty, his malice and his will to dominate all life. One Ring to rule them all.

A combinação da narração de Galadriel, da história quase mítica a ser contada, das imagens da Terra Média (toda ela filmada na Nova Zelândia) e da banda sonora evocativa de Howard Shore é perfeita: o universo literário de Tolkien não poderia ter melhor introdução no cinema. As curtas mas intensas cenas do Cerco de Mordor abrem o apetite para a grandiosidade das batalhas que a trilogia exibirá, sobretudo nos filmes seguintes (com Isengard, Helm's Deep e Pelennor Fields - mas lá iremos), e servem para exibir desde logo uma das principais características de The Lord of the Rings: o seu vasto passado, construído com um worldbuilding preciso e detalhado.


Do prólogo passamos para o Shire, soalheiro e verdejante, reminescente da Inglaterra rural que tanto encantou o velho professor britânico - o Shire, terra de Hobbits, onde repousa em silêncio um poder inimaginável. Frodo (Elijah Wood), o protagonista, é logo apresentado com Bilbo (Ian Holm) e Gandalf, o Cinzento (Iam McKellen), um feiticeiro ali conhecido sobretudo pelo seu fogo de artifício; e, com eles, os três outros hobbits que acompanharão o herói na sua demanda: Sam (Sean Astin), Merry (Dominic Monaghan) e Pippin (Billy Boyd). A festa do 111º aniversário do jovial e excêntrico Bilbo Baggins atraiu toda a gente das redondezas, e destacou-se pelo surpreendente desaparecimento do aniversariante - por obra e graça de um anel mágico, que o feiticeiro Gandalf suspeita ser um artefacto há muito perdido. Jackson mostra o Shire com gosto - adaptou de forma muito literal a célebre passagem "Concerning hobbits", mas não se prende; e cedo a leveza aparente da história dá lugar a uma sombra muito carregada, com a revelação do Anel.


É claro que Peter Jackson teve de sacrificar elementos relevantes para conseguir dar a The Fellowship of the Ring um ritmo narrativo adequado, capaz de equilibrar a introdução àquele universo fantástico com a apresentação das várias personagens e do conflito que está no centro da acção - e tudo isto com o dinamismo que um épico cinematográfico pede. O arranque da história, do aniversário de Bilbo à partida de Frodo, foi condensado - em momento algum se imagina que, no livro, passam 17 anos entre a partida de Bilbo e o regresso de Gandalf -, com os hobbits a moverem-se rapidamente para Bree com os terríveis Naz-gûl no encalço. Algumas personagens foram removidas - com destaque, para desgosto de muitos fãs, para Tom Bombadil*, o enigma que o próprio Tolkien nunca esclareceu, e de Glorfindel, substituído por Arwen Evenstar (Liv Tyler), trazida da obscuridade para a ribalta com o seu romance com Aragorn (Viggo Mortensen). Este, por seu lado, passou de herdeiro resoluto ao trono a um herói relutante. E também o final foi alterado, levantado directamente de The Two Towers.


Em termos gerais, as alterações foram acertadas e executadas com mestria - para um filme longo, a narrativa flui surpreendentemente bem, assente num argumento bem escrito, com ritmo e um excelente equilíbrio entre momentos de maior tensão e outros mais calmos. Bree, Weathertop, o Watcher in the Water, Moria, a Ponte de Khazad-dûm, Parth Galen - cenas de acção memoráveis, enérgicas, visivelmente tensas, em contraste com o encantamento de Imladris ou de Caras Galadhon, a ruralidade do Shire ou a imponência da travessia das Montanhas Azuis ou do Rio Anduin. Aqui, os cenários assumem um papel fundamental - as magníficas paisagens naturais da Nova Zelândia que Jackson, natural da ilha, soube aproveitar para tão extraordinário efeito.


Mas também o elenco transporta com sucesso o espectador para a Terra Média, e dá credibilidade a todo aquele mundo secundário - e mesmo a todas as alterações que Jackson, por um motivo ou outro, se viu obrigado a fazer na estrutura original da qual partiu. O Aragorn ambíguo que recriou não seria bem sucedido sem a gravitas e a solenidade de Viggo Mortensen, perfeito no papel. John Rhys-Davies dá ao anão Gimli a solidez necessária para que possa, em simultâneo, servir de comic relief sem perder a sua credibilidade. Ian McKellen é Gandalf, inevitavelmente - não poderia ser outro. Elijah Wood encarna, julgo que com mestria, o papel do atormentado Frodo - a sua vulnerabilidade é evidente, e assenta no papel que nem uma luva. E muito mais se poderia dizer de um elenco que tem, nas suas fileiras, actores do calibre de Christopher Lee (Saruman), Hugo Weaving (Elrond) e Sean Bean (Boromir, na perfeição), entre todos os outros já mencionados.


Em termos visuais, também é difícil encontrar em The Fellowship of the Ring pontos fracos. É pela comparação com o mais recente The Hobbit, carregadíssimo de computer-generated images, que se nota a inteligência dos truques de câmara que deram aos hobbits e a Gimli a sua estatura reduzida na presença das restantes personagens - mais realista, mais fluída. Tal como a excelente caracterização de todo o elenco, e sobretudo dos Orcs - um trabalho notável. O que, note-se, em nada desvaloriza os efeitos especiais - superlativos, ainda para os padrões de hoje. Basta vermos toda a sequência de Mória, a culminar no confronto entre Gandalf e o Balrog de Morgoth - um verdadeiro monstro de chamas e sombras, terrível na sua pormenorizada aparência. Impressionante. O som não fica atrás - os ginchos dos Naz-gûl ficam na memória, mas é a magnífica banda sonora de Howard Shore que acaba por elevar o filme, encaixando com subtil perfeição em cada cena ao ponto de ser impossível dissociar os cenários e as acções do filme.


Talvez não seja de todo errado dizer que The Lord of the Rings foi para as gerações actuais o que Star Wars terá sido para as gerações dos anos 70 - o épico cinematográfico por excelência, capaz de mudar de forma profunda a forma como os seus géneros respectivos (fantasia e ficção científica, respectivamente**) eram abordados no grande ecrã. The Fellowship of the Ring abriu a trilogia da Terra Média com chave de ouro, num filme onde quase tudo funcionou na perfeição - conseguindo a proeza de alcançar uma relativa autonomia dentro da narrativa maior que os três filmes constroem. Da formação da Irmandande à dissolução da Irmandade - o ciclo está completo, a história está pronta para os diferentes caminhos de The Two Towers. Um feito notável de Peter Jackson, numa adaptação especialmente feliz que abre o apetite para o capítulo seguinte e que estabeleceu um novo padrão para a fantasia cinematográfica. 9.5/10

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring (2001)
Realizado por Peter Jackson
Argumento de Peter Jackson, Fran Walsh e Phillipa Boyens com base na obra de J. R. R. Tolkien
Com Ian Holm, Ian McKellen, Elijah Wood, Sean Astin, Viggo Mortensen, Sean Bean, Liv Tyler, Cate Blanchett, Christopher Lee, John Rhys-Davies, Orlando Bloom, Dominic Monaghan, Billy Boyd e Hugo Weaving
178 minutos

* Em jeito de curiosidade, Tom Bombadil é uma das personagens que mais aprecio em todo o universo de Tolkien. E por mais que gostasse de o ver no filme, não consigo não apoiar a decisão dos argumentistas.

** Sim, pode argumentar-se que Star Wars é mais fantasia do que ficção científica, mas deixemos isso para outro dia.

6 comentários:

Nuno Vargas disse...

O filme não desiludiu para quem conhecia o livro, e isso é dizer muito!

ruisdb disse...

Muito bom resumo.
De acordo com a referência à "estranheza" de Tom Bomnbadil.
Mesmo nas análises mais atentas sobre Tolkien, poucas interpretações válidas sobre ele aparecem.
Quando li LOTR pela primeira vez, passei depressa pelo capítulo onde ele aparece. Mas quando reli os livros, fiquei perplexo: andamos durante centenas de páginas a lutar contra o poder deste maldito anel e há aqui alguém a quem o anel não afecta de modo nenhum?
É que nem mesmo conhecendo a história da Terra Média e os detalhes do Silmarilion se consegue perceber como é que ele encaixa...
Hipótese tola: é Tolkien a relativizar a sua própria construção literária e a dizer que há mais vida e riso para lá dos dramos?

João Campos disse...

Nuno, a mim o filme levou-me a ler o livro e abriu-me as portas da literatura de fantasia. Não é preciso dizer muito mais sobre o seu impacto, pelo menos no que a mim diz respeito :)

João Campos disse...

ruisdb, obrigado.

Adorei a passagem do Tom Bombadil à primeira leitura - pela carga profética, pelo tom despreocupado num momento em que a narrativa se encontra num crescendo de tensão, e pela sua aura de mistério. Poderia alongar-me aqui, mas vou voltar ao tema em breve.

Nuno Vargas disse...

Realmente o Tom Bombadil sempre foi um mistério, já vi variadas interpretações sobre o seu significado.

João Campos disse...

O próprio Tolkien assumiu isso. O que é notável: deixar um ponto tão intrigante do worldbuilding propositadamente por resolver.