19 de agosto de 2013

Battlestar Galactica, Temporada 1: O pós-11 de Setembro em formato de space-opera

Há quem diga que a ficção científica não é tanto sobre o futuro como sobre o presente – que uma boa história deste género projecta para os seus futuros alternativos e especulativos as preocupações e os problemas do presente. Parece ter sido com esta ideia em mente que Ronald D. Moore se propôs, no início da última década, em recuperar uma série clássica de ficção científica: Battlestar Galactica. Moore pegou na premissa original da série criada por Glen A. Larson nos anos 70 - os Cylons, uma raça cibernética criada pela Humanidade, revoltaram-se contra os seus criadores numa guerra sangrenta que acabou com uma trégua instável, quebrada anos mais tarde com a ajuda involuntária de uma das mais brilhantes mentes humanas. O novo ataque arrasa as doze colónias da Humanidade, assim como a sua frota; os sobreviventes, dispersos por algumas dezenas de naves, reúnem-se sob a protecção do (aparentemente) único grande vaso de guerra que sobreviveu à ofensiva: a Galactica, uma nave antiquada de classe battlestar, sob o comando do veterano Comandante William Adama. E reúnem-se com um propósito: encontrar a lendária décima-terceira colónia da Humanidade, a Terra. 

Mas longe de se limitar a um formato de space opera, Moore deu a esta nova Galactica uma trama complexa e ramificada que reflectiu de forma espantosa alguns dos temas mais pertinentes que marcaram as sociedades ocidentais no rescaldo do 11 de Setembro - os ataques terroristas, as invasões, a utilização de sleeper cells e de dissimulação junto do inimigo, o estado de terror permanente que obriga a tomar medidas drásticas, quando não extremas. Algo que é visível ao longo de toda a temporada - com os Cylons a assumirem a forma humana e a misturarem-se entre os sobreviventes da Humanidade, ninguém sabe ao certo quem pode ser o inimigo e quando pode entrar em acção - como se vê no sexto episódio, Litmus, quando uma cópia do Cylon Número Cinco se detona a bordo da Galactica, ou pelas acções inconscientes de uma Sharon "Boomer" Valerii que ignora o facto de não ser humana. Há também um subtema religioso que se tornará mais relevante em temporadas subsequentes, com a oposição entre o politeísmo humano e o misterioso monoteísmo dos Cylons. Mas nem todas as questões suscitadas pela série envolvem os Cylons - e entre os humanos questiona-se a autoridade militar, a importância de um governo democrático e representativo (na pessoa de Laura Roslin, a anterior Ministra da Educação promovida a Presidente quando as Doze Colónias caíram e os restantes membros do Governo foram mortos), a forma como as acções violentas podem comprometer os ideiais mais nobres (como se vê na revolução falhada de Tom Zarek). E nesta primeira temporada, nenhum destes temas parece "martelado" com o propósito simples de chocar e causar polémica - estão, sim, bem integrados na série, na space-opera pura e dura que a série é, e que em momento algum deixa de ser.

E tanto a componente de space-opera como as reflexões mais contemporâneas são sustentadas por um elenco excepcional. Edward James Olmos interpreta com mestria o papel de Comandante William Adama, o líder incontestado da Galactica: um militar antiquado mas dedicado à sua nave e à sua tripulação, sem receio de tomar decisões difíceis e controversas. A suportá-lo está o Coronel Saul Tigh (Michael Hogan), leal, polémico e alcoólico. Mary McDonald interpreta Laura Roslin, a recém-empossada Presidente das Doze Colónias, a lutar contra as enormes dificuldades da situação humana e contra a sua própria doença. James Callis é um formidável Dr. Gaius Baltar, um génio devastado pela culpa de ter colaborado - ainda que de forma inconsciente - com a sensual e ambígua Cylon Número 6 (Tricial Helfer) no ataque que resultou na destruição das Doze Colónias, e atormentado pela enigmática visão da sua amante. Katee Sackoff é Kara "Starbuck" Thrace, uma piloto de vipers cuja destreza de voo só se compara à sua imprudência; como contraponto tem Lee "Apollo" Adama (Jamie Bamber), filho do Comandante, cauteloso e idealista. Grace Park representa a piloto de raptors Sharon "Boomer" Valerii, que ignora ser, na verdade, a Cylon Número 8. Da série clássica regressou Richard Hatch, outrora o Capitão Apollo, e agora o revolucionário Tom Zarek. O elenco muito talentoso contribui para dar muita vida e muito realismo à vida a bordo da Galactica, e é um dos vários motivos pelos quais a série se tornou numa referência obrigatória na televisão da década passada.


Pela sua ousadia, pela sua ambiguidade moral e pela forma desinibida com que reflectiu sobre o mundo contemporâneo, Battlestar Galactica foi, com a sua temporada inaugural, uma das mais relevantes séries televisivas da última década. Que o tenha feito através de uma space-opera bem construída e visualmente elegante só contribui para a sua importância, tanto dentro como fora do género.


Temporada 1: O melhor
Toda a gente o disse em altura própria – incluindo os participantes na votação para os Hugo Awards, que distinguiram o episódio com o prémio na categoria “Best Dramatic Presentation, Short Form” em 2005. Mas a verdade é que o destaque é incontornável: 33, o primeiro episódio da primeira temporada de Battlestar Galactica, é uma das melhores coisas que já tive oportunidade de ver em ficção científica televisiva. Dando a sequência perfeita à mini-série de introdução, 33 mostra o desgaste sofrido pela tripulação da Galactica e por toda a frota com os sobreviventes da Humanidade após vários dias a escapar da armada dos Cylons que os persegue pelo espaço – com “saltos” a cada 33 minutos. Em três quartos de hora, o episódio consegue apresentar e caracterizar com alguma densidade tanto personagens principais como secundárias, e mostrar de forma extraordinária quão desesperada é a luta da Humanidade com a sua némesis.

Temporada 1: O pior
Este será porventura o grande momento jump the shark da primeira temporada: no episódio 5, You Can’t Go Home Again, há um momento em que Kara “Starbuck” Thrace utiliza a nave de combate Cylon que abatera para escapar do planeta onde se despenhou na sequência da sua última batalha. Que Starbuck conseguisse descobrir em tão pouco tempo como funcionava o sistema de voo de um Raider até poderia ser aceitável, dada a personagem (e o raciocínio que faz sobre os comandos); que conseguisse tapar os buracos no casco com um casaco para isolar o interior da nave e assim escapar para o espaço e regressar à Galactica arruina qualquer suspensão da descrença até então mantida – sobretudo quando, na mesma temporada, há um plot point relevante a propósito dos danos infligidos na Galactica, e na morte de quase uma centena de pessoas devido… a brechas no casco. É certo que uma série como Battlestar Galactica só pode levar a ciência a sério até certo ponto, mas há limites que uma boa série de ficção científica não deve ultrapassar – e este foi sem dúvida um deles.

2 comentários:

Luciano silva vieira disse...

A cada episódio que assisto eu me pergunto: "Como fui descobrir essa série só agora?". Com certeza Battlestar Galactica é uma das melhores séries que já assisti, senão a melhor, até agora. Sua carga dramática é enorme, bem diferente de séries de FC tradicionais como Star Trek, cada episódio assistido clama pelo próximo. Comecei a assistir a segunda temporada agora. Parabéns pelo post.

João Campos disse...

Senti o mesmo até meio da terceira temporada. A partir daí a coisa fica... esquisita.