19 de julho de 2013

O cyberpunk psíquico de Akira

Depois de Ghost in the Shell, continuamos no cyberpunk de origem japonesa - desta vez com Akira, a aclamada banda desenhada de Katsuhiro Otomo que a partir dos anos 90 contribuiu de forma decisiva para a crescente popularidade no Ocidente tanto do manga como do anime através da sua adaptação cinematográfica de 1988. Publicado originalmente em 1982 - no ano da estreia de Blade Runner, uma coincidência interessante -, Otomo desenvolveu em Akira muitas das convenções cyberpunk que, dois anos mais tarde, William Gibson confirmaria quase como alicerces estilísticos do género em Neuromancer.

Uma análise tanto de Akira como de Ghost in the Shell (aqui referido) enquanto obras integradas no subgénero cyberpunk revela-se um exercício interessante. Masamune Shirow, já nos anos 90, afastou-se da tradicional estética sombria e soturna do subgénero e dos protagonistas underdog ou mesmo marginais e fez antes uma aproximação temática e narrativa, com a sua sociedade permanentemente ligada e aumentada pela tecnologia e pela cibernética, dando o protagonismo a uma força da autoridade (um dos mais interessantes detalhes da obra); Katsuhiro Otomo, por seu lado, afastou-se dos temas mais clássicos do cyberpunk - dos hackers, da cibernética - para se centrar numa Neo-Tóquio sombria, pós-apocalíptica, quase reminescente da Los Angeles semi-abandonada que Philip K. Dick descreveu em Do Androids Dream of Electric Sheep? e que Ridley Scott recriou com inexcedível mestria em Blade Runner; e numa cidade praticamente tomada por bandos de delinquentes, optou por dar o protagonismo a alguns deles.

Na edição portuguesa da extinta Meribérica/Liber que estou a acompanhar, Akira encontra-se dividido em 19 volumes - e o primeiro, intitulado A Auto-Estrada (1998), começa por introduzir de forma breve mas visualmente estimulante o contexto de toda a narrativa: em 1992, um ataque devastador com bombas de tipo desconhecido às principais cidades do Japão marcou o início da Terceira Guerra Mundial, que viria mudar por completo o mundo - com algumas das principais cidades de vários países a serem destruídas durante os confrontos. 38 anos volvidos, o mundo ainda se encontra a renascer das cinzas da guerra - e a velha Tóquio deu lugar a Neo-Tóquio, uma cidade a reconstruír-se dos escombros. Muitos jovens, dados à delinquência, encontram-se durante o dia em centros de reinserção social - mas à noite dominam as ruas com drogas e motas. Shotaro Kaneda é o líder de um desses bandos de motards - e numa incursão à cidade velha (e ainda arruinada) o seu companheiro Tetsuo Shima sofre um estranho acidente ao quase colidir com uma criança de aspecto envelhecido. Tetsuo é levado para o hospital e desaparece, mas Kaneda decide tentar descobrir o que realmente aconteceu, e vai tropeçar em algo muito mais vasto e perigoso do que alguma vez imaginara.

Dada a dimensão de Akira no seu todo, é difícil avaliar a narrativa com base neste primeiro álbum, mas as suas escassas 126 páginas (!) já permitem ao leitor ter uma ideia muito clara do ambiente, daquele mundo futurista ainda devastado, do que está em causa no enredo, e dos protagonistas - com Kaneda a ser especialmente bem desenvolvido tanto pelas suas acções e comportamentos mais evidentes como também por alguns pormenores muito interessantes e bastante bem construídos - e Tetsuo a ser preparado para algo muito estranho, porventura relacionado com os enigmáticos Takashi e Masaru (um conceito fabuloso). Katsuhiro Otomo não só escreveu como também desenhou - e a arte de Akira revela-se, mais de 30 anos volvidos sobre a sua publicação original, bastante sólida e expressiva, com as ilustrações a mostrarem na perfeição o ambiente da Neo-Tóquio destruída e o interessante contraste entre noite e dia, entre o moderno e a ruína.

Uma última nota para a edição portuguesa da Meribérica/Liber. Akira foi traduzido na totalidade ao longo, como já referi, de 19 volumes (algo que é de louvar - várias foram as bandas desenhadas que ficaram indefinidamente interrompidas na nossa língua); se este primeiro álbum servir de indicação, então a colecção paperback revela-se bastante interessante e cuidada, com uma tradução a merecer destaque por algumas opções muito curiosas. O nome do tradutor, esse, permanece porém um mistério.

(Akira foi adaptado para o cinema num filme homónimo, com realização e argumento do próprio Katsuhiro Otomo. A crítica ao filme ficará para outro dia - quando o rever, após ter lido a banda desenhada completa)

8 comentários:

Loot disse...

Foi o primeiro mangá que li ainda hoje o considero um dos meus predilectos.

E sim aquele início capta imediatamente a atenção. O filme tb é mto bom, mas aqui a história é mais desenvolvida. Começaste uma grande aventura :)

Abraço

João Campos disse...

Pois, parece que sim! :)

Já vi o filme há uns bons anos. É natural que a banda desenhada seja mais desenvolvida (tal como V for Vendetta, por exemplo), mas lembro-me de ter ficado com muito boa impressão do que vi. Quanto à BD, o início não podia ser mais promissor.

Abraço

Operario disse...

Assim que a Méribérica faliu a colecção inteira começou a aparecer na Fnac, Bertrand e outras lojas a 3 euros cada volume.
Uma verdadeira pechincha.

João Campos disse...

Mesmo. Ainda hoje se encontram em alfarrabistas entre 3 a 5 euros. Quando os ler todos (estou a pedi-los emprestados a um amigo), talvez os compre.

Nuno Vargas disse...

Eu só completei a minha colecção depois da falência. Estava a comprá-los devagar-devagarinho por causa do preço, depois quando vi aqueles preços de pechincha é que pude adquirir os números que me faltavam.
Ah, eu vi o anime primeiro e depois de ler a manga achei que realmente é muito mais interessante conhecer toda a história que Otomo tinha para contar. Mas o filme até faz um bom trabalho em condensar os acontecimentos mais relevantes em cerca de 2h. Não se podia esperar muito mais, julgo eu,

João Campos disse...

Vi o filme há muitos anos - não me recordo de muito, admito, mas lembro-me de ter deixado uma excelente impressão.

É curioso como, ao contrário do cinema americano, a animação japonesa tem um bom historial de adaptações de banda desenhada para o grande ecrã. "Akira", "Ghost in the Shell", "Paprika" (encontram-se várias reviews a defender que o filme de Satoshi Kon é melhor que o livro de Yasutaka Tsutsui), "The Girl Who Leapt Through Time"...

Loot disse...

Mas são adaptações em animação, diferente de adaptar em acção real.

De qualquer das formas também há excelentes casos desses, como o Oldboy e o Ichi the Killer.
No caso do Oldboy o filme é Coreano mas a BD japonesa.

Mas também me parecem existir mts adaptações japonesas duvidosas, a verdade é que não o posso confirmar porque não vi, não tive vontade. Falo de Death note por exemplo, blood the last vampire, etc.

Do filme 20th century boys tb tenho algum receio, mas talvez arrisque, é uma das melhores séries de mangá que saiu nma actualidade.

Abraço

João Campos disse...

Certo, Loot, mas um guião é um guião (e aqui falo apenas de filmes, não de séries). É claro que é muito mais fácil para o Satoshi Kon fazer um filme de animação sobre sonhos do que para o Christopher Nolan, mas a verdade é que muitas vezes as diferenças notam-se logo na escrita, e não nas especificidades da animação ou do cinema convencional.

Quanto ao "Oldboy", é um filme excepcional. Que esteja agora a ser feito um remake americano diz muito, creio, sobre o estado daquele cinema.

Abraço