17 de maio de 2013

The Sandman, Vol. 1: Preludes & Nocturnes, ou o sonho segundo Neil Gaiman

É um tanto ou quanto irónico pensar que o carismático Morpheus, Senhor do Sonhos, protagonista dos aclamados comics The Sandman, da DC Comics, poderia ter sido desenvolvido não na banda desenhada, com os outros "Endless", mas na série literária Wild Cards, de George R. R. Martin. Na Worldcon de 1987, o jovem Gaiman abordou Martin com a ideia de desenvolver para Wildcards uma personagem que vivia num mundo de sonhos. Na altura, Martin recusou a ideia; mas pouco tempo depois, Gaiman seria contactado por Karen Berger, responsável da DC Comics no Reino Unido, que lhe propôs desenvolver um comic mensal para a editora norte-americana. Berger já editara Black Orchid, de Gaiman, e sugeriu ao autor criar uma personagem nova a partir de uma personagem da DC quase esquecida: The Sandman

E assim, quase sem querer, nasceu um dos comics mais aclamados que este meio já conheceu. 

Há, de facto qualquer coisa de fascinante no conceito dos "Endless", os sete seres que personificam alguns dos aspectos mais poderosos do Universo (no inglês, Dream, Death, Destiny, Despair, Desire, Delirium, Destruction), e que entre si funcionam como uma família mais ou menos disfuncional. Mas esse conceito foi explorado ao longo dos sete anos de publicação do comic; nos primeiros oito issues, reunidos na edição paperback Preludes & Nocturnes (primeira edição de 1991), a narrativa centra-se em Morpheus, Senhor dos Sonhos, protagonista da série e dos sete "Endless" aquele que domina o aspecto do Sonho e do Pesadelo. Gaiman desenvolve a personagem com mestria ao longo destes oito issues, com uma situação inicial muito interessante que dá origem a uma longa e complexa cruzada que vai envolver outros universos e outras personagens da DC. Comecemos pelo primeiro:

De Dream a Little Dream of Me
#1 - Sleep of the Just: É difícil pensar numa melhor abertura para um comic - nem V for Vendetta ou Watchmen, de Alan Moore, conseguiram um primeiro issue tão marcante como este Sleep of the Just. Corre o ano de 1916, e o feiticeiro Roderick Burgess decide levar a cabo um encantamento antigo, capaz de evocar o aspecto da Morte e aprisioná-la, colocando um fim efectivo à morte. O encantamento, porém, não corre, como esperado, evocando o Sonho em vez da Morte - e, receando uma vingança, Burgess rouba a Morpheus os seus artefactos mágicos (um elmo, uma bolsa com areia e um rubi) e prende-o durante muitos anos - originando uma série de perturbações no mundo e dando a Morpheus muito tempo para preparar a sua retribuição. É uma história formidável, intrigante desde as primeiras vinhetas, com um final inesquecível - provavelmente, a melhor deste álbum.

#2 - Imperfect Hosts: Livre, Morpheus regressa ao seu domínio, ao Sonho - apenas para o encontrar em ruínas, fruto da sua ausência prolongada. O Senhor dos Sonhos encontra Caim e Abel, que lhe dão alguma ajuda - tal como as Kindly Ones que evoca, e que lhe fornecem algumas pistas sobre onde encontrar os seus artefactos roubados para, com eles, recuperar o seu poder e restaurar o seu domínio. Em paralelo, Gaiman começa a explorar a história de John Dee, o Doctor Destiny, que será relevante em issues subsequentes.

#3 - Dream a Little Dream of Me: O primeiro artefacto que Morpheus tenta recuperar é a sua bolsa com areia - e para tal segue as indicações das Kindly Ones e vai procurar John Constantine, o icónico anti-herói britânico e detective do oculto, que suspeita saber do paradeiro do objecto. Constantine é, para todos os efeitos, uma personagem carismática - e a história que partilha com Morpheus é formidável, regressando ao seu passado para reviver alguns horrores. Sem dúvida, uma das melhores histórias deste álbum.

De A Hope in Hell
#4 - A Hope in Hell: Tendo recuperado algum do seu poder, Morpheus decide seguir a segunda pista das Kindly Ones e dirige-se ao Inferno em busca do seu elmo. Lá encontra Etrigan e o Triunvirato que governa as profundezas: Lucifer, Beelzebub e Azazel. Acaba por ter de se envolver numa luta muito peculiar para recuperar o artefacto. 

#5 - Passengers: Em Passengers, Gaiman conta duas histórias. A primeira trata da busca de Sandman pelo terceiro artefacto, o rubi; para tal, o Senhor dos Sonhos procura Scott Free, o Miracle Man, que o encaminha para um dos membros da Justice League of America original: Martian Manhunter. Ao mesmo tempo, o Doctor Destiny evade-se do Arkham Asylum - e a demanda de um e a fuga de outro vão cruzar-se de uma forma que, não sendo inesperada, não deixa de ser surpreendente. 

#6 - 24 Hours: Em termos visuais, 24 Hours será talvez o mais impressionante pelas imagens que evoca. Com um tom de horror assumido, este issue centra-se no Doctor Destiny e nos pesadelos que ele tece com o rubi de Morpheus durante um período de 24 horas num pequeno café. 

#7 - Sound and Fury: Com um título de inspiração shakespereana, Sound and Fury é o confronto inevitável entre o Doctor Destiny e Morpheus - com os sonhos de grandeza do primeiro a contrastar com a determinação do segundo, e com o caos resultante da manipulação de todo o poder encerrado na jóia do Senhor dos Sonhos. Ainda que a resolução deste issue não seja o momento mais inspirado deste álbum, Sound and Fury é uma história fascinante. 

De The Sound of Her Wings
#8 - The Sound of Her Wings: Concluída que está a sua demanda, Morpheus (re)encontra por fim outro dos Endless - a sua irmã mais velha, a Morte. Em jeito de epílogo para o arco narrativo desenvolvido ao longo dos sete issues anteriores, The Sound of Her Wings revela um pouco da personalidade da Morte, que não corresponde de todo a qualquer ideia convencional sobre um avatar da Morte. Como conclusão, este issue é interessante por três motivos distintos: pela reflexão que faz sobre a história concluída no issue anterior; pela introdução da Morte, e pelas possibilidades que esta nova personagem encerra; e por aquilo que mostra sobre a personalidade tanto dela como do próprio Morpheus.

Tratanto-se Preludes & Nocturnes de uma graphic novel, seria estranho não destacar o aspecto artístico dos oito issues que o compõem (ainda que essa esteja longe de ser a minha especialidade). Se em termos gerais a arte de Sam Kieth, Mike Dringenberg e Malcolm Jones III não é extraordinária, na prática cumpre de forma muito competente (e em alguns momentos com distinção) a função de ilustrar a demanda de Morpheus, dando-lhe um certo toque surreal que lhe assenta como uma luva. 

Claro que o destaque de Preludes & Nocturnes é a sua narrativa - e aqui o crédito vai inteiramente para Neil Gaiman, que conseguiu recuperar uma personagem obscura da DC e torná-la numa das mais relevantes  personagens dos comics das últimas três décadas. A odisseia de Morpheus é a todos os níveis fascinante, e Gaiman, ainda a encontrar a sua voz, consegue dar à sua escrita uma coesão e uma simplicidade que dão densidade à narrativa e às personagens. Preludes & Nocturnes é o primeiro dos dez álbuns paperback de The Sandman, dedicados à história de Morpheus - e dificilmente a série poderia começar de forma mais auspiciosa.  

18 comentários:

Loot disse...

Antes de mais muito bem vindo ao universo de Sandman :)
Nem de perto nem de longe sou um conhecedor tão aprofundado do género fantástico como tu, mas do que conheço "The Sandman" é a minha obra predilecta.

Ainda bem que gostaste do 1º volume, eu acho que tem histórias fantásticas e sempre estranhei quando li que o 1º volume afastava algumas pessoas. Toda a construção da série é muito bem feita ao longo dos 10 volumes, há coisas que acontecem aqui que terão repercurssões posteriormente, e por aí fora. tudo muito bem orquestrado por Gaiman.

vão haver alguns desenhadores muito bons a trabalhar nisto, mas como dizes a maior força está no argumento. Eu até gosto dos desenhos deste volume, acabam por ficar bem enquadrados na atmosfera.

Agora algumas curiosidades (nada de spoilers) que poderás achar interessantes:

1 - Quando Morpheus é capturado, algumas pessoas sofrem de doenças e particularidades no que toca o campo do sonho. Uma delas é Wesley Dodds que começa a combater o crime nessa altura. Dodds é o super-herói que usa originalmente o nome Sandman. É a personagem antiga que referes no texto e Gaiman não o esqueceu referindo-o aqui (e no futuro tb) numa homenagem.

2 - O Lucifer foi retratado como parecido ao David Bowie, se olhares para as primeiras páginas a semelhança é bastante notória. O triunvirato infernal foi algo imposto pela editora que não queriam o poder concentrado em Lucifer (na altura a sede da DC Comiccs era no código postal 666). Porém, Gaiman sempre mostrou quem relamente manda no Inferno e há medida que anvançares o triunvirato deixa de ser referido.

3 - Bem e o Morpheus é muito parecido com o Gaiman.

4 - E que me lembre é isto. Apenas por curiosidade posso partilhar que este foi o primeiro livro que me aventurei a criticar/comentar no blog.

Abraço

Nuno Vargas disse...

Vou guardar a leitura deste post até ler o livro, que tenho em casa há um par de anos. Ainda não o li porque primeiro queria comprar os volumes seguintes, para evitar a ansiedade de querer ler o que vem a seguir e não poder... Neste momento já tenho os primeiros 4 volumes, talvez me aventure em breve!

artur coelho disse...

bem vindo ao melhor dos comics escritos no final do século XX. tão bom quanto o monstro do pântano por alan moore. prepara-te para fortes toques shakespeareanos, onirismo literário, uma mitologia intricada composta por personagens humanizadas que encarnam conceitos e espelham as complexidades dos mitos greco-romanos. se achas os prelúdios e nocturnos deslumbrantes, prepara-te para uma verdadeira aventura literária bem ilustrada. pessoalmente os meus momentos favorito são o velório de morpheus e as revisitação de a midsummer night's dream.

João Campos disse...

Loot, eu sou um jogador de role play videogames :) Basicamente, o arco narrativo do primeiro paperback é uma longa fetchquest - e das boas, diga-se de passagem.

Hehe. Obrigado pelas curiosidades. Bem me parecia que o Lucifer me era familiar..! Mas olha que o Morpheus é muito mais parecido ao Richard Smith dos The Cure... Aliás, só neste álbum tens três músicos de peso: Bowie (Lucifer), Smith (The Cure) e Sting (Constantine).

Agora é esperar alguns meses para ler o segundo. Bah.

Abraço :)

João Campos disse...

Nuno,

não sei quanto aos outros. Cá por estes lados ainda vou demorar a ler os seguintes, já que eles chegam ao sabor das encomendas trimestrais da Amazon...

João Campos disse...

Artur, já me disseram maravilhas dessa revisitação ao Midsummer Night's Dream. Tenho mesmo de lá chegar.

(e sim, um dos meus melhores amigos anda há anos - literalmente - a insistir comigo para eu pegar em Sandman. About time, I say).

Loot disse...

Sim, o Morpheus tem similaridades até com o Peter Murphy talvez. Depois quando chegar a Delirium vê se te lembra alguém também deste mundo :P

Artur há aí uma frase que não devia ter sido proferida, ninguém merece saber isso antes do tempo.

João Campos disse...

Loot, como disse acima, um amigo já me fala de Sandman há anos. Sei mais ou menos como acaba :)

Quanto à Delerium, já a vi várias vezes (long live the Internet) e não me lembra ninguém. Pistas?

Loot disse...

Não sou um grande conhecedor da obra dela, apesar de gostar do que conheço. Tem cabelo ruivo e acho que é amiga do Gaiman.

Cantou ao vivo a canção muhammad my friend com o vocalista dos Tool :P

João Campos disse...

Assim é fácil, é a Tori Amos :)

artur coelho disse...

nah, mesmo que o final se desvende a qualidade literária é tão boa que é impossível não entristecer. e não se pode matar um arquétipo... mas esta parte deixemos que o joão descubra.

quanto ao midsummer nights dream acho que vais da história desta história ter feito história e ganho um irrepetível prémio hugo.

João Campos disse...

Pois, é como te digo: eu já tropecei em vários elementos do final de Sandman (Daniel Hall, etc). Logo juntarei as peças :)

Hugo ou World Fantasy Award?

Loot disse...

Qualquer obra cuja qualidade é boa sobrevive a qualquer spoiler, a questão nao era essa :p

Mas, pronto tudo que foi dito sublinho.

João Campos disse...

Discordo em parte, caro Loot, mas essa será talvez outra discussão. De qualquer forma, voltarei ao tema de Sandman assim que ler o segundo paperback. Lá para o Verão, certamente.

Loot disse...

Concordo é tema para outra discussão, mas como talvez me tenha expressado mal quero só clarificar que o que queria dizer é que mesmo com spoilers a qualidade de escrita de um livro, ou a qualidade de realização de um filme mantêm-se. Agora há historias que sofrem mais do que outras pela revelação de algo, tem a ver com o próprio genero por vezes. Enfim, era isso.

Abraço

João Campos disse...

Sim, sem dúvida.

Para a semana, em princípio, voltamos à discussão mas com o Hellboy.

Abraço

artur coelho disse...

e outro spoiler: depois de leres a história dream of 1000 cats nunca mais verás os gatos da mesma maneira. não digas que não foste avisado.

João Campos disse...

Artur, após anos de 9gag, I Can Haz Cheezburguer e lolcats avulsos, é já difícil ver os gatos da mesma maneira..! :)