26 de março de 2013

Gattaca: a metáfora da superação

Os temas da manipulação e da discriminação genética são há muito tempo recorrentes - clássicos, para todos os efeitos - na ficção científica, tendo servido como premissas fundamentais de narrativas de natureza diversa. Em 1997, o neo-zelandês Andrew Niccol estreou-se como argumentista e realizador com Gattaca, um filme que recupera estes temas e explora-os ao imaginar uma sociedade "num futuro não muito distante", no qual os filhos são concebidos in vitro com base nas melhores características genéticas de cada um dos seus progenitores, refinando o potencial genético de cada indivíduo enquanto se reduz ao máximo as probabilidades de desenvolver imperfeições hereditárias. Se em teoria estes desenvolvimentos científicos e tecnológicos tinham como objectivo a eliminação de doenças e condições genéticas, na prática deram origem a uma sociedade de estratificação rígida, na qual a ascensão - ou queda - de cada indivíduo é feita com base no seu grau de depuramento genético. Ainda que a discriminação eugénica seja proibida, a prática tornou-se comum e criou um fosso abismal entre os Válidos - aqueles que nasceram a partir de manipulação genética - e os Inválidos, indivíduos comuns que devido ao seu nascimento convencional e às subsequentes imperfeições (de miopia a uma maior probabilidade de sofrer problemas cardíacos) estão condenados aos trabalhos mais elementares que a sociedade pode oferecer.


O objectivo de Niccol com Gattaca, porém, não é tanto reflectir sobre a condição de uma sociedade estratificada na qual a discriminação genética é uma realidade (ainda que essa reflexão seja suscitada), mas sim explorar o drama da perfeição e a capacidade de superação do Homem perante as maiores adversidades. É este o detalhe fundamental que separa Gattaca de outras obras do género - e, diria, que eleva o filme na ficção científica cinematográfica dos anos 90: menos preocupado em fazer uma análise social alargada, o filme explora a sua premissa a partir de duas personagens radicalmente opostas cujas vidas acabam por se ligar.


A primeira é Vincent Freeman (Ethan Hawke) nasceu do amor dos seus pais, e não de manipulação genética - e por isso é míope, apresenta um elevado potencial de desenvolver doenças cardíacas e tem uma esperança média de vida muito curta. O seu sonho de trabalhar na exploração espacial são por isso impossíveis, uma vez que tal carreira está reservada para os mais perfeitos dos indivíduos. Vincent, porém, não desiste de lutar pelo seu sonho - e quando consegue finalmente derrotar (e se vê obrigado a salvar) o seu irmão perfeito, Anton, no seu desafio secreto de natação, decide deixar a sua vida para trás e procurar uma nova. O que o conduz a Jerome Morrow, a segunda personagem de destaque, um antigo atleta com um potencial genético ímpar, que devido a um acidente ficou paralizado da cintura para baixo. Vincent adquire a identidade de Jerome para ascender até ao topo da hierarquia social e conseguir entrar em Gattaca, a mais prestigiada e elitista empresa de exploração espacial. Mas adquirir a identidade não chega: Vincent tem de passar a ser Jerome, e para isso submete-se a tratamentos intensivos e estabelece com Jerome uma meticulosa rotina de falsificação de material genético para poder enganar o sistema. Mas o seu disfarce é comprometido quando se começa a aproximar da sua colega Irene Cassini (Uma Truman) e o director do programa espacial em que está a participar é assassinado.


E se Ethan Hawke se revela num Vincent muito forte e empenhado em levar o seu sonho até às últimas circunstâncias, Jude Law encarna um formidável Jerome, esmagado pelo fardo da perfeição genética com o qual foi incapaz de lidar. Sem outras perspectivas, resta-lhe vender a única coisa de valor que lhe resta - a identidade genética que o coloca nos estratos mais elevados da sociedade - para manter a vida degradante a que se habituou. Uma "queda" que impulsiona a ascensão de Vincent, a superação da condição inferior sob a qual nasceu e que durante tanto tempo condicionou a sua vida - mas a que preço?


Com um tom marcadamente dramático com alguns ecos de cautionary taleGattaca merece com toda a justiça um lugar de destaque entre a melhor ficção científica da década de 90. Sem necessidade de recorrer a efeitos especiais, nem por isso abdica de uma identidade visual muito própria, em sintonia com o tom do filme; e à medida que desenvolve uma intrincada trama policial com algumas revelações surpreendentes, explora uma premissa tão interessante como polémica através de duas fascinantes personagens opostas, mas não antagónicas. Dezasseis anos volvidos, o seu "futuro não muito distante" ainda não se materializou - e a sua pertinência permanece intacta. 8.7/10

Gattaca (1997)
Realização e Argumento de Andrew Niccol
Com Ethan Hawke, Jude Law, Uma Thurman, Gore Vidal, Xander Berkeley e Elias Koteas
106 minutos

4 comentários:

Bráulio disse...

Desconhecia por completo a existência disto. Não ser fã de Hawke e Thurman provavelmente ajudou.
Mas vou ver então se ponho isto em dia. :)

João Campos disse...

Vê, que vale a pena. Sempre tens o Jude Law em mais um grande papel.

Loot disse...

Recentemente tenho ideia de andar a ouvir falar bastante mal deste filme, o que é estranho pois a recordação que tenho dele é bem masi próxima do teu texto.

Deste-me vontade de o recordar.

Abraço

João Campos disse...

Revi-o no fim-de-semana passado, para poder escrever este texto. Envelheceu muito bem a todos os níveis.

Abraço e boa Páscoa.