22 de janeiro de 2013

The Golden Compass: A adaptação falhada de um clássico moderno da literatura fantástica

Na década passada, a trilogia The Lord of the Rings (e, de certa forma, a série Harry Potter) provou que a fantasia enquanto género cinematográfico pode dar origem a filmes de excelente qualidade, capazes de atraírem um público vasto e diverso e de gerar receitas de bilheteira avultadas. Não surpreende, portanto, que os estúdios tenham tentado repetir a fórmula, e se tenham voltado para a fantasia literária em busca da próxima mina de ouro. A série His Dark Materials, de Philip Pullman, tornou-se por isso bastante apetecível - e a New Line Cinema, que produziu The Lord of the Rings, encarregou em 2007 o realizador Chris Weitz de adaptar o primeiro livro da trilogia, Northern Lights (e, se possível, reproduzir o sucesso de Peter Jackson). O resultado foi The Golden Compass.

Considero Northern Lights um dos melhores livros de fantasia que já li, e a série His Dark Materials uma das melhores que o género já produziu (mas sobre isso falarei na Sexta). Foi, por isso, com muito entusiasmo que em 2007 fiquei a saber que os mesmos estúdios que tinham recriado a Terra Média no grande ecrã estavam a dedicar-se à adaptação cinematográfica da fascinante série de Pullman. O primeiro trailer do filme foi um regalo: todas as imagens indicavam uma adaptação muito fiel ao livro, com um elenco de luxo - Daniel Craig, Nicole Kidman, Ian McKellen, Eva Green, Sam Elliott - que parecia perfeito para os vários papéis, e efeitos especiais arrebatadores. O filme, porém, cedo começou a revelar os seus muitos problemas. 

O primeiro problema de The Golden Compass é que Chris Weitz (realizador e argumentista) esforçou-se tanto para repetir o sucesso de The Lord of the Rings que acabou por tentar fazer um filme praticamente idêntico a The Fellowship of the Ring do ponto de vista narrativo, sem no entanto pegar nos conteúdos com o cuidado que eles exigiam. O início do filme, um infodump em jeito de prólogo que em tudo lembra a narração de Galadriel sobre os Anéis do Poder, apresenta alguns dos elementos fundamentais do filme: o alethiometer, as misteriosas partículas conhecidas como Dust, a natureza dos daemons, o conflito latente com o Magisterium. Enquanto prólogo, falha com estrondo: se a introdução de The Lord of the Rings deu ao público informação relevante para a história mas que não fazia parte da história, já o prólogo de The Golden Compass fornece informação essencial (leia-se: spoilers) para a história que podia e devia ser dada durante a história. Show, don't tell: uma regra básica e aqui ignorada de forma tão flagrante. Não por acaso, um dos aspectos mais interessantes do livro é acompanhar Lyra à medida que ela descobre as potencialidades do alethiometer e aprende a lê-lo por instinto; no filme, sabemos desde o primeiro minuto o que faz o aparelho - como sabemos logo o que é a Dust, um aspecto central na trilogia e algo que vai sendo explicado à medida que a história avança. 

O segundo problema é, na prática, tudo o que se segue. Em termos narrativos, The Golden Compass é atroz: a primeira parte do filme parece ser passada em fast forward, com os vários momentos a sucederem-se a uma velocidade tão rápida que os separa do seu encadeamento natural. Sem tempo para se estabelecer, os acontecimentos parecem truncados e desprovidos de vida - e, pior, de relevância. As personagens, por seu lado, vêem-se impedidas de "respirar", e assim perdem a sua força - como se pode ver de forma flagrante durante o jantar em Jordan College com Lyra e Mrs. Coulter (Nicole Kidman num modo overacting tão inesperado como lamentável): uma cena poderosa reduzida a uma deixa tão cheesy como "I was wondering if I might borrow dear Lyra". Cenários fascinantes como o da grande reunião dos Gyptians são reduzidos a um único barco - e, da mesma forma, aquele povo tão peculiar torna-se apenas num grupo de pessoas como outro qualquer, unidos apenas por causa das suas crianças desaparecidas.

Com as personagens mal caracterizadas e os acontecimentos quase irrelevantes da primeira parte do filme, não admira que a segunda parte - o clímax, com os grandes confrontos - seja para todos os efeitos desinteressante. Durante a viagem, Lyra conhece Serafina Pekkala (Eva Green), uma bruxa do Norte, que vai até ao barco aparentemente por motivo nenhum - ainda que, honra lhe seja feita, acabe por se revelar numa das personagens mais interessantes do filme, apesar da sua parca caracterização. Após a chegada a Tollesund, Lyra conhece Lee Scoresby (Sam Elliott, outra personagem a conseguir emergir do péssimo guião), o aeronauta texano que lhe deixa como conselho procurar um urso - no caso, Iorek Byrnison. E depois conhece o próprio Iorek, um urso polar recriado através de CGI e com a voz inconfundível de Gandalf Ian McKellen. A partir deste ponto, o pouco sentido que a história pudesse perde-se por completo: o guião decide alterar a ordem natural dos acontecimentos para forçar um clímax inexistente, colocando a sequência de Svalbard (com o combate entre Iorek e Ragnar) antes de Bolvangar. Ou seja: move as personagens para o extremo Norte, desloca-as para Sul, e no final coloca-as de novo em movimento para Norte. Brilhante.

O pior, porém, ainda estava para vir, quando o filme acaba a meio da viagem de Lyra para Norte, antes do seu derradeiro encontro com Lord Asriel e Mrs. Coulter, e do final verdadeiro do livro - uma omissão que, à época, enfureceu os fãs, sobretudo porque os trailers oficiais do filme mostram aquelas cenas de Svalbard. A ideia, provavelmente, seria incluir toda aquela cena nos momentos iniciais da sequela, a adaptação cinematográfica de The Subtle Knife, de forma a (uma vez mais) repetir a fórmula de The Lord of the Rings (o segundo filme, The Two Towers, começa com uma cena muito poderosa: o combate entre Gandalf e o Baelrog). Esta decisão revelou-se problemática por ter privado a narrativa do seu clímax natural, sem dar ao filme uma alternativa viável; nem o combate dos panserbjorne nem a batalha de Bolvangar têm força suficiente para cumprir esse papel.

Que não se pense, porém, que tudo em The Golden Compass é mau. Os efeitos especiais mereceram o Óscar com que foram distinguidos - a forma como os daemons e os panserbjorne ganharam vida no grande ecrá é notável, e as breves imagens da Londres retro-ambaric-punk são formidáveis. Os actores não se saíram mal, considerando as muitas limitações do argumento: Sam Elliott e Eva Green encarnaram na perfeição Lee Scoresby e Serafina Pekkala, e mesmo Daniel Craig não se saiu nada mal como Lord Asriel. A revelação, porém, foi mesmo a jovem Dakota Blue Richards como Lyra, ainda que de todas as personagens tenha sido aquela que mais foi prejudicada pelo péssimo guião. 

Há, no entanto, algo que talvez importe referir: o argumento final de The Golden Compass não foi, ao que parece, o primeiro guião escrito por Chris Weitz, mas uma versão muito truncada do primeiro que escreveu. É possível recuperar online o famoso guião original (escrito após o guião recusado de Tom Stoppard), e após a respectiva leitura, é impossível não lamentar que o filme não tenha seguido o primeiro guião de Weitz (que pode ser lido aqui) - não estando perfeito, está muito mais sólido e bem construído do que aquele que, para tristeza de muitos, acabou por ser utilizado para o filme. Pelos vistos, o filme sofreu devido a "decisões superiores" e a uma edição que saiu das mãos do realizador. Talvez a ideia original de Chris Weitz fosse melhor que a final, mas a verdade é que mesmo a versão final foi da sua autoria - e truncada ou não, o resultado foi muito fraco. O que não deixa de ser uma pena: a His Dark Materials é uma das melhores séries literárias que o género conheceu nas últimas duas décadas, e uma produção cuidada seria mais do que suficiente para garantir uma trilogia cinematográfica de qualidade - independentemente dos protestos da Igreja Católica. 04/10

The Golden Compass (2007)
Realizado por Chris Weitz
Com Daniel Craig, Nicole Kidman, Dakota Blue Richards, Eva Green, Ian McKellen, Christopher Lee, Jim Carter, Tom Courtenay e Sam Elliott
113 minutos

6 comentários:

Arm Paulo Fer disse...

Mesmo não sendo a versão filme, pois desconheço a versão literária, um grande filme, achei-o mesmo assim muito interessante, com um bom elenco e gostava que tivessem feito pelo menos mais um para concluir o que ficou em aberto.
Acho-o bastante interessante. 6/10

João Campos disse...

Para concluir o que ficou em aberto, seriam necessários mais dois (pelo menos). Northern Lights quase só mostra o ponto de partida da história.

Arm Paulo Fer disse...

Ora bem... eu sei que os objectivos iniciais passava por ser uma trilogia. Contudo, devido à fraca aderência ao primeiro, gostava na mesma que tivessem feito pelo menos um só e de alguma maneira terminassem o arco narrativo (de forma mais abreviada, teria de ser). Porque acho o filme bastante interessante mas fica-se a meio... e não há mais...

João Campos disse...

O filme fica a meio em todos os sentidos (até no final truncado). Mas sim, percebo a ideia. Pode ser que qualquer dia algum estúdio volte a pegar na trilogia, ou que alguém queira adaptá-la para televisão.

ruisdb disse...

Vi o filme e não deixou memória. Ao ler o post, fico a perceber um pouco as razões do relativo flop do filme.
Mas acho que uma boa parte se deve às limitações do livro.
É evidente, quer no livro, quer no filme, a tentativa de ombrear com o LOTR e o universo Tolkien.
Só que... não é Tolkien quem quer.
A história não tem nada de errado; mas é igual a tanta fantasia que a antecedeu: heróis bons contra vilões maus, heróis frágeis contra instituições poderosas.
Onde é que já vi isso?

João Campos disse...

Discordo quanto às limitações do livro - sobretudo na comparação com Tolkien. Aliás, enquanto Tolkien sempre rejeitou quaisquer alegorias religiosas em "The Lord of the Rings", Philip Pullman trabalhou e explorou essas alegorias enquanto plot device, e isso deu origem a um universo fantástico único, muito distinto de quaisquer outros (mesmo que muitas das convenções sejam partilhadas, como inevitavelmente são).

O que distingue o universo de Pullman dos demais é precisamente isso: ao invés de ir buscar as suas referências à mitologia (como Tolkien) ou à História (como Martin), foi buscá-las à religião - no caso, ao cristianismo. Isso, e a abordagem dos universos paralelos, muito de inspiração da ficção científica, colocam todo o universo de "His Dark Materials" num lugar à parte dentro do género.