24 de janeiro de 2013

Listas, listas (2)

Fazer uma lista de obras "essenciais", "indispensáveis" ou mesmo "obrigatórias" é sempre uma tarefa árdua - e, acima de tudo, de relevância muito discutível. Esse foi o tema de um artigo já antigo neste blogue, e ao qual regresso agora a propósito da recente lista da Abe Books sobre as 50 obras fundamentais da ficção científica. Um dos critérios foi a inclusão de apenas um livro por autor - algo que se percebe, mas que nem por isso deixa de ser problemático (como, aliás, os próprios admitiram na referência a Heinlein, Clarke e Asimov).Outro dos critérios foi a introdução de tantos subgéneros quanto possível na lista, de forma a torná-la mais diversificada - o que também faz sentido, mas que cedo se torna estranho perante algumas opções. 

Claro que numa lista desta natureza, o debate acaba sempre por se centrar não nos livros e autores incluídos, mas nas omissões - e a lista da Abe Books não é excepção. As omissões de Stand on Zanzibar de John Brunner, de The Space Merchants de Cyril M. Kornbluth e Frederik Pohl, de The Forever War de Joe Haldeman, e A Clockwork Orange, de Anthony Burgess, são, a meu ver, especialmente relevantes. No primeiro caso, não só por ser um dos livros mais importantes da "New Wave" da ficção científica, como também por ser uma distopia brilhante tanto do ponto de vista conceptual como do ponto de vista narrativo (julgo que a omissão estará relacionada com a introdução de Make Room! Make Room! de Harry Harrison). O segundo, por ser - também - uma distopia brilhante, mas sobretudo pela sua crescente actualidade e relevância; o terceiro por ser sem dúvida uma das maiores obras da ficção científica militar, e o exemplo perfeito da utilização do rigor científico enquanto plot device. E o quarto, enfim, é A Clockwork Orange.

Ainda nas omissões, podemos sempre referir a ausência de autores consagrados como Robert Silverberg, Jack Vance e Roger Zelazny, e muitos outros que certamente me escapam. Mas mesmo entre as obras seleccionadas as escolhas desta lista são muito discutíveis. O caso mais flagrante, a meu ver, é o de Arthur C. Clarke,  representado na lista com Rendezvous With Rama. É sem dúvida um livro brilhante - mas julgo que Childhood's End, The City and the Stars ou mesmo 2001: A Space Odyssey (pela sua relevância no género) seriam escolhas mais interessantes. 

Nem por isso, contudo, deixa esta lista de ser interessante, e de merecer alguma atenção. Não será, de todo, uma lista "definitiva" (uma impossibilidade), mas fornece excelentes sugestões de leitura e deixa imensas referências que figuram sem dúvida entre os clássicos do género.

Fontes: Abe Books / facebook

2 comentários:

artur coelho disse...

foi interessante ver chris ware lá metido. isso e as indicações para obras obscuras.

João Campos disse...

De facto, há muita coisa interessante e relativamente obscura lá no meio - o que é óptimo. Mas as omissões são gritantes.