8 de novembro de 2012

V for Vendetta: Os altos e baixos da adaptação cinematográfica

Ao longo dos últimos dias falei aqui de V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd. Abordei o universo distópico criado por Moore, as personagens e a sua importância no puzzle narrativo de V. Isto, note-se, a propósito de um comic vasto, complexo, repleto de narrativas laterais e desenvolvido ao longo de vários anos. Em 2005, estreou a adaptação cinematográfica deste fascinante universo, num filme realizado por James McTeigue, com argumento e produção de Larry e Andy Wachowsky, e com um elenco repleto de actores consagrados: Hugo Weaving, Natalie Portman, John Hurt, Stephen Rea, Stephen Fry e Ruper Graves. Sem surpresas, Alan Moore opôs-se ao projecto, e não permitiu qualquer associação do seu nome ao filme. Mas independentemente desta oposição, terá este filme conseguido fazer justiça ao formidável comic de Moore e Lloyd?

Sim e não.

Não fez justiça ao comic na medida em que tal seria impossível: V for Vendetta é demasiado denso e contém demasiadas narrativas secundárias para uma adaptação num filme de pouco mais de duas horas. Para ser franco, nem quatro horas chegariam para contar a história de V, de Evey, de Finch e de Susan, e ainda para acompanhar as narrativas laterais de Creedy, Etheridge, Heyer, Almond, Rosemary, Helen e Ally, e mesmo do supercomputador "Fate" (e, recordemos, todas estas narrativas são fundamentais para o desfecho do comic). Foi necessário fazer inúmeros desvios narrativos, alterar a ordem de muitos acontecimentos, omitir outros, cortar algumas personagens e reduzir outras a uma quase-insignificância, e ainda fazer algumas alterações drásticas tanto em personagens como em momentos fundamentais da narrativa. Adam Susan, interpretado por John Hurt, viu o seu nome alterado para Adam Sutler (uma alteração que julgo desnecessária), e passou de um tirano ambíguo para um Hitler versão século XXI; já Creedy deixou de ser o pequeno criminoso chegado ao poder para se tornar num dos cérebros do Norsefire e num vilão um tanto ou quanto cartoony. Finch, por seu lado, não foi tão longe para descobrir V, e Evey viu o seu passado drasticamente alterado. Larkhill, por exemplo, deixou de ser um mero campo de concentração onde foram feitas experiências macabras: essas experiências abriram a porta a uma vasta conspiração de terrorismo biológico, ausente no comic, que ajudou o Norsefire a ascender ao poder.

Em termos globais, o filme acaba por transmitir uma mensagem menos “anarquista” e mais contemporânea - se no comic V é sempre uma personagem ambígua, no filme essa ambiguidade esbateu-se de forma significativa, e ele é de facto um herói - como muitos disseram, um freedom-fighter (ainda assim, julgo que Alan Moore exagera quando considera que o filme passa uma mensagem “pró-americana” - aliás, julgo que a ideia é justamente a oposta).

Há, contudo, vários pontos nos quais a adaptação funciona muito. O foco na televisão, e não na rádio, está excelente e faz mais sentido para as audiências do século XXI - tal como a referência à Interlink, que suponho ser a Internet (algo que em 1982 não existia tal como a conhecemos hoje). A conspiração do terrorismo biológico para a ascensão do Norsefire, apesar de ser um elemento novo (e porventura desnecesário), está bem construído, não sendo rebuscado e não ferindo a lógica interna da narrativa. O elenco é praticamente irrepreensível - John Hurt está sólido como Sutler e Stephen Rea representa um excelente Finch; mas Natalie Portman brilha como Evey Hammond (a cena da tortura é inesquecível) e Hugo Weaving tem um desempenho tão forte que consegue dar expressividade a uma personagem que tem sempre o rosto coberto por uma máscara. Diria mesmo que o desempenho magnético de Weaving é mesmo o ponto forte do filme: consegue transmitir de forma impressionante o carácter violento mas teatral de V, com todo o seu idealismo e a sua inteligência.

A narrativa conheceu bastantes alterações de forma a adequar o ritmo à duração do filme. A vingança de V contra Prothero, Lilliman e Surridge manteve-se, ainda que com algumas alterações (sobretudo no caso de Prothero), tal como a história de Valerie Page, especialmente bem contada durante o incarceramento de Evey (também adaptado de forma fiel). Mesmo o final, apesar de muitas alterações (fruto do desaparecimento de muitas narrativas secundárias), manteém alguma fidelidade para com o comic. O início do filme é idêntico ao comic, mas muda logo nos primeiros minutos, quando V faz explorir o Old Bailey - o Parlamento é guardado para o final apoteótico.

Por muito discutível que a adaptação de V for Vendetta seja, com todas as suas alterações e todos os seus desvios, a verdade é que o resultado é um filme muito acima da média, com desempenhos memoráveis e uma carga simbólica muito forte. Creio que é neste ponto que V for Vendetta, o filme, mais se aproxima do comic: apesar de todas as mudanças (muitas delas drásticas), conseguiu preservar o essencial da subversiva mensagem elaborada por Alan Moore e David Lloyd, e passá-la de forma muito coerente, criando e adaptando algumas frases que se tornaram em autênticos soundbites (People shouldn’t be afraid of their governments, governments should be afraid of their people). Não dispensa a leitura do comic, agora compilado em graphic novel, mas vale por si só como um óptimo e poderoso filme. 8.0/10

9 comentários:

Loot disse...

Excelente semana esta, sobre uma das BDs mais marcantes que li. A cena da tortura da Evey, o assassinato daquela mulher pelo V, entre tantos outros momentos a destacar.

No filme realmente V é mais afastado do seu lado anti-heróico e terrorista. E sim , Hogo Weaving é assombroso, aquela voz, aquela presença.

Mas, já tudo foi, muito bem dito e salientado. Estou a gostar muito e a ter uma grande vontade de reler isto.

Espero que o filme, que é bom, tenha feito muitos chegar ao livro e que o continue a fazer, se bem que pela quantidade de referências ao filme em vez do livro, penso que continuam a ser uma minoria.

aproveito para deixar uma entrevista que fiz ao David Lloyd quando ele esteve por cá no festival da Amadora: http://www.ruadebaixo.com/david-lloyd.html

Abraço

João Campos disse...

Excelente entrevista, Loot. Muito boa mesmo!

Já sabia que o Lloyd tinha gostado do filme. Já o Alan Moore... bom, ao menos esta adaptação e a divergência de opiniões, que se saiba, não fez com que ele se desentendesse com o Lloyd (como se desentendeu com o Dave Gibbons a propósito de Watchmen).

Eu julgo que o filme fez o livro chegar a mais pessoas. Mas sobre isso falarei amanhã, na conclusão :)

Abraço

Loot disse...

Muito obrigado :)

às vezes penso que pode ficar mal andar aqui a meter links, mas acho que quem gosta do tema, poderá ter informações que lhes interesse. Por exemplo, muitos culpam a DC comics de o V ser a cores e como viste tal não podia ser mais injusto.

Não sou jornalista, mas havia uma altura em que andei a fazer algumas entrevistas e esta foi das mais especiais :)

Quanto ao Moore, eu admiro muito o homem como autor de BD. O trabalho que ele fez no From Hell é de um rigor impressionante. Ele explica no apêndice as suas escolhas página a página é impressionante o preciosismo.
Mas às vezes exagera neste tipo de cenas. E não sabia que se tinha zangado com o Gibbons, é pena.

É verdade que os 1s filmes que fizeram das BD's dele são fracotes. Mas, mesmo com a prequela de Watchmen foi o mesmo. ele criticou que usassem personagens dele, quando ele faz o mesmo, inclusivé no Watchmen que ia usar personagens da DC mas não o deixaram e então criou algumas similares. O Rorschach é o question, O Doctor Man. é o captain atom, etc.

É verdade que não há necessidade da existência da prequela, mas também não quer dizer automaticamente que vá ser má.

Abraço

João Campos disse...

Ora essa, está à vontade para deixar links. Eu deixo-te um: http://viagem-andromeda.blogspot.pt/2012/03/watchmen-as-prequelas-e-o-afastamento.html. Neste artigo que publiquei em Março, faço referência a uma longa mas muito interessante (e por vezes amarga) entrevista de Moore. Ele explica a deterioração da relação dele com a DC e com Gibbons.

Ele até pode ter adaptado personagens de Watchmen a partir de outras, mas convenhamos: o Rorschach é dos mais densos e bem escritos anti-heróis que já vi/li.

Quanto às prequelas, já ouvi dizer que são interessantes.

Abraço

Loot disse...

Claro que sim (em relação ao Rorschash) a razão porque não o deixaram usar as da DC foi precisamente pelas mudanças drásticas que ele planeou. Essas personagens têm o cunho dele, todas. Ele queria apenas ter um arquétipo de super-herói familiar às pessoas, algo assim.

De qualquer das maneiras este tipo de coisas é algo habitual nestas editoras (o que não quer dizer que seja sempre correcto), não foi só Stan Lee que escreveu o Aranha. No caso de Watchmen é algo diferente de um aranha admito que sim, mas sujeito ao mesmo aproveitamento se necessário.
O Gaiman por acaso conseguiu ser o único a escrever sobre sandman, nem sei como. Mas isso não deixou a editora de explorar spin-offs, alguns deles bons como o Lucifer.

Neste caso a prequela não surge como surpresa. E sim, tem sido porreira. O mais interessante é as diferentes abordagens estéticas àquele mundo, abordagens mais modernas de alguns dos grandes desenhadores da actualidade. Saliento a arte do Ozy que é uma coisa magistral.

Das histórias falta ler mais de Doctor manhattan, que deve ser o mais díficil de escrever, a prova de fogo.

Acho que há como dizes uma certa amargura. Do que sei a relação com as editoras não é das melhores. A reutilização de personagens, é algo que ele próprio faz, como na Liga de Cavalheiros, mas sim é algo diferente, ele não se cola às obras dos outros.

Vou espreitar essa entrevista, obrigado.

Loot disse...

Aliás a minha 1º reacção quando soube das prequelas não foi de alegria. é ir mexer num clássico para ganhar trocos. Mas, depois vi os nomes envolvidos e fiquei curioso em ler. Não me entendas mal, continuo a achar que é para explorar monetariamente o clássico, mas podia ser uma exploração bem feita (mas sem nunca achar que se tornasse uma obra da importância do original).

No fundo é preciso dividir as coisas. De um lado temos a obra de Moore e Gibbons, que não precisa de contar mais nada. Está magnificamente estruturada como ele diz. concordo.

As prequelas não vão tanto pela história de Watchmem, mas por histórias das personagens antes daqueles acontecimentos. é que Moore criou um universo tão consistente que aproveitaram isso. Histórias que ele menciona nos extras, do "under the hood" usam-nas para escrever "Minutemen". Night Owl, Rorschach têm aventuras antigas descritas, etc. Claro que há sempre referências. O único que está directamente relacionado aos acontecimentos de Watchmen é Ozymandias pelas razões óbvias :)

Prefiro dar a opinião quando terminarem as prequelas, mas à partida é uma boa leitura. Já Wacthmen é uma GRANDE leitura :)

abraço

João Campos disse...

Watchmen é formidável. Quando acabei de ler o álbum há três ou quatro anos nem queria acreditar no que tinha acabado de ler.

Quanto às prequelas, sim, julgo que são um "money-grab" da DC, aproveitando talvez um pouco do buzz proporcionado pelo filme. É uma pena não terem a "bênção" dos criadores (de ambos), mas ao menos que tenham qualidade. É que pior do que um rip-off só um rip-off barato :) Não as li ainda, mas talvez qualquer dia me aventure nisso. Gostava de ler a do Rorschach, e tenho mesmo muita curiosidade quanto à do Comedian.

Abraço

macsimus walesko disse...

Excelente crítica, vejo muita gente desmerecer o filme co argumentos de falta de fidelidade ao original, eu só aceito esse argumento se o original humilhar o derivado, como no caso de resident evil, qualquer dos títulos.
Sou um grande fã do v do filme, que é, como foi muito bem reconhecido, um herói legpitimo. Além dele, amo a valerie por sua doçura e idealismo, e o filch, por sua responsabilidade e mente aguçada, a lá sherlock holmes, vejo nesse filme muitas mensagens inspiradoras e acho que é muito mais válido passar uma mensagem moral do que meramente retratar um comportamento. Parabéns pela crítica, abraço.

João Campos disse...

Obrigado. O filme está fiel em espírito, o que é incomparavelmente mais do que é habitual nestas coisas.