12 de outubro de 2012

The Time Traveler's Wife

The Time Traveler’s Wife (2003), romance de estreia da norte-americana Audrey Niffenegger, é quase uma obra de ficção científica involuntária: utiliza uma trope clássica do género - as viagens no tempo - para explorar de forma original uma história de amor que, de outra forma, seria a todos os níveis convencional. Na narrativa de Niffenegger, a viagem no tempo é o plot device que sustenta toda a narrativa, mas ainda assim a trope não assume em momento algum o protagonismo: esse é todo dado às duas personagens principais e ao seu envolvimento amoroso. Um romance de ficção científica, portanto.

Essas personagens são Henry DeTamble e Clare Abshire - e a sua história seria banal não fosse uma peculiaridade de Henry. Devido a uma misteriosa anomalia genética, Henry viaja frequentemente no tempo, um processo que escapa por inteiro ao seu controlo. Nunca sabe quando isso pode acontecer, quanto tempo dura ou onde vai parar - se ao passado, se ao futuro. Sabe apenas que momentos de nervosismo e de stress tendem a provocar essa reacção, e que, não pode levar nada consigo para o tempo em que vai, como não pode trazer nada desse tempo. Aparece nu (nem o chumbo dos dentes permanece) no tempo de destino, e regressa nu para onde se encontrava antes. O tempo que passa fora do seu tempo não é igual ao tempo que decorre no seu tempo (confuso, eu sei) - a sua ausência no presente pode ser de apenas dez minutos quando a sua presença no passado ou no futuro pode durar várias horas. Com o passar dos anos, Henry estabelece uma série de rotinas que, se não o ajudam a controlar o problema, pelo menos ajudam-no a lidar com ele. Mantém-se em boa forma física, praticando sobretudo a corrida (nunca se sabe quando terá de fugir de algo), e aprendeu a arrombar vários tipos de fechaduras e a assaltar lojas e casas para conseguir roupa. Mantém roupas em alguns locais - como o seu gabinete na biblioteca onde trabalha - para precaver o seu regresso.

Através das suas viagens do tempo, Henry, já adulto, conheceu Clare durante a sua infância - e sabia, desde o primeiro momento, que se iria casar com ela no futuro (dela). Isto, como se nota no título, não é exactamente um spoiler - aliás, ao longo de toda a narrativa, o que interessa é menos o desfecho, previsível e aludido em vários momentos, e mais as várias situações vividas por Clare e Henry no decorrer da sua relação e das suas vidas fragmentadas. Audrey Niffenegger aborda o tema das viagens no tempo sem recorrer aos paradoxos, partindo do princípio de que tudo aquilo que aconteceu era suposto acontecer (abordagem utilizada por muitos outros autores, entre os quais Heinlein), numa espécie de loop no qual as fronteiras entre passado, presente e futuro se esbatem.

A história é contada através dos pontos de vista de Clare e Henry, alternando-se ao longo dos capítulos, num processo narrativo imprime um ritmo muito bom à narrativa, tanto a dar duas perspectivas diferentes do mesmo acontecimento como no encadeamento entre causa (as viagens de Henry) e efeito (o que acontece no regresso, visto por Clare). Para além das peripécias que vivem, sobretudo no trabalho de Henry, é muito interessante acompanhar os relacionamentos que ambos mantém com outras personagens, sejam amigos, familiares ou colegas de trabalho - como é interessante ver como todos se relacionam com as versões passadas e futuras de Henry (conhecendo-o ou não). 

The Time Traveler’s Wife não será talvez um livro extraordinário, dentro ou fora da ficção científica - a escrita, apesar de sólida, não é especialmente fulgurante. Algum foreshadowing é interessante, mas em alguns momentos resulta em clichés que podiam ter sido evitados, ou pelo menos trabalhados de forma um pouco mais imaginativa - onde se inclui um aspecto do final -, e esperava algumas referências mais substanciais a acontecimentos relevantes (como o 11 de Setembro, por exemplo, apesar de achar disparatadas as críticas que apontaram que Henry devia ter tentado impedir os atentados - não prestaram atenção à premissa?). Há, contudo, momentos de grande inspiração, como a explicação que o Henry do futuro dá a dois miúdos do passado sobre música punk. E há, claro, Clare e Henry, duas personagens complexas, bem desenvolvidas, envolvidas numa trama intrigante.

Convém no entanto recordar que The Time Traveler’s Wife não é, na sua essência, um livro de ficção científica “pura” - quem desejar ler uma obra sobre viagens no tempo mais focada nos aspectos tecnológicos, nas consequências dessa possibilidade ou mesmo na premissa como suporte a uma trama futurista de suspense ou acção , deverá procurar outra coisa. The Time Traveler’s Wife é, sim, um romance recorre a um plot device da ficção científica para contar uma história de amor. E desse ponto de vista, está bastante bem conseguido.

The Time Traveler’s Wife foi adaptado ao cinema em 2009 por Robert Schwentke, com Rachel McAdams no papel de Clare e Eric Bana no papel de Henry, num filme que não foi especialmente bem recebido pela crítica. O livro, recordo, estará em debate hoje ao final da tarde em mais uma edição do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico de Lisboa.

4 comentários:

artur coelho disse...

os meus parabéns, conseguiste chegar ao fim do livro... confesso que não consegui.

João Campos disse...

Foi fácil - o ritmo narrativo ajuda, mesmo na parte em que a história adormece mais. De resto, é sempre bom variar um bocadinho, e romances de ficção científica não costumam aparecer lá na estante.

ArmPauloFer disse...

Nunca li o livro (nem o espero vir a fazer) mas o filme achei-o muito cativante e bastante bom.
Vale a pena, especialmente aos que apreciam esta mistura de romantismo com um sci-fi. (E ter a bela Rachel McAdams, só ajuda.)

http://armpauloferreira.blogspot.pt/2012/02/cinedupla-time-travelers-wife-box-parte.html

João Campos disse...

O filme não li - e confesso que não li muitas opiniões positivas sobre ele. O livro é muito interessante, sobretudo pela abordagem da autora e pela forma como a própria narrativa é parte integrante dessa abordagem.