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4 de setembro de 2014

This happening world (22)

Recuperando uma notícia já antiga: depois de ter demonstrado interesse no projecto, o SyFy Channel confirmou a produção da adaptação de Childhood's End, de Arthur C. Clarke, para uma mini-série televisiva de seis episódios, com estreia prevista para o próximo ano. A adaptação está entregue a Matthew Graham, o criador das séries Life on Mars e Ashes to Ashes, com o realizador Nick Hurran (Sherlock e Dr. Who) a estar a cargo do episódio piloto. É certo  que o facto de o projecto pertencer ao SyFy Channel obriga a uma certa dose de cepticismo - afinal, nos últimos anos o canal tem apostado nos seus filmes de série B(menos) do que na ficção científica de qualidade. Ainda assim, trata-se de Childhood's End - um clássico absoluto da ficção científica literária com mais de 60 anos, que ainda hoje se revela notável pelo seu alcance conceptual e pela sua trama emotiva. 

Can Automata's rise of the robots bring science fiction to life? A pergunta é de Ben Child no The Guardian, mas o título é enganador: a verdadeira pergunta é can Automata (...) finally deliver an intelligent robot movie? Diz quem já viu que Robot and Frank fez isso mesmo, e até ver não terei motivos para não acreditar; mas a verdade é que tudo em Automata me pareceu demasiado familiar para causar um entusiasmo genuíno. Enfim, é esperar para ver. 

E a propósito de robots (de cyborgs, se quisermos ser rigorosos): Margot Robbie (The Wolf of Wall Street) poderá ser a protagonista da adaptação live action de Ghost in the Shell, que está a ser produzida pela Dreamworks (com realização de Rupert Sanders, cujo currículo como realizador de longas-metragens inclui apenas... Snow White and the Huntsman). O que equivale a dizer: Margot Robbie irá interpretar o papel da icónica Major Motoko Kusanagi. Whitewashing à parte, a notícia tem relevo sobretudo por confirmar que o projecto live action de Ghost in the Shell não conheceu a mesma sorte que o de Akira, afortunadamente perdido no development hell de Hollywood - a readaptação vai mesmo avançar. Uma vez mais: considerando que o (excelente) filme de Mamoru Oshii, para além de ser uma obra-prima, permanece actual e pertinente, é difícil pensar em projecto mais desnecessário entre a mais recente fornada de remakes estreados e anunciados. 

Mas nem tudo são más notícias no que a remakes diz respeito: a Capcom encontra-se a adaptar para a geração actual de consolas (e para PC) a versão remasterizada do clássico Resident Evil, que à época foi desenvolvida apenas para a consola GameCube. Para quem, como eu, nunca teve a oportunidade de jogar o original na primeira Playstation e viu o remake (mais a prequela Resident Evil 0) ficar bloqueada pela exclusividade obtida pela Nintendo para a GameCube, isto só pode ser uma excelente notícia - mesmo que chegue com mais de uma década de atraso. 

Fontes: io9 / The Guardian / Polygon

2 de setembro de 2014

Frederik Pohl (1919 - 2013)

Há um ano, com a morte de Frederik Pohl aos 93 anos de idade a ficção científica literária perdeu um dos seus mais relevantes vultos. Ao longo das sete décadas que a sua carreira atravessou no género, Pohl fez praticamente tudo aquilo que é possível fazer. Começou com uma relevante actividade de fã ainda durante a "Golden Age", tendo fundado o grupo nova-iorquino conhecido como "Futurians" (juntamente com Isaac Asimov, Damon Knight, Judith Merrill, Virginia Kidd, James Blish e Cyril M. Kornbluth, entre outros). Foi editor de revistas pulp, publicou crítica, foi agente literário - e, de caminho, ainda deixou como legado alguns clássicos da ficção científica. Em The Space Merchants, escrito a meias com Kornbluth, desenvolveu uma sátira publicitária em tons de distopia; em Gateway, dá início ao universo ficcional Heechee com um romance fascinante, vencedor dos principais galardões do género (Hugo, Nebula, Locus). A sua bibliografia inclui ainda obras como Man Plus e Jem, e as suas colaborações literárias não ficaram limitadas ao seu amigo Kornbluth: também escreveu romances a meias com Jack Williamson e Arthur C. Clarke. The Way the Future Blogs, o seu blogue pessoal, foi actualizado com regularidade até às vésperas da sua morte - e em 2010 valeu-lhe mesmo um prémio Hugo na categoria de "Best Fan Writer". 

1 de setembro de 2014

Aconteceu em Setembro:

(Artigo em actualização)

01 de Setembro:
  • 1875 - Nasceu Edgar Rice Burroughs, o autor que criou alguns dos mais célebres heróis de aventuras, como Tarzan, da série de histórias homónima, e John Carter de Marte, o protagonista da saga Barsoom, situada num Marte lendário. Pellucidar e Venus& são dois dos outros universos ficcionais deste autor prolífico e influente, inúmeras vezes homenageado na ficção científica. Burroughs faleceu a 19 de Março de 1950.
  • 1942 - Nasceu C. J. Cherryh (Carolyn Janice Cherry), autora norte-americana de ficção científica que se notabilizou pelos romances premiados Downbelow Station (1982) e Cyteen (1989). Na sua bibliografia encontram-se várias séries literárias de duração variável, como The Company Wars (iniciada em 1982 com Downbelow Station e continuada com Merchanter's Luck, Rimrunners, Heavy Time, Hellburner, Tripoint e Finity's End, este último de 1997), The Era of Rapprochement (que inclui Serpent's Reach, Forty Thousand in Gehenna, The Scapegoat, Cyteen e Regenesis, publicados entre 1980 e 2009) e os romances de The Chanur (The Pride of Chanur, Chanur's Venture, The Kif Strike Back, Chanur's Homecoming ;e Chanur's Legacy, publicados entre 1981 e 2007), entre muitas outras.

02 de Setembro:
  • 1973 - Faleceu John Ronald Reuel Tolkien, aos 81 anos de idade. Académico, escritor, ensaísta e tradutor britânico nascido na África do Sul, Tolkien tornou-se num dos mais relevantes filólogos do seu tempo, assim como um estudioso do inglês antigo e das sagas escandinavas. Mas foi como escritor que conquistou uma aclamação de escala mundial ao publicar primeiro The Hobbit, em 1937, e já nos anos 50 a trilogia The Lord of the Rings, que se tornaria no texto mais importante da fantasia épica literária. O mundo secundário da Terra Média foi alargado para uma escala ímpar em The Silmarillion, o magnum opus publicado a título póstumo pelo seu filho Christopher; na sua bilbiografia incluem-se ainda The Children of Húrin, também na Terra Média, e textos como The Legend of Sigurd and Gudrún, The Fall of Arthur e uma tradução do clássico Beowulf só este ano tornada pública. Tolkien nasceu a 03 de Janeiro de 1892. 
  • 2013 - Faleceu Frederik Pohl, autor, editor, crítico e fã de ficção científica, e uma das suas vozes mais relevantes na segunda metade do século XX. Na sua bibliografia merecem destaque a distopia The Space Merchants (1953), escrita com Cyril M. Kornbluth, e Gateway, o romance de 1977 que se tornou num clássico incontornável do género, tendo conquistado os prémios Hugo, Nébula e Locus. Como editor, notabilizou-se ao leme das revistas Galaxy e If, entre 1959 e 1969. Manteve ao longo de toda a sua vida uma actividade intensa e ininterrupta no fandom: em 2010 venceu mesmo o prémio Hugo na categoria de "Best Fan Writer" pelo seu blogue, The Way the Future Blogs. Frederik George Pohl, Jr. nasceu a 26 de Novembro de 1919. 
06 de Setembro:
  • 1950 - Faleceu Olaf Stapledon, filósofo britânico e autor de clássicos influentes da ficção científica literária como Last and First Man (1930), Star Maker (1937) e Sirius (1944), entre outros. Stapledon nasceu a 10 de Maio de 1866
  • 1972 - Nasceu China Miéville, autor britânico de fantasia e de horror frequentemente associado ao movimento New Weird. Na sua bibliografia incluem-se romances como Perdido Street Station (2000), Iron Council (2004), The City & the City (2009), Embassytown (2011) e Railsea (2012), entre outros.
10 de Setembro:
  • 1953 - Nasceu Pat Cadigan, autora norte-americana de ficção científica que, juntamente com Bruce Sterling e William Gibson (e outros), foi uma das pioneiras do movimento cyberpunk que nos anos 80 deu todo um novo fôlego ao género tanto em termos temáticos e filosóficos como em termos estéticos. Participou na antologia Mirrorshades (1986) com o conto Rock On; e da sua bilbiografia fazem parte títulos como Mindplayers (1987), Synners (1991) Fools (1992) e Tea From an Empty Cup (1998), entre outras peças de ficção curta. 
12 de Setembro:
  • 1921 - Nasceu Stanislaw Lem, filósofo, satirista e autor polaco de ficção científica. O tema da impossibilidade de comunicação entre civilizações humanas e alienígenas surge destacado na sua obra, em romances como The Man From Mars (o seu primeiro livro publicado, em 1946), Eden (1959), Fiasco  (1986) e, claro, Solaris, o clássico de 1961 que já conheceu três adaptações cinematográficas, das quais a mais conhecida (e aclamada) será a de Tarkovksi em 1972. Na sua bilbiografia merece ainda destaque The Futurological Congress, de 1971. Stanislaw Lem faleceu a 27 de Março de 2006.  
  • 1997 - Faleceu Judith Merril (Judith Josephine Grossman), autora e editora norte-americana de ficção científica que se notabilizou pela sua ficção curta, pelo romance Shadow on the Hearth (1950) e pelo seu trabalho como antologista, no qual merece destaque a organização da série de antologias The Year's Best Science Fiction and Fantasy entre 1956 e 1966. Judith Merril nasceu a 21 de Janeiro de 1923.
(continua)

31 de agosto de 2014

Citação fantástica (150)

What people want, mainly, is to be told by some plausible authority that what they are already doing is right. I don't know know of a quicker way to become unpopular than to disagree.

John Brunner, The Jagged Orbit (1969)

28 de agosto de 2014

This happening world (21)

Em meados de Agosto, surgiu na Wired uma discussão muito interessante em dois artigos antagónicos sobre uma das principais tendências da ficção científica contemporânea: a distopia. A discussão começou com o artigo de Michael Solana, que aponta: Obviously science fiction is not the cause of the current mess we’re in. But for their capacity to change the way people think and feel about technology, the stories we tell ourselves can save us—if we can just escape the cool veneer of our dystopian house of horrors. Dois dias mais tarde, Devon Maloney contrapôs: Dystopian fiction mimics what it actually feels like to be in the world, so if it ends up scaring people, well, that’s because the world is scary. A verdade, a haver uma verdade, andará decerto a meio caminho de ambas as teses; e se é certo que a distopia sempre fez parte da ficção científica (sendo mesmo um dos seus géneros mais conhecidos - e apreciados - fora das suas fronteiras tradicionais), nem por isso deixa de ser verdade que falta à ficção científica moderna o optimismo e a esperança das histórias de outros tempos. Star Trek, que Solana refere de passagem, é em si todo um programa: nos remakes modernos, até a célebre frase de abertura to boldly go where no man has gone before deu lugar ao enfadonho Into Darkness. 

No portal da Tor, Chris McCrudden expõe doze razões para ler (e adorar) a série Discworld de Terry Pratchett. São doze boas razões (a Granny Weatherwax será talvez a melhor personagem da fantasia contemporânea), ainda que me veja obrigado a discordar do ponto 3: The Colour of Magic até pode ser o mais genérico de todos os livros de Discworld, mas é também o ponto de partida de toda a série; como tal, qualquer leitor que queira realmente conhecer o extraordinário universo ficcional que Pratchett desenvolveu ao longo das últimas três décadas deverá começar aqui, na aventura original de Rincewind e Twoflower, e deixar-se levar. É verdade que praticamente* cada livro de Discworld pode servir de porta de entrada para a série, mas há algo de muito gratificante na leitura sequencial, acompanhando a maturação da prosa e do estilo de Pratchett, e desvendando algumas piadas que só fazem sentido se o leitor já estiver familiarizado com alguns elementos de livros anteriores, por mais laterais que possam ser. 

No io9, Annalee Newitz pergunta se alguma vez assistiremos a um fenómeno de cultura popular equivalente a Star Wars. Diria que já assistimos a um fenómeno aproximado, ainda que tenha partido do meio literário: Harry Potter. Num artigo não relacionado no Boing Boing, Caroline Siede deixa algumas pistas para explicar como a série de livros de J. K. Rowling ajudou a moldar uma geração inteira, tendo um impacto assinalável em miúdos e graúdos um pouco por todo o mundo. 

Trigger Warning: Short Fictions and Disturbances é o título da próxima colectânea de ficção curta de Neil Gaiman, com publicação prevista para o início de Fevereiro próximo. De acordo com o próprio Gaiman (via tumblr), ainda está a trabalhar no último conto da colecção. 

Fontes: Wired / Tor / io9 / Boing Boing 

* Há excepções. Sugerir The Light Fantastic como primeiro livro a ler é disparatado, já que este é uma sequela directa de The Colour of Magic. Da mesma forma, Lords and Ladies surge na sequência directa de Witches Abroad, e não será talvez a melhor leitura para entrar em Discworld. 

24 de agosto de 2014

Orson Scott Card (1951 - )

Orson Scott Card comemora hoje o seu 63º aniversário. Ender's Game, de 1985, será sem dúvida o seu romance mais conhecido - a história do jovem Andrew "Ender" Wiggin e da sua educação violenta para se tornar num estratega capaz de derrotar os invasores extra-terrestres tornou-se num fenómeno duradouro e num dos textos mais populares da ficção científica literária. Com Ender e com a sua primeira sequela, Speaker for the Dead (1986), Card tornou-se no primeiro (e até agora único) autor a vencer os prémios Hugo e Nébula na categoria de "Melhor Romance" em dois anos consecutivos. No universo ficcional de Ender já foram publicados 15 romances, estando mais alguns previstos; na bibliografia de Card merece ainda destaque a série Tales of Alvin Maker, iniciada em 1987 com o romance The Seventh Son. Para assinalar a efeméride, fica aqui a referência para o pequeno texto biográfico publicado no ano passado. 

Citação fantástica (149)

When you really know somebody you can’t hate them. Or maybe it’s just that you can’t really know them until you stop hating them.

Orson Scott Card, Speaker for the Dead (1986)

22 de agosto de 2014

City of Illusions: Memórias e ilusões

Antes de conquistar a fantasia e a ficção científica com dois clássicos absolutos - A Wizard of Earthsea e The Left Hand of Darkness, respectivamente -, Ursula K. Le Guin começou por desenvolver em três romances curtos um universo ficcional que, enquadrando-se na ficção científica (era o género mais popular na época), acabam por evocar uma certa atmosfera e algumas convenções da fantasia literária. City of Illusions, de 1967, fecha o ciclo iniciado um ano antes por Rocannon's World e por Planet of Exile, com os quais surgiu o "Hainish Cycle" que viria a enquadrar algumas das suas obras maiores - e fá-lo com um romance que, longe de ser um dos melhores da sua bibliografia, nem por isso deixa de ser um curioso Le Guin vintage, uma exploração inicial de uma autora à procura da sua voz literária e do seu próprio território temático.

E nesse território temático encontra-se a procura da verdade, tema que explorou a partir de várias perspectivas ao longo da sua obra. Aqui, fá-lo através de um enigma em forma de personagem: um homem anónimo e sem memória e com a mente esvaziada, perdido numa vasta floresta na Terra, encontrado por uma pequena comunidade isolada entre as árvores. Os seus olhos cor de âmbar, a lembrar os de um felino, marcam-no como estranho, atribuem-lhe uma origem desconhecida e possivelmente extra-terrestre; mas a desconfiança de alguns elementos da comunidade não é suficiente para demover o líder, que o aceita entre os seus, permite a sua educação e concede que lhe seja atribuído um nome: Falk. Durante os anos que se seguem, Falk aprende com a comunidade, e em especial com a jovem Parth, o que é ser humano - como falar, como caçar, como ser parte de todo e não um indivíduo isolado, reduzido a um estado primitivo e quase selvagem. Naquela comunidade perdida, mantida em segredo pelo receio do Inimigo, dos misteriosos Shing que mantém o mundo preso no marasmo civilizacional, Falk passa por uma rápida infância e torna-se num novo homem - mas atrás de si reside uma escuridão incomensurável, um passado desconhecido que o assombra a cada momento, e que o leva a perguntar se haverá um futuro diferente.

É esse passado e essa expectativa de futuro que leva Falk a deixar a comunidade, rumo ao desconhecido que existe para lá dos limites da floresta que, para o povo que o acolheu, é praticamente tudo o que conhecem. Como destino da sua demanda está Es Toch, a lendária - e temida - cidade dos Shing, onde Falk espera encontrar as suas respostas. Mas se o caminho para lá chegar será sinuoso - as demandas, afinal, nunca são fáceis, as respostas que irá obter poderão ser bem diferentes do que alguma vez imaginara.

A prosa da jovem Le Guin já aqui transporta a trama com facilidade, elevando-a de forma considerável em alguns momentos - as suas descrições de Es Toch são notáveis pela abstracção que evoca, e é fascinante vê-la a passar de um registo de quase fábula, como a estada de Falk na casa do eremita na floresta com os animais que falam, para as descrições tecnológicas de alguns momentos de pura ficção científica. Tal como nos romances anteriores, Le Guin revela-se hábil na combinação nem sempre provável da fantasia com a ficção científica, e utiliza-a para construir a Terra num futuro distante que há muito deixou o apocalipse da queda da Liga de Todos os Mundos para trás. O longo travelogue de Falk serve precisamente para apresentar todo esse mundo, bem mais vasto do que as fronteiras da floresta original - e ainda que por vezes careça do ritmo apropriado para se tornar numa parte mais estimulante, nem por isso deixa de ser eficaz neste propósito.

Dito isto, City of Illusions não deixa de ter os seus problemas - com os Shing e a sua caracterização a serem um dos principais, mas não o único. O ritmo narrativo, mais incerto do que nos romances anteriores, revela-se demasiado lento na primeira parte, após um início sólido e um final aberto bastante satisfatório. Ainda longe da forma perfeita de The Left Hand of Darkness ou The Dispossessed, Le Guin não toma algumas opções mais arriscadas, e em vários momentos sente-se que toda a trama poderia beneficiar de mais alguma energia e, sobretudo, de mais alguma ousadia e ambiguidade. E, claro, de mais alguma complexidade nas personagens - mais mais do que aos Shing, falta desenvolvimento a Estrel, que tem um papel fundamental no romance, e ao próprio protagonista. Ainda assim, a forma como o mistério em volta de Falk é tecido funciona bastante bem (com uma excelente red herring a meio), e a duplicidade dos Shing dá um estímulo fundamental aos últimos capítulos.

Olhando agora para trás, faz todo o sentido que Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions estejam hoje em dia publicados num único volume - ainda que não constituam uma trilogia no sentido convencional do termo, há entre eles ligações mais do que suficientes (e sobretudo entre os dois últimos) para justificar a opção e dar uma certa noção de continuidade. Uma continuidade que sai reforçada pelo tom das três histórias, pela forma como Le Guin desenvolve ficção científica em território de fantasia (ou vice-versa), e por alguns temas que acabam por se cruzar e sobrepor, explorados a partir de pontos de vista distintos. Não são o melhor de Le Guin, de facto - mas são um início promissor, ainda que discreto na sua época, e ilustram na perfeição como conseguiu a autora avançar em simultâneo por duas vertentes tão distintas como a sua ficção científica mais complexa e as histórias de fantasia de Earthsea, estabelecendo-se como uma das maiores autoras em ambos os géneros. Para os fãs de Le Guin, serão decerto leitura obrigatória; para os apreciadores de ficção científica e de fantasia, ficam como leitura recomendada. 

Título: Worlds of Exile and Illusion (Rocannon's World, Planet of Exile e City of Illusions)
Autora: Ursula K. Le Guin
Editora: Orb Books/Tor
Ano: 1996 (1966-1966-1967)
Formato: Paperback
Páginas: 370
Género: Ficção Científica

20 de agosto de 2014

Greg Bear (1951 - )

Com várias dezenas de romances publicados desde o final dos anos 60, Greg Bear é um dos mais prolíficos autores da ficção científica contemporânea, com uma obra vasta, relevante e multifacetada no género. Destroyers é o título do seu primeiro conto publicado, em 1967, nas páginas da revista Famous Science Fiction; e doze anos mais tarde, em 1979, seria publicado o seu primeiro romance, Hegira, seguido logo por Psychalone no mesmo ano. Mas foi com os contos Hardfought e Blood Music que começou a dar que falar, ao conquistar em 1984 o Prémio Nébula para "Best Novella" com o primeiro, e os prémios Nébula e Hugo para "Best Novelette" com o segundo. Blood Music viria a ser expandido para um romance no ano seguinte, mantendo o título mas alargando a trama.

Na sua bibliografia incluem-se vários romances individuais, como Dinosaur Summer (1998), City at the End of Time (2008) e Hull Zero Three, entre outros (como o já referido Blood Music, talvez o seu título mais conhecido), assim como várias séries desenvolvidas ao longo da carreira. The Forge of God (1987) e Anvil of Stars (1992) formam uma pequena série de dois livros; um modelo seguido anos mais tarde com Darwin's Radio (1999) e Darwin's Children (2003). Mas também tem séries mais longas, como The Way (Eon, Eternity, Legacy e The Way of All Ghosts, de 1985, 1988, 1995 e 1999 respectivamente) ou Quantum Logic (Queen of Angels e Heads (1990), Moving Mars, Slant (1997), Quantico (2005) e Mariposa, de 1990, 1993, 1997, 2005 e 2009). A série Songs of Earth and Power, composta por The Infinity Concerto (1984) e The Serpent Mage (1986) marcam a sua incursão na fantasia literária. Bear escreveu ainda para universos ficcionais de terceiros, como Foundation, Star Trek, Man-Kzin Wars e Halo.

A sua actividade no fandom merece também destaque: na juventude, contribuiu para a fundação da San Diego Comic Con, hoje o maior evento de pop culture em todo o mundo; e já desempenhou vários cargos na Science Fiction Association of America. Está casado desde 1983 com Astrid Anderson, filha de um autor de destaque da ficção científica e da fantasia: Poul Anderson. 

Gregory Dale "Greg" Bear nasceu a 20 de Agosto em San Diego, na Califórnia, e celebra hoje o seu 63º aniversário.

18 de agosto de 2014

Brian Aldiss (1925 - )

Brian Aldiss comemora hoje o seu 89º aniversário. Na sua bibliografia encontramos contos como o célebre Super-Toys Last All Summer Long, romances clássicos como Non-Stop, Greybeard e a trilogia Helliconia, e obras relevantes para o género como Billion Year Spree: The History of Science Fiction, mais tarde alargado para um novo volume intitulado Trillion Year Spree (com David Wingrove). No ano passado, por ocasião do aniversário do autor, publicou-se por aqui esta pequena biografia; fica como destaque para este ano também. 

Terry Pratchett: "(...) a good fantasy is just a mirror of our own world, but one whose reflection is subtly distorted" (entrevista)

Com quarenta romances publicados desde 1983 (mais alguns companion books) e milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, a série Discworld de Terry Pratchett é um caso raro de longevidade e de qualidade na fantasia literária, com as suas sátiras tão inteligentes como provocadoras, as suas personagens cativantes para leitores de todas as idades, e, claro, o seu humor inconfundível. Em entrevista ao diário norte-americano The New York Times, Pratchett fala sobre os seus gostos, sobre os seus heróis literários e sobre o impacto que a leitura de The Wind in the Willows teve durante a sua infância - e, de caminho, ainda dá a resposta perfeita à inevitável pergunta de Verão sobre que livros escolher para a proverbial ilha deserta. Alguns excertos:
New York Times: Who are your favorite fantasy novelists?
Terry Pratchett: O.K., I give in. J. R. R. Tolkien. I wrote a letter to him once and got a very nice reply. Just think how busy he would have been, and yet he took the time out to write to a fan. 
NYT: What makes for a good fantasy novel?
TP: The kind that isn’t fantastic. It’s just creating a new reality. Really, a good fantasy is just a mirror of our own world, but one whose reflection is subtly distorted.
(...)
NYT: Which novels have had the most impact on you as a writer? Is there a particular book that made you want to write?
TP: It has to be “The Wind in the Willows.” It fascinated me. He had toads living in great country houses and badgers and moles acting like British gentlemen. I read the pages so often they fell apart, and God bless him for leaving in the pieces called “Wayfarers All” and “The Piper at the Gates of Dawn.” I am sorry to say that certain publishers, who really should know better, have produced editions with those pieces cut from that wonderful book, stating they were simply too heavy for children. I scream at stuff like that. After all, “The Pilgrim’s Progress” was a book written for children. A good book, no matter its intended audience, should get people reading, and that’s what started me writing. And once I started, I never stopped.
A entrevista completa pode ser lida no The New York Times.

Fonte: SF Signal

17 de agosto de 2014

Ancillary Justice, de Ann Leckie, vence o Hugo Award 2014 na categoria de "Melhor Romance"

Ancillary Justice, de Ann Leckie, conquistou o Prémio Hugo na muito cobiçada categoria de "Best Novel" - um galardão que se vai juntar aos prémios Nébula, Arthur C. Clarke e British Science Fiction, o que torna o romance de estreia de Leckie num dos romances de ficção científica mais premiados no seu ano de publicação. É um prémio justo para um romance notável, inteligente e desafiante, que não merecia ser preterido para a longa saga de fantasia épica The Wheel of Time, submetida a concurso no seu todo devido ao lançamento do seu último volume, A Memory of Light, no ano passado.

No que diz respeito aos restantes prémios, Charles Stross, Mary Robinette Kowal e John Chu venceram nas categorias de ficção curta; Gravity, de Alfonso Cuarón, levou o foguetão para a categoria de "Best Dramatic Presentation, Long Form"; e na "Short Form", Game of Thrones destornou o já clássico vencedor da categoria, Dr. Who (numa Worldcon decorrida em Londres, o que pode tornar a coisa ainda mais especial), com o nono episódio da terceira temporada (o célebre e polémico "The Rains of Castamere").

A cerimónia de entrega dos Prémios Hugo decorreu hoje em Londres, na LonCon 3. Abaixo, a lista completa dos vencedores por categoria:

Best Novel:
  • Ancillary Justice, de Ann Leckie (Orbit)
  • Neptune’s Brood, de Charles Stross (Ace/Orbit)
  • Parasite, de Mira Grant (Orbit)
  • Warbound (Terceiro Volume das Grimnoir Chronicles), de Larry Correia (Baen Books)
  • The Wheel of Time, de Robert Jordan e Brandon Sanderson (Tor Books)
Best Novella:
  • Equoid, de Charles Stross (Tor.com, 09/2013)
  • The Butcher of Khardov, de Dan Wells (Privateer Press)
  • The Chaplain’s Legacy, de Brad Torgersen (Analog, 07-08/2013)
  • Six-Gun Snow White, de Catherynne M. Valente (Subterranean Press)
  • Wakulla Springs, de Andy Duncan e Ellen Klages (Tor.com, 10/2013)
Best Novelette:
  • The Lady Astronaut of Mars, de Mary Robinette Kowal (Tor.com, 09/2013)
  • Opera Vita Aeterna, de Vox Day (The Last Witchking, Marcher Lord Hinterlands)
  • The Exchange Officers, de Brad Torgersen (Analog, 01-02/2013)
  • The Truth of Fact, the Truth of Feeling, de Ted Chiang (Subterranean Press Magazine, Outono de 2013)
  • The Waiting Stars, de Aliette de Bodard (The Other Half of the Sky, Candlemark & Gleam)
Best Short Story:
  • The Water That Falls on You from Nowhere, de John Chu (Tor.com, 02/2013)
  • If You Were a Dinosaur, My Love, de Rachel Swirsky (Apex Magazine, 03/2013)
  • The Ink Readers of Doi Saket, de Thomas Olde Heuvelt (Tor.com, 04/2013)
  • Selkie Stories Are for Losers, de Sofia Samatar (Strange Horizons, 04/2013)
Best Related Work:
  • We Have Always Fought: Challenging the Women, Cattle and Slaves Narrative, de Kameron Hurley (A Dribble of Ink)
  • Queers Dig Time Lords: A Celebration of Doctor Who by the LGBTQ Fans Who Love It, edição de Sigrid Ellis e Michael Damien Thomas (Mad Norwegian Press)
  • Speculative Fiction 2012: The Best Online Reviews, Essays and Commentary, de Justin Landon e Jared Shurin (Jurassic London)
  • Wonderbook: The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction, de Jeff VanderMeer, com Jeremy Zerfoss (Abrams Image)
  • Writing Excuses Season 8, de Brandon Sanderson, Dan Wells, Mary Robinette Kowal, Howard Tayler e Jordan Sanderson
Best Graphic Story:
  • Time, de Randall Munroe (XKCD)
  • Girl Genius Vol 13: Agatha Heterodyne & The Sleeping City, com escrita de Phil e Kaja Foglion, arte de Phil Foglio e cor de Cheyenne Wright (Airship Entertainment)
  • The Girl Who Loved Doctor Who, com escrita de Paul Cornell, e ilustração de Jimmy Broxton (Doctor Who Special 2013, IDW)
  • The Meathouse Man, adaptado da história de George R.R. Martin e com ilustração de Raya Golden (Jet City Comics)
  • Saga, Vol 2, com escrita de Brian K. Vaughn e ilustração de Fiona Staples (Image Comics)
Best Dramatic Presentation, Long Form:
  • Gravity, com realização de Alfonso Cuarón e argumento de Alfonso e Jonás Cuarón (Esperanto Filmoj; Heyday Films; Warner Bros.)
  • Frozen, com realização de Chris Buck e Jennifer Lee, e argumento de Jennifer Lee (Walt Disney Studios)
  • The Hunger Games: Catching Fire, com realização de Francis Lawrence e argumento de Simon Beaufoy e Michael Arndt (Color Force; Lionsgate)
  • Iron Man 3, com realização de Shane Black e aragumento de Drew Pearce e Shane Black (Marvel Studios; DMG Entertainment; Paramount Pictures)
  • Pacific Rim, com realização de Guillermo Del Toro e argumento de Travis Beacham e Guillermo Del Toro (Legendary Pictures, Warner Bros., Disney Double Dare You)
Best Dramatic Presentation, Short Form:
  • Game of Thrones: “The Rains of Castamere”, com argumento de David Benioff e D.B. Weiss e realização de David Nutter (HBO Entertainment)
  • An Adventure in Space and Time Written, de Mark Gatiss, com realização de Terry McDonough (BBC Television)
  • Doctor Who: “The Day of the Doctor”, com argumento de Steven Moffat e realização de Nick Hurran (BBC)
  • Doctor Who: “The Name of the Doctor”, com argumento de Steven Moffat e realização de Saul Metzstein (BBC)
  • The Five(ish) Doctors Reboot, com argumento e realização de Peter Davison (BBC Television)
  • Orphan Black: “Variations under Domestication”, com argumento de Will Pascoe e realização de John Fawcett (Temple Street Productions; Space/BBC America)
Best Editor - Short Form:
  • Ellen Datlow
  • John Joseph Adams
  • Neil Clarke
  • Jonathan Strahan
  • Sheila Williams
Best Editor - Long Form:
  • Ginjer Buchanan
  • Sheila Gilbert
  • Liz Gorinsky
  • Lee Harris
  • Toni Weisskopf
Best Professional Artist:
  • Julie Dillon
  • Galen Dara
  • Daniel Dos Santos
  • John Harris
  • John Picacio
  • Fiona Staples
Best Semiprozine:
  • Lightspeed Magazine, com edição de John Joseph Adams, Rich Horton e Stefan Rudnicki
  • Apex Magazine, com edição de Lynne M. Thomas, Jason Sizemore e Michael Damian Thomas
  • Beneath Ceaseless Skies, com edição de Scott H. Andrews
  • Interzone, com edição de Andy Cox
  • Strange Horizons, com edição de Niall Harrison, Brit Mandelo, An Owomoyela, Julia Rios, Sonya Taaffe, Abigail Nussbaum, Rebecca Cross, Anaea Lay e Shane Gavin
Best Fanzine:
  • A Dribble of Ink, com edição de Aidan Moher
  • The Book Smugglers, com edição de Ana Grilo e Thea James
  • Elitist Book Reviews, com edição de Steven Diamond
  • Journey Planet, com edição de James Bacon, Christopher J Garcia, Lynda E. Rucker, Pete Young, Colin Harris e Helen J. Montgomery
  • Pornokitsch, com edição de Anne C. Perry e Jared Shurin
Best Fancast:
  • SF Signal Podcast, de Patrick Hester
  • The Coode Street Podcast, de Jonathan Strahan e Gary K. Wolfe
  • Doctor Who: Verity!, de Deborah Stanish, Erika Ensign, Katrina Griffiths, L.M. Myles, Lynne M. Thomas e Tansy Rayner Roberts
  • Galactic Suburbia Podcast, de Alisa Krasnostein, Alexandra Pierce, Tansy Rayner Roberts (Apresentadores) e Andrew Finch (Produtor)
  • The Skiffy and Fanty Show, de Shaun Duke, Jen Zink, Julia Rios, Paul Weimer, David Annandale, Mike Underwood e Stina Leicht
  • Tea and Jeopardy, de Emma Newman
  • The Writer and the Critic, Kirstyn McDermott e Ian Mond
Best Fan Writer:
  • Kameron Hurley
  • Liz Bourke
  • Foz Meadows
  • Abigail Nussbaum
  • Mark Oshiro
Best Fan Artist:
  • Sarah Webb
  • Brad W. Foster
  • Mandie Manzano
  • Spring Schoenhuth
  • Steve Stiles
John W. Campbell Award for Best New Writer:
  • Sofia Samatar
  • Wesley Chu
  • Max Gladstone
  • Ramez Naam
  • Benjanun Sriduangkaew
Fonte: Hugo Awards

Citação fantástica (148)

To light a candle is to cast a shadow.

Ursula K. Le Guin, A Wizard of Earthsea (1968)

16 de agosto de 2014

Hugo Gernsback (1884 - 1967)

Amanhã à noite serão entregues na Worldcon 2014 em Londres os prémios Hugo, distinguindo a melhor ficção científica do ano passado - com o já icónico troféu em forma de foguetão a ser atribuído em honra de Hugo Gernsback, o inventor norte-americano de origem luxemburguesa que em 1926 fundou a Amazing Stories. E a importância deste projecto não pode ser menosprezada: na qualidade de primeira revista dedicada inteiramente à ficção científica, lançou as bases do género literário enquanto tal ao dar origem a um mercado que floresceu nos anos que se seguiriam, e ao lançar alguns dos mais consagrados autores que a ficção científica já conheceu (como Isaac Asimov, Ursula K. Le Guin e Roger Zelazny, entre outros). E também - sobretudo, dirão alguns - por ser nas páginas daquela revista inovadora que o fandom teve o seu início, através da secção de cartas dos leitores que está na origem da noção de comunidade em redor da ficção científica.

A partir da fundação da Amazing Stories, Gernsback esteve quase sempre ligado à área editorial no género. Wonder Stories e Science-Fiction Plus são alguns dos títulos que fundou. Antes disso, desenvolveu uma actividade também relevante como inventor, sobretudo na área das transmissões de rádio (à época ainda a dar os primeiros passos). A sua primeira experiência editorial advém desses anos nas primeiras décadas do século XX.

Hugo Gernsback nasceu a 16 de Agosto de 1884 em Bonnevoie, no Luxemburgo (há 130 anos), e faleceu a 19 de Agosto de 1967 em Manhattan, nos Estados Unidos.  

15 de agosto de 2014

O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias: Regresso ao futuro pela ironia cósmica

Por estranho que possa parecer aos leitores mais novos (entre os quais me incluo), houve um tempo, e não tão distante quanto isso, em que se publicava por cá ficção científica em quantidade e também em qualidade (pelo menos na selecção de títulos). E essa publicação incluía autores também alguns autores portugueses, uns poucos que seguiram a trajectória habitual nos fandoms anglo-saxónicos de leitores ávidos para fãs entusiasmados para autores capazes de se afirmar pelos seus méritos estilísticos, pela originalidade das suas vozes e pela sua capacidade de dar um cunho pessoal a convenções e ideias importadas de um género que, antes deles, pouca tradição encontrava por cá. João Barreiros é um desses leitores/fãs/autores, formado no género durante os anos de ouro das colecções, tendo desenvolvido uma actividade ímpar como editor, antologista, tradutor e autor. Haverá decerto outras ocasiões para explorar as restantes facetas de Barreiros; hoje, o tema será a sua obra inicial enquanto autor, com a ficção curta compilada numa colectânea publicada na "colecção azul" da Caminho nos idos gloriosos de 1994: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias.

Que um livro como este Caçador de Brinquedos não seja hoje fácil de encontrar em qualquer estante de uma livraria que se preze, numa edição revista com capa nova e um pequeno selo a indicar uma quarta ou quinta edição (ou, neste ano de 2014, a assinalar o vigésimo aniversário da publicação original) diz praticamente tudo o que há a dizer sobre o estado estrago da ficção científica literária nacional, com os títulos originais de outros anos votados ao esquecimento e relegados às actividades quase arqueológicas dos alfarrabistas (e dos respectivos clientes), e com as novas edições traduzidas a surgirem de forma tão isolada como fugaz. Quem tiver a sorte de encontrar um exemplar sobrevivente às labaredas dos nossos pequenos Montags editoriais terá nas mãos não só um tesouro de uma era perdida, como também uma das mais importantes obras da ficção científica portuguesa.

Essa importância advém não tanto da questão da raridade mas sobretudo por mostrar alguns dos primeiros textos de ficção de João Barreiros, onde o autor começou a dar forma ao seu estilo inconfundível e aos temas e motivos que se tornaram mais ou menos recorrentes na sua obra. Como a desconstrução e a subversão da iconografia e do imaginário infantis, tão bem sintetizada no conto que dá título à colectânea: O Caçador de Brinquedos. É uma pequena fábula, tão divertida somo sombria, na qual os brinquedos de que todos os miúdos gostam são infectados com um estranho vírus cibernético que os torna homicidas - e daí à guerra declarada para com os humanos adultos vai um pequeno passo, com o jovem Jimmy retido numa infância física falsa em nome de uma vingança pessoal. Ou o ataque mais ou menos velado à literatura mainstream, eterno némesis do géneros literários na percepção de inúmeros leitores: Quatro milhões de Lolitas é também isso, e mais - uma história muito curiosa, capaz de dar a volta às expectativas dos leitores em vários momentos. Como também o são as duas Crónicas do Exílio Lunar, duas histórias que partilham um universo ficcional intrigante, no qual uma raça alienígena designada como "Aranhetas" surge no Sistema Solar e causa o caos à sua passagem - refreada apenas pelo seu apetite ao mesmo tempo orgásmico e mortal (literalmente) pela literatura humana. A imagem de uma criatura alienígena a liquefazer-se enquanto ouvem passagens de Shakespeare ou Beckett tem uma força muito própria, e não deixa quase de saber a uma pequena vendetta pessoal para com os "solilóquios existenciais" da literatura dita "erudita". 

Mas este Caçador de Brinquedos esconde mais algumas pérolas. Um dia com Júlia na Necrosfera será talvez o melhor texto da colectânea - uma narrativa sombria que parece explorar os conceitos que Philip K. Dick apresentou no excepcional Ubik para os levar noutra direcção, mais próxima do renegado Jory do que das personagens principais, Glen Runciter e Joe Chip. Saldos é um ataque violento, hilariante e trágico ao consumismo exacerbado através de um desgraçado - os protagonistas de Barreiros tendem a sê-lo - que se vê apanhado, indefeso, nas malhas compulsivas de um centro comercial; um ataque que tenta também em A gaia-concorrência, ainda que com menos eficácia. Balada para um Katástrofopoeta transforma a destruição de Lisboa num reality show visto do céu, com um resgate ousado pelo meio. E Kulturkomandos e Alice e a semente de Nyack-Nyack, as duas excelentes histórias que compõem as Crónicas do Exílio Lunar, concluem a colectânea numa nota alta, com a narrativa excepcional do primeiro e a premissa cativante do segundo a merecerem destaque.

É claro que nem tudo em O Caçador de Brinquedos funciona na perfeição. A gaia-concorrência e Balada para um Katástrofopoeta serão porventura os textos mais fracos, ainda que ambos contenham elementos conceptuais de grande interesse e sirvam como exemplos da ironia refinada e do humor negro que se tornariam habituais na ficção científica de João Barreiros. Algumas das referências infantis poderão ser já excessivamente obscuras para um público contemporâneo mais jovem (o urso Fozzy, por exemplo). E alguns dos contos - como os dois últimos - acabam por saber a pouco. Nem por isso, porém, deixam de ser contos notáveis pela construção de mundo que exibem, pelas situações que as suas personagens enfrentam, pelo absurdo irónico e muito auto-consciente que se pode ler em cada linha. Com o bónus de que quem já estiver familiarizado com a restante obra de João Barreiros - em particular com Terrarium, o magmum opus escrito a meias com Luís Filipe Silva - encontrará aqui a génese de muitos elementos e de várias ideias que se tornariam relevantes mais tarde, devidamente viradas do avesso e refinadas pela ironia mais negra. Mais do que uma colectânea notável, O Caçador de Brinquedos é um autêntico "elo perdido" da ficção científica nacional - que, pela qualidade das suas narrativas e pela raridade da sua edição, merece ser relembrado e partilhado com as novas gerações de leitores. 

Título: O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias
Autor: João Barreiros
Editora: Caminho
Ano: 1994
Formato: Paperback
Páginas: 242
Género: Ficção Científica

Retro Hugos 1939: Os vencedores

Com a Worldcon 2014 à porta, aproxima-se um dos momentos mais aguardados do ano no que à literatura de ficção científica e fantasia diz respeito: a cerimónia de entrega dos Prémios Hugo, que desde 1953 distinguem anualmente na World Science Fiction Convention o que de melhor se fez no género no ano anterior. E uma vez que neste ano se assinala o 75º aniversário da Worldcon (a primeira edição do certame teve lugar em Nova Iorque no ano de 1939 - mais conhecido, infelizmente, pelo início da Segunda Guerra Mundial), em paralelo aos Hugos relativos aos trabalhos de 2013 serão ainda atribuídos os "Retro Hugos" que distinguem, como se estivéssemos naquele fatídico ano de 1939, as melhores contribuições de 1938 para o género. Os vencedores já são conhecidos nas respectivas categorias:

Best Novel:
  • The Sword in the Stone, de T. H. White (Collins)
  • Carson of Venus, de Edgar Rice Burroughs (Argosy, Fevereiro de 1938)
  • Galactic Patrol, de E. E. Smith (Astounding Stories, Fevereiro de 1938)
  • The Legion of Time, de Jack Williamson (Astounding Science-Fiction, Julho de 1938)
  • Out of the Silent Planet, de C. S. Lewis (The Bodley Head)

Best Novella: 
  • “Who Goes There?”, de John W. Campbell/Don A. Stuart (Astounding Science-Fiction, Agosto de 1938)
  • Anthem, de Ayn Rand (Cassell)
  • “A Matter of Form”, de H. L. Gold (Astounding Science-Fiction, Dezembro de 1938)
  • “Sleepers of Mars”, de John Wyndham (Tales of Wonder, Março de 1938)
  • “The Time Trap”, de Henry Kuttner (Marvel Science Stories, Novembro de 1938)

Best Novelette:
  • “Rule 18”, de Clifford D. Simak (Astounding Science-Fiction, Julho de 1938)
  • “Dead Knowledge”, de John W. Campbell/Don A. Stuart (Astounding Stories, Janeiro de 1938)
  • “Hollywood on the Moon”, de Henry Kuttner (Thrilling Wonder Stories, Abril de 1938)
  • “Pigeons From Hell”, de Robert E. Howard (Weird Tales, Maio de 1938)
  • “Werewoman”, de C. L. Moore (Leaves #2, Inverno de 1938)

Best Short Story:
  • “How We Went to Mars”, de Arthur C. Clarke (Amateur Science Stories, Março de 1938)
  • “The Faithful”, de Lester Del Rey (Astounding Science-Fiction, Abril de 1938)
  • “Helen O’Loy”, de Lester Del Rey (Astounding Science-Fiction, Dezembro de 1938)
  • “Hollerbochen’s Dilemma”, de Ray Bradbury (Imagination!, Janeiro de 1938)
  • “Hyperpilosity”, de L. Sprague de Camp (Astounding Science-Fiction, Abril de 1938)

Best Dramatic Presentation - Short Form:
  • The War of the Worlds, de H. G. Wells. Argumento de Howard Koch e Anne Froelick; Realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • Around the World in 80 Days, de Jules Verne. Argumento e realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • A Christmas Carol, de Charles Dickens. Argumento e realização de Orson Welles (The Campbell Playhouse, CBS)
  • Dracula, de Bram Stoker. Argumento de Orson Welles e John Houseman; Realização de Orson Welles (The Mercury Theater of the Air, CBS)
  • R. U. R., de Karel Capek. Produzido por Jan Bussell (BBC)

Best Editor - Short Form:
  • John W. Campbell
  • Walter H. Gillings
  • Ray Palmer
  • Mort Weisinger
  • Farnsworth Wright

Best Professional Artist:
  • Virgil Finlay
  • Margaret Brundage
  • Frank R. Paul
  • Alex Schomburg
  • H. W. Wesso

Best Fanzine:
  • Imagination!, com edição de Forrest J Ackerman
  • Fantascience Digest, com edição de Robert A. Madle
  • Fantasy News, com edição de James V. Taurasi
  • Novae Terrae, com edição de Maurice Hanson
  • Tomorrow, com edição de Doug Mayer

Best Fan Writer:
  • Ray Bradbury
  • Forrest J Ackerman
  • Arthur Wilson “Bob” Tucker
  • Harry Warner Jr.
  • Donald A. Wollheim

Special Committee Award:
  • Jerry Siegel & Joe Shuster

Fonte: Tor

11 de agosto de 2014

Gene Wolfe: "I think it [science fiction] matters a lot, because it’s mind-opening" (entrevista)

Para muitos leitores de fantasia e ficção científica o nome de Gene Wolfe dispensará quaisquer apresentações - o autor da célebre tetralogia The Book of the New Sun, de The Fifth Head of Cerberus e The Island of Doctor Death é considerado por muitos um dos melhores autores do fantástico contemporâneo, com a sua prosa inconfundível e os seus narradores muito pouco fiáveis. Numa longa entrevista a Jason Pontim para a revista MIT Technology Review, Wolfe fala sobre a sua já longa carreira literária, sobre as suas influências e preferências, sobre a fantasia e a ficção científica enquanto géneros literários, e até sobrea sua experiência como engenheiro e como editor de uma publicação técnica. Alguns excertos:
Jason Pontin/MIT Techonology Review: Why does science fiction matter?

Gene Wolfe: I think it matters a lot, because it’s mind-opening. That’s its great virtue. Ordinary fantasy opens minds, but not nearly as much. The Oz books [1900–1920] may open someone’s mind a little bit. Alice in Wonderland [1865] is kind of mind-opening. But a lot of science fiction is much more so. For instance, I could write a story in which a man has a conversation with his gun. I might do that sometime. Prince Valiant had his singing sword, and I always thought they could have done more with that than they did.

JP/MITTR: Many people say that science fiction matters because it is about contemporary society—that it is a kind of satire.
GW: Unfortunately. It’s true that a great many people think that it must be.
JP/MITTR: You mean: it needn’t be so.

GW: You could write a book about a landing on Mars in which a landing on Mars is a metaphor for something that is going on now. You could also write a book about a landing on Mars that’s a landing on Mars.
A entrevista completa pode ser lida online na MIT Technology Review.

Fonte: SF Signal

10 de agosto de 2014

Citação fantástica (147)

There are two kinds of fools. One says, "This is old, and therefore good." And one says, " This is new, and therefore better.”

John Brunner, The Shockwave Rider (1975)

8 de agosto de 2014

Red Mars: A nova fronteira

Poucos lugares serão tão familiares na ficção científica como Marte, o célebre "Planeta Vermelho", transportado para inúmeras páginas tanto na sua versão imaginada antiga, com os canais de Lowell, como com a aridez rubra que as sondas da era espacial revelaram. Marte serviu de palco para inúmeras histórias de ficção científica, das aventuras de Edgar Rice Burroughs às crónicas quase poéticas de Ray Bradbury; e sem esquecer, claro, as tramas de autores tão consagrados como Arthur C. Clarke, Robert A. Heinlein, Frederik Pohl, Philip K. Dick, Ben Bova ou Ian McDonald (entre muitos outros), cada um imaginando à sua maneira como seria a vida num Marte ficcional. No início dos anos 90, Kim Stanley Robinson - que até já se tinha aventurado pelos territórios literários do Planeta Vermelho com Icehenge em 1984 - decidiu explorar uma vez mais o nosso vizinho do Sistema Solar, mas através de uma perspectiva em simultâneo hard science fiction detalhada e sociopolítica, com todas as componentes de um drama em território hostil que, em momentos, quase se aproxima da ideia de western. O resultado foi a célebre Mars Trilogy, iniciada em 1993 com Red Mars.

Tendo como tema a colonização e a terraformação de Marte, Red Mars centra-se em algumas das personagens que integraram os "cem primeiros" - os cem indivíduos que integram a expedição "Ares" e para fundar a primeira colónia humana permanente em Marte. Seleccionados após um árduo treino na Antárctida, os cem primeiros são lançados no vazio numa nave colossal, rumo ao planeta vermelho - e é no tédio relativo (para as personagens) da viagem que o leitor começa a conhecer as figuras de destaque do romance (após um prólogo estimulante que faz com que a maior parte da trama seja narrada in medias res - adensando consideravelmente o mistério ao introduzir a morte de um dos protagonistas): John Boone, lendário por ter sido o primeiro homem a pisar o solo marciano; Frank Chalmers, o cínico líder do grupo norte-americano, que tem na volátil Maya Toitovna a sua equivalente na facção russa; Arkady Bogdanov, o engenheiro russo idealista, com o sonho de criar uma sociedade nova no planeta; e outros, como Nadia Chernyshevski (talvez a melhor personagem de todo o romance), Ann Clayborne, Hiroko Ai, Sax Russel, Michel Duval, Phyllis Boyle - cem no total, com estes a assumirem os papéis mais relevantes e, no caso de John, Frank, Nadia, Michel, Ann e Arkady, os pontos de vista da narrativa.

Claro que a colonização e a terraformação estão longe de ser pacíficas, e apesar de o desenvolver como inevitável, nem por isso deixa Kim Stanley Robinson de questionar a sua legitimidade a todo o momento - com a progressiva degradação da Terra colocada à distância a servir de exemplo (o debate constante, e por vezes agressivo, entre Ann, Phyllis e Sax é o melhor exemplo dessa discussão permanente). No seu esforço de construir uma sociedade nova num mundo tão diferente e hostil, os cem primeiros colonos procuram deixar o passado para trás para dar forma a algo adequado às circunstâncias - esquecendo-se com frequência de que eles mesmos, com toda a sua bagagem, fazem também parte dessas circunstâncias. Do entusiasmo da construção da primeira aldeia à fragmentação do grupo original e ao início da emigração interplanetária e da apropriação do território e dos recursos de Marte por megacorporações transnacionais mais poderosas que estados soberanos é um pequeno passo - que, uma vez dado, só pode ter como resultado uma revolução. Robinson desenvolve com bom ritmo cada uma destas partes - da atenção dada ao pormenor da construção dos primeiros abrigos à precipitação dos acontecimentos durante a revolução, nada é deixado ao acaso - e o drama das personagens é suficientemente cativante para manter o interesse na trama. 

Mas é no detalhe científico que Red Mars se excede e se eleva para o panteão da hard science fiction, fruto de uma pesquisa pormenorizada e exaustiva que transborda para as páginas e que confere uma verosimilhança ímpar à narrativa. Talvez não seja exagerado afirmar que a experiência de leitura de Red Mars será porventura o mais próximo que os leitores contemporâneos estarão de viajar de facto até Marte e de colonizar o planeta - e se alguns decerto serão afastados pelas longas e constantes descrições científicas explicadas de forma bastante acessível mas nem por isso menos rigorosa, outros decerto apreciarão a atenção dada ao pormenor e a forma como cada detalhe contribui para dar ao Marte de Kim Stanley Robinson uma aura de realismo que poucos romances conseguiram alcançar. A história dos cem primeiros colonos é, acima de tudo, verosímil. 

Já nas questões económicas, políticas e sociais, de resto quase tão importantes como as científicas, acabam por surgir um pouco... estranhas nesta segunda década do novo milénio. Apesar de ter sido escrito e publicado após a queda do Muro de Berlim, Red Mars ainda tem a dicotomia da Guerra Fria profundamente entranhada na sua trama - a divisão entre norte-americanos e russos, com um punhado de colonos de outras nacionalidades, a oposição constante entre capitalismo e marxismo, a veia revolucionária de várias personagens. É possível, no entanto - e este é um pormenor fascinante - que Red Mars estivesse mais datado no final dos anos 90 do que hoje, com o ressurgimento da Rússia na cena internacional e com a ascensão das sociedades muçulmanas, nem sempre pelos melhores motivos. Quase como se nas suas páginas ecoasse aquela velha ideia de que a História acaba sempre por se repetir, 

De certa forma, o que Red Mars acaba por ilustrar de forma exemplar (para lá de toda a enorme complexidade que uma expedição a Marte com o propósito de lá estabelecer uma colónia humana permanente acarreta, e que Robinson explora de uma forma que seria exaustiva se não fosse tão interessante) é a manifesta incapacidade de nós, enquanto humanos, sermos incapazes de deixar o nosso passado para trás - mesmo quando, para todos os efeitos, esse passado reside para lá de um enorme abismo espacial, a distâncias que a mente humana tem sérias dificuldades de conceber; e quando toda essa bagagem de pouco serve numa realidade completamente nova, estranha e hostil. Como intriga científica e social, Red Mars é um êxito assinalável - uma "novela" marciana, sim, mas com uma complexidade, uma atmosfera e um nível de detalhe que elevam o drama e tornam toda a leitura numa experiência memorável, como se o leitor, também ele, fosse um dos "cem primeiros" colonos a participar naquela expedição única.

[Há ainda um pormenor de Red Mars que merece referência, ainda que me tenha esquecido de o incluir no texto: ciente da vasta "ficção marciana" existente, e em muita da qual decerto se terá também inspirado, Kim Stanley Robinson deu várias designações familiares a algumas localidades que vão surgindo no decurso da trama - como as cidades de Burroughs e de Bradbury, por exemplo. São uma espécie de easter eggs, digamos assim - e dão um toque muito especial ao worldbuilding]

Título: Red Mars
Autor: Kim Stanley Robinson
Editora: Bantam Spectra
Ano: 1993
Formato: Paperback
Páginas: 572
Género: Ficção Científica / Hard Science Fiction

7 de agosto de 2014

SyFy Channel vai adaptar Old Man's War de John Scalzi para série televisiva

Após anos de filmes de série B- (que, surpreendentemente, se tornaram num fenómeno de culto nos últimos tempos), de séries de interesse moderado e de uma programação no mínimo errática, o SyFy Channel parece querer emendar a mão e regressar à produção de ficção científica com um módico de qualidade - e está à procura dessa qualidade na literatura do género*. Old Man's War, de John Scalzi, será um dos próximos projectos do canal, e de acordo com Scalzi (que será produtor executivo da série), se tudo correr bem esta adaptação poderá estrear algures em 2016. Intitulada Ghost Brigades, pegando no título da sequela a Old Man's War, a série será desenvolvida a partir de elementos dos vários livros.

Ghost Brigades junta-se assim ao projecto de adaptar a série Expanse, de James S. A. Corey, para televisão - e aos projectos já mais avançados de 12 Monkeys, Ascension e Dominion.  

Fontes: Tor / Whatever

* Não deixa de ser curioso que entretanto o SyFy tenha deixado cair a adaptação de The Man in the High Castle, entretanto repescado pela Amazon).