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28 de agosto de 2014

This happening world (21)

Em meados de Agosto, surgiu na Wired uma discussão muito interessante em dois artigos antagónicos sobre uma das principais tendências da ficção científica contemporânea: a distopia. A discussão começou com o artigo de Michael Solana, que aponta: Obviously science fiction is not the cause of the current mess we’re in. But for their capacity to change the way people think and feel about technology, the stories we tell ourselves can save us—if we can just escape the cool veneer of our dystopian house of horrors. Dois dias mais tarde, Devon Maloney contrapôsDystopian fiction mimics what it actually feels like to be in the world, so if it ends up scaring people, well, that’s because the world is scary. A verdade, a haver uma verdade, andará decerto a meio caminho de ambas as teses; e se é certo que a distopia sempre fez parte da ficção científica (sendo mesmo um dos seus géneros mais conhecidos - e apreciados - fora das suas fronteiras tradicionais), nem por isso deixa de ser verdade que falta à ficção científica moderna o optimismo e a esperança das histórias de outros tempos. Star Trek, que Solana refere de passagem, é em si todo um programa: nos remakes modernos, até a célebre frase de abertura to boldly go where no man has gone before deu lugar ao enfadonho Into Darkness

No portal da Tor, Chris McCrudden expõe doze razões para ler (e adorar) a série Discworld de Terry Pratchett. São doze boas razões (a Granny Weatherwax será talvez a melhor personagem da fantasia contemporânea), ainda que me veja obrigado a discordar do ponto 3: The Colour of Magic até pode ser o mais genérico de todos os livros de Discworld, mas é também o ponto de partida de toda a série; como tal, qualquer leitor que queira realmente conhecer o extraordinário universo ficcional que Pratchett desenvolveu ao longo das últimas três décadas deverá começar aqui, na aventura original de Rincewind e Twoflower, e deixar-se levar. É verdade que praticamente* cada livro de Discworld pode servir de porta de entrada para a série, mas há algo de muito gratificante na leitura sequencial, acompanhando a maturação da prosa e do estilo de Pratchett, e desvendando algumas piadas que só fazem sentido se o leitor já estiver familiarizado com alguns elementos de livros anteriores, por mais laterais que possam ser. 

No io9Annalee Newitz pergunta se alguma vez assistiremos a um fenómeno de cultura popular equivalente a Star Wars. Diria que já assistimos a um fenómeno aproximado, ainda que tenha partido do meio literário: Harry Potter. Num artigo não relacionado no Boing BoingCaroline Siede deixa algumas pistas para explicar como a série de livros de J. K. Rowling ajudou a moldar uma geração inteira, tendo um impacto assinalável em miúdos e graúdos um pouco por todo o mundo. 

Trigger Warning: Short Fictions and Disturbances é o título da próxima colectânea de ficção curta de Neil Gaiman, com publicação prevista para o início de Fevereiro próximo. De acordo com o próprio Gaiman (via tumblr), ainda está a trabalhar no último conto da colecção. 

Fontes: WiredTor / io9 / Boing Boing 

* Há excepções. Sugerir The Light Fantastic como primeiro livro a ler é disparatado, já que este é uma sequela directa de The Colour of Magic. Da mesma forma, Lords and Ladies surge na sequência directa de Witches Abroad, e não será talvez a melhor leitura para entrar em Discworld

12 de abril de 2013

A distopia publicitária de The Space Merchants

Alguns dos livros consensualmente mais populares dentro do vasto género que é a ficção científica são distopias. Várias décadas após a sua publicação original, livros como Nineteen Eighty-Four, Brave New World, Fahrenheit 451 ou A Clockwork Orange continuam ser relevantes, e lidos com frequência, não só pela sua superlativa qualidade literária como também - sobretudo, talvez - pelos futuros que os seus autores imaginaram, tão tenebrosos como verosímeis. Estas serão porventura as distopias mais conhecidas, dentro e fora do género; outras há, porém, que apesar de nunca terem alcançado o mesmo sucesso mainstream, nem por isso são menos relevantes nas suas abordagens e nos seus futuros imaginados. Um desses casos é The Space Merchants, a distopia comercial e publicitária imaginada por Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth e publicada em 1953.

Pohl e Kornbluth imaginaram em The Space Merchants um século XXII sobrepovoado e dominado não por políticos, economistas ou líderes religiosos, mas por publicitários. A sociedade, dividida entre produtores abastados e consumidores a viver em condições miseráveis, está dominada por um capitalismo degenerado, uma autêntica selva na qual tudo vale para os produtores comercializarem os seus produtos - desde campanhas publicitárias espectacularmente agressivas - e enganadoras, claro - à introdução de substâncias viciantes em inúmeros produtos, de cigarros a rebuçados, para provocar dependência em quem os consome. Agências publicitárias travam autênticas batalhas entre si (literalmente - assassínios de executivos são não só frequentes como legais dentro de determinados parâmetros), e a espionagem industrial abunda. A narrativa centra-se em Mitch Courtenay, copywriter genial de uma das maiores agências publicitárias mundiais, a quem é entregue uma das maiores contas do momento: a campanha publicitária para a colonização de Vénus, planeta recentemente visitado por uma expedição e classificado como "habitável", apesar das suas terríveis condições naturais. Um desafio tão aliciante como perigoso, que obrigará Mitch a sair da sua redoma privilegiada e ver a outra face da sociedade onde vive. 

Mais do que um cautionary tale em formato de distopia, The Space Merchants é uma sátira muito bem conseguida sobre o mundo preverso da publicidade e sobre a capacidade que este meio poderia ter para convencer as pessoas - os consumidores - de que precisam de um determinado produto, ou que as suas condições de vida são muito melhores do que imaginam. Ou mesmo, quem sabe, que será desejável correr para conseguir um lugar na primeira nave de colonização de um planeta aparentemente inóspito. Na construção deste futuro, Pohl e Kornbluth forjaram algumas imagens inesquecíveis (a "Chicken Little" e o "Coffiest", para referir as mais óbvias), mostrando as várias faces deste mundo através do ponto de vista  de Mitch, cínico, sarcástico e ainda assim curiosamente ingénuo em alguns momentos. Ainda que num ou noutro ponto The Space Merchants possa parecer um pouco datado, a sátira à publicidade invasiva e enganadora talvez seja hoje mais relevante do que o era há 60 anos - e é veiculada por um protagonista interessante, numa narrativa rápida com tons de mistério. 

Publicado originalmente num formato de série na revista "Galaxy Science Fiction" com o título de Gravy Planet, The Space Merchants resultou de uma ideia de longa data de Frederik Pohl, para a qual Cyril M. Kornbluth deu um contributo importante no desenvolvimento do enredo de Mitch e na conclusão. Para melhor compreender o mundo da publicidade, Pohl chegou mesmo a arranjar um emprego nessa área. Mais recentemente, em 2010, Pohl reviu o manuscrito original, e reeditou-o numa "edição do Século XXI" com várias referências corporativas actualizadas para o presente. Mas independentemente das referências, o universo que imaginou com Kornbluth e a mensagem que a narrativa transmite mantém toda a vivacidade e pertinência. 

13 de novembro de 2012

O pesadelo burocrático e o sonho libertador de Brazil

Se alguém juntasse a visão distópica de Nineteen Eighty-Four, o poder alegórico de Dr. Strangelove, o visual extraordinário de Metropolis, o escape onírico de Philip K. Dick e uma pitada do humor absurdo dos Monty Python, o resultado só poderia ser um: Brazil, o clássico da ficção científica que Terry Gilliam realizou em 1985. Resumir desta forma o filme pode parecer estranho - quase como se fosse uma mera amálgama de várias influências e ideias emprestadas. Brazil é, porém, muito mais do que isso: é uma história distópica original, fascinante e arrebatadora do ponto de vista visual.

Apesar de nunca ter lido a obra de Orwell, Gilliam admitiu que Brazil tinha fortes influências de Nineteen Eighty-Four. O que, bem vistas as coisas, não é de estranhar: Orwell acabou por, de certa forma, estabelecer o cânone da distopia literária, e qualquer história contada num futuro em que o Estado assume um controlo totalitário sobre os cidadãos acaba sempre por ser comparada com o mundo sombrio de Nineteen Eighty-Four. Onde em Orwell encontramos uma sociedade permanentemente controlada pela omnipresença do "Grande Irmão", em Gilliam encontramos uma sociedade esmagada pelo peso burocrático de um Estado controlador, de tal forma que uma simples reparação de uma canalização avariada sem contactar os Serviços Centrais e sem passar um recibo é um autêntico acto de rebeldia. Onde Orwell utiliza a distopia para traçar uma tenebrosa alegoria política, Gilliam recria a distopia como uma sátira, cujos elementos oníricos e absurdos pautam uma narrativa poderosa que nem por isso perde a sua força enquanto alegoria - mostrando uma sociedade que oprime a iniciativa, a ambição, tudo envolvendo numa densa malha burocrática de tal forma complexa que dilui quaisquer noções de responsabilidade ou de individualidade.

Essa sátira à sociedade burocrática é feita através de duas personagens memoráveis. Uma delas é Sam Lowry (Jonathan Pryce), um homem que, apesar da sua visível competência no seu trabalho no Ministério da Informação, não manifesta qualquer ambição de ascensão social - por contraste com a sua mãe, obcecada com as aparências. Apenas na sua fuga para os seus sonhos as suas verdadeiras ambições são reveladas: a liberdade de um mundo que o oprime, a liberdade de ser quem quiser e fazer o que desejar, a liberdade de amar. O encontro fortuito, Jill (Kim Greist), a mulher que assombra os seus sonhos, leva-o a procurar uma forma de tornar a encontrá-la - e, enreda-o na burocracia qual aranha numa teia. A segunda personagem, com quem Lowry se cruza durante o seu percurso, é Archibald “Harry” Tuttle (Robert De Niro), considerado pelas autoridades um perigoso terrorista (mas na prática um individualista - o que num mundo ganha a qualidade de sinónimo). 

Do ponto de vista visual, Brazil é espantoso - sombrio, em momentos claustrofóbico, quase sempre arrebatador. Há nos seus cenários e nas suas formas qualquer coisa de Metropolis, mas distorcida da forma muito própria de Gilliam, ele que foi o principal responsável pela imagem tão icónica como absurda dos eternos Monty Python. Longe de estar datado, o seu visual único consegue ser ao mesmo tempo desconfortável e libertador, passando com uma invulgar simplicidade dos sonhos mais radiantes para o pesadelo da vida real - magistralmente retratado no fausto irreal de espaços como o restaurante, no caos burocrático do escritório, no portentoso edifício do Ministério da Informação, no minúsculo apartamento de Lowry e na vida arruinada dos bairros pobres. Os efeitos especiais são extraordinários e surreais, datados sem que tenham no entanto envelhecido um dia .

Brazil está sem dúvida entre os melhores filmes de Terry Gilliam - e este foi o realizador de obras como 12 Monkeys e Monty Python and The Holy Grail. Com um título inspirado na música Aquarela do Brasil, de Ary Barroso (no filme interpretada por Geoff Muldaur), e com um inteligente argumento escrito por Gilliam, Tom Stoppard e Charles McKeown, Brazil é um filme particularmente influente tanto na sua componente visual como nas suas vertentes de narrativa e de temática. Destaca-se na ficção científica não só como um dos grandes filmes da década de 80, mas como um dos grandes clássicos da história do género. 8.9/10

Brazil (1985) 
Realizado por Terry Gilliam 
Com Jonathan Pryce, Kim Greist, Robert De Niro, Ian Holm, Michael Palin e Jim Broadbent 
132 minutos

11 de setembro de 2012

A ficção científica e o cinema: Children of Men

Continuamos nas distopias (por pura coincidência - não estou a fazer um mês temático, apesar de a ideia ser tentadora). Depois da divagação e do exemplo literário, passamos para um dos melhores - porventura o melhor? - e mais surpreendentes filmes de ficção científica da última década: Children of Men, de Alfonso Cuáron (2006), uma adaptação do romance distópico The Children of Men, da autora britânica P. D. James. 

Com a narrativa situada em 2027, Children of Men apresenta uma premissa tão simples como sombria: poucos anos após a viragem do milénio, as mulheres tornaram-se progressivamente inférteis, ao ponto de não nascerem mais crianças em todo o mundo. Os motivos para este surto global de infertilidade não são explicados, nem tal é necessário para o enredo - o que importa são as consequências, e essas são desastrosas. A prazo, a falta de uma qualquer solução para a infertilidade implicará a extinção da raça humana. Com a inevitável espiral no caos que desintegrou sociedades inteiras ao mergulhá-las no desespero. O Reino Unido é uma das últimas nações a tentar manter algum controlo, mas o excesso de imigrantes tornou a velha democracia num estado policial com campos de concentração para refugiados e estrangeiros, terreno fértil para várias organizações terroristas. 

Theo Faron (Clive Owen) é um ex-activista que procura viver uma vida normal quando se vê envolvido com um grupo activista intitulado "Fishes", liderado pela sua ex-namorada Julian Taylor (Julianne Moore), que procura obter através dele um documento de livre trânsito para uma misteriosa rapariga deixar o país. Theo acaba por se juntar aos activistas para escoltar Kee (Clare-Hope Ashitey) até um barco na costa, quando descobre a verdadeira importância de Kee - e o motivo pelo qual os "Fishes" a querem usar para os seus próprios fins. Nesse momento, decide contactar Jasper (Michael Caine em mais uma excelente interpretação) para procurar uma ajuda para Kee que nem sabe se de facto existe. 

A forma como Alfonso Cuáron mostrou uma sociedade entregue ao desespero é extraordinária - da calma aparente da cidade fortemente policiada para afastar os refugiados às milícias dispersas pelas zonas rurais, da realidade desoladora dos campos de refugiados à brutalidade de uma autêntica guerra urbana, nenhuma cena é desperdiçada ou surge por acaso. Pouco adepto da exposição, Cuáron opta por deixar as imagens falarem por si - e o impacto é inegável. Com inúmeras cenas memoráveis - entre as quais destacaria (como muitos) as duas perseguições e a batalha em Bexhill - e uma última meia hora avassaladora, Children of Men é um filme sobre a esperança perante o mais profundo dos desesperos, repleto de simbologia cristã e com uma mensagem particularmente ambígua no final. 

Não posso dizer se Children of Men é uma adaptação fiel do romance de P. D. James, pois (ainda) não o li - de acordo com a Wikipedia, ainda que a essência da premissa se mantinha, Alfonso Cuáron fez algumas mudanças significativas face ao livro. Não podendo discutir ou comparar os méritos de ambas as obras, resumo-me ao filme - e esse é extraordinário, com uma mestria técnica e um realismo que envergonha boa parte dos filmes de acção contemporâneos e com uma carga simbólica e emocional que arruma a um canto muito do cinema pseudo-intelectual que tanto entusiasma a crítica e as "elites". É um dos melhores filmes de ficção científica da década que passou - não por esta ter sido um pouco fraca no que ao género diz respeito, mas por mérito inteiramente próprio. E, acima de tudo, Children of Men é mais do que um grande filme de ficção científica - é um dos grandes filmes dos últimos anos. 8.9/10

7 de setembro de 2012

Stand on Zanzibar: a distopia da sobrepopulação

Em 1968, no auge da chamada “New Age Science Fiction”, o britânico John Brunner venceu o Prémio Hugo com Stand on Zanzibar, uma intensa distopia sobre a sobrepopulação do planeta em 2010 e o respectivo impacto social. Grosso modo, Brunner acertou em metade: de facto, em 2010 a população mundial rondava os sete milhões de pessoas (mais coisa, menos coisa), que decerto caberiam todas de pé, lado a lado, na ilha africana de Zanzibar. Já o impacto desse número (e ainda bem para nós, que cá vivemos) não correspondeu bem à descrição de Brunner. O que, contudo, não quer dizer que Stand on Zanzibar seja um livro datado. Longe disso.

O futuro retorcido de Stand on Zanzibar ganha força justamente pela sua verosimilhança - e, nesse sentido, a data de 2010 é um detalhe menor. Num mundo sobrepovoado, a eugenia tomou conta das sociedades ocidentais, levando-as a assumir o controlo populacional em função da depuração genética, suportada por uma omnipresente máquina burocrática. Este controlo, porém, está longe de se revelar eficaz na pacificação da sociedade, que exibe divisões sociais mais profundas do que nunca (com uma forte componente de discriminação positiva), enganadoramente apática sob o consumo de drogas legais e o derradeiro reality show televisivo (Mr. and Mrs. Everywhere, um conceito fabuloso) que esconde uma faceta miserável e uma instabilidade ao ponto da amotinação violenta de forma espontânea - terreno fértil, como é bom de ver, para o fanatismo religioso, o extremismo social e o terrorismo. Por contraste, África continua a viver numa pobreza extrema (salvo algumas, poucas, nações), tendo contudo conhecido uma reorganização política interessante após a queda do colonialismo. Já na Ásia emerge o grande inimigo das sociedades ocidentais, na forma de uma China colossal (pouco mencionada) e de outras nações fictícias na região que conhecemos como o Sudeste Asiático (Isola, que corresponde mais ou menos às Filipinas e é um estado norte-americano; e Yatakang, uma Indonésia ficcional).

Este mundo alternativo ganha especial densidade devido à invulgar estrutura narrativa de Stand on Zanzibar. Inspirada na célebre U.S.A. Trilogy de John Dos Passos, a narrativa de Stand on Zanzibar é dispersa, fragmentada e algo caótica. O enredo não é apresentado ou descrito de forma convencional, directa ou linear, apresentando uma estrutura binária - designada por Continuity - que acompanha os dois protagonistas, Norman House e Donald Hogan. Aos capítulos de continuidade juntam-se muitos outros, agrupados em três categorias narativas: Tracking With Close-ups, onde o foco incide sobre personagens laterais cujas acções e cujo contexto servem de enquadramento para a realidade, mostrando as causas e as consequências práticas dos vários problemas sociais explorados por Brunner; This Happening World, com verdadeiros infodumps de conteúdos noticiosos, contextualizados ou não, que dão uma ideia geral do que acontece pelo mundo e ajudam a enquadrar a narrativa principal e as narrativas secundárias; e Context, onde são feitas descrições e análises económicas, políticas e sociais, recorrendo com frequência a citações, referências ou entrevistas de Chad Mulligan, um sociólogo tão polémico como brilhante. Estes quatro tipos de capítulos não estão arrumados numa estrutura narrativa coerente, surgindo de forma mais ou menos aleatória ao longo da obra - e se dentro da secção Continuity os capítulos de Hogan e House estão mais ou menos alternados, isso nem sempre acontece. Um exemplo é o excepcional capítulo da festa de Guinevere Steel, no qual o ponto de vista convencional é estilhaçado por um grande número de pessoas presentes no evento, cujos pontos de vista distintos (e anónimos) se sucedem a um ritmo quase vertiginoso, como se nós, leitores, estivéssemos dentro daquela festa a caminhar por entre as pessoas e a apanhar inúmeros fragmentos de conversas distintas.

Certo: este “malabarismo” narrativo pode parecer confuso, e a perspectiva de ler mais de seiscentas páginas de narrativa fragmentada pode parecer intimidante quando se pega em Stand on Zanzibar pela primeira vez. A verdade é que a confusão desaparece à medida que entramos na leitura e nos embrenhamos no ritmo frenético, por vezes sombrio, de Brunner. A fragmentação permite centrar a narrativa onde ela realmente importa - nos acontecimentos que envolvem Norman House e Donald Hogan - enquanto os restantes capítulos enquadram esses acontecimentos e aquelas personagens, introduzem outras personagens e mostram como funcionam os mais variados aspectos daquela realidade. Donald Hogan, por exemplo, é introduzido bem antes do seu primeiro capítulo, com uma única e desconcertante frase na secção This Happening World (de longe, a melhor introdução de personagem que já li). Com as personagens laterais - os close-ups - o leitor acompanha vários aspectos da distopia de Brunner, como as consequências das leis eugenicistas, o impacto da guerra no Pacífico ou as culturas terroristas e de narcotráfico. Já as citações e referências de Chad Mulligan - que não sendo o protagonista é uma personagem central na narrativa - fornecem um olhar cínico sobre a realidade, enquanto muitos acontecimentos e desenvolvimentos são introduzidos através de um caos de informação perturbadoramente próximo daquele que conhecemos hoje em dia (recorde-se, contudo, que Brunner não anteviu algo como a Internet, apesar de o enredo introduzir o supercomputador Shalmaneser, e de se saber que os principais Governos recorriam a análises e previsões feitas em computadores desta natureza).

Stand on Zanzibar não é um livro com heróis e vilões ou com uma progressão narrativa orientada para um clímax e uma resolução - pelo menos, não no sentido convencional. É, sim, um espelho retorcido e perturbador sobre uma realidade que poderia talvez ter sido a nossa, e de cujo espectro não estamos de todo livres. É uma realidade alternativa tão sombria como fascinante. É um livro caótico, mas claríssimo no seu caos - e brilhante a todos os níveis. Não surpreende por isso que muitos autores de ficção científica, quando interrogados sobre os melhores livros do género, enumerem Stand on Zanzibar com tanta regularidade. Não vale tanto pela acção que apresenta (que, ainda assim, é excelente), mas sim pela realidade que explora e pelas questões que suscita. Destaco uma: assumindo a relevância tanto da componente hereditária (biológica) como da social na criação daquilo que é um ser humano, se criássemos seres humanos muito superiores a nós (mais fortes, mais ágeis, mais resistentes, mais inteligentes), como os poderíamos educar de forma a alcançarem o pleno das suas capacidades?

As restantes deixo à descoberta dos leitores.

6 de setembro de 2012

Distopias (1)

Há uma diferença assinalável entre a distopia enquanto tema literário tradicional ou mesmo subgénero da ficção científica, e a recente moda - se já podemos usar tal designação - das distopias Young Adult (YA) que Suzanne Collins parece ter inaugurado e celebrizado com a série The Hunger Games, e que parecem querer substituir a moda dos vampiros adolescentes que todos tivemos de aturar nos últimos anos*. Acontece que as distopias já cá andam há imenso tempo - e, não por acaso, algumas das obras de ficção científica que mais se destacaram junto dos círculos literários mainstream e elitistas foram distopias. Livros como Nineteen Eighty-Four, de George Orwell, A Clockwork Orange, de Anthony Burgess, Brave New World, de Aldous Huxley ou Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, para citar aqueles que serão porventura aos mais conhecidos e reconhecidos, saltaram há muito a fronteira do género e, hoje em dia, surgem com relativa frequência nas famosas - e, regra geral, previsíveis - listas dos “livros da vida” de toda a gente.

Podemos, claro, mencionar outras distopias: Stand on Zanzibar, de John Brunner; Children of Men, de P. D. James (que não é autora de ficção científica), V for Vendetta, de Alan Moore, The Space Merchants, de Frederik Pohl e Cyril M. Kornbluth, ou Do Androids Dream of Electric Sheep?, de Philip K. Dick (aliás, a obra de Dick encaixa com regularidade na distopia, e quase é uma categoria distópica própria). Mesmo o cyberpunk, em si um subgénero, entra com frequência nas convenções da distopia - exemplo disso é Neuromancer, de William Gibson (se quisermos passar para o cinema, vejamos Blade Runner ou The Matrix). Sem esquecer outras obras enquadradas numa ficção científica mais “clássica” (expressão muito pouco rigorosa neste contexto, bem sei, mas percebem a ideia) que utilizam contudo elementos tradicionalmente distópicos nas suas fundações - como, por exemplo, Gateway, de Frederik Pohl, ou a sucessão de pequenas distopias que Joe Haldeman e Ursula K. Le Guin apresentam, respectivamente, em The Forever War e The Lathe of Heaven. E a lista continua. 

Como é bom de ver, nenhum destes livros é indicado para um público YA - ou são demaisado elaborados do ponto de vista narrativo e/ou linguístico, ou apresentam um excesso de violência e de sexualidade explícita, ou, regra geral, abordam temas mais densos e complexos, que podem exigir uma maior “bagagem”. Não quero com isto dizer que as distopias YA não possam abordar temas relevantes - do que vi (adaptação cinematográfica) e li (artigos e críticas) a propósito de The Hunger Games, alguns desses temas estão lá -, mas julgo que a abordagem é bastante distinta, e de certa forma simplificada.**  

Isto para dizer, em jeito de comentário a este post, que as distopias já ocupam o seu lugar entre os leitores - e também entre as elites literárias e os académicos - há muitos anos (passe o óbvio). Constituem um subgénero tão forte que quase transcendem o próprio género (recordo-me de uma amiga que, quando lhe disse que Nineteen Eighty-Four, livro de que ela gosta muito, podia ser enquadrado na ficção científica, me respondeu “é diferente”). O que The Hunger Games me parece estar a divulgar - com bastante sucesso, diga-se de passagem - é uma variação da própria distopia, uma distopia light (não necessariamente em sentido depreciativo) que pode muito bem servir para motivar leituras mais complexas. Neste sentido, julgo que o fenómeno se possa revelar bastante positivo, mas talvez ainda seja muito cedo para perceber isso.

Nota: Fotografia retirada daqui. Apesar de o autor brincar com a inclusão de Ayn Rand na pilha de livros, a verdade é que pelo menos Atlas Shrugged pode, de certa forma, encaixar numa espécie de distopia particularmente ideológica - não sei se o mesmo se aplica a Anthem, obra que ainda não li. De qualquer forma, e apesar de simpatizar com a autora, pessoalmente não a incluiria aqui.

* Não será decerto indiferente ao fenómeno o facto de a adaptação cinematográfica de The Hunger Games ter resultado num filme bastante interessante.

** Passe a simplificação grosseira: neste tópico poderíamos falar de inúmeros aspectos característicos das distopias, como os heróis e anti-heróis específicos, as cargas ideológicas, as reflexões políticas, económicas e sociais, etc.