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9 de junho de 2014

Joe Haldeman (1943 - )

Um olhar de relance para a bibliografia de Joe Haldeman indica desde logo qual é o tema mais recorrente da sua escrita. A sua experiência de combate no Vietname marcou Haldeman de forma profunda, e levou-o a explorar o tema da guerra a partir de várias perspectivas na sua ficção - e sobretudo na ficção científica, género onde se distinguiu em 1974 com o seu segundo romance publicado, The Forever War. Uma meditação sobre os efeitos do combate nos soldados quando regressam a uma casa que já não lhes pertence e sobre a derradeira futilidade da guerra, The Forever War tornou-se num clássico praticamente instantâneo tanto da ficção científica hard como da militar com a sua exploração ambiciosa e inteligente dos efeitos relativísticos num conflito de escala quase galáctica - e valeu a Haldeman os prémios Hugo, Nébula e Locus. A trama de The Forever War é continuada em dois outros romances, Forever Peace (1997) e Forever Free (1999), numa novela, A Separate War (publicada em 1999 na antologia Far Horizons de Robert Silverberg) e num conto, Forever Bound (publicado em 2012 na antologia Warriors 1, de George R. R. Martin e Gardner Dozois).

A sua bibliografia inclui ainda romances como The Hemingway Hoax (1990), Camouflage (2004), The Accidental Time Machine (2007) e Work Done For Hire, o seu mais recente trabalho (2014). Publicou dois romances no universo alargado de Star Trek; a sua ficção curta encontra-se compilada em várias colectâneas. Fora da escrita, Haldeman é professor no Massachusetts Institute of Technology, e dedica-se ainda à pintura.

Joe Haldeman nasceu em 1943 em Oklahoma City e celebra hoje o seu 71º aniversário.

27 de março de 2014

Joe Haldeman: I looked at the two stories, and I thought, 'I can cross-fertilize these two and get an actual novel out of the situation'" (entrevista)

A propósito do seu mais recente romance, Work Done for Hire, Joe Haldeman foi entrevistado no podcast Geek's Guide to the Galaxy - e a entrevista foi transcrita e publicada online na Lightspeed Magazine. Haldeman, claro, dispensa apresentações - é o autor de The Forever War, um dos mais aclamados romances de ficção cientifica militar. A entrevista, longa e pormenorizada, incide não só sobre o novo romance, mas também sobre a publicação de uma antologia com os seus melhores contos, sobre a sua já longa carreira, e sobre as origens de The Forever War. Alguns excertos:
Geek's Guide to the Galaxy/ Lightspeed Magazine: You had another book that came out recently called The Best of Joe Haldeman, which was edited by Jonathan Strahan and Gary K. Wolfe. Could you talk a bit about how that project came about? 
Joe Haldeman: Basically it’s the best short stories that I’ve written. I’m actually a novelist. I don’t write that many short stories, so I looked at the list of all the short stories I’ve ever published, and I found that their [selections] comprised almost exactly half of the stories, so there is room for another book which is “the worst of Joe Haldeman.” The mirror image of all those wonderful stories. But I haven’t actually proposed it to anybody. 
(...) 
GGG/LM: But this Best of Joe Haldeman, it does include your story “Hero,” which was expanded into a novel, into The Forever War. (...) And I was just amazed by how much detail there is in this story, and how well worked-out everything is regarding the suits, and the environment on Charon and stuff. I was just wondering, did all that just come straight out of your head, or did you research and then go back and rewrite it or anything? 
JH: What I did was: I did research on the fly. Of course, that story was written before computers, and so I basically was going into the library every day and looking up stuff so that I could write about it tomorrow. That was my pattern in those days. I basically wrote my fiction during the morning hours, and in the afternoon I’d go out and do research, and so computers probably save me a certain amount of shoe leather, but I don’t get as much exercise as I did back in the day. 
GGG/LM: Another thing that really struck me about “Hero” is that it doesn’t feature what I think of as being the central conceit of The Forever War, which is the idea that the Earth is different every time the soldiers come back. Had you come up with that idea at that point or did that come later? 
JH: In fact, I came up with the idea before “Hero” came out. I wrote a short story for Amazing Science Fiction ["Timepiece"] which was exactly about that, about people who go out over the course of years, they go out to be soldiers, and they come back and years have passed on Earth when only months have passed in their own lives. That was the basic point and the plot logic of that short story. I looked at the two stories, and I thought, “I can cross-fertilize these two and get an actual novel out of the situation.” Although I don’t remember, there was never an “Ah-ha” moment saying, “Oh my god, I can make million dollars this way.” But it’s obvious if you look at the two stories that the end result is The Forever War.
A entrevista completa pode ser lida na Lightspeed Magazine, ou ouvida no Geek's Guide to the Galaxy.

21 de fevereiro de 2014

A Guerra Eterna: Nova edição de The Forever War, de Joe Haldeman, em português

Dez anos volvidos sobre a sua tradução e edição original pela Europa-América (com o péssimo título de Guerra Sempre), The Forever War, de Joe Haldeman, volta a ser editado em português, desta vez pela 1001 Mundos (Leya), com o título A Guerra Eterna e tradução de João Barreiros. O que, para todos os efeitos, é uma boa notícia: The Forever War é indiscutivelmente um clássico maior da ficção científica, militar e não só - a história dos soldados William Mandella e Marigay Potter durante uma guerra de dimensões galácticas que lhes preencheu alguns anos das suas vidas, mas que decorreu ao longo de séculos em tempo relativo, tornou-se num texto fundamental do género pela forma inteligente como se encontra ancorado tanto na ciência como na experiência militar de Haldeman no Vietname para explorar um tema sempre pertinente: a alienação dos soldados que combatem numa guerra quando regressam do combate. 

É uma pena que a capa (à esquerda) não faça justiça à obra - algo a que os leitores portugueses do género decerto já estarão habituados. Nem por isso, porém, deixará este lançamento - previsto para Março próximo - de ser um dos acontecimentos mais importantes do ano no que à edição de ficção científica em Portugal diz respeito. 

Fonte: 1001 Mundos

14 de fevereiro de 2014

Homens e avatares, homens e monstros, homens e alienígenas: ficção curta de Aliette de Bodard, Neil Gaiman e Joe Haldeman

Immersion, de Aliette de Bodard
Clarkesworld #69 (Junho de 2012)

Com várias nomeações recentes para os principais prémios literários de fantasia e ficção científica em categorias de ficção curta, a norte-americana de origem vietnamita e educação francesa Aliette de Bodard tem vindo a afirmar-se como uma das mais estimulantes novas vozes no género, com a sua ficção científica de pendor orientalista a soar algo dissonante - no melhor dos sentidos, note-se - para quem, como eu, estiver sobretudo familiarizado com a produção anglo-saxónica. Vencedor dos prémios Nébula e Locus na categoria "Best Short Story" (e nomeado para o Prémio Hugo), Immersion explora temas como a aculturação, globalização e o desejo de pertença intrínseco a cada um de nós - e fá-lo de forma excepcional, criando em poucas linhas um universo ficcional verosímil que sustenta todo o enredo e que enquadra na perfeição o dispositivo que está no centro da narrativa: o immerser, dispositivo que permite ao utilizador projectar para quem o rodeia não a sua imagem real mas uma imagem idealizada em termos estéticos e culturais. Com duas perspectivas distintas, Bodard coloca em confronto duas personagens que simbolizam dois modos radicalmente diversos de estar na vida: na terceira pessoa, o leitor acompanha Qoy, uma jovem rapariga com estudos que, na falta de melhores oportunidades, se vê a trabalhar no restaurate típico da sua família na estação espacial Longevity, independente dos "Galácticos"; e, numa segunda pessoa superlativa, vemos Agnes - ou melhor, vemos a pessoa que se identifica como Agnes perdida nas camadas densas de personalidade projectadas no seu avatar - a acompanhar o seu marido, "Galáctico" de nascimento, na marcação do banquete do seu aniversário de casamento no restaurante da família de Qoy, como que para dar a Agnes a possibilidade de recordar um mundo que já foi seu, e que o immerser lhe diz ser exótico. Através de ambas as personagens e da situação que se proporciona, Bodard tece uma meditação tão fascinante como pertinente sobre o que significa ser-se diferente, ser-se estranho, e sobre como a verdadeira dominação cultural é feita não pela força das armas mas pela força dos hábitos, dos preconceitos e de noções erradas de superioridade ou inferioridade cultural - enquanto explora de forma mais ou menos subtil o impacto que uma tecnologia pode ter na dissolução do indivíduo real em prol de uma imagem idealizada, mas inevitavelmente falsa. As nomeações e distinções fizeram-lhe justiça: Immersion é um conto notável, exemplar de uma nova ideia de ficção científica internacional que começa por fim a emergir, afastando-se dos cânones anglo-saxónicos predominantes ao longo de décadas; e também nessa dimensão a sua leitura se revela muito estimulante. 

The Monarch of the Glen, de Neil Gaiman
Legends II, ed. Robert Silverberg (2004)

Mais do que uma sequela curta àquele que terá sem dúvida sido um dos melhores livros de fantasia da última década, a novela The Monarch of the Glen funciona como um epílogo a American Gods - uma pequena história envolvendo Shadow durante a sua passagem pelas terras altas da Escócia, após todos os acontecimentos do romance principal. E o mais impressionante desta novela é o facto de Gaiman conseguir fazer um American Gods-lite, capturando quase na perfeição a estranheza e a dissonância da situação em que Shadow se encontra, quando lhe é oferecido um emprego apenas simples na aparência: servir de segurança numa festa misteriosa que terá lugar numa mansão remota junto do lago. O protagonista, uma vez mais, assume durante praticamente todo o texto um papel passivo, até ao momento em que a sua intervenção se torna inevitável (no caso, forçada) - mas Shadow já não é o homem que era no início do romance original, e o homem que os seus anfitriões imaginavam que ele fosse. Com a imaginação e a mestria habituais, Gaiman reúne uma galeria de criaturas fantásticas, onde monstros e homens se misturam e, mais do que isso, se confundem; e a sua prosa evocativa tece um enredo sobrenatural magnífico, uma passagem que serve em simultâneo de continuação directa e de reforço dos temas estabelecidos em American Gods
É certo: The Monarch of the Glen não terá decerto satisfeito os leitores que esperavam encontrar, numa história pós-American Gods, um Shadow mais activo e dotado de uma personalidade com mais momentum. Mas Shadow - aliás, Balder Moon, o seu verdadeiro nome e mais uma alusão ao panteão escandinavo - não é uma personagem que, por si, faça a história mover-se; ele é, sim, o ponto central da narrativa, para onde convergem todos os seus elementos constituintes. E é o seu olhar expectante e a sua curiosidade tranquila (nem todos os heróis literários têm de ser detectives - até aqui se nota a desconstrução de Gaiman) que torna as várias personagens mais verosímeis, independentemente das suas origens ficcionais ou mitológicas, e toda a situação mais bizarra. 

A Separate War, de Joe Haldeman
Far Horizons, ed. Robert Silverberg (1998)

Quem leu o excelente The Forever War decerto terá reparado numa ponta que Joe Haldeman deixa mais ou menos solta no final do livro - e, quando Robert Silverberg o desafiou a escrever uma novela naquele universo para a antologia Far Horizons, Haldeman decidiu contar o episódio e, de caminho, tentar resolver aquele que será talvez o ponto fraco do seu romance premiado. [A partir daqui, spoilers a The Forever War serão inevitáveis - fica o aviso]. A Separate War começa nos meses que antecederam a derradeira separação do protagonista William Mandella e Marygay Potter após saírem do hospital pelos ferimentos severos que sofreram no último combate, reforçando a lógica militar, burocrática e inflexível, que obriga naquele futuro distante dois dos últimos soldados do século XX ainda no activo a separarem-se - e explora o último confronto da Guerra Eterna pelo ponto de vista de Marygay.
Em termos práticos, A Separate War aprofunda um pouco o tema das consequências da dilatação temporal de um conflito daquela escala, mas acaba por centrar-se na evolução social que Haldeman traçou para a Humanidade na última parte do romance, com controlo populacional em vigor e a homossexualidade a tornar-se na norma das relações amorosas (e a heterossexualidade a ser vista como algo exótico e anacrónico). Ao ler The Forever War, a intenção de Haldeman torna-se evidente - não é tanto fazer qualquer comentário quanto ao tema da homossexualidade, tabu nos anos 70, mas sim demonstrar de forma radical a ideia de passagem de tempo e de mudanças sociais profundas na Terra. E nesse ponto, a ideia tem interesse; é uma pena que a passagem do tempo (e o politicamente correcto...) lhe tenha associado tanto ruído, e que A Separate War pareça tanto uma tentativa de o autor justificar algo, e não de contar uma história relevante (a "ponta solta" não ficou exactamente por resolver). Mas quando se afasta desse tema e se centra na logística da guerra, na relatividade de tempo e espaço do conflito, e no impacto que todos esses factores têm nos soldados - presentes, passados e futuros -, A Separate War acaba funcionar como um capítulo extra de The Forever War, extrapolando algumas das ideias apresentadas no romance para apresentar situações fascinantes pela sua complexidade; e, nesse sentido, revela-se uma história bastante interessante, e relevante no contexto global da trilogia composta por The Forever War, Forever Peace e Forever Free (acaba por servir, aliás, de ponto de partida para o segundo livro).

12 de setembro de 2013

Cinco livros de ficção científica para quem não lê ficção científica

Há dias, o diário britânico The Guardian publicou na sua edição online um daqueles artigos recorrentes em forma de lista - no caso, de cinco livros de ficção científica "para pessoas que odeiam ficção científica". A questão parece-me a mim mal colocada: quem de facto "odiar" a ficção científica dificilmente irá apreciar qualquer coisa relacionada com o género. Mas, como é sabido, entre o amor e o ódio há um território muito vasto, e muitos serão os livros indicados para quem ainda não conhece o género, ou para quem acha que a ficção científica literária se resume a um Star Wars ou a um Star Trek em página escrita (mesmo que já tenha lido clássicos como Nineteen Eighty-Four ou Brave New World). A lista do The Guardian foi compilada por Damien Walter, e pode ser lida aqui. Abaixo, seguem as minhas cinco sugestões:

A Canticle for Leibowitz, de Walter M. Miller, Jr. (1960): Antes de Mad Max ter levado a iconografia do pós-apocalipse para o deserto australiano - e antes mesmo de o pós-apocalipse se ter tornado numa das grandes tendências contemporâneas da ficção de género, capaz mesmo de atrair autores mainstream -, já Walter M. Miller, Jr. tinha definido essa iconografia num dos grandes clássicos da ficção científica: A Canticle for Leibowitz. Num tom tão cínico como irónico, Miller descreve de forma bem humorada, mas nem por isso pouco séria, como a Humanidade está condenada a repetir os seus erros vários séculos após a guerra nuclear que causou a queda da civilização. Os monges da Abadia de Leibowitz procuram reproduzir e preservar todo o conhecimento científico a que consigam deitar a mão, independentemente do seu entendimento sobre esse conhecimento (quase sempre nulo).

Flowers for Algernon, de Daniel Keyes (1966): Se há um livro incontornável em termos de recomendações de ficção científica para quem não é leitor habitual do género, será sem dúvida este clássico de Daniel Keyes. Flowers for Algernon conta a história de Charlie, um jovem com um atraso mental severo que deseja, mais do que tudo, ficar inteligente. Para isso submete-se a uma intervenção revolucionária, testada apenas no ratinho Algernon. Mas nem tudo corre conforme esperado - à medida que a sua inteligência aumenta, a visão que Charlie tinha do mundo passa rapidamente de ingénua para cínica. É uma história tocante, narrada através das páginas dos "relatórios de progresso" escritas por Charlie durante as várias etapas do tratamento - com as suas aptidões linguísticas a acompanharem a sua evolução. E, acima de tudo, Flowers for Algernon é uma história especialmente humana - sobre os nossos receios, as nossas expectativas e a forma como nos relacionamos com os outros. Imperdível. 

The Lathe of Heaven, de Ursula K. Le Guin (1971): A lista do The Guardian destaca The Left Hand of Darkness, obra-prima de uma das maiores prosadoras da ficção científica; pessoalmente, porém, julgo que o sub-apreciado The Lathe of Heaven será porventura mais adequado como introdução ao género. George Orr vive atormentado pelos seus sonhos - alguns dos quais possuem a extraordinária capacidade de mudar o mundo. Literalmente. Para evitar ser internado por loucura aparente, Orr submete-se a sessões psiquiátricas com William Haber, cujo cepticismo inicial passa a espanto quando confirma o poder de Orr. E o espanto, como é evidente, cedo dá lugar a uma tentativa, sempre bem intencionada, de construir a Utopia... Numa história quase ao estilo de Philip K. Dick, Le Guin usa a premissa dos sonhos de Orr como alicerce de um enredo aliciante, que serve de pretexto para algumas intrigantes reflexões sobre a natureza humana e sobre o preconceito.

The Forever War, de Joe Haldeman (1974): Há quem diga que The Forever War foi a resposta de Haldeman ao militarismo de Heinlein no clássico Starship Troopers. Mas mais do que isso, The Forever War é uma história poderosa sobre a natureza (e, em última análise, a irrelevância) da guerra e sobre as alterações profundas, quando não irreversíveis, que causa em todos aqueles que a vivem no terreno - e sobre o regresso destes homens e destas mulheres a um mundo que juraram proteger, mas ao qual já não pertencem. Haldeman combateu no Vietname, e retira da sua vivência as bases deste romance; e utiliza com mestria convenções da ficção científica e um rigor científico impressionante para passar a sua mensagem com uma vivacidade e uma emergência singulares. Em termos meramente temáticos, dos cinco livros referidos talvez seja aquele que mais se aproxima da ideia generalizada da ficção científica no mainstream (guerras contra alienígenas); mas a verdade é que The Forever War é também um exemplo perfeito de como a ficção científica pode servir, sem abdicar das suas convenções, para explorar temas contemporâneos de grande pertinência.

A Scanner Darkly, de Philip K. Dick (1977): E, claro, se falamos de The Lathe of Heaven também podemos passar logo para Philip K. Dick - o autor de ficção cientifica cuja obra mais vezes foi adaptada ao cinema, e também um dos escritores do género mais apreciados fora dele. Os seus romances intricados questionam com frequência a condição humana e o que é, ou não é, a realidade - e A Scanner Darkly não é excepção. Bob Arctor vive duas vidas: numa delas, divide casa com alguns consumidores de drogas, sobretudo da perigosa Substância D; na outra, é um agente infiltrado da Brigada de Narcóticos, uma identidade que mantém em segredo tanto dos seus companheiros de casa como das próprias autoridades. Mas quando o seu consumo prolongado da droga faz com que as duas identidades se misturem, as fronteiras entre realidade e ilusão começam a esbater-se. A Scanner Darkly é também uma história auto-biográfico - mas mais do que isso, é um dos expoentes máximos do legado de Philip K. Dick, e uma introdução perfeita tanto à sua obra como à ficção científica, por demonstrar que esta pode ser tão terra-a-terra como qualquer romance dito literário. 

Fonte: The Guardian

9 de junho de 2013

Joe Haldeman (1943 - )

Escritor, pintor, professor no MIT e ex-combatente do Vietname, Joe Haldeman mudou para sempre o subgénero de ficção científica militar ao transpor para The Forever War, publicado em 1974, a sua experiência de guerra. Neste romance, Haldeman utilizou um rigor científico incomum no género para retratar de forma excepcional a forma como a guerra muda os soldados, e a alienação que experimentam no regresso a uma casa que já não será a deles. O universo estabelecido em The Forever War foi expandido em duas sequelas directas, Forever Peace (1997) e Forever Free (1999), assim como em alguns contos: na antologia Far Horizons (1999), de Robert Silverberg, publicou A Separate War, que conclui um dos arcos narrativos do primeiro livro; e na antologia Warriors 1 (2010), de George R. R. Martin e Gardner Dozois, publicou Forever Bound.

Mas a sua bibliografia não se resume a The Forever War; Haldeman já foi publicado em inúmeras revistas e antologias, e assinou outras obras de ficção científica como The Hemingway Hoax (1990), Camouflage (2004) e The Accidental Time Machine (2007), entre muitos outros. Publicou ainda dois livros no universo alargado de Star Trek.

Joe Haldeman nasceu em 1943 em Oklahoma City e celebra hoje 70 anos.

30 de dezembro de 2012

2012 em leituras

Tal como nos videojogos, também nas leituras dediquei em 2012 muito pouco tempo às novidades editoriais do ano, optando por continuar a ler muitos dos clássicos da fantasia e da ficção científica que tenho em falta. É certo que a lista de leituras futuras continua a ser muito longa, mas algumas lacunas mais sérias já foram preenchidas - e, diga-se de passagem, com imenso prazer. Seria difícil (para não dizer inútil) falar num único artigo de todos os livros que li em 2012, isto partindo do princípio de que ainda seria capaz de enumerar a lista completa. Assim, e tendo a sensação de que me esqueço de algo, aqui ficam os meus destaques de leitura deste ano que está mesmo quase a terminar. 

The Stars My Destination (Alfred Bester, 1953)
Descrito frequentemente como O Conde de Montecristo da ficção científica, The Stars My Destination conta a fabulosa e sangrenta odisseia de vingança de Gully Foyle, um homem em nada excepcional que foi abandonado à sua sorte nos destroços de uma nave espacial à deriva no Sistema Solar. Isto num futuro em que a Humanidade se espalhou pelos vários planetas e satélites mais próximos, e em que toda a gente possui a capacidade de se teletransportar. As alterações sociais provocadas pelo teletransporte compõem o quadro de forma brilhante, mas é Gully Foyle, um autêntico Zé-Ninguém, quem carrega a narrativa às costas a passo de corrida, num ritmo tão vertiginoso como violento, cruzando-se com personagens fascinantes (como Dagenham ou Olivia Presteign) à medida que junta as várias peças do puzzle que é a sua vingança. Muito do que se seguiu na ficção científica literária tem neste livro as suas raízes, o que, julgo, diz alguma coisa sobre quão importante foi na sua época.

The Forever War (Joe Haldeman, 1973)
Numa das mais relevantes obras da ficção científica militar, Joe Haldeman transporta a Guerra do Vietname - na qual combateu - para um futuro no qual as grandes batalhas são travadas no espaço. Da recruta ao combate real, Haldeman usa o pretexto da guerra contra os "Taurans" para reflectir sobre o absurdo da guerra, sobre a forma como nunca conhecemos verdadeiramente o nosso inimigo, e sobre a forma como a guerra muda de forma inevitável e irreversível quem nela participa. Quando o familiar se torna estranho e quando as causas se tornam difusas, qual é o sentido do combate? Com uma narrativa muito bem articulada, Haldeman recorre a um realismo científico invulgar para colocar estas (e outras) questões, utilizando a relatividade do tempo no espaço para acentuar a estranheza dos combatentes à medida que os anos se sucedem a ritmos diferentes na guerra e no mundo que o soldado Mandella e os seus companheiros juraram proteger. A todos os níveis, The Forever War é uma obra fundamental na ficção científica. 

A Canticle for Leibowitz (Walter M. Miller, Jr., 1960)
É possível que A Canticle for Leibowitz seja a obra mãe da ficção pós-apocalíptica que tão bons livros e filmes nos deu ao longo das últimas décadas. Muitos anos após o cataclismo nuclear que arrasou a civilização no então longínquo século XX, os frades da Ordem de Leibowitz - que julgam um mártir - dedicam-se à preservação de todo o conhecimento científico que esteja ao seu alcance, ainda que nem sempre tenham um entendimento muito preciso daquilo que têm em mãos. Isto, claro, enquanto tentam obter a beatificação do seu santo padroeiro, e enquanto lutam pela sobrevivência num mundo devastado. Publicada originalmente na The Magazine of Fantasy and Science Fiction em três partes, A Canticle for Leibowitz é uma história muito bem conseguida e particularmente bem humorada sobre a natureza humana, e sobre o carácter cíclico - e quase sempre irónico - que a História acaba sempre por assumir.

Hyperion / The Fall of Hyperion (Dan Simmons, 1989/1990)
Ainda a leitura ia a meio e já Hyperion, de Dan Simmons, se tinha tornado num dos meus livros de ficção científica preferidos - pela escrita elegante, pelas referências literárias, e sobretudo pela densidade da narrativa. Um acaso que é tudo menos casual juntou sete desconhecidos numa peregrinação à lendária criatura conhecida como Shrike, no remoto planeta Hyperion - e, durante a longa viagem, decidem partilhar as suas histórias e o que os levou a alinhar naquela aventura suicida. Mais do que uma história, Hyperion é composto pelas formidáveis histórias individuais de cada um dos peregrinos, que contém as várias peças do vasto puzzle da guerra de proporções galácticas que se avizinha. Afinal, qual é a relevância de Hyperion no conflito entre os mundos da Web e os Ousters? E qual é o papel da AI Technocore? As respostas são dadas no surpreendente The Fall of Hyperion, fechando de forma formidável esta parte dos Hyperion Cantos

Stand on Zanzibar (John Brunner, 1968)
Para todos os efeitos, John Brunner falhou na previsão: apesar de a população terrestre em 2010 ser de (mais ou menos) sete mil milhões de indivíduos, as consequências da sobrepopulação estão longe daquelas que imaginou em Stand on Zanzibar. O que, para todos os efeitos, é irrelevante: a sobria distopia que descreveu de forma prodigiosa neste livro premiado continua a ser relevante e, acima de tudo, assustadoramente plausível. Num estilo narrativo que, sendo reminescente de John Dos Passos, nunca deixa de ser original e inovador, Stand on Zanzibar marcou os anos da "New Wave" com as histórias paralelas de Norman House e Donald Hogan num mundo caótico onde o espaço e a privacidade se tornaram luxos. As muitas histórias paralelas dão cor ao mundo imaginado por Brunner ao focar os vários aspectos desta distopia, e há qualquer coisa de vagamente premonitório (e genial) nos infodumps com que o autor apresenta personagens, introduz factos e coloca mais questões do que respostas. 

Lord of Light (Roger Zelazny, 1967)
Pode um livro excepcional ter origem num trocadilho? Pode, e Roger Zelazny demonstrou-o em 1967 com Lord of Light, misturando fantasia épica e ficção científica de forma elegante e irónica. O trocadilho fica à descoberta dos leitores, tal como a história de Mahasamatman, que deixou cair o -Maha e o  -atman para ser conhecido apenas por Sam. Sam abandonou o panteão dos deuses para viver entre os homens e, no seu caminho, decidiu devolver à Humanidade todo o conhecimento e todo o progresso que aqueles lhe negavam. Como é que uma história sobre a revolta contra o divino pode incluir ficção científica? Esse é justamente uma das maravilhas de Lord of Light e da sua recriação sui generis das divindades Hindus. Com uma interessante estrutura narrativa circular, Zelazny desenvolve uma fascinante história de queda e ascensão onde Yama, Brahma, Shiva, Ratri, Mara e Ganesha merecem destaque, mas na qual é Sam, o Buddha, quem de facto brilha. 


The Colour of Magic (Terry Pratchett, 1983)
No final do ano passado, defini como única resolução para 2012 começar a ler a série Discworld, de Terry Pratchett, após me ter maravilhado com o conto The Sea and Little Fishes que encontrei na antologia Legends, de Robert Silverberg. Logo em Janeiro li The Colour of Magic, primeiro volume nesta série que já conta com 39 livros publicados, vários contos e inúmeros livros paralelos, e apesar de esperar uma leitura divertida, acabei por me surpreender com a (aparentemente infinita) capacidade de Pratchett descrever as mais absurdas e hilariantes situações no mundo fantástico de Discworld (que, como se sabe, assenta sobre quatro elefantes enormes que estão de pé sobre a carapaça da Great A'tuin, a tartaruga cósmica). The Colour of Magic apresenta o inábil feiticeiro Rincewind, a formidável Luggage, a Morte e a grande cidade de Ankh-Morpork - e ainda que possa não ser o livro mais divertido da série, é nele que tudo tem início.


The Farthest Shore (Ursula K. Le Guin, 1972)
Earthsea, o universo de fantasia de Ursula K. Le Guin, ocupa um lugar de destaque na fantasia moderna. Com cinco romances e vários contos, Earthsea esconde vários temas adultos numa narrativa de tom mais próximo da literatura young adult e em personagens e localizações fascinantes. A Wizard of Earthsea é o primeiro desses livros, publicado em 1968, mas foi The Farthest Shore, o terceiro livro da série, que mais me tocou. Com a magia a desaparecer do mundo, o feiticeiro Ged junta-se ao jovem príncipe Arren numa viagem pelas ilhas mais remotas do vasto arquipélago de Earthsea. Nessa expedição encontram tribos muito diferentes, dragões e um terrível inimigo que os obrigará a ir para lá dos limites do mundo desconhecido e a enfrentar os seus maiores receios. Tal como nos outros livros da série, em The Farthest Shore Le Guin desenvolve uma história muito contida com um ritmo excepcional, explorando novas facetas do universo de Earthsea numa aventura que se revela mais madura do que aquelas que a antecedem.

The Last Wish (Andrzej Sapkowski, 1993)
The Witcher e The Witcher 2: Assassins of Kings são dois dos mais aclamados videojogos dos últimos cinco anos, e têm a sua origem na obra do escritor polaco Andrzej Sapkowski. Nos vários contos que compõem a antologia The Last Wish, Sapkowksi apresenta Geralt of Rivia, o cínico caçador de monstros que assume o papel principal tanto nos livros e contos como nos populares videojogos. À primeira vista, o universo descrito nos vários contos que compõem The Last Wish parece semelhante a outros universos de fantasia medieval de inspiração tolkieniana, com elfos e anões a conviverem com os seres humanos, e com muita sword & sorcery. A diferença reside no tom, e é aqui que Sapkowski revela toda a sua mestria, criando fábulas que, num tom tão cínico como sarcástico, desconstroem as convenções e os clichés da fantasia épica e dos contos de fadas para criar histórias onde o Bem e o Mal raramente são aquilo que parecem ser

12 de dezembro de 2012

The Forever War em destaque na edição online da revista The Atlantic

Ta-Nehisi Coates, editor sénior da revista The Atlantic, destaca na sua coluna online The Forever War, o clássico de ficção científica militar de Joe Haldeman, como um dos seus livros preferidos. É sempre interessante ver as melhores obras da ficção científica referidas e recomendadas na imprensa generalista. Para além da sugestão, a crónica de Coates suscitou ainda uma interessante discussão na caixa de comentários.


Fonte: io9 / The Atlantic

19 de novembro de 2012

Seasons, de Joe Haldeman, terá adaptação cinematográfica

Seasons, uma noveleta de ficção científica de Joe Haldeman (publicada originalmente na antologia Alien Stars, editada por Elizabeth Mitchell em 1985, e na antologia de ficção curta Dealing In Futures, de Haldeman, publicada no mesmo ano), vai ser adaptada ao cinema. Os direitos de adaptação foram adquiridos pela Sony, e Tim Miller, realizador do recentemente anunciado filme de Deadpool, irá realizar este filme, com argumento escrito por Sebastian Gutierrez (que, para quem não sabe, foi o autor do argumento de uma pérola cinematográfica intitulada... Snakes on a Plane).

Já no que diz respeito à adaptação de The Forever War por Ridley Scott (mencionada pelo Nuno Reis neste artigo do SciFiWorld), duvido que algum dia venha a acontecer. O realizador anunciou recentemente querer realizar e produzir vários filmes de horror e ficção científica de médio e baixo orçamento ao longo dos próximos três anos, e parece querer mesmo avançar com a sequela a Prometheus - e, pior, com a sequela a Blade Runner. É certo que os seus estúdios têm os direitos de adaptação de The Forever War (que foi um dos melhores livros de ficção científica que já li), mas o que não falta é direitos de adaptação esquecidos no development hell (ainda alguém fala na possibilidade de Rendezvous With Rama, de Arthur C. Clarke, chegar ao grande ecrã?). E, de resto, depois do que Scott mostrou no seu regresso à ficção científica com Prometheus, talvez o melhor seja deixar a história do soldado Mandella em paz. 


29 de agosto de 2012

Ficção científica: mitos sobre as viagens espaciais

No io9, um excelente artigo de Charlie Jane Anders sobre os mitos frequentes na ficção científica (literária e cinematográfica) que, mais do que prejudicar as obras, acabam por ser bastante úteis. Naturalmente, a lista inclui viagens a velocidades superiores às da luz, gravidade artificial, dilatação temporal, comunicações, inércia, distâncias (as clássicas batalhas épicas por entre asteróides), comunicações com alienígenas, energia, armas e a radiação. 

Ao ler a lista, ocorreu-me o caso de The Forever War, de Joe Haldeman: ao contrário de muitos outros autores que utilizam estes "mitos" como plot devices (sem que daí venha algum mal ao mundo), Haldeman subverte-os, ou ignora-os, usando como plot device um grau de realismo mais elevado. O que resulta em alguns momentos memoráveis, como os longos tempos de espera durante as escaramuças espaciais que contrastam de forma quase agressiva com o mais convencional frenesim das batalhas espaciais. Com isto, entenda-se, não pretendo colocar a obra de Haldeman num patamar superior a quaisquer outras; apenas quero sublinhar o contraste e a forma como a fuga a algumas convenções resultou numa narrativa particularmente interessante. 


9 de junho de 2012

Joe Haldeman (1943 - )

É impossível falarmos do tema da guerra na ficção científica sem referirmos Joe Haldeman - que, em 1974, transpôs a sua experiência na guerra do Vietname (na qual foi ferido) para o épico espacial The Forever War, uma obra a todos os níveis notável, vencedora dos prémios Hugo e Locus em 1976 e hoje um clássico da ficção científica. Haldeman expandiu mais tarde o universo estabelecido em The Forever War com as sequelas Forever Peace (1997) e Forever Free (1999), assim como alguns contos, como A Separate War, publicado em 1999 na antologia Far Horizons de Robert Silverberg, e Forever Bound, publicado em 2010 na antologia Warriors 1, de George R. R. Martin e Gardner Dozois. 

Haldeman, contudo, tem uma carreira literária bem mais vasta que o mundo fascinante de The Forever War, tendo publicado ao longo dos anos vários livros e contos de ficção científica, que lhe valeram vários prémios, assim como dois livros do universo de Star Trek. Também editou algumas antologias de contos, sobretudo de índole militar. 

Está prevista uma adaptação cinematográfica de The Forever War realizada por Ridley Scott.

Para além da escrita de ficção científica, Joe Haldeman dedica-se também à pintura, e dá aulas no MIT. Nasceu em 1943 em Oklahoma City e celebra hoje 69 anos. 

18 de maio de 2012

The Forever War

The Forever War, the Joe Haldeman (1974) é um exemplo perfeito da ficção científica que coloca num enquadramento futuro temas do presente para sobre eles reflectir com maior desprendimento - e, frequentemente, com maior acutilância. Neste caso, o tema é a guerra (e a sua derradeira falta de sentido), a partir do ponto de vista de William Mandella, estudante brilhante recrutado para o exército com o objectivo de combater na guerra com os Taurans, uma misteriosa raça de extra-terrestres que atacou naves de colonização humana. Joe Haldeman foi, ele mesmo, um veterano do Vietname, pelo que as descrições do campo de recruta e de combate dificilmente poderiam ser mais realistas. Mandella junta-se a outros recrutas - todos com QI elevado e currículos académicos exemplares - para um período de recruta brutal em Charon, e depois embarca para o espaço profundo através das collapsar utilizadas para viajar a velocidades superiores às da luz, e assim chegar às zonas de batalha mais distantes.

É neste ponto que entra o tema central de The Forever War: considerando a teoria da relatividade como válida, a passagem do tempo para os soldados a bordo das naves de batalha é diferente daquela verificada no mundo que deixaram para trás - e que juraram defender. Para Mandella e os restantes soldados na frente de combate, passam-se alguns meses, poucos anos; mas na Terra, várias décadas passaram - e é com choque e surpresa que os militares sobreviventes regressam ao seu planeta-natal após uma longa campanha para encontrar um mundo radicalmente diferente daquele que deixaram. Haldeman jogou de forma brilhante com este conceito para ilustrar o deslocamento sentido pelas tropas quando regressam da guerra e se tentam reintegrar num mundo que já não conhecem, do qual já não fazem parte - e que já não tem lugar para eles, tendo avançado ao seu próprio ritmo e com as suas próprias condicionantes, privada das suas mentes mais brilhantes, consumidas pelo esforço de uma guerra espacial à escala galáctica. O mundo que Mandella encontra no seu regresso é uma autêntica distopia política, económica e social, uma de muitas que se sucederam durante os poucos anos que esteve ausente - que foram muitos, na sua ausência. Ao ponto de compreender que a guerra, que viveu de forma tão dura por tão pouco tempo, é o único mundo que lhe resta. 

The Forever War distingue-se de uma parte relevante da ficção científica ao ter em consideração a passagem do tempo em relatividade, com todas as suas consequências - das alterações sociais ao constante jogo do "gato e do rato" entre a Humanidade e os Taurans pela supremacia bélica quando as batalhas estão a distâncias - espaciais e temporais - incompreensíveis para um homem comum. Sem esquecer as próprias relações humanas, tornadas impossíveis a partir do momento em que a separação espacial implica uma separação temporal que se torna inevitavelmente permanente. Haldeman não foi, é certo, o único escritor a recorrer a este tema (podia nomear alguns bons exemplos), mas poucos terão alcançado o mesmo impacto e realismo. Mas aqui, mais do que ser um plot device, esta questão da relatividade é o centro da história, sustentando as várias ramificações do enredo e as diferentes questões que o autor levanta, e sobre as quais convida o leitor a reflectir. 

Joe Haldeman tem em The Forever War mais do que uma space opera, e mais do que um clássico incontornável da ficção científica - tem uma obra notável sobre a guerra e sobre os efeitos indeléveis que esta deixa naqueles que lhe sobrevivem, e uma reflexão sobre a sua própria experiência colocada num futuro plausível e extraordinariamente rico. Este futuro é descrito de forma extraordinária, num estilo sólido e com um ritmo narrativo perfeito. Na edição que possuo, da colecção SF Masterworks, o escritor Peter F. Hamilton descreve The Forever War como "a book that's damn near perfect". E é mesmo. Está, sem dúvida, entre a melhor ficção científica que já li. 

3 de maio de 2012

Notas sobre ficção científica (2)

Take any science fiction writer by the elbow and ask them this question: how is it possible to write about our world by writing about alien worlds? Because if a story says nothing to us about our lives, why should we be interested in it? And if you want to simply tell stories about our lives why not simply do so? What are the advantages in dealing with the world through the estranging medium of the genre?

(...)

The point is that science fiction is at its heart a metaphorical literature, one that aims to represent the world without reproducing it. Metaphor is a feature of all art, of course; but the metaphor at the heart of Haldeman's SF war-story [The Forever War] are more eloquent and enduring than the thinner sort we find in more so-called "realist" fictions. To pick a couple of the better, and better-known, films about Vietman: the central metaphor of Michael Cimino's Oscar-winning The Deer Hunter (1978) says, in effect, that war is like a game or Russian Roulette; Francis Ford Coppola's Apocalypse Now (1979), on the other hand, and in more characteristically 1960s idiom, says that war is in effect a bad trip, a druggy allucination of Hell. In both cases we can see some point to the notion, although the first of these limits itself to reading war in terms of life-or-death hazard, and the latter rather impertinently shrinks the experience to a kind of countercultural indulgence. Haldeman knows better than this. 

The central conceit that so brilliantly illuminates The Forever War is grounded in actual science, namely the time dilation that attends interstellar transport. This not only stretches the timescale of the conflict to the point where the novel's title is only partly hyperbolic; it means that individuals transported from battle to battle age much more slowly than the stay-at-home population.

(...)

Nevertheless, it is through Einsteinian time dilation that Haldeman achieves his most enduring effects, here. One of the things this novel can do, with a greater focus and intensity than a realist novel could manage, is express the way military service alienates the soldier from "ordinary" civilian society. However brilliant the battle scenes, this is really a novel about coming back to a regular life after the thrills and traumas of the conflict - and finding that you have become the alien. Haldeman knows that, if you want to tell a story about war, you need to find a way of articulating a profundity of alienation, a depht of strangeness and dislocation. SF as the medium enables you to do that better than any other. 


Adam Roberts, na introdução de The Forever War, de Joe Haldeman (1974), na edição SF Masterworks da Gollancz.